A VERDADEIRA NATUREZA DE ERDOGAN, por ALEXANDRE DEL VALLE

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

erdogan - III

A verdadeira natureza de Erdogan

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Alexandre del Valle, La Vraie Nature de Monsieur Erdogan

Politique Internationale, n.º 148, Verão de 2015

 

Sobre Alexandre del Valle:

Ensaísta e editorialista. Autor, entre outras publicações, de : La Turquie dans l’Europe, un cheval de Troie islamiste ? ( A Turquia na Europa, um cavalo de Troia islamita? , edit. Les Syrtes, 2003) ; Le Complexe occidental. Petit traité de déculpabilisation, Éditions du Toucan, 2014 ; Le Chaos syrien. Printemps arabes et minorités face à l’islamisme, Dohw éditions, 2015.

 

A verdadeira natureza de ERDOGAN

Desde a chegada ao poder, em 2002, do Partido da justiça e do desenvolvimento (AKP) de inspiração islamita, a Turquia conheceu uma mutação económica, política, sócio-religiosa e estratégica impressionante. A mudança incidiu sobretudo sobre a identidade nacional e a natureza do regime político: construção maciça de mesquitas; envio dos militares para as suas casernas; autorização da utilização do véu nas escolas; projecto de revisão da Constituição instaurando o presidencialismo feito à medida para Erdogan.

Mas a política estrangeira não é a mesma: mantendo ao mesmo tempo a sua candidatura à União Europeia, Ancara efectuou uma diplomacia ao mesmo tempo “neo-otomana”, virada para o mundo arabo-muçulmano, e multilateral em direcção aos países asiáticos. Esta Turquia pós – kemalista apresenta-se como grande defensora dos Irmãos Muçulmanos e Palestinianos. Rompendo brutalmente com o seu velho aliado Bachar el-Assad, tomou partido pelos rebeldes sunitas em guerra contra o regime sírio, até a adoptar uma atitude ambígua para com os grupos islamistas jihadistas, incluindo o Estado islâmico… Argumentando da sua situação de corredor energético, Ancara endureceu igualmente as suas relações com a China, a Rússia e o Irão.

Escalada anti-israelita para seduzir a rua árabe e o islamismo

Tribuno “islamo-populista” sem igual, Recep Tayyip Erdogan soube jogar, desde 2002, a carta da re-ismalização para conservar o seu eleitorado sunita e permitir à Turquia voltar a pôr o pé nas suas antigas possessões otomanas (Egipto, Gaza-Palestina, Líbano-Síria, Magrebe, Balcãs…). Esta estratégia estendeu-se de maneira progressiva para não virar contra si os seus aliados ocidentais que o ajudaram a chegar ao poder e a vencer “o Estado profundo” kemalista (1). Mas, a partir do fim dos anos 2000, esta estratégia intensificou-se com endurecimentos verbais relativamente a Israel destinadas a seduzir os milhões de muçulmanos unidos em torno da causa palestiniana.

Vários acontecimentos marcaram o fim da amizade turco-israelita (2). O ponto de quase ruptura foi atingido com o problema da flotilha de Gaza, em Maio de 2010, quando comandos israelitas mataram nove militantes turcos pro-palestinos a bordo de um ferry turco encarregado de ajuda humanitária que tentava quebrar o bloqueio de Gaza. Um pretexto que lhe foi assim oferecido para denunciar o ex-aliado israelita. Depois Ancara aprovou plenamente a obtenção pela Palestina de um estatuto de observador na O.N.U, depois chamado criação “de um Estado palestiniano com Jerusalém-Leste como capital”, o que recusa o Estado hebreu, com o qual a Turquia permanece no entanto vinculada por um tratado (3). Ajustando o passo ao seu presidente, o primeiro-ministro Davutoglu declarou, aquando de uma reunião da Organização da cooperação islâmica (em Jibuti, em Novembro de 2012), que “os ataques na Faixa de Gaza – prisão a céu aberto – são um crime contra a humanidade” (4).

Desde há muito tempo ligada aos Irmãos Muçulmanos, que organizam anualmente em Istambul a sua reunião internacional, a Turquia do AKP tornou-se a nova terra de acolhimento do Hamas, ramo palestiniano dos Irmãos Muçulmanos. Membros da sua ala armada treinam-se sobre o seu solo com a aprovação das autoridades turcas. Obviamente, este apoio, que culminou com a instalação oficial em Istambul da sede do Hamas após a sua expulsão de Damasco em 2011, põe um problema de segurança aos países da NATO que sempre consideraram este movimento como um movimento terrorista. Apesar dos protestos israelitas e americanos, em 2013, Ancara permitiu ao Hamas alargar as suas actividades da sua sede turca, dirigida por Salah Al-Arouri.

Entre as personalidades do Hamas instaladas na Turquia, reconhecem-se vinte antigos prisioneiros reconhecidos culpados de actos terroristas, que foram libertados no âmbito da troca com o soldado israeliano Gilad Shalit, nomeadamente Zaher Jabarin e Jihad Yarmur, implicados no assassinato do soldado Nachshon Wachsman em 1994. Mais surpreendente ainda para um país que frequentemente se apresentou como sendo uma muralha contra o terrorismo islamita, a Turquia de Erdogan tolera que o Hamas se aproveite do seu escritório em Istambul para recrutar jovens palestinianos que estudam na Turquia, na Jordânia ou na Síria. Desde que a Jordânia deixou de autorizar os membros do Hamas a seguir uma formação militar sobre o seu solo, os novos recrutas são enviados à sede em Istambul de onde são encaminhados seguidamente para campos de treino. Em Dezembro de 2014, Khaled Mechaal, chefe do Gabinete político do Hamas, foi recebido com todas as honras aquando do congresso anual do AKP e  pronunciou nesta ocasião um discurso que convida a reforçar a cooperação entre a Turquia e os palestinianos para “lutar e para libertar Jerusalém” (5).

As posturas anti-israelitas das autoridades turcas merecem contudo ser relativizadas: 1) o AKP nunca quebrou realmente com o estado de Israel, cujo exército continua a cooperar com o exército turco; 2) as declarações de Erdogan ou de Davutoglu que acusam a Israel a sua política “de colonização” e construção de milhares de alojamentos em colónias judaicas tocam como acusações de espelhos, porque a Turquia nunca pôs fim à política de ocupação e colonização – condenada pela O.N.U e pelo Conselho da Europa – 37 % do norte da ilha de Chipre (“república turca de Chipre do Norte, RTCN, não reconhecida internacionalmente”). Desde 2008, Ancara ameaçou mesmo várias vezes a república de Chipre (membro da UE) de intervir militarmente se por acaso atribuísse licenças de exploração do gás à Total ou a consórcios franco-russos, ao italiano (ENI) e ao sul-coreano (Kogas) (6).

