Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em força. Texto 14 – Davos, o teu impiedoso universo, por Charles Gave

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 14. Davos, o teu impiedoso universo. Macron, o euro, Le Pen: um pequeno manual de engenharia social

por Charles Gave, economista

Publicado por Revista Causeur, em 14 de março de 2017

Da América à Europa texto 14

Emmanuel Macron no Forum de Davos, 2016. SIPA.

Tomemos a definição do homem Davos tal como fornecida pelo inventor do termo, Samuel Huntington, no seu último livro Qui sommes-nous (publicado pouco antes da sua morte, alguns anos depois do seu best-seller The Clash of Civilizations). Na maior parte dos países, as pessoas são patrióticas, ligadas à sua cultura, favoráveis à imigração, desde que seja controlada e constituída por populações que procurem assimilar-se abraçando “o romance nacional“ tão da preferência de Ernest Renan.

A secessão das elites globalizadas

Mas cada vez mais, diz Huntington, as elites que efetivamente estão no governo querem ser internacionais, em oposição a qualquer preferência nacional, em favor de massivos movimentos de população mudando a própria natureza das culturas locais e violentamente em oposição a qualquer romance nacional, tanto eles querem que os recém-chegados mantenham as suas culturas nacionais (?).

Para resumir, as elites querem-se e dizem-se cidadãos do mundo (homens de Davos) e não têm senão desprezo pelos cidadãos dos países que administram, como, de resto, é evidenciado pela frase da senhora Clinton tratando metade da população dos EUA de “deploráveis e racistas misóginos” e espantando-se depois por serem batidos no final da corrida eleitoral. A realidade é que os homens de Davos odeiam os homens enraizados no seu solo. Porquê? Eu não sei.

E o nosso autor informa-nos, toda esta elite foi formada nas mesmas escolas, passando alegremente da HEC (école des Hautes Etudes Commerciales de Paris) à Universidade de Harvard, ou da Politécnica a Cambridge ou ao MIT.

E os que não estão no governo estão no controle de grandes grupos multinacionais, que são, naturalmente, os principais beneficiários desta globalização feliz.

E os que não estão nem no governo nem nos grandes negócios estão nos meios de comunicação onde fazem o que seus colegas de classe lhes dizem para ser feito.

Todos lêem o Economist, o Financial Times, o New York Times e Le Monde, participam nos mesmos seminários e nas mesmas conferências, vão de férias para os mesmos lugares, casam-se entre eles e felicitam-se uns aos outros por terem chegado lá onde chegaram através dos media ou por publicarem muitos papéis para explicar, tal como o muito valente Pangloss pouco antes da Revolução Francesa, que vivemos no melhor dos mundos.

Como na parábola do fariseu e do plebeu, em qualquer cerimónia oficial, eles estão sempre sentados na primeira fila, enquanto os pobres plebeus, isto é, nós todos que não pertencemos a este grupo da superclasse temos o direito de nos colocar na fila de trás na condição de não nos mostrarmos e de não cheirarmos muito mal e, claro, desde que paguemos a conta.

Obviamente, eles são favoráveis à imigração em massa que lhes permite pagar muito pouco pelas encarregadas de cuidarem dos seus filhos, pelos jardineiros para as suas propriedades ou pelos motoristas encarregados de levarem os seus filhos para a escola.

Este superclasse domina o mundo da política e dos negócios desde há vinte e cinco anos, ou seja, desde a queda do muro de Berlim, sem interrupção. Antes, eles tinham cuidado porque os por eles considerados idiotas poderiam ir votar comunistas.

As aldrabices da superclasse

Infelizmente para eles, esta classe no sentido marxista, já apanhou algumas amolgadelas nas últimas eleições como a derrota do Brexit, o triunfo do Trump ou a desconcertante derrota, uma grande banhada, com o último referendo italiano. E, de repente, a nossa classe de génios percebeu que as pessoas já não se deixavam enganar com as suas mentiras e percebeu pois que tinha necessidade de inventar outra coisa. E, como eles são muito menos espertos do que pensam, os meios que utilizam para tentar manter o seu monopólio do poder são completamente previsíveis e ingénuos. Pessoalmente, pensei que seria interessante fazer aqui uma pequena síntese das suas mentiras. O meu objetivo é muito simples: eu quero fazer um jogo fácil e de execução imediata.

Quando algum de nós ouve uma dessas eminências a lançar-se numa explicação para ser eleito ou reeleito, será então necessário reconhecer o tipo de aldrabice e partilhar com outros leitores, explicando sobre que sentimento os nossos heróis tentam jogar para incitar os auditores a votar neles. As entradas aceites como válidas receberão gratuitamente um livro daqueles que eu reedito.

Aqui estão as aldrabices sem nenhuma ordem particular:

Número 1: O leitor, que é inteligente e que quase faz parte da classe super, será que pode votar como essa gente atrasadinha? Faz-se aqui apelo a dois níveis, ao desejo de pertencer e ao medo de ser confundido com os cretinos que estão abaixo na escala. Isto funciona muito bem com os semi-intelectuais que trabalham nos média ou na educação.

Número 2: se você explicar que lá bem no fundo ama o seu país, respondem-vos que Hitler também amava o seu. Isto é o que eu chamo de “redução ad hitlerum” e isto funciona perfeitamente em todos os debates televisivos. A ideia é cobrir-nos de vergonha para que nos calemos para sempre, o princípio é o da excomunhão outrora praticada com grande sucesso pela Igreja Católica. Isto funcionou com total satisfação quando a superclasse tinha o monopólio dos media, isto deixou de funcionar desde que todos os excluídos falam uns com os outros através da Internet e percebem que eles são a maioria. Num mundo onde há apenas protestantes, ser excomungado pela Igreja Católica não é muito grave.

