EDITORIAL – SOBRE O INCONTORNÁVEL DONALD TRUMP

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A eleição de Trump tem despertado reacções muito variadas. Desde contentamento, umas vezes mais oculto, outras vezes mais declarado, até à repulsa mais exacerbada. Com certeza que as posições variam conforme o espectro político em que as pessoas se situam, mas é indesmentível que o milionário que virou político (aqui entre nós, que ninguém nos ouve, político sempre ele foi. Ninguém é milionário sem ser “político”.) atraiu gente que andava arredada da política e completamente descrente da justeza das políticas desenvolvidas pelos sucessivos governos norte-americanos.

O problema é este: as propostas de Trump não divergem assim tanto, pelo menos tanto quanto nos querem fazer crer, das políticas norte-americanas das últimas décadas. No caso dos imigrantes, ele vai querer apenas agravar um tanto a situação dos que já estão no país, porque para ele, para os seus colegas milionários e afins, a imigração, incluindo a imigração clandestina, é muito importante para baixar o custo da mão de obra (isto ele não o diz alto). Tentará lançar cortinas de fumo com negociações bilaterais para reduzir a imigração futura. Na política internacional vai alternar as negociações espectaculares com as ameaças mais sonoras. Evidentemente que não vai alterar significativamente as estratégias anteriormente desenvolvidas. No proteccionismo económico e comercial é que ele vai apostar, e procurar obter trunfos para silenciar os protestos das classes trabalhadoras. Falará da “ameaça chinesa”, e de outras que há de seleccionar, usando o calão racista que infelizmente parece ter muita aceitação entre os seus compatriotas e que, deve-se assinalar, também é usado noutras partes do mundo, como na Europa, para referir os refugiados e justificar as políticas de austeridade.  O caso mais grave com ele vão ser, claramente, as alterações climáticas e a defesa do ambiente, cuja existência Trump, tal como a maioria dos seus colegas plutocratas, está muito renitente em reconhecer, assim como a gravidade que constituem para os Estados Unidos e para o mundo.

É inegável que foi muito grave para um país que se pretende democrático eleger alguém como Donald Trump. Os admiradores acríticos e incondicionais do sistema político norte-americano, na sua maioria, estão de mãos na cabeça, tanto quanto nos é dado aperceber, com o facto. Deveriam antes meditar sobre as graves insuficiências de que padece o sistema que tanto admiram, desde a escolha final ser feita pelos  grandes eleitores, e não pelo voto directo, até ao uso dos chamados caucus para escolher os candidatos à eleições. E rever atentamente todo o processo da caminhada de Trump para o poder, fazendo o mesmo com os dos seus concorrentes, começando pelo de Hillary Clinton.

Sobre esta parece estar a decorrer um movimento para a sua reabilitação, após a sua derrota. É um facto comprovado que, no total, teve mais votos do que Trump, mas que perdeu devido ao sistema dos grandes eleitores. Entretanto, que garantias daria de proceder de maneira muito diferente de Trump, inclusive nas questões sociais? O seu currículo não aponta nesse sentido, e nomeadamente nas questões internacionais, como autoproclamada discípula de Henry Kissinger, há razões para pensar que se ter grandes aumentos de tensão em situação já em estado muito complicado. Por outro lado, a sua competição com Bernie Sanders no interior do partido democrático não decorreu de maneira clara. Todos estes factos concorreram para ajudar Donald Trump a vencer a eleição. Hillary Clinton foi uma má candidata. Reconhecê-lo não é excessivo, pelo contrário:

Propomos que cliquem nos links abaixo, e que leiam um artigo de Teresa de Sousa e dois de Naomi Klein, de sentido diverso:

https://www.publico.pt/2016/11/13/mundo/noticia/parem-de-dizer-mal-de-hillary-clinton-1750949

http://www.naomiklein.org/articles/2016/11/trump-defeated-clinton-not-women

http://www.naomiklein.org/articles/2016/11/it-was-democrats-embrace-neoliberalism-won-it-trump

1 Comment

  1. Curioso é não haver uma linha que refira a rebeldia manifesta da população ianque perante a malandragem que há mais de meio século tem governado os EUAN. Pelos vistos a luta de classes tem de ser como vem nalgum livrinho de bolso. Leia-se Samir Amin.CLV

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