(continuação)
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Vejamos agora em síntese as conclusões finais deste trabalho dos peritos altamente qualificados do FMI. Dizem-nos eles:
A política monetária tem de ter em conta o impacto desinflacionista dos salários e da moderação dos preços para se ter uma resposta sustentável, de base alargada, e positiva quanto ao emprego e à produção dos países da zona euro. Uma política de rendimentos que realiza uma política de moderação sobre os salários e sobre os preços nas economias atingidas pela crise pode aumentar a produção mas pode também produzir efeitos de repercussão negativos sobre a produção nas economias dos seus parceiros da zona euro. No curto prazo, vários factores determinam os efeitos da moderação dos salários e dos preços sobre o emprego e a produção. A moderação salarial muito provavelmente acresce a competitividade externa e as exportações líquidas. No entanto, o mais baixo crescimento dos salários é provável que venha a aumentar as pressões existentes para a desinflação, implicando taxas de juros reais mais altas, níveis mais elevados de dívida pública em termos reais e menor procura interna. As simulações sugerem que os efeitos líquidos da moderação salarial nas economias atingidas pela crise são positivas para as suas economias, mas estes efeitos diminuem quando todas as economias atingidas pela crise passam em conjunto a moderar os seus salários ao mesmo tempo. Sob tais circunstâncias, verifica-se uma mais baixa procura nas economias da zona euro atingidas pela crise, juntamente com uma menor competitividade nas economias dos parceiros da zona o que pode significar que o PIB caia abaixo da linha de base. O resultado é um pequeno efeito negativo para a zona euro como um todo, principalmente porque a política monetária não pode fornecer nenhum alívio em resposta à baixa inflação, dado que as taxas de juro estão praticamente a zero.
O pessoal do FMI tem defendido firmemente uma política monetária acomodatícia em resposta à queda dos salários e às pressões deflacionárias sobre os preços, incluindo QE, bem como defende reformas estruturais e a flexibilização fiscal em países com margem de manobra política. As simulações aqui centradas sobre a moderação salarial e a QE mostram que, estas duas políticas no seu conjunto, s teriam efeitos positivos não só para as economias atingidas pela crise, mas também para os seus países parceiros da zona euro. O resultado é um efeito positivo sobre o produto na zona euro como um todo. É importante ressaltar que as reformas estruturais que aumentam a produtividade total dos factores dão um apoio mais forte sobre o consumo e o investimento a curto prazo do que as reformas que aumentam a oferta de trabalho. Vemos os resultados como consistentes com a política monetária não convencional em curso (e outras medidas para ajudar a inverter a fragmentação financeira) e com os apelos a mais reformas estruturais, nomeadamente as medidas que aumentem a produtividade.
Facilitação quantitativa: Não é a varinha de condão que o IMF finge ser.
A facilitação quantitativa é basicamente uma política monetária em que o banco central injecta dinheiro que está a colocar na economia massivamente, passando a comprar activos financeiros tais como títulos da dívida pública e títulos de dívida privada assim como, em alguns casos, a comprar mesmo acções de empresas. A esperança chave é que este volume de dinheiro extra (e frequentemente enorme) volume de dinheiro venha a ser, de uma maneira ou de outra, a usado por agregados familiares e por empresas para consumir ou investirem mais.
Contudo, se imprimir o dinheiro leva a reacender a procura agregada depende do que aqueles que detêm os activos financeiros venham realmente a fazer com o dinheiro injectado na economia, dinheiro esse que eles recebem em troca dos títulos que entregam, que vendem. Os bancos, por exemplo, podem considerar que é ainda mais difícil emprestar este mesmo dinheiro extra à economia se os agregados familiares e as empresas estão já altamente endividados e assim relutantes em aumentarem o seu nível de endividamento. E, quando os agregados familiares ricos (quem possui o grosso do volume de activos financeiros) ganharão significativamente mais valor vendendo seu portfólio de activos a mais elevado preço do que o que pagaram originalmente por eles, as possibilidades são muito reduzidas de que esta liquidez venha a estar a ser gasta realmente na compra de produtos e de serviços até porque a propensão relativa dos 1% dos agregados familiares mais ricos de 10% a consumir é muito mais baixa do que a média.
O FMI não está certamente inconsciente das dificuldades envolvidas em transmitir o dinheiro adicional que é injectado em procura adicional pela utilização do mercados de activos. Contudo, coloca este seu conhecimento desta enorme dificuldade numa simples nota de rodapé (número 28):
É igualmente válido reconhecer que as provas relativamente ao efeito das políticas monetárias não convencionais sobre a evolução do PIB na saída não são claras, não estão definidas. Chung e outro (2012) concluem que as compras de activos de Federal Reserve (…) não impedem que a limitação do limite inferior ZERO das taxas de juro tenha efeitos adversos de primeira ordem na actividade produtiva e na inflação.
Há contudo uma maneira de nos assegurarmos de que o dinheiro que é impresso pelo banco central acaba eficazmente por dinamizar a procura agregada, aumentando-a. Se a massa monetária adicional assim criada pelo BCE é utilizada para financiar directamente os défices públicos e um aumento das despesas públicas adicionais, de preferência investimento público, então o impacto na procura agregada está inteiramente assegurado.
Infelizmente, esta via está completamente fechada na zona euro. O problema principal é que o BCE está proibido explicitamente pelo Tratado europeu de directamente financiar os défices públicos. Esta obrigação legal podia talvez ser contornada pelo BCE comprando imediatamente no mercado secundário títulos da dívida publica recentemente emitida através de um “intermediário financeiro” ( a go between) . Nesse caso, contudo, todas as regras orçamentais que Europa instalou, do Pacto de Estabilidade ao Fiscal Compact entram em acção e farão disto uma não solução, farão com que estas medidas falhem. A estrutura orçamental europeia está seguramente sempre a incidir sobre os cortes nos défices e nunca sobre a necessidade dos Estados-membros se empenharem na dinamização da procura agregada através do aumentos dos défices públicos.
A simulação que o FMI faz mantém-se silenciosa quanto a isto: um relançamento comum dos salários impulsionaria o crescimento e restauraria a estabilidade dos preços.
(continua)
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Para ler a Parte II deste trabalho de Júlio Marques Mota sobre textos de Ronald Janssen e do FMI, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
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