Apoio dos revolucionários islamitas aos sunitas e malogro da diplomacia “zero inimigo”

A partir da primavera de 2011, apostando sobre o sucesso das revoluções árabes, a Turquia quebrou com os seus antigos aliados nacionalistas hostis aos insurrectos islamitas (Síria de Bachar el-Assad, a Líbia de Kadhafi e, desde 2013, Egipto do marechal-presidente al-Sissi). Ancara perdeu igualmente parte do seu crédito no Líbano e na Tunísia, onde tinha apostado sobre a capacidade de reacção dos Irmãos Muçulmanos. Apoiando os revolucionários Irmãos Muçulmanos e subestimando a capacidade de reacção das forças hostis aos islamitas, Ancara realmente reduziu a sua “profundidade estratégica” mais do que a alargou, consagrando assim o malogro da doutrina cara a Davutoglu “do zero inimigo”.

A estratégia de Ancara destinada a obter a inversão do regime baassista de Damasco para ganhar o coração das massas sunitas solidárias com os rebeldes sírios incentivou o governo turco a apoiar praticamente todas as forças de combatentes susceptíveis de derrubar Bachar el-Assad: de maneira oficial, os rebeldes sunitas “moderados”, depois, de maneira menos oficial, a Frente islâmica, o Exército da conquista (7) e mesmo o Estado islâmico (Daech (8)).

Desde o começo das operações militares ocidentais na Síria e no Iraque, Ancara recusou que a aviação americana utilize as bases da NATO para bombardear as posições do Estado Islâmico (I.E.) – e isso, com o risco de aparecer como um parceiro objectivo dos jihadistas. Recordemos que a Turquia abriga 24 bases da NATO (9), que o exército do ar turco dispõe das últimas tecnologias procedentes da indústria militar americana e que os seus pilotos são formados pelos Estados Unidos… Consternados, os estrategas da NATO e os países em guerra contra Daech sabem que, desde o início da guerra civil síria, Ancara fechou os olhos sobre os campos de treino do I.E. instalados sobre o seu território e sobre a passagem através da sua fronteira de armas e de jihadistas do mundo inteiro. Frequentemente muitos destes são recrutados na Turquia – nas mesquitas, nas escolas e mesmo entre as forças de segurança -, este país tornou-se uma base de retaguarda para a maior parte dos grupos islamitas sírios, incluindo os ligados a Daech e al-Nosra (ramo sírio de Al-Qaïda).

É, de resto, pela Turquia que transitam os voluntários europeus, como Hayat Boumeddiene, a companheira do terrorista francês Amedy Coulibaly, autor da chacina Hyper Cacher em Janeiro de 2015, ou ainda os três estudantes de liceu londrinos (10) que foram abordados via Twitter por um militante djihadista. Certamente, o governo turco assegura que faz tudo o que está ao seu alcance para proteger os 800 quilómetros de fronteira que separam os dois países; mas de acordo com os passadores, os combatentes sunitas e os refugiados, é claro que as máfias locais e as forças da ordem corruptas organizaram um verdadeiro negócio. Por 25 dólares, qualquer candidato ao Djihad pode cruzar a fronteira turca para se juntar ao Daech, al-Nosra, al-Ahram ou à Frente Islâmica. Certos passadores turcos “alugam” simplesmente secções da fronteira da Turquia com a Siria ao “emir” de Daech. Acrescentemos que, até agora, as autoridades de Ancara bem evitaram pôr um fim ao contrabando de hidrocarbonetos proveniente do Iraque e da Síria – que está muito longe de poder ser ignorado quando se sabe que as dezenas de campos petrolíferos e refinarias controlados pelo I.E. geram cerca de 2 milhões de dólares de receita por dia!

Pior ainda: no fim de 2014, enquanto que o secretário americano para a Defesa, Chuck Hagel, tentava convencer Ancara a participar na ofensiva ocidental contra Daech, o presidente Erdogan recusou apoiar militarmente as forças curdas que defendiam a cidade transfronteiriça de Kobané (norte da Síria), sitiada desde há vários meses pelos combatentes do Estado islâmico (retomada pelos Curdos em Janeiro de 2015) e de abrir a base militar de Inçirlik aos aviões da coligação internacional. O exército do ar turco foi mesmo ao ponto de bombardear alvos do PKK no sudeste da Turquia, uma primeira acção desde o cessar fogo decretados pelos rebeldes curdos em Março de 2013.

A recusa de Ancara de se juntar às operações da coligação contribuiu para comprometer o frágil acordo de paz concluído em 2013 com o PKK. E o sucesso inesperado do partido curdo HDP por ocasião das eleições gerais turcas do 7 de Junho de 2015 (13 %, 80 deputados) não é estranho a este arrefecimento das relações turco-curdas tendo como pano de fundo o caos sírio e regional. Em Novembro e Dezembro de 2014, as manifestações pró curdas multiplicaram-se na Turquia, fazendo várias dezenas de mortes. Mas Ancara tem sempre como prioridade a luta contra o regime Assad. Daí a reivindicação de uma zona de exclusão aérea ao noroeste da Síria em troca de uma participação turca – de momento muito simbólica – na luta contra o I.E. (11). E o governo AKP continua a recusar que as forças curdas da Síria sejam integradas no programa de treino dos rebeldes sírios postos em acção em Abril de 2015 conjuntamente com o Catar, a Arábia Saudita e os Estados Unidos.

Preferir os rebeldes jihadistas sírios aos Curdos?

Com efeito, a posição de Ancara obedece à uma lógica nacional-islamita: os jihadistas sunitas não são considerados como o inimigo principal mas como forças – certamente a supervisionar – susceptíveis de contribuir para a queda do regime de Bachar el-Assad. Permite também lutar contra o inimigo interno que constitui o irredentismo curdo do PKK turco na medida em que este PKK dispõe de uma base na retaguarda, na Síria tida pelo Partido da União Democrática (PYD) e os seus combatentes. Deste ponto de vista, as exigências dos Ocidentais, que quereriam ver a Turquia favorecer o envio de combatentes do PKK turco para ajudar os seus irmãos do PYD turcos na Síria, são inaceitáveis aos olhos de Ancara.

Não se poderia contudo reduzir a política curda de Ancara à expressão de uma simples inimizade. As coisas são mais complexas do que parece e a hostilidade para com os independentistas curdos do PKK turca e os seus aliados da Síria é compensado por uma cooperação económica, política e cultural estreita com o Curdistão autónomo do Iraque. Este é governado nomeadamente pelo Partido democrático do Curdistão de Massoud Barzani, historicamente oposto aos partido-guerrilhas marxistas curdos da Síria (PYD) e da Turquia (PKK). Após a intervenção anglo-americana de 2003 (12), o Curdistão iraquiano tornou-se, a partir de 2005-2006, um aliado de Ancara. Quase 70 % das importações iraquianas de produtos turcos são destinados à província curda, onde a Turquia se abastece em petróleo e gás. É no âmbito desta aliança pragmática que Ancara forneceu uma assistência logística e uma ajuda em matéria de informação às forças iraquianas em guerra contra o I.E. (13). Mas a colaboração de Ancara à luta contra o I.E. ficou-se por aqui, o exército turco não pode efectuar uma acção militar directa contra Daech a não ser em caso de legítima de defesa (14).

