PARA ONDE VAI O PARTIDO DEMOCRATA ITALIANO? – por ANNA ROSA SCRITTORI – tradução de MANUEL SIMÕES

 

 

As origens

 

Na prestigiosa sede do “Lingotto” de Turim, antigas oficinas da Fiat, depois transformadas por Renzo Piano num centro cultural multimédia, teve lugar, há dez anos, o congresso de fundação do “Partito Democratico”, um projecto político de centro-esquerda, assaz ambicioso porque pretendia fundir a tradição do reformismo católico com a cultura laica da esquerda pós-comunista. Desde logo, todavia, as duas distintas raízes culturais do novo partido tiveram dificuldade em exprimir uma acção política homogénea e partilhada. Já em 2008, depois da inesperada vitória eleitoral de Berlusconi, Waltar Veltroni, não obstante o sucesso conseguido (34% dos votos), deixou o cargo de secretário do PD a Pier Luigi Bersani; em 2011, depois da demissão de Berlusconi, o novo governo técnico de Mario Monti, saído de acordos parlamentares, obteve o apoio do centro-esquerda; nas eleições legislativas de 2013, o PD obteve um sucesso parcial (25%) e o seu vice-secretário Enrico Letta foi obrigado a formar um governo de coligação com um partido de centro, saído da formação berlusconiana; no final de 2013, depois da vitória nas primárias do partido, Matteo Renzi tornou-se secretário do PD e, como tal, conseguiu suspender o apoio do partido a Enrico Letta e, com voto parlamentar, substituiu-o no governo, mantendo o acordo com os centristas.

Passado recente

Os  últimos três anos de vida do Partido Democrata foram obviamente determinados pela prepotente personalidade do seu jovem líder. Proveniente dos círculos do catolicismo popular de Florença, Matteo Renzi demonstrou-se logo dotado de uma fina intuição política e de grande capacidade de decisão. Na comunidade europeia, por exemplo, opôs-se frequentemente às políticas restritivas da U.E. e reivindicou um papel activo da Itália como sócio fundador da União. Na política interna, pelo contrário, a sua liderança inaugurou uma densa agenda de reformas, como a reforma da Escola, aprovada não obstante os protestos dos professores; a abolição do imposto sobre a primeira casa; a reforma do estatuto dos trabalhadores (“Jobs’act), muito criticada pelos sindicatos, dado que a introdução do contrato por tempo indeterminado não significa pleno direito à continuidade de trabalho. O reconhecimento dos direitos civis à união de facto, hetero ou homossexual, foi, por sua vez, acolhido unanimemente (com exclusão do Vaticano).

Mas foi no plano institucional que Renzi jogou a credibilidade da sua liderança; particularmente com a reforma da Constituição (1948), pretendeu reduzir a autonomia legislativa e financeira dos governos regionais,  anular as administrações provinciais e eliminar o bi-parlamentarismo perfeito, transformando o Senado numa câmara das autonomias regionais, portanto não legislativa e não eleita pelos cidadãos.

A sua proposta de uma nova lei eleitoral, o famoso “Italicum”, pretendia assegurar estabilidade de governo com um sistema de duas voltas, um prémio da maioria com 37%, uma barragem fixada nos 3%, cem colégios uninominais com cabeças de lista escolhidos pelos secretários de partido. Tais reformas, embora aprovadas pelo Parlamento com o consenso do partido de Berlusconi, mas não da minoria do PD, necessitavam, por lei, da aprovação dos cidadãos e o referendum consultivo teve lugar, como se sabe, em 4 de Dezembro último. Durante a longa e acesa campanha referendária, Renzi cometeu o erro de personalizar excessivamente o êxito da votação, fazendo entender aos eleitores que um sim aos quesitos referendários equivalia à aprovação incondicional do líder do PD e da política do seu governo. Como é conhecido, os eleitores italianos rejeitaram definitivamente aquele projecto de reforma com uma maioria esmagadora (60%). Além disso, algumas semanas depois da consulta constitucional, Renzi avançava com excepções de inconstitucionalidade para o “Italicum”,  modificou-o, tirando a segunda volta, e elevando para 40% o limiar do prémio de maioria.

