IMAGEM E POESIA – Por José Magalhães (55)

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UMA VIDA, E UM AMOR PERFEITO

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Hoje, 5 de Março de 2016, fariam 66 anos de casados.

Ontem fez 3 anos que ela partiu, ao fim do dia. Fê-lo conforme sempre desejou, exactamente a tempo de, com ele, celebrarem a data de aniversário que durante toda a vida celebraram, felizes.

A recuperação desta carta, publicada pela primeira vez em 28 de Fevereiro de 2014, tem como objectivo celebrar o Amor, e dar testemunho da saudade que ficou. Um Amor que eu tão bem presenciei. Uma saudade que eu, tão intensamente, sinto.

 

1924 – 1950 – 2013 – 2014

 

Meu Querido,

Por certo te encontras já à vontade, entre os anjos e os arcanjos, sempre com esse teu sorriso estampado no rosto, cheio de amigos, bons conversadores como sempre foste, ainda para mais agora que a tua companheira de sempre se te juntou há já um ano. Foi, de certeza, um ano muito feliz para ambos, dançando sem parar e viajando por todo o lado, até porque ela escolheu juntar-se-te, no dia do vosso aniversário.

Andasses ainda por cá, e farias hoje noventa anos, mas não, partiste há já algum tempo, mas parece ter sido ontem.

Certamente, não terás saudades do tempo que cá passaste, cheio de privações, cheio de trabalho, rodeado de mentiras e traições, anónimo para o mundo, que nunca viu nem soube ver ou apreciar as qualidades humanas que tinhas, e que faziam com que para ti, todos sem qualquer excepção, fossem bons. Mas não o viam por culpa tua. É que nunca bateste com as portas, nem mandaste seja quem for à m…..

Para além disso, os palavrões nunca fizeram parte do teu léxico. Atrevo-me a pensar que nem em pensamentos eles apareciam.

As saudades ficaram deste lado, e em tua honra, como faço anualmente, fui comer lampreia, o teu prato de eleição e que sempre comias no teu dia de anos, ora feito pela mulher da tua vida, ora no teu restaurante preferido para este prato, o Gaveto, lembras-te? Hoje estivemos lá os três e fartei-me de falar convosco. Lamentavelmente, não passou de um emocionado monólogo.

Fazem-me falta as tuas brilhantes conversas, os teus conselhos sábios, a tua calma e discernimento, a tua visão esclarecida do mundo, a tua exigência construtiva, a tua presença e o teu amor. Foste tudo o que um filho poderia esperar de um óptimo e maravilhoso pai. Dói-me pensar que provavelmente não te terei dado tudo o que merecias e a que terias direito.

A morte chegou antes de tu partires. Durante muito tempo passeou por ti, roendo-te a pouco e pouco, de modo a libertar-te de um sofrimento posterior, limpando-te de algum mal que pouco provavelmente tivesses feito. Foi tua companheira meses a fio, a ponto de se confundir contigo, e, quando isso aconteceu, quando te amou de verdade, levou-te suavemente em seus braços, apesar da tua luta. Por momentos pairaste no ar, olhaste cada um de nós bem no fundo dos olhos, e partiste, sabendo que estarias para sempre vivo em nós.

Um consolo. Tendo partido tão discreto e ignorado como viveste, vieram os teus amigos, muitos, um mar deles, despedirem-se de ti, e alguns outros, porque família, cumprir a obrigação. Depois, ficou para sempre a lembrança saudosa, para quem te conheceu e te amou de verdade. Tantos anos passados, embora pareça ter sido ontem, continuas presente nas conversas de muitas e muitas pessoas que te não esquecem, que repetem as tuas frases e citações, contam as tuas histórias, seguem ainda hoje os teus conselhos.

Hoje, fazes indelevelmente parte da nossa história.

TU

 

Vida fora tu correste

Passo lento, certo e seguro

Nunca foste uma alma errante

Eras fácil de encontrar

Agora que já morreste

De ti digo e asseguro

Nem todo o bom mareante

Se encontra no alto mar.

Agora és rio

És calma

Nada te fere ou ofende

Já não tens frio

É branca e pura

A brisa que afaga a tua alma

E te acaricia com doçura

Transparente.

Já nada nos separa

Aguarda por mim tranquilamente

És eterno, eu só estou de passagem

Vou ter contigo, repara

E nesse dia por fim

Espera por mim

E enquanto o relógio não pára

Guarda-me um lugar para a viagem.

E O TEU AMOR

.

Com um olhar que escondia

A sua luz,

Olhava através e

Para além dela,

Da janela da miragem

Transportando a sua cruz.

Olhar perdido

Longínquo

Comprido,

Abrangente

Sem qualquer paragem.

Olhava sem querer

Olhava simplesmente

E sem ver

Olhava,

Olhava a paisagem.

Um dia, o seu ser

Começa a afastar-se

Do seu corpo finito

Encetando a viagem

Vogando leve e

Livremente

Pelo espaço infinito,

Largando a sua cruz.

Estava sem estar

E sem ver, via

Toda a engrenagem.

Libertara-se lentamente

Dos valores terrenos

Em busca da luz

E dos saberes plenos.

Marcara o dia

Para a sua passagem

E partiu calmamente

Sendo o que sempre foi,

A energia

Que nos protege

E dá coragem

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