A ESQUERDA CONFUNDE GLOBALIZAÇÃO COM NEO-LIBERALISMO E PERDE-SE – por BILL MITCHELL

Bill_Mitchell_wiki_photo

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

bottlebrushheader980

 

A esquerda confunde globalização com neo-liberalismo e perde-se

Bill Mitchell, The Left confuses globalisation with neo-liberalism and gets lost

Billy Blog, 27 de Abril de 2016

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/ , 27Abril2016

 

O artigo do jornalista do Financial Times Wolfgang Münchau (24 de Abril de 2016) – A vingança dos perdedores da globalização – estuda um tema comum, e um daqueles com que os da Esquerda ficam inebriados (não incluo o jornalista entre eles). O problema é que a doutrina de base é incorreta e falha em separar o processo da globalização (cadeias de abastecimento multinacionais integradas e fluxos de capitais globais) daquilo que poderíamos apelidar de neo-liberalismo económico, deixando a esquerda exposta a si própria e demasiado pronta a aceitar conceitos como o de que a capacidade do Estado está comprometida e o de que a política económica está condicionada pelo capital global. Esta é mais uma parte da minha série de textos que formarão a essência do meu próximo livro (a sair mais tarde este ano). Quebrei um pouco a sequência do meu blog uma vez que tenho estado a seguir o período que precedeu a decisão britânica de chamar o FMI em 1976. Mais parcelas desse seguimento sairão na próxima semana conforme vou pensando e investigando mais – tenho estado a verificar centenas de documentos (o que é divertido mas consumidor de tempo). Mas hoje vou buscar o artigo de Wolfgang Münchau que encaixa na perfeição com o tema geral daquela sequência de textos [sobre a Grã Bretanha]. Também me evita falar sobre a deflação na Austrália (sim, anunciada hoje pelo Australian Bureau of Statistics) quando o governo Federal persiste em elogiar a sua política de cortar o défice fiscal (texto na próxima 3ª feira). Escreverei sobre esses temidos assuntos em devido tempo.

O princípio base de Wolfgang Münchau é que:

A globalização, e a pertença à eurozona em particular, danificaram não apenas certos grupos da sociedade mas também nações inteiras.

A globalização está a falhar em países avançados, onde um processo então aclamado por proporcionar um benefício universal enfrenta agora um retrocesso político. Porquê? O ponto de vista dos poderes estabelecidos, pelo menos na Europa, é o de que os Estados negligenciaram em fazer as reformas económicas necessárias para nos tornar mais competitivos globalmente.

Eu gostaria de oferecer um ponto de vista alternativo. O falhanço da globalização no ocidente estava de facto inscrito no falhanço das democracias em fazerem face aos choques que, inevitavelmente, resultam da globalização — tais como a estagnação da média dos rendimentos reais durante duas décadas. Outro choque foi a crise financeira global — uma consequência da globalização — e o seu impacto permanente no crescimento económico a longo termo.

As suas teses e a corrente principal das teses contrárias, que dominam a elaboração das políticas económicas presentemente, ressoam amplamente no debate político.

Ele argumenta que foi “a combinação da globalização com o avanço tecnológico” que “destruiu a velha classe trabalhadora e desafia agora os postos de trabalho qualificados da classe média baixa”.

Em consequência, os eleitores estão revoltados e desafiam os seus governos os quais oferecem mais ‘reformas estruturais’ (leia-se: ataques às condições e segurança no emprego).

Ele refere-se aos recentes protestos em França, onde o governo está a tentar fazer passar duras alterações na política do mercado laboral, que piorarão a difícil situação da força de trabalho e como ele refere “poderia resultar na perda dos seus postos de trabalho, sem hipóteses de novos postos de trabalho”.

É verdade.

