REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 18. O BREXIT NÃO ACABOU COM A UE. TENHAM CALMA, A ALEMANHA TRABALHA PARA ISSO, por LAURENT GAYARD.

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E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota 

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O Brexit  não acabou com  a UE

Tenham calma, a Alemanha trabalha para isso

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Laurent GayardLe Brexit n’a pas achevé l’UE… Rassurez-vous, l’Allemagne y travaille!

Revista Causeur, 20 de Julho de 2016

Theresa May, que sucedeu à David Cameron no cargo  de Primeiro- ministro do Reino Unido, visita  Angela Merkel esta quarta-feira. Olhando com mais atenção para este facto será sem dúvida a Alemanha que  acabará por ter razão  sobre a União Europeia mais do que o resultado do referendo sobre o Brexit…

Gayard - I

Theresa May e Angela Merkel devem encontrar-se  em Berlim   nesta quarta-feira,  20 de Julho  (Photo : SIPA.AP21921548_000001)

Quando os  Alain Minc, Jacques Attali  ou Laurent Sagalovitsch   tiverem secado as  suas lágrimas, afrouxados os seus pequenos punhos fechados com a raiva dos resultados do Brexit, quando deixarem de insultar  os eleitores britânicos e comporem odes ao regresso do sufrágio censitário, quando isso acontecer aconselhá-los-emos  a que levantem o seu  olhar clarividente numa outra direção como, por exemplo,  a de Itália, cuja economia emite actualmente sinais bem mais inquietantes que o  Brexit .

Os Britânicos e Barroso (de que se soube recentemente que passará para o campo do inimigo  que é  Goldman Sachs) terão eles feito as malas na altura certa ?  Os bancos da quarta economia da Europa gerem atualmente 360 mil milhões de créditos de cobrança duvidosa  e  terão necessidade, como o  afirma    a revista The  Economist, de uma séria “limpeza”, ou seja de uma nova injeção de dinheiro público que os regulamentos europeus não permitem. Os bancos italianos têm atualmente necessidade de 40 mil milhões de euros para afastar o espectro de uma falência em cascata. Ora, as instituições da zona euro proibem  qualquer ajuda pública direta   aos bancos em dificuldade e a Alemanha impõe-se na matéria como o vigia intransigente das tábuas da lei  europeia, recusando qualquer flexibilidade da regra que, de acordo com Berlim, minaria a credibilidade das instituições bancárias europeias. Da mesma maneira que a Grécia antes dela, a Itália vê-se por conseguinte encurralada por uma gestão bancária inconsequente e também  apertada pelas normas de Bruxelas. .

As consequências a prever  poderiam ser bem mais pesadas que as do Brexit que tanto agitou os  nossos editorialistas  de choque. Para um consultor de uma grande sucursal bancária implantada em  Paris: “O PIB italiano é dez vezes o da Grécia. Ao lado da perspectiva  de uma falência bancária em cadeia na  Itália, a crise grega representa apenas alfinetes.” Se a Itália se  encontrar  confrontada com  uma crise bancária, a onda de choque seria de uma outra forma bem mais destrutiva  que a do Brexit. Os acionistas dos bancos italianos, sendo na sua maioria  particulares  em vez de instituições, as declarações de falência  poderiam provocar um empobrecimento de uma boa parte da classe média italiana e isto iria ter também   consequências eleitorais extremamente nefastas para Matteo Renzi, confrontado  já  com a  perspetiva de um referendo relativamente à  sua reforma constitucional no  próximo mês de Outubro e uma irresistível ascensão do Movimento 5 Estrelas.

E se não  houver apenas  a Itália… no dia  7 de Julho passado, a Comissão europeia publicou um relatório que denuncia mais uma vez a situação orçamental de Portugal e da Espanha e ameaçando estes dois países com a aplicação de sanções. No momento   em que as boas e santas  almas e os dirigentes  europeus apelam a uma  “refundação” e a uma solidariedade “postBrexit”, a Alemanha não fez grande caso, ao que parece, das intenções generosas e dos apelos à fraternidade continental. O que obceca sempre a Alemanha de Angela Merkel continua a ser  a preservação dos aforradores e o equilíbrio orçamental, ameaçado na Alemanha pela fatura de um  sistema de  pensões de reforma ainda agravado por uma demografia incessantemente  em declínio.  De Berlim, continua-se por conseguinte a gritar alto e relativamente aos  maus  gestores e sobre os que reclamam uma política de investimentos públicos que poderia perturbar o dogma da austeridade.

Os curiosos ou mesmo patéticos remédios dos nossos vizinhos alemães

Desde há já muito  tempo, a Alemanha parece considerar apenas que o que   é bom para ela deve necessariamente ser bom  para  a Europa e deve arrastar consigo  todo o continente numa fuga  para a  frente  e que não deixa de se acelerar . Do dogmatismo económico à gestão da crise migratória que amedronta até ao acordo passado com a Turquia, não é tanto o Reino Unido que ameaça hoje a estabilidade do continente mas sim a intransigência  cega   de Angela Merkel e o desprezo bem evidente  de  Berlim no que diz respeito aos seus parceiros europeus.

