CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – 1.C- SOBRE LAUTENBACH: JÚLIO MARQUES MOTA PUBLICA A NOTA 2 DO TEXTO DE LAUTENBACH COMENTADA PARA UM AMIGO MEU – ANEXO. NOTA 2. – II

Selecção, tradução e comentários por Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

1.C- Sobre Lautenbach: aqui publico a nota 2 do texto de Lautenbach comentada para um amigo meu[1].

ANEXO. Nota 2.

 

O texto em cada enquadrado é a explicação para os parágrafos que o antecedem.

(continuação)

 

Na frase “A condição de igualdade entre a receita total e a despesa total dentro do período em análise é muitas vezes referida como o ” equilíbrio do ciclo “, Lautenbach refere-se não a um ponto do tempo mas a um período de ciclo de 5-10 anos, sendo para ele certo que os diversos momentos do tempo e do ciclo se articulam entre si. E o problema que ele quer tratar é o da determinação dos lucros que SÓ SURGEM PÓS-VENDA das produções

Pode-se tratar de um “desequilíbrio” associado aos preços no mercado de trabalho (desemprego involuntário): às taxas salariais existentes, a procura de empregos é maior que a oferta. No entanto, consideramos a expressão equilíbrio como inadequada, porque com esta expressão, e como mostra a controvérsia (z. B. Hahn, Ordo II. 175), a ideia de estabilidade, de duração, até mesmo de preço de equilíbrio, de equilíbrio equitativo, combina todo um conjunto de coisas que devem ser avaliadas especificamente e por referência a uma anterior posição de equilíbrio, o que está longe de ser aceite.

Tudo isto já não precisa de ser aqui mais discutido. O que agora e aqui é decisivo, é o seguinte: não há nenhum tipo de política monetária sob a condição de igualdade de receitas e despesas no período entre todos os grupos, que faça com que a atividade económica mude seja o que for, pois esta não pode crescer, [por falta de estímulo da procura]! Um certo tipo de teoria da política económica está a começar a admitir que a política monetária tem uma influência direta sobre o nível de atividade económica.

Qualquer de nós tem de sentir-se pequenino perante o texto acima relativamente aos pontos de vista de Lautenbach.

Sublinhe-se o excerto seguinte:

“Tudo isto já não precisa de ser aqui mais discutido. O que agora e aqui é decisivo, é o seguinte: não há nenhum tipo de política monetária sob a condição de igualdade de receitas e despesas no período entre todos os grupos, que faça com que a atividade económica mude seja o que for, pois esta não pode crescer, [por falta de estimulo da procura]!”

Isto, enquanto política económica, representa o contrário da politica seguida na União Europeia desde que rebentou a crise.

Os nossos leitores que nos desculpem. Vale a pena reler o que afirmou Bernanke e que é claramente uma espécie de eco do que acabamos de citar, escrito nos anos 30 do século passado. Na sua conferência proferida no verão de 2012, o então Presidente do Federal Reserve americano, Bernanke, afirmou, contra todo o establishment americano e europeu, TROIKA inclusive, portanto contra Draghi igualmente:

“Normalmente, as políticas monetária e orçamental são em primeiro lugar destinadas a promover um mais rápido ritmo na recuperação económica no curto prazo. E não se poderia esperar que venham a afectar de modo significativo o comportamento da economia e os seus resultados, a longo prazo. No entanto, as circunstâncias actuais podem ser consideradas uma exceção relativamente à ideia normalmente aceite – a excepção a que aludi anteriormente. A nossa economia está a sofrer hoje de um nível extraordinariamente elevado de desemprego de longa duração, com quase metade da dos desempregados a estarem nesta situação há mais de seis meses. Sob estas circunstâncias claramente fora do comum, as políticas que promovam uma recuperação mais forte no curto prazo podem servir também os objetivos de longo prazo. No curto prazo, colocar as pessoas de volta ao trabalho significa reduzir as grandes e duras dificuldades infligidas pelos difíceis tempos que a economia atravessa e ajuda a garantir que a nossa economia venha a estar a produzir ao nível do PIB potencial em vez de estar a deixar por utilizar os nossos recursos produtivos. No longo prazo, com a minimização da duração do desempego apoia-se a criação de uma economia saudável evitando-se, por isso mesmo, alguma erosão das capacidades e dos saberes assim como se evita a perda da inserção do trabalhador no trabalho e na sociedade, perda esta que está frequentemente associada ao desemprego de longa duração.

