
E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O Brexit não acabou com a UE
Tenham calma, a Alemanha trabalha para isso
![]()
Laurent Gayard, Le Brexit n’a pas achevé l’UE… Rassurez-vous, l’Allemagne y travaille!
Revista Causeur, 20 de Julho de 2016
Theresa May, que sucedeu à David Cameron no cargo de Primeiro- ministro do Reino Unido, visita Angela Merkel esta quarta-feira. Olhando com mais atenção para este facto será sem dúvida a Alemanha que acabará por ter razão sobre a União Europeia mais do que o resultado do referendo sobre o Brexit…

Quando os Alain Minc, Jacques Attali ou Laurent Sagalovitsch tiverem secado as suas lágrimas, afrouxados os seus pequenos punhos fechados com a raiva dos resultados do Brexit, quando deixarem de insultar os eleitores britânicos e comporem odes ao regresso do sufrágio censitário, quando isso acontecer aconselhá-los-emos a que levantem o seu olhar clarividente numa outra direção como, por exemplo, a de Itália, cuja economia emite actualmente sinais bem mais inquietantes que o Brexit .
Os Britânicos e Barroso (de que se soube recentemente que passará para o campo do inimigo que é Goldman Sachs) terão eles feito as malas na altura certa ? Os bancos da quarta economia da Europa gerem atualmente 360 mil milhões de créditos de cobrança duvidosa e terão necessidade, como o afirma a revista The Economist, de uma séria “limpeza”, ou seja de uma nova injeção de dinheiro público que os regulamentos europeus não permitem. Os bancos italianos têm atualmente necessidade de 40 mil milhões de euros para afastar o espectro de uma falência em cascata. Ora, as instituições da zona euro proibem qualquer ajuda pública direta aos bancos em dificuldade e a Alemanha impõe-se na matéria como o vigia intransigente das tábuas da lei europeia, recusando qualquer flexibilidade da regra que, de acordo com Berlim, minaria a credibilidade das instituições bancárias europeias. Da mesma maneira que a Grécia antes dela, a Itália vê-se por conseguinte encurralada por uma gestão bancária inconsequente e também apertada pelas normas de Bruxelas. .
As consequências a prever poderiam ser bem mais pesadas que as do Brexit que tanto agitou os nossos editorialistas de choque. Para um consultor de uma grande sucursal bancária implantada em Paris: “O PIB italiano é dez vezes o da Grécia. Ao lado da perspectiva de uma falência bancária em cadeia na Itália, a crise grega representa apenas alfinetes.” Se a Itália se encontrar confrontada com uma crise bancária, a onda de choque seria de uma outra forma bem mais destrutiva que a do Brexit. Os acionistas dos bancos italianos, sendo na sua maioria particulares em vez de instituições, as declarações de falência poderiam provocar um empobrecimento de uma boa parte da classe média italiana e isto iria ter também consequências eleitorais extremamente nefastas para Matteo Renzi, confrontado já com a perspetiva de um referendo relativamente à sua reforma constitucional no próximo mês de Outubro e uma irresistível ascensão do Movimento 5 Estrelas.
E se não houver apenas a Itália… no dia 7 de Julho passado, a Comissão europeia publicou um relatório que denuncia mais uma vez a situação orçamental de Portugal e da Espanha e ameaçando estes dois países com a aplicação de sanções. No momento em que as boas e santas almas e os dirigentes europeus apelam a uma “refundação” e a uma solidariedade “postBrexit”, a Alemanha não fez grande caso, ao que parece, das intenções generosas e dos apelos à fraternidade continental. O que obceca sempre a Alemanha de Angela Merkel continua a ser a preservação dos aforradores e o equilíbrio orçamental, ameaçado na Alemanha pela fatura de um sistema de pensões de reforma ainda agravado por uma demografia incessantemente em declínio. De Berlim, continua-se por conseguinte a gritar alto e relativamente aos maus gestores e sobre os que reclamam uma política de investimentos públicos que poderia perturbar o dogma da austeridade.
Os curiosos ou mesmo patéticos remédios dos nossos vizinhos alemães
Desde há já muito tempo, a Alemanha parece considerar apenas que o que é bom para ela deve necessariamente ser bom para a Europa e deve arrastar consigo todo o continente numa fuga para a frente e que não deixa de se acelerar . Do dogmatismo económico à gestão da crise migratória que amedronta até ao acordo passado com a Turquia, não é tanto o Reino Unido que ameaça hoje a estabilidade do continente mas sim a intransigência cega de Angela Merkel e o desprezo bem evidente de Berlim no que diz respeito aos seus parceiros europeus.
A última demonstração disso mesmo é-nos dada por Gunther Krichbaum, presidente do Comité dos Assuntos Comunitários Europeus no Parlamento alemão e membro do CDU. Três dias após o Brexit, não hesitava em declarar publicamente: “A União europeia contará sempre 28 membros, após a saída do Reino Unido, uma vez que esperamos um segundo referendo sobre a independência na Escócia, que será então vitorioso.” Esta espécie de arrebatamento quase recordaria o episódio do reconhecimento expresso da independência croata feito por Berlim no dia 23 de dezembro de 1991, quando existia ainda a Federação Jugoslava.

