Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em ação. Texto 11 – O plano de Trump e o dólar como moeda de reserva – Por Jean Claude Werrebrouck

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 11. O plano de Trump e o dólar como moeda de reserva 

Por Jean Claude Werrebrouck

Publicado por La crise des années 2010, em 24 de Janeiro de 2017

A política económica do novo presidente será uma estrada difícil para chegar a alcançar o objetivo de reindustrialização tendo como resultado esperado o equilíbrio das contas externas do país.

O plano de investimentos para as infraestruturas (1 milhão de milhões de dólares) associado com a redução das receitas de impostos vai ter como primeiro efeito o aumento da procura interna com uma resposta tardia da oferta. A razão é que o real desemprego massivo que se esconde numa taxa de emprego anormalmente baixa leva, leva logicamente muito tempo a absorver: remotivação para o trabalho daqueles que já tinham deixado as estatísticas de desemprego, reconversão dos trabalhadores, etc. Seguir-se-á logicamente um aumento do desequilíbrio externo acompanhando o das contas públicas (6-7% do PIB). Este é o destino quase natural de países que se tornaram sub-industrializados. No entanto, com uma exceção importante no caso norte-americano, a saber, a conquista da independência energética através do relançamento da extração de petróleo e gaz de xisto que se tornou rentável com o preço do barril a menos de 45 dólares.

O fim da livre-troca e o aparecimento de barreiras aduaneiras, incluindo para a China, para a UE e para o México, não irá resultar num regresso fácil ao equilíbrio [da balança corrente] por causa dos efeitos sobre as taxas de câmbio: queda nas moedas dos países fornecedores, subida do dólar por causa do aumento das taxas de juros nos Estados Unidos iniciadas pelo aumento da dívida pública. Uma variação das taxas de juros que irá limitar o efeito do preço dos impostos. Portanto, não é evidente que o duplo movimento de tarifas e taxas de câmbio faça cair as importações. Pelo contrário, a própria subida do dólar, ela mesma afetada pela possível política de subida das taxas estipuladas pelo FED. (O Fed manter-se-á independente?), deverá afetar a competitividade dos EUA em termos de exportações.

Mesmo a médio prazo, é muito difícil dizer que o retorno ao equilíbrio externo será assegurado. O fracasso do Trumpismo, se vier a ocorrer, seria bem-vindo para o resto do mundo que, por vezes, está consideravelmente excedentário face aos EUA (o défice dos EUA em relação à China representa 2% do PIB dos EUA em 2016, enquanto relativamente à Alemanha é de 0,8%). Sabendo que o défice dos EUA é de 2,95% do PIB, é fácil imaginar o efeito bola de neve de uma tal contração com o resto do mundo, nomeadamente a China (excedentária em 3,55% do PIB) e a Alemanha (7,81% do PIB, e mais precisamente 2% do seu PIB em excedente comercial só com os EUA) que não poderiam de modo algum reorientar o seu mercantilismo sobre outros países, eles mesmos afetados pelo retorno ao equilíbrio americano. Pense-se, por exemplo, no Japão que também tem um excedente pesado para com os EUA (0,4% do PIB dos EUA) ou o México, em que 80% das suas exportações se dirigem para o vizinho do norte, ou seja mais de 25% do PIB realmente muito dependente dos EUA.

Mas se o mundo deve desejar um fracasso para o novo presidente, é também por uma outra razão, ou seja, a escassez dessa liquidez internacional, que continua a ser o dólar.

Lembremo-nos que o dólar só se tornou uma moeda de reserva na medida em que após a Segunda Guerra Mundial era a única moeda convertível – ainda que apenas ao nível dos bancos centrais- em metal precioso, e moeda assente no poder incontestável dos EUA. Esta condição não foi, aliás, condição suficiente, e era necessário ir para além e poder permitir transferências massivas de dólares sobre o resto do mundo e fornecer oportunidades de escoamento à enorme máquina económica construída em tempo de guerra. Este período foi o do ” dólar gap “, um período caracterizado pela escassez de liquidez internacional compensada por transferências em que também estavam as enormes despesas militares em todo o mundo. Este período iria acabar no início dos anos 60 com os primeiros défices externos e o aparecimento de “contas dólar ” que alimentavam a liquidez internacional e que, por isso mesmo, este período foi designado de “período de abundância de dólares”. Depois, o equilíbrio externo nunca mais foi alcançado, uma realidade que veio a fazer o ninho da globalização futura.

Se os EUA alcançarem o regresso ao equilíbrio, sem que tenha havido qualquer concertação, teremos um mundo mais fechado de Estados nações a emergir e um mundo relativamente desprovido de liquidez para assegurar um comércio internacional que será provavelmente bem menor mas, ainda assim, será substancial. Como o retorno a uma nova moeda de reserva implicaria o surgimento de uma grande potência deficitária, não se vislumbra qual a moeda que poderia suceder ao dólar. Daí a pensar que por detrás da nova política norte-americana, há o retorno ao plano de Keynes de Bretton Woods, com o seu famoso “Bancor”, um passo que ninguém pode hoje dar.

Jean Claude Werrebrouck, Le plan Trump et le dollar comme monnaie de réserve, texto disponível em : http://www.lacrisedesannees2010.com/2017/01/le-plan-trump-et-le-dollar-comme-monnaie-de-reserve.html

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