Ele também cita as políticas Hartz em 2003 (não creio que seja sensato apelidá-las de reformas) na Alemanha as quais “tiveram sucesso no curto prazo porque aumentaram a competitividade dos custos do país através de salários mais baixos relativamente a outros países avançados. As reformas produziram uma situação próxima do pleno emprego porque nenhum outro país fez o mesmo. Se outros países o tivessem feito, não teria havido ganhos líquidos.”

É verdade.

Por favor vejam no meu blog – A Alemanha não é modelo para a Europa – falhou no exterior e internamente – para discussão mais aprofundada sobre o chamado ‘milagre do emprego’ alemão.

Um argumento razoável pode ser introduzido, o de que Schröder ajudou a provocar a crise da eurozona. A resposta do seu governo às restrições que a Alemanha enfrentou ao entrar na União Económica e Monetária são certamente parte da história e um dos aspetos menos focado.

Aquando da entrada na União Económica e Monetária, Schröder estava sob uma enorme pressão política para fazer alguma coisa relativamente ao elevado desemprego no Leste do país após a reunificação.

Sem a possibilidade de manipular a taxa de câmbio, os Alemães perceberam que tinham que reduzir os custos de produção internos e a taxa de inflação em relação às outras nações, por forma a conservarem a sua competitividade.

Os Alemães tomaram assim o caminho da chamada ‘desvalorização interna’, que está agora na moda na Europa, bem antes da crise; uma medida que, no final de contas, tornou a crise pior.

Quando Schröder revelou a ‘Agenda 2010’ do seu governo, em 2003, era claro que iam cortar nos sistemas de apoio aos rendimentos e assegurar que a competitividade das exportações alemãs resistiria apesar do abandono da sua flexibilidade da taxa de câmbio.

As ‘reformas’ Hartz conduziram a uma mudança radical na distribuição do rendimento nacional, dos trabalhadores para os lucros, o que tem sido uma característica da era neo-liberal.

O dilema capitalista era que os salários reais, geralmente, tinham que crescer em linha com a produtividade para assegurar que os bens produzidos fossem vendidos. Se os trabalhadores produzissem mais por hora ao longo do tempo, tinham de ser mais bem pagos por hora em termos reais para assegurar que o crescimento do seu poder de compra era suficiente para consumir a sobreprodução empurrada para os mercados.

Como pode o crescimento económico auto sustentar-se quando a produtividade do trabalho supera o crescimento do salário real, particularmente quando os governos estavam a tentar reduzir os seus défices e, assim, a diminuir a sua contribuição para a despesa total nas suas economias? Como recicla a economia a crescente fatia dos lucros para colmatar o declínio da capacidade de consumo dos trabalhadores?

Enquanto a maior parte do resto do mundo resolveu este problema através da desregulamentação dos mercados financeiros e anunciando a ascensão da ‘engenharia financeira’ cuja função era impulsionar um constante aumento da dívida das famílias e das empresas para assegurar que o crescimento do consumo acompanhava o crescimento da capacidade produtiva, enquanto o crescimento dos salários reais se mantinha suprimido, a Alemanha adoptou uma versão particular desta ‘solução’.

Para a Alemanha, os elevados excedentes de exportação forneceram os fundos para efectuarem empréstimos a outras nações.

A Alemanha não teve a mesma explosão de crédito como outras nações. A supressão do crescimento dos salários reais na Alemanha e o crescimento dos ‘mini-jobs’ de (muito) baixo salário significou que a Alemanha estrangulou seriamente o consumo interno até 2005.

As políticas de austeridade de Schröder obrigaram a duras restrições internas dos trabalhadores alemães, o que implicava que a Alemanha podia crescer somente através do aumento dos excedentes externos.

Assim, a estratégia externa, que causou danos irreparáveis nos seus parceiros da eurozona, empobreceu também a sua própria população. A estratégia alemã, que se repercute no desenho básico da moeda comum e das regras fiscais e monetárias que a reforçam, nunca poderia ser um modelo de prosperidade viável por toda a Europa.

