FRATERNIZAR – D. Nuno Almeida é doutor em Teologia Dogmática De mal a pior! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

fraternizar - 1

Quando esbarro com o título da notícia no Portal da Agência Ecclesia, dou comigo a pensar quem seria este D. Nuno Almeida. Um filho de D. Duarte Nuno de Bragança, não poderia ser. Pai dele, também não. Fico baralhado, sem saber quem é este novo membro da família real de Bragança. Até que começo a ler o corpo da notícia e acabo numa sonora gargalhada. Afinal, trata-se não de um candidato a rei de Portugal, mas de um bispo português, ainda quase desconhecido no país – nem eu, presbítero-jornalista, caí logo na conta de que poderia ser um bispo! – uma vez que, como é sabido do comum dos bispos católicos e protestantes todos ostentam um D. antes do respectivo nome. Sem se aperceberem de que com isso deixam automaticamente de ser filhos de mulher para serem filhos do poder. E, se depois, ainda se dão à vaidade de elaborar teses de doutoramento em Teologia Dogmática, como esta, vão todos de mal a pior!

É que entre eles e os seres humanos e povos há um insanável e intransponível abismo. Onde chegarem, não são bispos-com-as-populações, presenças maiêuticas entre e com as populações, como deveriam ser. São poder sagrado, o pior de todos, no topo da pirâmide clerical dentro dos respectivos territórios diocesanos, ainda que vassalos do papa de Roma, cujo pensamento e doutrina se comprometem a difundir, seguir, citar muitas vezes, como seres sem consciência crítica, meros reprodutores do pensar-doutrinar do seu amo e senhor.

O novo bispo auxiliar da Arquidiocese de Braga é agora doutor em Teologia Dogmática pela Universidade Pontifícia Salesiana, em Roma. O doutoramento foi concluído na véspera do início do Solstício de Verão. O país e a cidade de Braga não sentiram qualquer abalo sísmico com este facto. Porque o abalo sísmico acontece apenas na mente-consciência do novo doutor e no cada vez mais inócuo universo clerical católico, felizmente já em vias de extinção. Para a sociedade actual e até para os meios de comunicação social não clericais, o novo doutor nem chega sequer a ser notícia. O que deveria fazer pensar o próprio e todos os seus pares. Mas não faz, de tão pavões que se sentem.

A existência de bispos residenciais, cujos nomes são precedidos de D. é coisa da Idade Média e dos ultrapassados tempos da monarquia, quando a sociedade era constituída por clero, nobreza e povo. Com o D. a preceder o nome, deveriam ter vergonha de sair dos respectivos paços episcopais, rumo às poucas paróquias ainda activas, mas já em franca agonia, e às respectivas catedrais. Não é por acaso que, quando o fazem, têm necessidade de se mascararem com todas aquelas exóticas vestes, aquele anel no dedo, cruz de metais preciosos sobre o peito, báculo na mão, mitra na cabeça. Sabem que só assim, feitos poder sagrado, conseguem abrir portas, pisar caminhos que não desaguam em casas de famílias humanas concretas, apenas nos templos e nas catedrais e praças como a de s. pedro em Roma, pejadas de multidões sem nome, meros figurantes. Tudo locais do poder, onde quem entre, clerigos de ordem inferior à deles incluídos, é rcompletamente roubado até da voz e da vez, por isso, da dignidade, e reduzido ao estatuto de subalterno, vassalo, funcionário, pagante, batedor de palmas em sua honra e glória.

A tese de doutoramento aborda uma temática que só mesmo um D. qualquer coisa clerical poderia abordar: ‘Busca de Sentido da Vida e Reconciliação Cristã. Leitura teológica do pensamento de Viktor Frankl’. Tal e qual. D. Nuno Almeida foi levado a descobrir que, na Áustria de 1905, no dia 26 de Março, nasceu um menino que veio a formar-se em Medicina, com especialidade em Psiquiatria. Foi levado depois a interessar-se pelo seu percurso de vida, por sinal, duro, dados os ventos hitlerianos que sopravam na Europa, aliciado a estudar as suas obras e, finalmente, a fazer dele e do seu pensamento, objecto de estudo em ordem à tese de doutoramento em Teologia Dogmática.