Esta postura cuidadosa valeu à Turquia até agora ser poupada pelo terrorismo jihadista e permitiu aos serviços especiais negociar com sucesso a libertação dos 46 cidadãos turcos retidos pelo I.E. em Junho de 2014 em Mossoul. Uma vez os reféns libertados sem violência, no 20 de Setembro de 2014, o governo de Ancara exprimiu a sua vontade de se juntar à coligação internacional e fez votar no Parlamento uma moção que autoriza o seu exército a intervir no Iraque e a Síria. Mas com duas condições: que o regime de Bachar el-Assad seja designado claramente como o alvo principal e que uma zona de exclusão aérea seja instaurada. Hoje, a Turquia apoia, com o Catar e a Arábia Saudita, o Exército da conquista, que se apropriou da província de Idleb no noroeste da Síria, e que é com efeito apenas uma criação de Al-Qaïda “canal histórico” via Front al-Nosra. Fazendo isto, Ancara ajuda indirectamente outros djihadistas anti Assad, na medida em que a pressão exercida pelo Exército da conquista sobre Damasco obrigou o regime sírio a abandonar o leste do país ao Daech a fim de concentrar os seus esforços sobre Homs, Alep e a capital.

Em Março de 2015, a Turquia declarou oficialmente que mudava de posição, nomeadamente ao anunciar a sua adesão muito simbólica à coligação anti Daech, mas o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu confirmou claramente que Ancara não enviaria tropas para combater o Estado islâmico, a contribuição turca limitar-se-ia a uma ajuda logística e humanitária. Aviões de carga carregados de material militar (fatos de camuflagem, rangers, tendas, cobertores, etc.) foram enviados para Bagdad. A Turquia prosseguiu igualmente a sua política de evacuação das populações civis e acolhimento maciço de refugiados sírios em nome da sua política “da porta aberta” – uma política muito criticada pela oposição kemalista que vê nos dois milhões deslocados de iraquianos e sírios presentes na Turquia uma reserva de células terroristas dormentes.

A via euroasiática e a vocação turca de corredor energético

Apesar da ambiguidade que continua a cultivar no que diz respeito ao Estado islâmico e a outros grupos islamitas radicais, a Turquia permanece um país charneira. Desde 2013, Ancara acentuou a sua tendência euroasiática aproximando-se da Organização de Cooperação de Shanghai (OCS). Este dispositivo, criado em 2001 pela China e pela Rússia com os países turcófonos pós-soviéticos da Ásia central, tem a vocação de promover um mundo multipolar e de lutar contra a hegemonia americana. Esta reorganização para o Leste cobre uma forte dimensão energética: a Turquia importa, com efeito, da Rússia 60 % do seu gás natural e 13 % do seu petróleo. No plano geopolítico, os dois países estabeleceram, em Maio de 2010, um mecanismo diplomático baptizado “Conselho superior de Cooperação”. Em Maio de 2011, os vistos turísticos foram suprimidos e 29 acordos foram assinados. Já muito interdependentes economicamente, os dois países ribeirinhos do mar Negro decidiram pôr de lado os seus diferendos históricos e desenvolver as suas trocas: estas deveriam atingir 100 mil milhões de dólares daqui até 2020 contra 33 mil milhões em 2015. As tensões entre Bruxelas e Moscovo, exacerbadas pela política de sanções decidida ao passo da crise ucraniana, fizeram apenas que se lançasse Moscovo ainda um pouco mais nos braços de Ancara e vice versa. Assim, o abandono, em Dezembro de 2014, do projecto de gasoduto russo-europeu South Stream que devia encaminhar o gás russo para o Oeste evitando os territórios turco e ucraniano foi substituído oportunamente “por um Turkish Stream” que passa ao mesmo tempo pelo mar Negro e pela Turquia (15). Este acordo russo-turco constitui um verdadeiro muro no nariz do Ocidente que acreditara, sem razão, poder jogar a carta turca para cercar ainda mais a Rússia.

Consciente de gozar de uma posição geoestratégica única, no contacto de uma região situada “na elipse estratégica” (golfo Arabo-Pérsico-Médio Oriente; mar Cáspio Cáucaso-Ásia central) que abriga 70 % dos recursos de hidrocarbonetos facilmente exploráveis, a Turquia oferece uma solução alternativa ao traçado do norte que utiliza o petróleo russo para fornecer o Oeste via a Ucrânia. A Turquia, além disso, tornou-se o líder regional da refinação graças ao desenvolvimento massivo das suas infra-estruturas. As suas relações privilegiadas com os países “irmãos” turcófonos produtores de petróleo ou gás (Azerbaijão, Turquemenistão, Cazaquistão, Uzbequistão) – ou mesmo com o Irão e o Curdistão transfronteiriço – permitem-lhe diversificar os seus parceiros. É neste contexto que se encontraram oficialmente, no dia 1º de Dezembro de 2014, em Ancara, os chefes de Estado turco e russo. Nesta ocasião, vários contratos sobre entregas de gás e a construção de uma primeira central l nuclear na Turquia foram assinados.

Muito à procura de uma ordem multipolar livre da tutela americana, a Turquia aproximou-se igualmente da República islâmica do Irão – a quem procura aligeirar as sanções internacionais decretadas pelos Ocidentais e sair do seu isolamento. Desde 2002, Teerão tornou-se um parceiro comercial e geopolítico de peso para a Turquia de Erdogan, que jogou sobre o registo islâmico para começar uma melhoria das relações entre os dois países. O tempo não vai assim tão longe em que os mollahs qualificavam a Turquia kemalista de nação “apostata”… Depois das derivas violentas das revoluções árabes e da guerra civil síria, o presidente turco teve mais dificuldades para fazer aceitar pelas massas populares e nas capitais sunitas em guerra contra o eixo chiita pró Assad (Hezbollah, Síria-Irão) a sua alcançada proximidade com Teerão.

Sempre sobre um fundo de revoltas árabes e de confrontações chiitas/sunitas, o presidente turco denunciou, no fim de Março de 2014, a estratégia “de dominação” do Irão no Iémen, onde rebeldes chiitas (“houtistes”) apoiados por Teerão derrubaram o Presidente em funções e conquistaram a capital. Quando, em Março de 2015, uma coligação árabe levada pela Arábia Saudita lança uma série de ataques para desalojar os insurrectos dos territórios caídos sob o seu domínio, a Turquia envia uma missão de formação militar e partilha informações com a coligação antihoutista. Apesar destas tensões, Ancara e Teerão reforçaram as suas trocas económicas, que deveriam atingir 30 mil milhões de dólares em 2015. Recordemos que a Turquia mantém relações estáveis com o Irão desde 1639, data de assinatura do tratado de Qasr-i Chirin que fixou as fronteiras entre os dois países.

