A GALIZA COMO TAREFA – menos mal que nos queda Portugal – Ernesto V. Souza

Portugal, para a gente galega é um destino frequente, um caminho, um mercado económico e laboral, um espaço de férias ou de formação. Para boa parte da Galiza culta e amante da sua língua e da sua Terra é também um sonho, uma esperança, um certo consolo ou alívio das penas.

Menos mal que nos queda Portugal era o título de um álbum da banda viguesa Siniestro Total, cujas populares letras impregnaram a sociedade galega dos anos 80 e 90 e ecoam hoje. Menos mal… podem perguntar que a gente segue, funciona como palavra de ordem, como dito irónico, ou simplesmente como síntese de certa possibilidade ou “recurso” que temos os galegos e que tão lindamente disse no seu dia Castelao com aqueles versos da Cantiga de Joan Arias de Santiago:

podemos  nós, os Galegos, criar para o resto da Hespanha um “perigo português”. Basta para tanto arrimarmo-nos em espírito e em verdade a Portugal. Os galeguistas já temos vontade de dizer ao Olimpo hespanhol, arremedando o antigo Trovador Joan Arias:

Se a justiça não me val 
Ante rei tão justiceiro, 
Ir-m-ei ao de Portugal.

[Sempre em Galiza, Livro Terceiro, XXIII, p.414; cito pela ed. em língua portuguesa de Fernando V. Corredoira, Através ed., Santiago, 2010)

No atual momento político europeu, com um Reino Unido abalado, dividido e paralisado após o shock do Brexit; com uma França perdida em debates internos e com uma assustadora emergência da ultra-direita na fantasia de um partido populista nacional; com uma Alemanha reconcentrada e sem capacidade ou interesse de ser guia e modelo; com uma Itália ainda padecendo as sequelas da época Berlusconi sobrevindas a décadas de políticas trapaceiras da Democracia Cristã; com uma Espanha na que o boomerang da corrupção política dos grandes partidos do antigo sistema rotativista atingiu fortemente os alicerces do modelo constitucional da Monarquia; com uns países Baixos também não no seu melhor…

Uma Europa que, em conjunto, tem de pagar agora os juros da sua aposta confiante no ultra-liberalismo económico e nas políticas de Direita e esperta medonha ainda com a ressaca dos anos do consumismo capitalista para contemplar arredor uma classe política corrupta, uma imprensa vendida e uma ascensão de discursos e manifestações de uma ultradireita xenófoba, racista e populista, que não por menos conhecida é menos assustadora.

A questão e que no meio desta crise político-económico-institucional que atinge à maior parte dos países europeus, ante a muito divulgada pela grande imprensa crise dos modelos da socialdemocracia e das políticas de esquerda na Europa, num contexto no que ainda têm força as teorizações a respeito da necessidade de recortes sociais para movimentar a economia, o exemplo do Portugal dos últimos dous anos parece questionar como ilha única isto tudo.

Talvez nunca foi mais verdade aquele dito que dizemos para nos consolar na Galiza: “menos mal que nos queda Portugal”.

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