Wolfgang Münchau concorda:

As reformas tiveram um enorme lado negativo. Elas reduziram os preços relativos na Alemanha e fizeram aumentar as exportações líquidas, por seu turno gerando saídas massivas de poupanças, a causa profunda dos desequilíbrios que conduziram à crise da eurozona. Reformas como estas dificilmente podem ser a receita para o modo como os países avançados devem abordar o problema da globalização.

Ele aponta também para o descontentamento na Grã-Bretanha (a questão do Brexit), nos EUA (acerca da nomeação de Trump como candidato presidencial), na Finlândia (“um caso perdido de não recuperação — e tem um partido populista forte”) como exemplos de descontentamento crescente em relação aos principais processos políticos que realizaram estas ‘reformas’.

Tomem nota cuidadosamente quanto à forma como expressei a última frase. Voltarei a ela.

A sua explicação para o descontentamento político é como segue:

O meu diagnóstico é que a globalização destruiu as sociedades ocidentais politicamente e tecnicamente. Não há forma de podermos, ou devermos, esconder-nos disso.

E a sua solução:

… temos de gerir a mudança. Isto significa aceitar que o momento ideal para o próximo acordo de comércio, ou liberalização do mercado, poderá não ser imediatamente.

Ele questiona porquê o “líder do partido social-democrata alemão e ministro da economia, é um defensor tão ardente do TTIP” e sublinha que um “grande número de apoiantes do partido anti-imigrantes Alternative für Deutschland são ex-votantes do SPD.”

Ele defende dizer “não ao TTIP”.

E aponta que os custos de não se ter dito ‘não’ no passado trouxe o mundo “perto do ponto em que a globalização, e a pertença à eurozona em particular, destruíram não apenas determinados grupos na sociedade mas também nações inteiras. Se os responsáveis politicos não reagirem a isto, os eleitores certamente reagirão.”

E eu concordo com tudo isso.

Então qual é o desacordo?

Muito simplesmente que a globalização não é o problema. O problema é o neo-liberalismo. Note-se que a discussão de Wolfgang Münchau é sobretudo sobre as políticas de reforma e a reação popular às consequências dessas reformas.

Isso devia dizer-nos alguma coisa.

Ele não fala quanto ao modo como as cadeias globais de abastecimento emergiram e se tornaram altamente sofisticadas. Ele não fala sobre a diversidade de produtos atualmente disponíveis a preços relativamente baixos (se você tiver um rendimento).

A sua discussão centra-se em mudanças de política económica mal concebidas e nas suas sequelas. Sobre eleitorados submissos que concordaram com estes politicos neo-liberais e que estão agora, finalmente, a despertar do pesadelo.

Por outras palavras, o que verdadeiramente está a atacar não é a globalização mas sim o neo-liberalismo, que são fenómenos perfeitamente distintos.

A globalização é um fenómeno multifacetado que reorganiza espacialmente a atividade económica (caso se permita) e tem sido, até certo ponto, parte de fenómenos sociais desde que existem registos.

Göran Therborn escreveu (2000: 153) que:

Tal como muitos conceitos na ciência social e na historiografia, ‘globalização’ é uma palavra de linguagem corrente e de uso diário com matizes variáveis e muitas conotações.

Ele tenta fixar uma definição para o significado do conceito e conclui que globalização se refere:

… a tendências de um fenómeno social de alcance, impacto, ou conetividade, de nível mundial ou a uma consciência de alcance mundial entre os atores sociais.

Assim, nesse contexto, você e eu participamos num processo social globalizado – eu escrevendo para uma audiência internacional e interligando ideias com pessoas de todo o mundo.

Uma outra questão que deve ser considerada é se a globalização é “um sistema ou uma fase” (Therborn, 2000: 155). É claro, de uma perspetiva sistémica, que a economia mundial não está “totalmente sistematizada” (p.155). O exemplo que Therborn utiliza é o do processo em curso de desenvolvimento do Mercado único europeu.