A visita do presidente turco a Teerão, no dia 6 de Abril de 2015 último, interveio oportunamente no dia seguinte ao da conclusão, em Lausana, de um acordo-quadro entre o Irão e os 5+1 (Estados Unidos, França, Rússia, China, Reino Unido, Alemanha) a respeito do programa nuclear. Se for concretizado, o acordo provocará uma redução das sanções e, por conseguinte, a abertura comercial do mercado iraniano ao vizinho turco. Ancara está, com efeito, consciente que após o levantamento das sanções Teerão tornar-se-á um polo económico e comercial essencial na região. Já em Maio de 2010, a mediação da Turquia e do Brasil tinha permitido ao Irão sair temporariamente do seu isolamento internacional. As três capitais tinham anunciado a assinatura de um acordo que prevê o armazenamento na Turquia de certa quantidade de urânio ligeiramente enriquecido em troca de urânio enriquecido a 20 % utilizável como combustível para fins civis. Esta iniciativa capotou devido à hostilidade dos países ocidentais, mas mostrou que algumas convergências entre países emergentes podem às vezes conduzir à avanços diplomáticas…

A deriva autoritária da neo-sultão Erdogan

A miragem neo-otomana e eurasiática de Ancara depois do afastamento da perspectiva de integração na União europeia ocorreram a par com uma deriva autoritária de Erdogan. Embora esta evolução seja inscrita no ADN do presidente turco e do seu partido, o AKP, os países ocidentais começaram verdadeiramente a compreender a natureza do regime por ocasião das manifestações de Junho de 2013. Violentas confrontações opuseram então as forças da ordem aos manifestantes antiAKP que denunciavam um projecto de reordenação urbana de Istambul destinado a destruir o parque Gezi (Praça Taksim) para construir no lugar a réplica de uma antiga “ caserna otomana”, um gigantesco centro comercial, um centro cultural e uma mesquita… Decididos a defender Taksim, símbolo dos habitantes de Istambul e da Turquia europeia, próspera, laica e ocidentalizada – e lugar símbolo, desde os anos 1970, dos protestos anti-ditatoriais, outrora reprimidos em sangue pelos militares -, os manifestantes sentiram-se próximos das web-revolucionárias laicas “ primaveras árabes”. A contestação, que ganhou Izmir Oeste (outro bastião da laicidade turca), Antalya (Sul turístico) e mesmo a capital Ancara (onde insurrectos quiseram “marchar sobre o Parlamento”), cristalizou a rejeição da política autoritária do AKP, acusada de querer instaurar progressivamente “uma República islâmica”. Durante os meses que precederam esta “primavera turca”, o governo tinha multiplicado as medidas sentidas como liberticidas: reforma do sistema educativo em proveito das escolas religiosas; restrição da venda de álcool nas mercearias entre as 22 horas e as 6 horas da manhã; proibição da publicidade ligada ao álcool; proibição do baton vermelho nos lábios para as hospedeiras de Turkish Airlines e proibição de servir álcool nos voos internos; redução do prazo legal para abortar; declarações de Erdogan sobre a virgindade das estudantes; separação homens/mulheres nas cidades universitárias; apelo às mulheres para terem pelo menos três crianças e consagrarem-se ao seu lar, etc. (16). Paralelamente, os manifestantes denunciavam o facto que o governo Erdogan não tinha cessado de recrutar novos imans (remunerados pelo Estado) e de erigir um pouco por todo o lado novas mesquitas. Lamentavam também as condenações a pesadas penas de prisão por “blasfémia” ao famoso pianista Fazil Say e ao escritor turco de origem arménia Sevan Nisanyan. Sem esquecer a destruição do mítico cinema Emek de Beyoglu, outro bairro símbolo do pluralismo.

Megalomania ou sonho de califado neo-otomano?

Atingido pela loucura das grandezas, Erdogan fez-se construir à sua medida um palácio presidencial imperial de 200 000 metros quadrados e 1150 divisões.

Palácio de Erdogan

Inaugurado em Outubro de 2014, perto de Ancara, o palácio de mármore branco, Ak Saray (estilo “néoseljoukide”), teria custado 500 milhões de euros. O presidente turco recentemente eleito aí acolheu em grande pompa o seu homólogo palestino Mahmoud Abbas – protegido por uma fila de honra de militares vestidos com uniformes dos dezasseis Estados que já conheceu a Turquia durante a sua História. Uma mensagem forte enviada aos nacionalistas, aos panturquistas e aos islamitas (17). A este palácio acrescentam-se outros projectos neo-imperiais desmedidos: a construção de um terceiro aeroporto em Istambul que se chamará Recep Tayyip Erdogan (uma universidade e uma campo de futebol têm já o seu nome); e a edificação de duas novas supermesquitas em Istambul: uma na Praça Taksim (verdadeira provocação para os liberais e laicos); a outra com uma capacidade de 30 000 lugares que estará virada sobre o Bósforo desde a colina de Camlica, visível desde toda a cidade. Erdogan já anunciou o seu desejo de ser aí enterrado, como outrora os sultões.

Mas para ser o equivalente moderno de uma sultão, o líder turco procura, desde que acedeu às funções supremas, reforçar as prerrogativas constitucionais da sua presidência, de momento reduzidas a funções bastante simbólicas e bem menos largas que as funções de um primeiro ministro. Para esse efeito, contava sobre uma vitória nas eleições legislativas dr 7 de Junho de 2015 para rever a Constituição (oficialmente para adaptá-la “ às normas europeias de democracia”), o que exigia reunir dois terços dos votos no o Parlamento. Mas, pela primeira vez desde 2002, o partido de Erdogan não ganhou a maioria absoluta. O projecto de revisão da Constituição destinado a criar um regime presidencialista à sua medida foi, por conseguinte, parado imediatamente. O AKP teve que enfrentar uma mobilização sem precedentes da oposição liberal, curda, de esquerda e laica, nomeadamente desde as manifestações massivas da Praça Taksim na Primavera de 2013. Num contexto tenso (marcado por um atentado à bomba perpetrado aquando de uma reunião no dia 5 de Junho de 2015), o partido curdo HDP (Partido popular democrático) de Selahattin Demirtas excedeu largamente o limiar fatídico 10 %, dando-lhe assim a sua entrada no Parlamento com 80 deputados. Teve êxito em mobilizar em redor dele outras tendências da oposição: laico-progressistas, Arménios, Alévis, movimentos feministas, etc. para além dos Curdos progressistas do HDP. Convém recordar que o primeiro partido de oposição face ao AKP é o Partido republicano do povo (CHP), kemalista-laico, muito fortemente anti-islamita, que totalizou 25,1 % dos votos, à frente do Partido de Acção Nacionalista (MHP-direita dura), forte nos seus 16 % dos sufrágios, seguidamente o HDP com (13 %) dos votos.