Verdade seja dita, na sequência do Brexit, os Alemães não foram os únicos a inflamarem-se a respeito da independência da Escócia, da mesma maneira que puderam ameaçar com a urna dos votos após o sucesso de uma petição em prol de uma nova consulta que reuniu mais de três milhões de assinaturas em linha. O arrebatamento tem-se calmado desde então. Não é dito que se a Escócia escolhe separar-se, a City continuará a ser ainda, que isto desagrade a Paris e a Anne Hidalgo, pelo menos durante um certo tempo a primeira praça financeira mundial com Nova Iorque; quanto à famosa petição, esta foi arrumada no lixo como uma tentativa de manipulação da opinião pública. Esta serviu apenas para mostrar que a versatilidade dos meios de comunicação social pode desacreditar a noção mesmo de consulta popular de que se pedia a invalidação do referendo na base de uma simples petição Internet… Aquando a tomada em conta dos comentários Youtube das próximas eleições para o Parlamento europeu, história de continuar a promover na Europa uma democracia aberta e moderna?
A saída do Reino Unido da União Europeia tem pelo menos esta consequência positiva de que afasta definitivamente a perspetiva de um projeto de acordo (TAFTA) transatlântico assinado à pressa sob a pressão americana e alemã. Como confidenciou uma fonte próxima das negociações, enquanto que François Hollande encontrou um aliado de circunstância na pessoa de Jean-Claude Juncker, relutante a concluir um acordo tão apressado, Angela Merkel esforçava-se a todo o custo para levar David Cameron e Matteo Renzi na sua esteira para tentar arrebatar o que alguns dirigentes no PS ou no Quai d’Orsay classificam como a pior solução: a assinatura de um apenas projecto e já vinculativo. Se a partida de surpresa dos ingleses baralha bastante as cartas na mesa de modo a afastar esta perspetiva de assinatura , no entanto, não é certo que a longo prazo seja uma boa coisa que a pérfida Albion nos deixe sozinhos contra uma Alemanha que não pretende deixar-se dominar tão facilmente sobre a cena europeia como o deixou nos campos de futebol.
Os que vêem no Brexit uma espécie de prelúdio sonhado a uma saída do euro tanto esperada deveriam considerar que são talvez tão vítimas tanto quanto os partidários do euro do síndroma da palavra mágica.
A próxima crise financeira poderia arrancar, de toda a maneira, a pele da moeda única bem mais certa e rapidamente que todas as mantras dos “ euroexiters” e esperando-o, a Europa de Maastricht desagradando ao legado de Mitterrand, continuará a estar presente . Como diz a página filosófica em As alegres comadres de Windsor , uma comédia do grande William: “o que não se pode evitar, é necessário abraçar ..” O campo dos eurófilos cansar-se-á bastante rapidamente de andar a ladrar depois dos corvos da Torre de Londres. O heterogéneo partido dos eurófobos e entusiasmados defensores do Brexit deveria, ele próprio, meter na cabeça que a França não é o Reino Unido. Nenhuma fórmula mágica ou política providencial impedirá de se realizar dolorosamente a máxima de Shakespeare de que a política europeia irá abraçar o que não pode evitar. Contudo, será necessário efetivamente evitar que a exigente Angela nos reduza a jogar o papel de pequenos pagens europeus , um pouco à imagem de Nicolas Sarkozy, que foi a correr desde 20 de Junho a acalmar a mãezinha Merkel sobre o futuro do velho casal franco-alemão.
Se isto tivesse que terminar assim, poderíamos sempre contentarmo-nos com o nosso destino e sonhar como o pobre Hamlet: “Poderei viver recluso numa casca de noz e considerar-me rei de um império sem limites.” Malditos ingleses, que ainda foram os primeiros a disparar e tiveram a última palavra a dizer[1].
Laurent Gayard, Revista Causeur. Le Brexit n’a pas achevé l’UE… Texto disponível em: http://www.causeur.fr/brexit-union-europeenne-italie-allemagne-tafta-39153.html
________


1 Comment