Os Europeus ainda estão longe de terem completado esse projeto e os acontecimentos a nível global estão, constantemente, a ser “moldados por forças sub-globais, sejam elas da área cultural, nações, estados ou regiões sub-estatais, etc.” (p.155).

O que parece ter-se desenvolvido é uma arena internacional para a atividade económica que é moldada por estas forças sub-globais. É por isto que Wolfgang Münchau fala sobre os chamados processos de ‘reforma’ a nível nacional.

Estes processos formatam o modo como a atividade dentro da arena económica internacional decorre e os impactos que gera.

Curiosamente, no Manifesto Comunista (1848), Marx e Engels discutiam o modo como as descobertas de novas terras (America, o contorno do Cabo da Boa Esperança, etc) “abriram um terreno fresco para a ascendente burguesia”.

Eles escreveram:

A burguesia deu, através da exploração do Mercado mundial, um carácter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para grande pesar dos Reactionists, extraiu da base da indústria o enquadramento nacional em que se manteve. Todas as velhas indústrias nacionais estabelecidas  foram destruídas ou estão a sê-lo diariamente. São desalojadas por novas indústrias, cuja criação se transforma numa questão de vida ou morte para todas as nações civilizadas, por indústrias que não mais trabalham matérias-primas locais, mas sim matérias-primas trazidas das zonas mais remotas; indústrias cujos produtos são consumidos, não apenas internamente, mas em todos os quadrantes do globo. No lugar dos velhos sonhos, satisfeitos pela produção do país, encontramos novas exigências, exigindo para sua satisfação os produtos de terras e climas distantes. No lugar do velho isolamento e auto-suficiência local e nacional, penetrámos em todas as direções, uma interdependência universal das nações. E tal como na produção material, também na produção intelectual. As criações intelectuais das nações individuais tornaram-se propriedade comum. A uniteralidade e tacanhez de espírito nacionais tornaram-se mais e mais impossíveis, e das numerosas literaturas nacionais e locais, emerge uma literatura mundial.

Assim, a busca de novos mercados e novas formas de organização da produção não é uma coisa nova e passa-se desde há séculos.

O ponto importante é que o modo como estes fenómenos globais se manifestam é, em pequena parte atualmente, influenciado pelos fenómenos políticos que os acompanham ao tempo.

Therborn delineia seis fases de globalização começando a partir da propagação das ideias religiosas no século 4 AC.

Ele considera que estamos agora na 6ª fase “na qual a dinâmica político-militar da Guerra Fria foi ultrapassada por uma dinâmica financeira e cultural. Esta dinâmica descolou na segunda metade dos anos de 1980 com a enorme expansão do comércio de divisas após o colapso … do sistema internacional de moeda de Bretton Woods, seguido pelo comércio de derivados e outros novos instrumentos de apostas de alto nível” (p.163).

[Referência: Therborn, G. (2000) ‘Globalizations: Dimensions, Historical Waves, Regional Effects, Normative Governance’, International Sociology, 15(2), pp. 151-179

Evidentemente no início dos anos 1970, os governos ficaram sem restrições financeiras e deixaram flutuar as suas taxas de câmbio, o que libertou os seus bancos centrais de se envolverem em intervenções oficiais no mercado de divisas.

Mas, ao mesmo tempo, ocorreu uma mudança ideológica radical, que documentei amplamente neste blog, sobre o modo como a Esquerda foi induzida a acreditar que a ‘globalização’ fez evaporar o poder do estado.

À medida que a organização da produção mudava a nível global, a praga do pensamento de direita do ‘mercado livre’ começou a ganhar a batalha das ideias. Documentei já esse surgimento bastante detalhadamente.

O que quer que queiramos chamar a esse surgimento – e eu utilizo o termo neo-liberal agora embora nos finais dos anos 1960 pudesse ter sido apelidado de Monetarismo – a espécie que iniciou o foco na oferta de dinheiro como narrativa para se opôr às intervenções fiscais e monetárias discricionárias por parte do estado – alastrou-se durante o período seguinte tornando-se um ataque em grande escala à capacidade do estado para influenciar os resultados económicos, para além daqueles que beneficiam os mais ricos na escala social.