Com efeito, se Recep Tayyip Erdogan – que detesta como todos os islamitas os ideólogos laicos e “ímpios” de Mustafa Atatürk (este aboliu o véu , a chária e o sultanato-califado em 1924) – estava muito agarrado a esta revisão porque ela ter-lhe -ia permitido fazer saltar os últimos ferrolhos kemalistas que impedem o AKP de re-islamizar de maneira profunda e definitiva o país, a Constituição actual, forjada pelos militares em 1982, proíbe nomeadamente os partidos islamitas e garante de maneira estrita o carácter laico da justiça e do Estado. Com efeito, este assalto final falhado contra o modelo militar e kemalista inscrevia-se na sequência lógica do processo da “ des-kemalização ” lançado pelo AKP a partir dos anos 2000 com o processo “Ergenekon”.

Retorno ao processo Ergenekon

Este processo, que permitiu meter na prisão um grande número de personalidades anti-islamitas, tem o nome de um pequeno grupo acusado de ter urdido “uma conspiração” contra o Estado. De acordo com as autoridades turcas, este pequeno círculo compreendia ultranacionalistas, antigos oficiais nostálgicos dos regimes militares, os kemalistas partidários “do Estado profundo” e os intelectuais laicos, dos quais certas grandes figuras da imprensa turca. Na realidade, o poder da rede teria sido expresso de forma exagerada a fim de criar um pretexto destinado a reduzir ao silêncio os oponentes ao Islão político. Entre as pessoas presas, podemos citar Nedim Sener (18) ou o célebre jornalista Ahmet Sik, bem conhecido pelo seu combate contra as organizações conspiracionistas que vivem infiltradas no Estado. Pode-se também mencionar a detenção, em Istambul, em Janeiro de 2014, do antigo chefe de Estado-maior (2008-2010) do exército turco, Ilker Basbug, acusado ter estado na origem da criação de 42 sítios Internet de propaganda antigovernamental. Já, em Janeiro de 2008, outro oficial de elevada patente, o general Küçük, tinha sido preso. Ironia da história: entre os militares condenados pelos tribunais figuram os oficiais que tinham encarcerado Erdogan em 1997 por “incitamento ao ódio religioso”, depois proíbe o seu partido, o Fazilet partisi, antepassado do AKP

Regressão do Estado de direito e da liberdade de expressão

No dia 8 de Julho de 2014, o Tribunal europeu dos direitos do homem (CEDH) condenou a Turquia por de ter mantido os jornalistas Nedim Sener e Ahmet Sik em detenção provisória durante mais de um ano sem motivo “relevante”. Estes últimos, que são acusados de terem revelado informações de interesse público sobre o processo dito Ergenekon, incorrem numa pena até quinze anos de prisão (19). Na Turquia, mais de 80 jornalistas estão atrás das grades por delitos de opinião, 500 outros estão expostos de maneira recorrente a processos judiciais. Esta situação cria um clima de medo difuso e gera uma verdadeira autocensura nos meios de comunicação social e nos partidos políticos da oposição

A Turquia ocupa o 154º lugar em 180 posições na classificação mundial de 2014 da liberdade de imprensa estabelecida por Repórteres sem fronteiras (20). No seu estudo mundial Índice democrático 2010, o Economic Intelligence Unit (EIU) descreveu a Turquia como um país “ de regime híbrido” (21). No que respeita à Internet, Facebook ou Twitter, o governo de Ancara é apontado regularmente a dedo pelo Tribunal europeu dos direitos do homem e pela Comissão de Bruxelas que lamentam as violações da liberdade de expressão e de e divulgação, ao considerar a Turquia como um dos países mais restritivos no mundo neste domínio. Mais de 6 000 sítios Internet foram fechados desde 2009. YouTube permaneceu inacessível durante dois anos. Esta censura tem às vezes também finalidades teocráticas: assim, os tribunais turcos ameaçaram fechar Facebook se as páginas que contêm “insultos” à imagem do profeta Mahomet não fossem retiradas dos servidores. A justiça turca bloqueia regularmente sítios julgados “ofensivos” para o Islão. Depois do atentado de 7 de Janeiro de 2015 em Paris, tinha proibido a divulgação sobre a Net das caricaturas de Maomé publicadas por Charlie Hebdo. Sempre em nome da “defesa do Islão”, o pianista turco Fazil Say foi condenado em 2013 a dez meses de prisão com pena suspensa por “infracção aos valores religiosos”. O seu crime? Ter publicado uma série de tweets julgados “ insultuosos ” para com o Islão

Uma outra maneira de pôr na ordem os seus opositores passa “pela taxa subjectiva” (22) que o ministério das Finanças impõe desde 2007 aos actores económicos recalcitrantes. O grupo de imprensa (laico) Dogan, por exemplo, foi condenado a uma multa de mais de 3 mil milhões de dólares em Setembro de 2009. O grupo, que ganhou todos os processos contra o governo junto do Conselho de Estado (Danistay), teve que entrar na ordem e moderar a mão dos seus jornalistas mais irreverentes para com o poder.

A deriva absolutista de Erdogan não poupou a potente confraria islâmica do Fethullahci. Contando com vários milhões de simpatizantes através do mundo, a sua figura tutelar é Fethullah Gülen, iman místico exilado aos Estados Unidos desde 1999 a fim de escapar às contínuas perseguições da justiça turca que o acusa pelas suas actividades anti-laicas (foi liberto em 2008). Gülen está à frente de uma muito forte rede de escolas que difundem o Islão e a cultura turca em numerosos países e que é apoiado pela holding mediática do diário Zaman. Preconiza a reconciliação entre a fé islâmica, o capitalismo, o liberalismo e a democracia e mantém boas relações com os Estados Unidos, os meios judaicos e com Israel. A confraria é acusada de se estar a infiltrar-se na administração, na política, na polícia e no aparelho judicial. Aquando da sua reeleição em 2011, Erdogan tinha recebido o seu apoio, com base numa oposição comum ao exército e ao “ Estado profundo” kemalista. Mas quando estoiraram as manifestações da Primavera 2013, a confraria denunciou a deriva autoritária do poder. Com efeito, ela entrou em guerra contra Erdogan depois da supressão “do dershane”, os estabelecimentos de apoio escolar privados de que o movimento tira uma boa parte dos seus rendimentos.