Herdeiros não sobreviventes

A data de 4 de Dezembro de 2016 assinala naturalmente o início de um verdadeiro terramoto na política italiana. Enquanto as oposições pedem com firmeza a convocação imediata das eleições gerais, o governo Renzi cede o lugar ao de Paolo Gentiloni, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros no governo renziano. No interior do PD as duas almas do partido chegam ao ajuste de contas: a minoria, sempre hostilizada pelo chefe, pede a Renzi que reponha a agenda do partido com base em questões concretas da vida social e económica dos cidadãos, reconhecendo os erros da sua liderança, mais preocupada com o sucesso pessoal do chefe do que com uma acção política, profunda e partilhada. Mas com o slogan “Herdeiros não Sobreviventes” Renzi rejeita as críticas como posições de uma esquerda obsoleta e rancorosa. À espera do congresso fixado para 30 de Abril próximo, renuncia ao cargo de secretário e candidata-se à secretaria do novo PD nas primárias que terão lugar por ocasião do congresso. A minoria anuncia a sua intenção de dar vida a uma nova formação de centro-esquerda (DP, Progressistas Democratas) com a adesão de 30/35 deputados e de 15 senadores. No interior do PD os grupos não renzianos serão representados, nas primárias, por Andrea Orlando, ex-ministro da Justiça, e Michele Emiliano, ex-magistrado, ex-presidente da Câmara de Bari e agora presidente da região Puglia.

Uma novidade interessante no campo da esquerda é a recentíssima formação do “Campo Progressista” guiado por Giuliano Pisapia, que foi um óptimo presidente da Câmara de Milão. Trata-se de um movimento de “esquerda/centro”, fora do PD, que pretende reunir várias experiências de esquerda e oferecer colaboração ao PD de Renzi para uma possível coligação de governo nas próximas eleições legislativas (2018), nas quais vence quem atingir os 40%. Tudo isto na intenção de contrastar a subida da direita de Berlusconi, dos “lepenistas” e do “movimento 5 estrelas”, criado por Grillo a partir das redes, por agora o primeiro partido nas sondagens eleitorais, não obstante os graves problemas de democracia interna emersos nos últimos tempos.

 

(trad. de Manuel Simões)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

2 comments

  1. Jose Oliveira

    O relato factual da evolução (involução?) do PD quase não aborda a questão crítica. A sucessão de factos comprova que se trata de movimentações de cúpulas e elites que pouco ou nada têm a ver com a população e cuja única preocupação é entrincheirarem-se no poder através de acordos e cedências, uns atrás dos outros. O facto de se apresentarem como sendo de esquerda é apenas uma máscara. Eles no fundo apenas pretendem a continuação do status quo com mais ou menos arranjos cosméticos. Ou seja, para eles o sistema está bem e recomenda-se. A verdadeira esquerda é o oposto de tudo isso. O sistema sabe e cerca-os também. Ou seja, nunca irão a lado nenhum. Nem sequer chegam perto do discurso do Papa que verberou como ninguém os perigos e excessos do capitalismo selvagem.
    Não esbanjámos……….Não pagamos!!!!!!!!!!!

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  2. Anna Rosa Scrittori

    Anna Rosa Scrittori
    Compreendo bem o ponto de vista do comentador. É verdade que muitos italianos, entre os quais me incluo, consideram o Papa Francisco como uma autêntica voz de esquerda. Quanto ao PD, quis apresentar a sua história recente sem me alongar muito; a questão principal que empenha a esquerda italiana é a de apresentar-se como credível força de governo: as divisões e as fragmentações internas do PD devem-se a opostas visões do poder na política interna e na Europa. Disto penso falar quando darei conta do resultado das primárias.

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