Porém, entre o viver e o pensar do especialista austríaco do início do século passado e o viver e o pensar do bispo auxiliar de Braga, há igualmente um abismo intransponível. Impossível meter o viver e o pensar de Viktor Frankl no viver e no pensar de D. Nuno Almeida e numa Tese de Teologia Dogmática. Ou o ser humano austríaco especializado em Psiquiatria rebenta com a Teologia Dogmática, ou a Tese em Teologia Dogmática de D. Nuno Almeida asfixia-mata o especialista em Psiquiatria, Víktor Frankl. Para mal do bispo auxiliar de Braga, da Igreja em Portugal, e do povo português, é a Teologia Dogmática que asfixia-mata o especialista em Psiquiatria. O chamado Sentido da Vida, de fala Víktor Frankl, não é em teses de Teologia Dogmática, para cúmulo, tiradas na Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia Salesiana, que se pode encontrar. Nestes sinistros ambientes, prenhes de erudição, nenhuma praxia maiêutica, não há outro sentido da vida que não seja o da espiritualidade cristã, entenda-se, o da espiritualidade do poder sagrado, que se tem como o primeiro dos três, acima, inclusive, do Financeiro.

Nem a Misericórdia e o Perdão, de que fala abundantemente o papa Francisco fazem rebentar fontes de humanidade e de acolhimento, de perdão e de paz desarmada, de sororidade-fraternidade e de liberdade. Muito pelo contrário. Em nome da misericórdia e do perdão, as práticas cristãs litúrgicas das igrejas, a católica e as protestantes, traduzem-se, depois, numas quantas práticas de caridadezinha que dêem nas vistas e que façam engordar ainda mais os Bancos Alimentares contra a Fome. Nalguns casos, alargam-se à promoção de uma ou outra tese de doutoramento e à organização de alguns cursos sobre a misericórdia e o perdão, durante os quais, quem os frequenta, tem de passar as horas e os dias a escutar conferências proferidas por académicos confessionais e alguns laicos, seus acólitos, tudo coroado com uma missa cheia de pompa e circunstância presidida por bispos residenciais ou seus auxiliares. Dos quais os participantes saem pior do que entraram, de diploma nas mãos, para engrossar-prestigiar o seu currículo, nada mais. Por isso, um sem.sentido em toda a linha. Como, de resto, a nossa actualidade 2016 no país, na Europa e no resto do mundo deixa bem patente. Com assassínios e suicídios em crescendo, corrupção até dizer chega, inclusive,protagonizada por profissionais institucionais, prisões sobrelotadas, terrorismos sem conta, dívidas impagáveis que impedem futuros de qualidade às novas gerações.

É num contexto social e planetário assim, totalmente, dominado pelo deus Dinheiro, que D. Nuno Almeida se mete a fazer e a apresentar uma Tese de Teologia Dogmática! De que Deus, senão o Dinheiro, o mesmo do templo e do altar, que faz dele e dos seus pares, hierarquia, poder sagrado, segregado até dos próprios familiares? Só pode. Felizmente, o especialista austríaco do início do século passado já não é afectado por esta Tese. E, se ainda estivesse visível entre nós, não deixaria de fazer sentar o chico-esperto bispo auxiliar de Braga no seu consultório para ouvir da boca dele algumas daquelas palavras que custam a aceitar – uma das suas conhecidas práticas como especialista em Psiquiatria – como estas que aqui fraternalmente lhe escrevo em público. As quais, se acolhidas por ele, curam-no da alienação generalizada em que vive cada vez mais mergulhado. Só que nesta (quase) impossível hipótese, o bispo Nuno Almeida deixaria o paço episcopal, a catedral, todos os adereços clericais-episcopais e passaria a integrar o pequenino resto de seres humanos que já descobriram e praticam, com alegria e em reciprocidade maiêutica, a espiritualidade de Jesus, o filho de Maria. Veríamos como até o Cosmos dançaria o seu ser-viver humano de bispo sem poder.

www.jornalfraternizar.pt

Leave a Reply