CRÓNICA DE DOMINGO – CARLOS DE MATOS GOMES E O 25 DE NOVEMBRO – por Carlos Loures

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Para muitos de nós, que vemos  o 25 de Abril como a data da libertação, uma espécie de «dia de todos os prodígios», torna-se difícil compreender a forma como militares que corajosamente derrubaram o regime salazarista, aceitaram o 25 de Novembro, o dia em que as potestades que durante meio século privaram os cidadãos portugueses das liberdades fundamentais, regressaram com nomes  e procedimentos diferentes. Como permitiram que políticos medíocres e partidos cujo ADN os denuncia como herdeiros da União Nacional, dominassem o País, alterassem a Constituição e extinguissem o fogo que na alma popular ardia e poderia ter dado lugar a uma democracia autêntica? Como puderam Pezarat Correia, Vasco Lourenço, Matos Gomes, o próprio Ramalho Eanes e mesmo Otelo Saraiva de Carvalho, aceitar e, em certas situações, colaborar com o tal «socialismo de rosto humano» que, eufemismos à  parte, sabemos significar «capitalismo à solta?».

Quando, aqui há dois ou três anos atrás colocámos a questão, entre silêncios e maniqueísmos histéricos, a melhor resposta chegou-nos de fora – o nosso querido amigo Josep Vidal, um argonauta catalanista e um excelente pedagogo e poeta, disse (em síntese) : O MFA, em 25 de Abril, entregou-vos o País desratizado e limpo e vocês, os de esquerda, em vez de se unirem em torno do que era fundamental, entraram em luta uns com os outros – otelistas, pró-albaneses e pró-chineses, pecepistas…

Na minha opinião, esta explicação é correcta. Nas manifes éramos muitos e ficávamos com a ilusão de que éramos todos. Nas eleições de Abril de 75, para a Assembleia Constituinte, o PS ficou à frente, e nós, PC  incluído,  logo somámos os votos dos «socialistas» (que designávamos por «xuxas») aos do PC e aos dos grupúsculos esquerdistas, construindo uma «maioria de esquerda» que só existia nas nossas cabeças.

Carlos de Matos Gomes e o 25 de Novembro

O coronel Carlos de Matos Gomes publicou um texto que classifica o 25 de Novembro como “a data da fundação do actual regime”. Mas, no dia do 39º aniversário novembrista, a equação entre data e regime não é enunciada para enaltecer a primeira, e sim para sublinhar o défice democrático do segundo.

Carlos de Matos Gomes (nascido em 1946) foi oficial de comandos na guerra colonial, ferido em combate e altamente condecorado. Aprendeu na guerra o sem sentido da guerra, ao menos daquela, e participou na primeira Comissão Coordenadora do MFA.

Durante a revolução dos cravos assumiu posições e subscreveu documentos mais à esquerda. Foi também acusado de envolvimento na destituição de Jaime Neves da chefia do Regimento de Comandos da Amadora, embora outras fontes sustentem que no momento decisivo se opôs ao seu afastamento. Posteriormente, com o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz, tornou-se prolífico autor de ficção, com várias novelas e romances, em grande parte tendo como pano de fundo ou cenário directo a guerra colonial. O texto que hoje publicou[…]parece começar em tom laudatório: “A política de desenvolvimento de Portugal nos últimos 40 anos tem um rumo certo, ao contrário do que dizem alguns críticos. A partir da implantação do novo regime em 25 de novembro de 1975, após o período transitório de 18 meses a que chamaram depreciativamente ‘o PREC’, os dirigentes democráticos souberam sempre para onde iam e os objectivos que prosseguiam”.

Mas o leitor desprevenido logo a seguir notará a introdução de uma nota sarcástica neste prosa: “É aqui que estamos e foi aqui que eles deliberadamente quiseram que chegássemos (…) O 25 de novembro é, na verdade, para o bem e para o mal a data da fundação do actual regime”.  Interrogando-se sobre a ausência de comemorações em mais este aniversário de uma data tão carregada de simbolismo, Matos Gomes ensaia diversas explicações, culminando nesta: “Os heróicos dirigentes da nova democracia trouxeram-lhes [aos portugueses] a mesma ideia de grandeza e progresso dos velhos aristocratas: é pela riqueza da corte e dos cortesãos que se vê a grandeza do reino!”

E traça seguidamente o quadro actual que corresponderia a esse critério: “Aí temos uma carrada de novos ricos do 25 de novembro, é só fazer correspondências com nomes badalados do comércio aos tribunais, da banca aos offshores, e encontramos com facilidade novos Braancamp, Sobrais, Cadavais, Carias, Farrobos, como os do tempo da regeneração, do cabralismo. Aí temos a nova velha Sociedade Lusa de Negócios, a SLN, mãe do BPN, o banco dos novos barões, como imagem de marca do novo regime!” Por outro lado, Matos Gomes vê também a adesão dos portugueses ao significado do 25 de Novembro mais como resignação perante uma “fatalidade” do que como entusiasmo perante novos horizontes da democracia. Hoje, diz-nos, “vêm do estrangeiro tropa e ordens para os portugueses se manterem na ordem e portarem bem. E eles aceitam com mansidão. Vem um cônsul do império e as elites locais reúnem-se à sua volta, em vénias e de mão estendida”.  E conclui, finalmente, que “os executores nacionais do 25 de novembro não podiam celebrar ao mesmo tempo o São Martinho, obedecer aos seus longínquos grandes senhores, deixando-lhes Angola para se entreterem, e mandarem o Jaime Neves enterrar o dito ‘preque’ da desordem interna. Para o magusto que se pretendia realizar eram castanhas demais ao lume”.

 

 

 

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