EUROPA: MERKEL CRIA O VAZIO – A CHANCELER ENTERRA UM DOS SEUS PARCEIROS EUROPEUS – por LUC ROSENZWEIG

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Selecção, tradução e notas de Júlio Marques Mota

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Europa: Merkel cria o vazio

A chanceler enterra um dos seus parceiros europeus

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Luc Rosenzweig, Europe: Merkel a fait le vide-La chancelière enterre un à un ses partenaires européens

Revista Causeur, 6 de Dezembro de 2016

Do Brexit à vitória do não no referendo italiano lançado por Mateo Renzi, os líderes europeus, um após outro, continuam a ser negados pelo seu respetivo povo. Neste fracasso, Angela Merkel desempenha um papel evidente, à medida da sua estatura de líder europeu…

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Mateo Renzi et Angela Merkel. Sipa. Numéro de reportage : AP21941369_000021.

Recordemos: em Setembro de 2015, Cameron habitava no número 10 de Downing Street, Matteo Renzi irradiava o seu juvenil ardor no Palácio Chigi, em Roma, esperança de uma social-democracia europeia que se arrasta com dificuldade para encontrar as suas referências na situação de desgraça do mundo, a Polónia ainda não tinha tombado para o lado do ultraconservadorismo católico, François Hollande, embora impopular, podia ainda sonhar em disputar o cargo, num jogo indeciso, face ao seu velho rival e cúmplice Nicolas Sarkozy. A subida em força dos movimentos populistas por todo o continente era certamente preocupante para os poderes em exercício, mas estava-se proibido de imaginar que um ano depois, o jogo de massacre democrático dos poderes estabelecidos provocaria uma tal hecatombe.

Tusk, Cameron et Renzi? Kaputt!

Numa manhã de segunda-feira 5 de dezembro de 2016, o campo político europeu assemelha-se ao de Eylau[1] descrito por Victor Hugo: os vencedores em Viena, certamente, onde um velho e rabugento ecologista derrotou o jovem e coxo diabo da extrema-direita, mas em que à sua volta, só havia cadáveres! Cameron, o inglês? Derrubado pelo Brexit! A liberal Polónia de Donald Tusk? Regressou às suas paixões beatas e nacionalistas! Renzi a esperança florentina da Itália regenerada? Expulso de Roma por uma coligação que vai da extrema-direita à esquerda radical! Hollande em Paris? Encurralado numa capitulação com direito de pena suspensa devido à confusão criada nas suas próprias hostes? Rajoy da Galiza? Sempre vivo, certamente, mas assim em tão lamentável estado que mete mesmo pena de o ver colocado como um grande da Espanha na tormenta que se anuncia.

Resta Angela Merkel, a Prussiana. Será, que ninguém tenha dúvidas disso, confirmada, a 7 de Dezembro, como candidata a chanceler pelo seu partido, a CDU, reunido em congresso em Essen. Ela sai incólume ou quase da furiosa confusão do ano precedente, com possibilidades razoáveis de suceder a si-mesma no outono 2016. Que importa que os meus vizinhos pereçam, se isso me permite sobreviver!

Porque é necessário não nos enganarmos: em setembro de 2015, este mês terrível em que, com efeito, se decidiu o destino dos seus pequenos camaradas europeus, estávamos no centro da crise migratória. Foi ela, e ninguém mais que, com as suas imprudentes declarações de boas-vindas gerais a toda a miséria do mundo, abriu as comportas [para a entrada dos migrantes, dos refugiados].

A crise migratória solitariamente (mal) gerida

Foi ela que, sem consultar ninguém, foi a Canossa[2], perdão, a Ancara, para obter, a preço de ouro, do sultão Erdogan o encerramento destas mesmas comportas. Durante este tempo, o fluxo, longe de ter diminuído, desviava-se para Calais e Lampedusa. Contrariamente ao futebol, no campo geopolítico, é às vezes rentável jogar individualmente. Ninguém duvida hoje que a questão migratória foi determinante na vitória do Brexit na Grã-Bretanha, e que contribuiu para a união contra Bruxelas e Berlim, das nações da Europa central e oriental, e em França, para desfazer ainda mais em pedaços uma esquerda agitada pelos ataques terroristas contra os seus cidadãos.

Merkel é hoje a rainha de um galinheiro europeu cercado de patos coxos: a França dos assinantes ausentes durante cinco meses[3], a Inglaterra toda ela ocupada a gerir o seu Brexit, a Itália decapitada e à beira do caos político, a Espanha à mercê de uma inversão de maioria nas Cortes.

Obama saído da Presidência, Merkel encontra-se sozinha em frente de um Putin que assumirá totalmente o controlo da situação se Donald Trump decidir não prosseguir a linha do seu antecessor de confrontação com a Rússia, na Síria e na Ucrânia. Não é o seu anúncio de aumentar o orçamento alemão da defesa de 1,2% para 2% do PIB que fará correr o risco de fazer tremer o Kremlin! Angela Merkel será reeleita, talvez, porque os Alemães estar-lhe-ão muito reconhecidos por ter sabido colocar os seus interesses imediatos em primeiro lugar mas arrisca-se fortemente a aparecer, aos olhos da História, como o coveiro chefe da utopia europeia. Não tendo até hoje lido em lado nenhum o termo feminino para a profissão de quem tem como função abrir túmulos, não gostaria de ser o primeiro a utilizá-lo.

Luc Rosenzweig, Causeur.fr, Europe: Merkel a fait le vide-La chancelière enterre un à un ses partenaires européens. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/merkel-italie-renzi-brexit-europe-41466.html

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[1] A batalha de Eylau travou-se em 1807, na Polónia, então dividida entre a Áustria, a Rússia e a Prússia, entre os exércitos de Napoleão e a coligação austro-russa. Terminou sem resultados decisivos, apesar das perdas enormes sofridas por ambos os lados.

[2] Cidade italiana onde, em 1077, o imperador Henrique IV da Alemanha esteve três dias na neve, de cabeça descoberta, aguardando o perdão do papa Gregório VII, que o tinha excomungado na sequência de uma série de conflitos à volta da primazia entre o poder temporal e o papal.

[3] Obviamente refere-se à situação que se vive em França aguardando a eleição presidencial agendada para Abril de 2017.

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