François Hollande, génio político patafísico – por Luc Rosenzweig

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

François Hollande, génio político patafísico
Ele reinventa sem cessar a gramática da política

Luc Rosenzweig, Revista Causeur

 

Ignorava–se: François Hollande é membro do Oulipo. E com esta última remodelação, prova-nos que é um verdadeiro artista da política.

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François Hollande à saída da recepção do presidente da Zâmbia   (Photo : SIPA.AP21855219_000008)

Os nossos eminentes confrades do Parisien ironizaram, no dia seguinte ao da remodelação ministerial do 10 de Janeiro, tratando o nosso presidente da República “de Senhor Bricolage” como o grande título daquele dia. Note-se primeiro que eles assumem o risco de serem levados a tribunal por uma marca nacional que vende pregos, parafusos e uma caterva de instrumentos indispensáveis à actividade de lazer preferida dos Franceses. Os dirigentes desta estimável empresa não devem com efeito apreciar estarem a ser arrastados contra a sua vontade na espiral de impopularidade de que sofre actualmente François Hollande. Poderiam de resto apresentar-se em tribunal em companhia das marcas Flanby e Culbuto sob a forma “de um acção colectiva”, uma acção em justiça colectiva recentemente introduzida no direito francês, à semelhança do que se faz desde há muito tempo nos Estados Unidos…

Permitir-nos-ão contudo não nos associarmos a esta metáfora de bricolage para assumir um julgamento relativo à composição da nova equipa ministerial. Não é no domínio considerado sem razão como trivial do artesanato amador que se deve procurar a lógica desta remodelação, mas na arte sofisticada da literatura como é praticada do interior do Oulipo ((Ouvroir de littérature potentiel), subsecção do Colégio “de Patafísica” , fundada em 1960 pelo matemático François Le Lionnais e pelo escritor Raymond Queneau. Estávamos na época em que os papas e papisas do “novo romance”, de Robbe-Grillet, Claude Simon, Nathalie Sarraute, faziam reinar o seu terror fastidioso sobre a república das letras, e em que um bando de vivaços felizes cheios de talento entraram na resistência para darem à literatura o seu lado eminentemente lúdico.

Foi no Oulipo que se elaborou a técnica de literatura sob constrangimento, onde os escritores impunham regras arbitrárias para enquadrar as suas produções de textos. O mais famoso destes escritores oulipianos é indiscutivelmente Georges Perec (sem acento agudo, porque não é bretão) autor do maior lipograma do mundo com La Disparition, um romance de mais de 300 páginas, onde nunca figura a letra “e”.

O desaparecimento … Martine Aubry

Não é certamente do lipograma que resulta a lista do novo governo Valls, a menos que se considere que a regra essencial fixado por Hollande na sua produção política seja a de velar pela ausência de Martine Aubry na tradicional fotografia de grupo sobre a escadaria do Eliseu, o que não é evidentemente o caso.

Não, a arte de governar do chefe do Estado resulta “de uma escrita política” colocada sob o constrangimento do biquadrado latino ortogonal de ordem 10, aquele mesmo que presidiu à elaboração da obra-prima de Georges Perec, La vie, mode d’emploi. Deixemos Perec ele mesmo explicar-se de que se trata : “ O mais simples para fazer compreender o que é um biquadrado latino ortogonal de ordem 10 e quais podem ser as aplicações romanescas do biquadrado latino ortogonal de ordem 3. Suponhamos por conseguinte uma história em três capítulos na qual se agitam três personagens respectivamente chamadas Dupont, Durand e Schustenberger. Dotemos estes três indivíduos de duas séries de atributos: por um lado coberturas para a cabeça, seja um quépi, um chapéu melão e uma boina; por outro lado coisas que se podem ter na mão: um cão, uma mala e um ramo de rosas. O problema é então contar uma história na qual os três personagens terão alternadamente estes seis elementos mas nunca os mesmos dois”

Como bom oulipiano, François Hollande impôs-se alguns dos constrangimentos para enquadrar o seu exercício do poder, concebido como um ramo eminente da criação artística. Aos constrangimentos habituais da gramática política (equilíbrio das tendências, distribuição regional dos detentores de pastas, agradecimentos ao fiéis), Hollande acrescentou um outro constrangimento: paridade sexual, o que proíbe os governos com número de membros ímpar, introdução das diversas diversidades: árabes, pretos e agora asiáticos, homossexuais, etc.

A composição de um governo resulta por conseguinte de um exercício oulipiano que beneficiou talvez, por exemplo, a excelente Hélène Geoffroy, deputada presidente da Câmara Municipal de Vaulx-en-Velin, originária das Antilhas e eleita pela metrópole de Lyon, duas casas que era sem dúvida necessário preencher depois da saída de Christiane Taubira e da sub-representação dos altos quadros altamente especializados no governo… Na mesma ordem de ideias, pode-se perguntar se o despedimento de Fleur Pellerin finalmente não terá trazido a felicidade a Jean-Vincent Placé, em detrimento da de François de Rugy, a quem fazem falta os olhos em bico. Poder-se-á para nos divertirmos continuar a decifração oulipiana da nova equipa ministerial.

A marca patafísica, casa mãe do Oulipo, lê-se igualmente no título dos departamentos ministeriais criados para a ocasião: encontram-se secretariados de Estado para a igualdade real (?), para a ajuda às vítimas, para a biodiversidade, que poderiam facilmente serem acrescentados à lista dos púlpitos do Colégio de Patafísica :

– Mitografia das ciências exactas e das ciências absurdas

– Náutica epigénica e hipogénica

– Velocipedologia

– Cinematografia e onirocrítica

– Crocodilologia

– Trabalhos práticos de belga

A Ordem da Grande Gidouille deveria, em boa lógica, figurar a partir de agora no número de condecorações de que o presidente da República é titular qualificado (es qualités).

Luc Rosenzweig, Revista Causeur, François Hollande, génie politique pataphysique-Il réinvente sans cesse la grammaire politicienne. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/francois-hollande-genie-politique-pataphysique-36753.html

Oulipo – ouvroir de littérature potentielle

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