 “Em represálias”, a confraria teria suscitado, em Dezembro de 2013, um vasto golpe de rede anticorrupção lançado pelo procurador de Istambul, Zekeriya Öz (próximo dos gulenistas). Cinquenta e seis pessoas foram colocadas em prisão preventiva entre os quais os filhos de três ministros, o presidente da câmara municipal (AKP) do bairro (islamita) de Fatih, em Istambul, burocratas e homens de negócios ligados ao sector da construção civil. Uma vertente importante do inquérito referia-se a vendas ilegais de ouro ao Irão, à violação do embargo internacional. Um homem de negócios iraniano, Reza Zarrab, terá estado no centro das transacções ocultas ligadas a estas vendas através do banco público turco Halk Bank. Dois outros inquéritos visavam tráficos cometidos aquando dos concursos para realizar obras públicas que implicam a Administração do habitat colectivo (TOKI) (23). A justiça suspeitava também da Fundação turca para o serviço dos jovens e da educação (Turgev), cujo filho de Erdogan, Bilal, é um dos seus líderes. Uma guerra das escutas seguiu-se entre o poder AKP e a confraria Gülen. A mais controversa relata uma conversação entre Bilal e o seu pai, que o aconselha a esconder 30 milhões de euros… Depois, o governo fez desaparecer as provas comprometedoras e procedeu a purgas na polícia e no aparelho judicial (24).

Em forma de conclusão

Estes obstáculos ao Estado de direito, aos direitos do homem e à liberdade de expressão obrigaram os responsáveis europeus a tirar as conclusões que se impõem. O Comissário para o Alargamento Stefan Füle declarou “seguir com preocupação as recentes acções da polícia contra os jornalistas” e apelou ao governo turco “ para alterar a sua legislação a fim de melhorar significativamente o exercício da liberdade da imprensa”. Em Março de 2011, já, antes mesmo da “primavera turca”, o Parlamento europeu tinha publicado o mais severo dos relatórios de etapa sobre a Turquia.

Certamente, Ancara não conta virar as costas à União Europeia, que continua a ser o seu primeiro parceiro económico. Em 2013, a parte da UE nas importações turcas atingia 36,70 % e 41,52 % para as suas exportações. Ainda que ela não acredite verdadeiramente, a Turquia permanece oficialmente no caminho da adesão. Os líderes europeus devem contudo compreender que esta não trocará os seus interesses estratégicos e os seus valores identitários contra o supranacionalismo europeu e o individualismo ocidental, nos quais a Turquia vê uma ameaça para a nação e para a religião. Aos olhos de Erdogan e do seu partido, a integração na UE não é um fim em si mas um meio que permite desmontar o velho sistema kemalista militar hostil aos islamitas e ao comércio livre. Com efeito, a União Europeia, com o seu “pacote de reformas legislativas” imposto em 2003 à Turquia no âmbito do processo de negociação com o propósito da adesão, exigiu e obteve a abolição do poder político do Conselho de segurança nacional (MGK) que outrora era controlado por militares e que lhes permitia fazer barragem às leis e aos governos islamitas (25). Sem estar a esquecer, evidentemente, o maná financeiro dos fundos estruturais – de vários milhares de milhões de euros por ano. Em todo o caso, se por acaso a Turquia se juntar um dia à UE, fá-lo-á da mesma maneira que a Grã-Bretanha antes dela – com as suas próprias condições, ou seja, em função dos seus interesses nacionais e identitários. E retirar-se-á – da mesma maneira que os Britânicos serão tentados talvez a fazê-lo- desde que eles não vejam os seus interesses completamente satisfeitos e que Bruxelas lhes resista. aos seus pedidos de derrogações

O mesmo se passa quanto à adesão à NATO: a Turquia mostrou desde as guerras do Iraque e, mais ainda, através do seu estranho jogo na Síria com os jihadistas e em Gaza com o Hamas, que ela não respeita o princípio de solidariedade atlântica senão quando este lhe é vantajoso. Acreditar que este país é “ocidental” sob pretexto de que é membro da NATO e que é “europeu” porque bate à porta da UE constitui um erro de análise por parte de numerosas instâncias de decisão ocidentais que confundem a identidade civilizacional do Ocidente (26) com considerações económicas, estratégicas ou institucionais. Um erro de que se espera não se venham a arrepender…

Alexandre del Valle, La vraie nature de Monsieur Erdogan . Texto disponível em : http://www.politiqueinternationale.com/revue/read2.php?id_revue=148&id=1411&search=&content=texte

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 (1). Derin devlet: literalmente, “o Estado profundo” (do árabe dawla, Estado, e do turco derin, “profundo”). A maneira como a Turquia entende  a questão do interesse nacional e do Estado (“forte e sagrado ”) é a de que os direitos deste transcendem os direitos individuais. A expressão derin devlet traduz uma concepção ultranacionalista da soberania que inspira ao mesmo tempo o Estado-maior do exército turco e os nacionalistas kemalistas bem como a extrema-direita. Designa hoje os que estão prontos a intervir ( face aos “esquerdismos”, “aos separatistas” aos “islamitas, aos reaccionários”) para “impedir o desmantelamento da Turquia”. Esta estaria “ ameaçada” pelos seus vizinhos hostis (Gregos, Arménios, Iranianos, Árabes, Curdos, etc.), sempre prontos para regressarem ao tratado de Sevres que previa a divisão da actual Turquia depois da derrota definitiva do Império otomano (este tratado foi invalidado em 1923 pelo tratado de Lausanne  que fundou a República turca moderna).

(2) os dois governos tinham-se oposto violentamente a respeito da guerra contra o Hamas (27 de Dezembro de 2008 – 17 de Janeiro de 2009) e do aprisionamento por Israel (31 de Maio de 2010) da flotilha que se dirigia para Gaza (ver infra).

(3) recordemos por último que desde 1994 catorze acordos militares foram assinados entre as duas partes. A 18 de Setembro de 1995 foi assinado em Telavive “o memorando” sobre a aviação militar. Alguns meses  mais tarde, a 23 de Fevereiro de 1996, o Director Geral do ministério israelita dos Negócios Estrangeiros, o general David, e o primeiro secretário da representação turca, Cevik Bir, assinavam “acordos de cooperação e de treino”. Estes acordos incidiam sobre os treinos conjuntos entre as forças aéreas e marítimas dos dois países, a troca de pessoal militar ou ainda a possibilidade oferecida às duas partes de  utilizarem as suas bases militares respectivas. A aliança militar entre os dois países é quebrada oficialmente em Junho de 2010, no dia seguinte ao do ataque de um navio turco a caminho para a Palestina (“Flotilha da paz”) por Tsahal, de que resulta 9 mortes civis. Mas desde 2013, no contexto do caos sírio e regional, as relações entre a Turquia e o estado de  Israel aqueceram-se: Ancara retomou as suas compras de armamento junto do Estado hebreu, nomeadamente dos sistemas logísticos electrónicos destinados a equipar dos aviões Awacs.