Assim, primeiro assistimos aos debates acerca dos controlos de capital e as exigências de Wall Street para que fossem abandonados por forma a que novos mercados pudessem emergir. O capital industrial exigia a abolição das tarifas excepto se lhes fossem vantajosas.

E então assistimos à vaga de privatizações para transferir riqueza e capacidade de gerar rendimento para as elites privadas. Isso foi acompanhado pela destruição dos monopólios públicos nas grandes indústrias essenciais e a introdução do princípio do utilizador pagador para outros fornecimentos do estado.

E à medida que este processo de neo-liberalismo se desenrolou, mais e mais exigências foram feitas pelo capital internacional capital, sendo os acordos tipo TPP(*) a última moda.

A ideia de que a intervenção do estado na atividade do mercado deveria ser reduzida ao mínimo dos mínimos é agora o lema dominante. Mas isso nada tem que ver com a globalização per se. Interage com a globalização mas é distinto e distinguível dela.

Para reforçar a ideologia do ‘mercado livre’ (o que nada tem a ver de qualquer maneira com mercados livres, tal como exposto nos textos das correntes dominantes que são usados pelas autoridades para justificar as exigências), as elites sabiam que tinham de penetrar nos processos de decisão do estado.

Como diz David Harvey (2006: 145):

… os advogados da via neoliberal ocupam agora posições de considerável influência na educação (as universidades e muitos ‘think tanks’), nos meios de comunicação, nos conselhos de administração das empresas e das instituições financeiras, em instituições chave do estado (departamentos do tesouro, bancos centrais) e também em instituições internacionais tais como o FMI e  a OMC [Organização Mundial do Comércio] que regulamentam a finança e o comércio mundiais. O neo-liberalismo, em resumo, tornou-se hegemónico enquanto modo de discurso, e tem efeitos generalizados na maneira de pensar e nas práticas politico-económicas ao ponto de se ter incorporado na maneira de pensar do senso comum quanto ao como interpretamos, vivemos e percebemos o mundo.

[Reference: Harvey, D. (2005) ‘Neoliberalism as Creative Destruction’, Geografiska Annaler: Series B, Human Geography, 88(2) 145-158.]

Portanto, os neo-liberais conheciam qual era a capacidade do estado – bem e verdadeiramente – e tentaram apoderar-se do estado!

Entretanto, durante o período em que os países se livravam das imposições do sistema de Bretton Woods, a Esquerda tornou-se obcecada com conceitos que a profunda crise que acompanhou a subida massiva dos preços de petróleo da OPEC fez aparecer,  como a falta de capacidade dos governos para aplicar impostos.

Não compreenderam que, com moedas fixas, os governos soberanos não mais estavam constrangidos na obtenção de rendimento uma vez que são os únicos que podem emitir moeda. Não tinham de continuar a emitir dívida e o papel da tributação não era para aumentar o rendimento mas sim para dar ‘espaço fiscal’ ao governo em que gastar.

A situação tornou-se pior quando a Esquerda – a nível politico e intelectual – começou a incorporar a crescente natureza global das finanças e as cadeias de abastecimento da produção nas suas análises. Assumiram, erradamente, que estas tendências contribuíram para fragilizar a capacidade dos estados para efetuarem despesa e manterem o pleno emprego.

A ‘crise fiscal do estado’ e a ‘globalização’ foram mostradas como os dois maiores obstáculos à soberania do estado. Nada podia estar mais longe da verdade.

Mas esta mitologia progressivamente tornou-se o ‘saber’ estabelecido da Esquerda nos anos de 1970 e o ressurgimento neo-liberal enquanto Monetarismo, depois as privatizações e a austeridade, tornaram-se praticamente incontestados à medida que a ‘Esquerda’ se perdia em diversos debates pós-modernos que não chegavam a nada de importante em absoluto.