Não obstante esta observação, que aumenta a urgência para a necessidade de alcançar uma recuperação cíclica do desemprego, a maioria das políticas económicas que sustentam uma taxa de forte crescimento económico sustentado no longo prazo estão fora do alcance do banco central. Nós temos estado agora a assistir a grandes discussões sobre a política fiscal federal nos Estados Unidos, por isso vou fechar com algumas ideias sobre o assunto, centrando a nossa atenção no papel da política orçamental na promoção da estabilidade e do crescimento. (…)

Felizmente, os dois objetivos que são o de alcançar a sustentabilidade orçamental – que é o resultado de políticas responsáveis postas em prática e em termos de longo prazo – e o de evitar a criação dos ventos orçamentais contrários à recuperação económica, estes dois objetivos não são incompatíveis. Agir agora para por em prática um plano que assegure a redução dos défices a longo prazo, ao mesmo tempo que se está atento às implicações das escolhas orçamentais para a recuperação a curto prazo, pode ajudar a servir ambos os objetivos.

Os decisores das políticas orçamentais também podem promover um mais forte desempenho económico através da conceção de políticas fiscais e de programas de despesa pública. Na medida do máximo que lhes for possível, as nossas políticas fiscais e das despesas devem levar a que se aumentem os incentivos para trabalhar e para poupar, devem incentivar os investimentos na formação e no aumento das capacidades da nossa força de trabalho, devem estimular a formação de capital privado, devem promover a investigação e desenvolvimento e devem igualmente fornecer as infra-estruturas públicas necessárias. Nós não podemos esperar que a nossa economia vá fazer a sua trajectória de crescimento a prazo para lá dos nossos desequilíbrios, mas uma economia mais produtiva facilitará a que se encontrem as linhas de compromisso possíveis que enfrentamos actualmente. (…)

Os decisores das políticas económicas enfrentam uma série de decisões difíceis, relacionadas com ambos os desafios que enfrentamos, os de curto e os de longo prazo.  Não tenho dúvidas, porém, que as respostas a estes desafios serão encontradas e que as forças fundamentais da nossa economia irão, finalmente, reafirmar-se.”

O senhor Draghi e o senhor Schäuble deviam ler isto. Deviam ler também os alemães Lautenbach e Stutzel, respetivamente dos anos de 1930 e dos anos 50.

Não há política que nos salve se não há procura. Há aumento monetário, há descida das taxas de juro, mas isto não faz aumentar a procura, salvo se for para investimento! Mas vão investir para quê, se não há procura? No fundo o problema do penúltimo enquadrado. Sem mais nada só se houver ganância por mais consumo por parte da burguesia, só se houver introdução de projetos nacionais públicos que injetem procura no sistema, de bens de consumo e de bens de investimento, e esta injeção pode servir também de estimulo ao investimento privado.

Mas curiosamente o aumento do consumo da burguesia não resolve a questão se é feito, quando o é, se isso é acompanhado por uma redução igual ou superior do montante de salários.

Erradamente! Porque para mudar o nível de atividade económica (mudanças no nível geral de preços ou nas variações de volume das quantidades produzidas), estas mudanças só se podem verificar se não existe nenhuma igualdade entre despesas e receitas, qualquer que seja o ponto do período considerado! Para que uma tal mudança se verifique, é mesmo necessário que haja uma mudança temporária no rácio Despesa/receita para que haja, isso sim, uma variação no nível de atividade e não uma variação no volume dos fundos disponíveis.

 

Se estivermos com despesa=Produção= Receita sem aumento de existências, bom então nada vai mudar. Só uma variação na relação entre Despesa e Receitas pode fazer mexer o sistema que se desloca para um ponto do ciclo em que temos: mais rendimento=mais despesa= mais produção. Se houver mais despesa, rompe-se imediatamente a desigualdade e faz-se avançar o sistema, e este vai produzir mais. Ora nós temos andado a fazer o contrário. A cortar na despesa…. Um espanto este texto.