(4) ver Alexandre del Valle, “a estratégia neo-otomana de Erdogan para re-slamizar a Turquia e influenciar o Médio Oriente”, Atlantico, o 12 de Novembro de 2012, http://www.atlantico.fr/decryptage/turquie-proche-orient-strategie-neo-ottomane-erdogan-pour-reislamiser-turquie-et-influencer-proche-orient-alexandre-del-valle-564237.html

(5) Centenas de recrutas foram formados para a utilização de armas ligeiras, para o fabrico de bombas e para as operações especiais na Turquia, antes de serem enviados sobre o teatro sírio ou da Cisjordânia. Os serviços de informação israelitas revelaram, em 2014, por ocasião da detenção de cem terroristas que preparavam atentados na Autoridade palestina, que o chefe da rede, Riad Nasser, era um antigo do Hamas que tem trabalhado em ligação com a sede de Istambul. Do mesmo modo, o chefe do grupo de trinta terroristas presos em Setembro de 2014, Manaf Ajbara, estudante originário de Tulkarem, foi recrutado na Turquia. Os assassinos dos três adolescentes israelitas mortos em Junho de 2014 foram recrutados igualmente pela sede de Istambul. E uma parte importante das armas do Hamas na Cisjordânia foi comprada pela sede de Istambul.

No que respeita à implicação da Turquia ao lado dos jihadistas e nomeadamente do Estado islâmico na Síria, esta é constatada por todos os serviços de informação dos países ocidentais que sabem que uma parte do território turco transfronteiriço da Síria serviu desde 2013 pelo menos de base de retaguarda aos jihadistas de Daech e hoje à Front al-Nosra (ramo sírio de Al-Qaïda) e Ahrar Cham, organizações estranhamente poupadas pelas bombardeamentos aéreos do exército americano. A presença de forças turcas ao lado dos jihadistas do I.E. foi assinalada em vários lugares do Curdistão sírio, nomeadamente em  Solipkaran, a 8 quilómetros de Tell Abyad, onde os militares turcos ajudaram os dihadistas a combater os rebeldes curdos. Os blindados turcos cruzam regularmente a fronteira turco-síria, como se viu quando apoiaram os jihadistas que sitiaram Jiimayé-Almalik (a 20 quilómetros de Tell Abyad) em frente ao PYD dos curdos sírios. As secções de elite turcas supervisionaram os ataques de Daech contra a aldeia de Khan al-Jaradé, facto confirmado não somente pelo regime sírio mas também pela oposição síria, nomeadamente o Observatório sírio dos direitos do homem (OSDH). É igualmente pela Turquia que transitam os jihadistas vindos da Europa, do Magrebe, do Cáucaso, da Ásia central, do Paquistão e mesmo da China ou da Índia.

(6) Ancara ameaçou igualmente excluir dos seus futuros projectos energéticos as companhias internacionais que assinem contratos de exploração de gás nas águas territoriais de Chipre, sobre as quais a Turquia não tem no entanto nenhum direito.

(7) A coligação militar é composta de numerosas facções rebeldes islamitas sírias, de que o ramo sírio de Al-Qaïda, Front al-Nosra, sobretudo activos em redor de Idleb, Hama e Lattaquié. Criado a 24 de Março de 2015, o Exército da Conquista tomou a cidade de Idleb a 28 de Maio de 2015. Esta aliança beneficia de uma ajuda considerável do Quatar, dos sauditas e sobretudo dos turcos em matéria financeira e logística, de entregas de armas e de facilidades de passagem sobre o território turco.

(8) Acrónimo de Dawla Al islamiyya fi Irak wa sham, Estado islâmico no Iraque e Levante, que se tornou em Junho de 2014 O Estado islâmico. Ver Alexandre del Valle e Randa Kassis, Le Chaos syrien, Dhow éditions, 2014.

(9) ver “NATO’  Eastern Anchor. 24 NATO bases in Turkey”, Global Research, 14 de Fevereiro de 2011, http://www.globalresearch.ca/nato-s-eastern-anchor-24-nato-bases-in-turkey/23205.

(10) Cf. Sophia Jones, “é suficiente 25 $ para se juntarem ao Da’ ech na Síria passando pela Turquia”, Huffington post, 7 de março de 2015, https://fr.news.yahoo.com/suffit-25-rejoindre-daech-syrie-063843398.html

(11) ver o artigo de Abdullah Bozkurt, “Erdogan’ s mosque building frenzy” (Zaman, 9 Maio de 2015), que anuncia uma operação militar do exército turco destinado a derrubar o regime Assad e que sofreu diversos revezes em maio de 2015. Com efeito, a Turquia efectua uma política mais que ambígua. Pretende, com efeito, ajudar a  coligação anti Daech pondo ao mesmo tempo condições impossíveis para a sua participação militar activa (zona de exclusão aérea e zona tampão) e ajudando directa ou indirectamente Daech face aos s Curdos e ao regime sírio, considerados por Ancara como os seus principais inimigos.

(12) A 20 de Março de 2003, a intervenção militar anglo-americana “Liberdade para o Iraque” é lançada contra o Iraque – sem mandato da O.N.U – tendo como objectivos de guerra “de lutar contra o terrorismo internacional” e pôr fim ao regime de Saddam Hussein, suspeito de ter “armas de destruição massiva ”. Esta operação provocou a queda do regime de Saddam Hussein depois de 20 dias de combates. Bagdad é ocupada rapidamente; as forças da coligação americano-britânicas instauram uma Autoridade provisória, dirigida pelo diplomata americano Paul Bremer. Saddam Hussein, que fugiu em Abril de 2003, é preso em Dezembro. As tropas de ocupação têm que enfrentar movimentos de resistência, chiitas como sunitas (islamitas e baassistas), que se organizam num contexto de caos geral e desmantelamento das estruturas estatais iraquianas. O país mergulha na guerra civil. Os chiitas maioritários e vingativos, apoiados ao mesmo tempo pelas forças anglo-americanas e o Irão, tomam o controlo de que resta  do Estado iraquiano, depois de décadas de dominação sunita. Do seu lado, os nacionalistas curdos, associados ao novo poder e dotados de forças militares próprias (Peshmergas), criam de facto um Estado independente, que vai desencadear uma vaga de antiamericanismo sem precedentes na Turquia. A partir de Janeiro de 2007, o Congresso e a opinião pública americana deixam de apoiar a Administração Bush mas  o conflito já terá causado a morte de 3 000 soldados americanos. Em 2008, a eleição de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos altera os dados geopolíticos. O novo presidente propõe um calendário para a retirada progressiva das tropas: os últimos soldados americanos deixam o país em Dezembro de 2011. O vazio de repente provocado pela retirada americana permitirá ao Estado islâmico reaparecer tanto no Iraque como depois na Síria.