Como escreveu recentemente um jornalista (The postmodern left and the sucess of neoliberalism, Scott Jay, 5/01/2016, in http://libcom.org/library):

A Esquerda internacional promove a sua imagem mais do que empenhar-se na amarga realidade de resistência contra o neoliberalismo. Não tem necessidade de acreditar no pós-modernismo porque é pós-modernista.

A tese que se segue é a de que “a Esquerda não falhou na resistência ao neoliberalismo. Talvez simplesmente não o tenha tentado ainda.”

Os jornais académicos que publicam o chamado material ‘progressista’  ficaram subjugados com toda a espécie de desconstruções pós modernas disto e daquilo, enquanto perdiam o jogo principal, o debate macroeconómico – com uma não resposta.

Apesar de elogiada pela Esquerda, a única contribuição que a esquerda académica, como James O’Connor fez nos anos de 1970, foi negativa – ensinando a Esquerda que os governos estavam constrangidos financeiramente e não podiam gerir défices contínuos porque ficariam sem dinheiro.

Sem qualquer resistência no horizonte, a “Neoliberalização de facto alastrou por todo o mundo como um tsunami de reformas institucionais e ajustamentos desorganizados, enquanto existem muitas provas do seu desenvolvimento desigual, não podendo reivindicar-se imunidade total em lado nenhum” (Harvey, 2006: 145).

Não há dúvida que se não tivéssemos sido tão complacentes e prontos a sermos subornados pelo consumo de massas, a neoliberalização poderia ter sido travada mesmo que os processos de globalização continuassem.

É indiscutível que as grandes empresas internacionais preferem liberdade de circulação através das fronteiras nacionais assim como fazem todos os esforços para capturar os governos a seu favor.

Conclusão

Mas desde que olhei pela última vez, as empresas como Coca-Cola e Apple não tinham exércitos constituídos.

A última vez que olhei, companhias como a Microsoft foram trazidas a julgamento em processos judiciais nos quais se aplicavam leis nacionais.

A última vez que olhei, companhias como a BHP Billiton tiveram de pagar gigantescas multas depois de terem sido declaradas culpadas de corrupção dentro das fronteiras nacionais ( BHP Biliton hit with $US 25m fine over corruption allegations, em http://www.abc.net.au/news de 21 de Maio de 2015)

Poderíamos listar inúmeros exemplos.

O ponto mencionado por Wolfgang Münchau sobre o facto de as pessoas ficarem mais polarizadas em virtude das promessas dos políticos serem um fracasso é válido.

Mas o problema não são as tendências globais nas cadeias de abastecimento etc. É antes o facto de os representantes eleitos terem sido capturados pelas elites neo-liberais as quais compreendem perfeitamente que o poder do estado pode ser desviado a seu favor e privar uma vasta maioria de cidadãos dos benefícios da atividade económica global.

Mas enquanto não abandonarmos a democracia (votando contra a continuação dos governos), teremos poder se fizermos a escolha de o usar. Podemos forçar mudanças no sistema politico de tal forma que funcione mais a nosso favor e não dos mais ricos (top-end-of-town).

Talvez a raiva que está agora a libertar-se seja um começo desse contra-ataque.

O problema é que a Esquerda não está a liderar esse ataque. Está a deixar essa liderança nas mãos dos loucos populistas enquanto lança cada vez mais argumentos ridículos para justificar as políticas tipo ‘vida de austeridade’ para se fazerem parecer pessoas responsáveis.

O grupo de referência para o qual procuram apelar são as elites neoliberais – o que quer dizer que a Esquerda não vai a lado nenhum.

É possível termos os nossos iPhones e o pleno emprego!

 

(*) Referência ao Acordo de Associação Transpacífico, de 4 de Fevereiro de 2016, que estabeleceu uma área de livre-comércio entre doze países da Ásia, Oceania e América.

________

 

Leia o original em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=33417

 

Leave a Reply