É certo que no estado de “rigidez do ciclo” (igualdade entre o rendimento total e a despesa total ), o aumento da massa monetária pode ser neutralizado por uma variação na frequência da sua utilização [ou seja, por uma variação na sua velocidade de circulação], tanto quanto não é ainda permitido no nosso provisório “projeto experimental” induzir por iniciativa própria uma tal mudança no rácio entre as despesas e os rendimentos, ou seja uma mudança na proporção de receitas a despesas durante o período considerado. Esta exclusão de influência direta da política monetária sobre o nível de atividade é de novo metodicamente justificada; porque não se pode arbitrariamente “aumentar ou diminuir a massa monetária do sistema”. Primeiro, para que alguém retire dinheiro da circulação (colocando-o num cofre em casa ou colocando-o no banco) ou injete dinheiro na circulação, reduzindo a sua conta bancária ou contraindo empréstimos junto do banco terá de ter uma razão económica para o fazer. Primeiro que tudo esse alguém tem que ter uma razão para abandonar a igualdade entre as suas receitas e as suas despesas durante o período considerado e só então é que irá provocar a diminuição ou aumento da massa em circulação. Para mudar a posição no ciclo, o mesmo é dizer, para mudar o nível de atividade económica no ciclo é então necessário alterar a proporção de receitas e despesas durante o período e para isso é necessário ou um aumento do papel-moeda em circulação, cash, ou uma capacidade bancária suficiente para a liquidação necessária para se efetuarem as transações e aqui sim estamos perante já uma condição suficiente para mudar o nível de atividade do ciclo. Só se os meios de pagamento disponíveis não são suficientes, então os bancos devem agir em conformidade e aqui estamos perante mais uma condição necessária para a mudança no ciclo, condição esta que por si só não é suficiente. (ver. p.131 no original).

 

Repare-se no texto acima de que reproduzo um excerto:

Primeiro, para que alguém retire dinheiro da circulação (colocando-o num cofre em casa ou colocando-o no banco) ou injete dinheiro na circulação, reduzindo a sua conta bancária ou contraindo empréstimos junto do banco, terá de ter uma razão económica para o fazer. Primeiro que tudo esse alguém tem que ter uma razão para abandonar a igualdade entre as suas receitas e as suas despesas durante o período considerado e só então é que irá provocar a diminuição ou aumento da massa em circulação.

Tem que haver uma razão económica para alterar a igualdade entre receitas e despesas. Se me dão razões para acreditar no futuro posso reduzir a minha conta bancária e aumentar a despesa, fazendo subir a proporção entre Despesas e Receitas: se me dão fundamentos para ter medo do futuro reduzo a minha despesa e aumento a minha conta bancária, reduzo a despesa, reduzo a proporção despesa/receitas. Podemos fazer o mesmo raciocínio colocando em vez do consumidor o empresário que quer consumir mais ou que tem medo do mercado e contrai a sua própria despesa ou reduz custos antecipadamente despedindo pessoal. Ora as condições económicas dependem também muito do contexto socio-político. A questão de fundo é como é que se ganha dinâmica económica, como é que se parte para uma via de crescimento. De certeza que não é contraindo a procura agregada.

Se quisermos saber como é que as contrações ou expansões do nível de atividade económica se podem gerar (ou, em razão de que forças é que o nível atual de atividade num dado momento está ao nível em que está) devemos então procurar primeiro responder às seguintes perguntas:

  1. Até que ponto devem ir as mudanças económicas na proporção de receitas e despesas durante o período considerado?

  2. Quais são as regularidades nestas mudanças?

A enumeração de todas as possibilidades em 1. traduzir-se-iam numa classificação de todas as componentes económicas possíveis.

(continua)

________

Quanto às dificuldades de tradução remeto o leitor para o texto 1-A. – Deambulações em torno de um texto de Lautenbach publicado nesta série de textos. Clicar em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/03/06/crise-da-democracia-crise-da-politica-crise-da-economia-o-olhar-de-alguns-analistas-nao-neoliberais-1a-deambulacoes-em-torno-de-um-texto-de-lautenbach-por-julio-marques-mota/

________

Para ler a primeira parte desta nota ao texto de Lautenbach, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/03/11/crise-da-democracia-crise-da-politica-crise-da-economia-o-olhar-de-alguns-analistas-nao-neoliberais-1-c-sobre-lautenbach-julio-marques-mota-publica-a-nota-2-do-texto-de-lautenbach-come/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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