A última demonstração disso mesmo é-nos dada por  Gunther Krichbaum, presidente do Comité dos Assuntos Comunitários Europeus no  Parlamento alemão e membro do CDU. Três dias após o Brexit, não hesitava em  declarar publicamente: “A União europeia contará sempre 28 membros, após a saída do Reino Unido, uma  vez que esperamos um segundo referendo   sobre a independência na Escócia, que será então vitorioso.” Esta espécie de arrebatamento quase recordaria o episódio do reconhecimento expresso  da independência croata feito por Berlim no dia  23 de dezembro de 1991, quando existia ainda  a Federação Jugoslava.

Gayard - II

Verdade seja dita, na sequência   do Brexit, os Alemães não foram os únicos a inflamarem-se  a respeito da independência da Escócia, da mesma maneira que puderam ameaçar com a urna dos votos    após o sucesso de uma petição em prol de uma nova consulta que reuniu mais de três milhões de assinaturas em linha. O arrebatamento tem-se calmado desde então. Não é dito que se  a Escócia escolhe  separar-se, a City   continuará a ser ainda, que isto desagrade a  Paris e a Anne Hidalgo, pelo menos durante um certo tempo a   primeira praça financeira mundial  com Nova Iorque; quanto à famosa petição, esta foi arrumada no lixo como uma tentativa de manipulação  da opinião pública. Esta serviu apenas para mostrar que a versatilidade dos meios de comunicação social pode  desacreditar a noção mesmo de consulta popular  de que se pedia a  invalidação do  referendo na base de uma simples petição Internet… Aquando a tomada em conta dos comentários Youtube  das  próximas eleições para o Parlamento europeu, história de continuar a promover na  Europa uma democracia aberta e moderna?

A saída do Reino Unido  da  União Europeia tem pelo menos esta consequência positiva de que  afasta definitivamente a perspetiva de um projeto de acordo (TAFTA) transatlântico assinado à pressa  sob a pressão   americana  e alemã.  Como confidenciou uma fonte próxima das negociações, enquanto que  François Hollande  encontrou um aliado de circunstância na pessoa de Jean-Claude Juncker, relutante a concluir um acordo tão  apressado, Angela Merkel  esforçava-se a todo o custo  para levar David Cameron e Matteo Renzi na sua   esteira para tentar arrebatar o que alguns dirigentes no  PS ou no Quai d’Orsay classificam  como a pior solução: a assinatura de um apenas projecto  e já vinculativo. Se a partida de surpresa dos ingleses  baralha bastante as cartas na mesa de modo  a afastar esta perspetiva  de assinatura , no entanto, não é certo que a longo prazo seja   uma boa coisa  que a pérfida Albion  nos deixe  sozinhos contra uma Alemanha que não pretende deixar-se dominar tão  facilmente sobre a cena europeia como o deixou nos campos de futebol.

Os que vêem no Brexit uma espécie de prelúdio sonhado a uma saída do euro tanto esperada deveriam considerar  que são talvez tão vítimas tanto quanto os partidários do euro do síndroma da palavra mágica.

A próxima crise financeira poderia arrancar, de toda a maneira,  a pele da moeda única bem mais certa  e rapidamente que todas as mantras  dos  “ euroexiters” e esperando-o,  a Europa de Maastricht   desagradando ao legado  de Mitterrand, continuará  a estar presente . Como diz a página filosófica em As alegres comadres de Windsor , uma comédia  do  grande William: “o que  não se pode evitar,  é necessário abraçar ..” O campo dos eurófilos  cansar-se-á bastante rapidamente de andar a  ladrar depois dos  corvos da Torre de  Londres. O heterogéneo partido dos eurófobos e  entusiasmados defensores  do Brexit deveria, ele próprio, meter na cabeça  que a França não é o Reino Unido. Nenhuma fórmula mágica ou política providencial impedirá de se realizar dolorosamente a máxima de Shakespeare  de que a política europeia irá  abraçar o que não pode evitar. Contudo, será necessário efetivamente evitar que a exigente Angela nos reduza a jogar o papel de   pequenos pagens  europeus ,   um pouco à  imagem de Nicolas Sarkozy, que foi a correr desde  20 de Junho  a acalmar  a mãezinha Merkel  sobre o futuro do velho casal franco-alemão.

Se isto tivesse que terminar  assim, poderíamos sempre contentarmo-nos com o  nosso destino e  sonhar como o pobre Hamlet: “Poderei viver recluso numa casca de noz e considerar-me rei de um império sem limites.” Malditos ingleses, que ainda foram os primeiros a disparar e tiveram   a última palavra a dizer[1].

Laurent Gayard, Revista Causeur. Le Brexit n’a pas achevé l’UE… Texto disponível em: http://www.causeur.fr/brexit-union-europeenne-italie-allemagne-tafta-39153.html

________

[1] Nota de Tradutor. Em francês, no original:  Maudits Anglais qui ont encore tiré les premiers et eu le dernier mot.. Esta frase remete a uma  pequena troca de galhardetes na guerra de Fontenoy. Nesta batalha um oficial francês, Charles Hay (Lord Charles Hay), disse para o oficial inglês: Monsieur, nous n’en ferons rien ! Tirez vous-mêmes! A tradição popular reteve apenas desta citação: Messieurs les Anglais, tirez les premiers

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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