(13) Com efeito, a estratégia turca varia de acordo com os teatros de operações: se o exército turco colaborar mais facilmente com os outros Estados da coligação contra Daech no Iraque, ajuda objectivamente o Estado islâmico na Síria face aos Curdos ligados ao PKK e ao regime alaouita-baassista de Bachar el-Assad.

(14) Porque considera os Curdos sírios inter-independistas pró PKK como os seus inimigos principais assim como o regime alaouita de Damasco, e porque teme, e aqui com razão, uma desestabilização interna e vagas de atentados jihadistas facilitados pelas numerosas células pro Daech e pro Al-Qaïda dos dois milhões de refugiados sírios presentes sobre o seu território, a Turquia não tem interesse em  intervir militarmente contra o Daech ou contra outros grupos jihadistas. E tanto mais quanto ela ajuda oficialmente o Exército da Conquista de que uma das suas componentes é Al-Qaïda na Síria (Front al-Nosra)…

(15) O gigante do gás russo Gazprom e a sociedade turca Botas assinaram, no dia 1º de Dezembro de 2014, um memorando sobre a construção de um gasoduto baptizado Turkish Stream. Este gasoduto, de uma capacidade anual de 63 mil milhões de m³ de gás e com uma extensão de 1.100 Km liga os dois países passando sob o mar Negro. Poderia ser posto em funcionamento a partir de Dezembro de 2016. Moscovo e Ancara projectam assinar o acordo intergovernamental no segundo trimestre 2015.

(16) De acordo com Tigrane Yégavian, haveria na Turquia uma mesquita para 350 habitantes contra um hospital para 60.000. Os manifestantes laicos lamentavam igualmente o facto que um dos projectos de renovação e e de peonagem da Praça Taksim compreendia a destruição do Centro cultural Atatürk (Atatürk Kultür Merkezi, AKM). Quanto aos alevis , estes protestavam contra a escolha do nome de Sultan Yavuz Selim, 74º califa otomano , cognominado “o cruel” (gaddar) por ter massacrado um grande número dos seus correligionários.

(17) Cada um destes soldados de museu simbolizava um dos dezasseis “impérios” da história turca, dos nómadas Xiongnu da Mongólia (IIº século antes de Cristo.) até aos Otomanos (1299-1923), passando pelos Mongóis e pelos Seldjoukides. De acordo com um deputado da oposição, Ali Demirçali, a nota de electricidade do palácio (de 18 de Dezembro de 2014 a 21 de Janeiro de 2015) ter-se-ia calculado em 410.276 euros! A presidente do sindicato das câmaras dos arquitectos e dos engenheiros de Ancara, Tezcan Karakus Candan, avalia as despesas de manutenção anuais da construção em 37,5 milhões de euros.

(18) Ahmet Sik (jornalista de investigação, autor de numerosas obras e sindicalista de reputação) e Nedim Sener (intelectual de oposição de língua francesa, ex-coordenador do sítio Oda TV e jornalista para o diário turco Posta ) permaneceram encarcerados, tal como 106 outros jornalistas e escritores, durante 375 dias por terem  utilizado a sua actividade mediática e editorial a favor da presumida organização terrorista “Ergenekon”. Entre o dia 18 de Fevereiro e o dia 3 de Março de 2011, uma grande parte dos outros colaboradores do sítio odatv.com próximos de Sener foram igualmente presos. Com efeito, os jornalistas foram punidos por terem coberto de maneira crítica o processo Ergenekon. Nedim Sener recebeu o Preço da liberdade da imprensa 2013 do Comité para a protecção dos jornalistas. Num acórdão do dia 8 de Julho de 2014, o Tribunal europeu dos direitos do homem condenou a Turquia por de ter violado os direitos e as liberdades destes dois jornalistas de investigação.

 (19) Em maio de 2014, Ahmet Sik foi recompensado pelo Prémio mundial da liberdade da imprensa UNESCO Guillermo Cano. Quanto a Nedim Sener, foi laureado em 2010 pelo Instituto internacional da imprensa.

20) Cf. http://rsf.org/index2014/fr-index2014.php. Ler também o relatório de inquérito de RSF: Meios de comunicação social e justiça na Turquia: “Um livro não é uma bomba! ”, 16 de Junho de 2011.

 (21) o EIU (Economist Inteligência Unit ) classifica os países em quatro categorias: democracias perfeitas, democracias imperfeitas, regimes híbridos e regimes autoritários. A Turquia pode ser qualificada de regime híbrido.

(22) Fonte de temor para a comunidade económica e para as instituições democráticas, “a taxa subjectiva” é uma espécie de punição política na forma de correcção fiscal. Instaurada pelo ministério das Finanças em 2008, sobre decisão de Erdogan e do AKP, visa a fazer calar ou arruinar os responsáveis económicos que não partilham as opiniões do poder islamita. É assim que o muito célebre grupo de imprensa Dogan foi condenado a pagar uma multa de mais de 3 mil milhões de dólares em Setembro de 2009, embora tivesse ganho todos os processos contra o governo AKP junto do Conselho de Estado turco. Vejam-se : Cf. « Inquiétudes venues de Turquie à la veille des élections législatives», Question d’Europe, no 208, 6 juin 2011 ; http://www.robert-schuman.eu/fr/questions-d-europe/0208-inquietudes-venues-de-turquie-a-la-veille-des-elections-legislatives

(23) O filho do antigo ministro do Ambiente, Abdullah Oguz Bayraktar, alguns responsáveis do ministério bem como o presidente da câmara municipal AKP do distrito de Fatih, Mustapha Demir, foram considerados suspeitos por terem falsificado estes mercados públicos.

(24) 6.000 polícias entre os quais os prefeitos de polícia e 20 procuradores foram transferidos. O Alto Conselho dos juízes e dos procuradores (HSYK) encarregado de nomear os altos magistrados é colocado sob o corte de despesas pelo ministério da Justiça. O controlo do Estado sobre a nomeação dos juízes e dos procuradores foi ratificado pela lei do 15 de Fevereiro.

(25) Veja-se Jean-Louis Balans, « Armée et politique en Turquie ou la démocratie hypothéquée », Pouvoirs, 2005/4 (no 115), pp. 55-72.

(26) Veja-se Alexandre del Valle, Le Complexe occidental, Éditions du Toucan, 2014.

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Este artigo de Alexandre del Valle já tinha sido publicado em A Viagem dos Argonautas em Maio último.

Ver em:

O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 11. A VERDADEIRA NATUREZA DE ERDOGAN, de ALEXANDRE DEL VALLE – I

O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 11. A VERDADEIRA NATUREZA DE ERDOGAN, de ALEXANDRE DEL VALLE – II

O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 11. A VERDADEIRA NATUREZA DE ERDOGAN, de ALEXANDRE DEL VALLE – III

 

 

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