Número 3: desde 2000, ou seja, bem antes da FN dizer isto, eu digo a quem quiser ouvir que o euro é um desastre e que vai desaparecer. Pois é, aqui está uma prova irrefutável de que eu sou um defensor da FN e, portanto, não tenho o direito de falar numa sociedade civilizada. O método aqui é simples: os super-homens pensam que controlam o “logos” [a razão, o pensamento] (ver meu artigo recente sobre o assunto). São eles que decidem o que pode ou não pode ser discutido na sociedade. Esta é uma forma de censura ostensiva, apoiada no princípio de autoridade que, de acordo com São Tomás de Aquino, é inadmissível durante uma discussão entre pessoas normais.

A questão não se põe“, nas palavras do advogado-geral na época do caso do Panamá. Dois pontos aqui: eu não lhes dei nenhuma permissão para monopolizarem a agenda do que pode ou não pode ser discutido e, depois, eu não vejo o que é que lhes permite excluir trinta por cento da população do debate público. Alguém deveria informar os meus super-homens que eles já não controlam o Logos.

Número 4: o leitor que é um homem pragmático (o que significa desonesto em bom francês), junte-se a nós. Nós controlamos todos os meios de comunicação, todas as universidades, nós conseguiremos nomeá-lo para a Comissão de Ética da federação francesa de bowling ou caça, convidá-lo-emos para visitas de estudo à Polinésia ou à Martinica no inverno, dar-lhe-emos um lugar na televisão onde dirá tudo o que lhe dissermos para ser dito e será então o orgulho do seu bairro. Isso é simplesmente a corrupção e, acreditem-me, isto funciona muito bem, especialmente com os jornalistas oficiais ou não.

A aldrabice Número 5 é de longe a mais subtil. Os poderes subterrâneos que nos governam preparam‑nos com muita antecedência para a chegada de um homem “novo”, sem história pessoal, sem se ter nenhuma ideia dele, de que ninguém sabe de onde veio, e este homem apresenta-se como candidato às eleições e é eleito triunfalmente. Como cada um dos leitores percebeu, pelo menos assim o espero, estou a referir-me a Obama, figura forjada pelo partido Democrata, de que ninguém se lembra dele em Columbia onde supostamente estudou, em que ninguém sabe, de resto, quem é que lhe pagou os estudos, estando o seu registo universitário bloqueado por cinquenta anos, sem que ninguém saiba qual a razão. Apesar de nunca se ter apresentado a uma eleição concorrida e não tendo nunca exercido qualquer responsabilidade, Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos debitando apenas banalidades. E esta eleição permitiu à minha superclasse permanecer no poder e mantê-lo para tosquiar calmamente os carneiros. No entanto, toda a gente se deu conta, oito anos mais tarde, que a marionete tinha sido esculpida até aos menores detalhes e seria necessário ser-se um perfeito idiota para acreditar que um ídolo era uma solução.

Quero dizer aqui que qualquer semelhança com Macron não é, de modo nenhum, uma coincidência. O Partido Socialista está a tentar repetir em França o golpe de Obama, substituindo Obama por Macron. Votar por Macron, é, obviamente, votar num fantoche ainda mais improvável que Obama e aqueles que não se dão conta disso, penso eu, têm um problema real de compreensão do mundo que os rodeia.

Fillon: um pecado não é um crime

Isso faz-me lembrar os escravos que votariam com entusiasmo pelo contínuo que os mantém em boa ordem, à conta de bastonadas. As cinco primeiras vigarices francamente são do tipo de piadas sem grandes consequências. A sexta é muito mais grave porque ataca o que constitui a essência da vontade de viver juntos, ou seja, a crença de que existe uma justiça imparcial. Destruir essa crença é destruir a nação, o que pode levar a uma guerra civil. Esta significa servir-se das instituições do Estado durante décadas para fazer cair os adversários demasiado eficazes, utilizando a Justiça para silenciar esses homens contando-se, claro, com a cumplicidade dos meios de comunicação social.

Tomemos o caso de François Fillon que não fez nada de ilegal, mas que pode ter feito algo que a maioria da população considera imoral, o que não é a mesma coisa. O papel do Estado é o de punir o crime e não o pecado, uma vez que este tem a ver apenas com a consciência de cada um. O candidato Fillon pode ter cometido um pecado, mas em nenhum caso, cometeu um crime, porque o que fez estava autorizado por lei.

Pelo contrário, se François Hollande e Macron utilizaram a justiça para distorcer os resultados da eleição, então isto é certamente um crime e todos deveriam ir para a cadeia se for possível prová-lo e com os juízes à frente.

Se a realidade é que se pode levar Fillon a tribunal, embora sendo certo que, eventualmente, não haverá necessidade, uma vez a eleição passada, e se os meios de comunicação se juntam à matança uma vez que todos eles estão dependentes dos membros proeminentes da superclasse, então podemos provavelmente eleger o boneco mencionado no parágrafo anterior, deixando para trás um homem honrado destroçado, com a sua família, à beira da estrada.

E as pessoas ficam com raiva. Isto é o que os jornalistas políticos, sempre às ordens, chamam “ser inteligente”. Isto não é, de modo algum ser-se inteligente. Isto é simplesmente ser criminoso. O resultado é óbvio: se quisermos fazer rir a assistência num café ou numa reunião diga simplesmente: “Eu confio na justiça do meu país“. E toda gente começa a rir à gargalhada. E estas risadas aterrorizam-me.

Porque a Bíblia, nos “provérbios” não tem uma palavra suficientemente dura para o juiz iníquo que se submete às ordens dos poderosos Para este homem, ou mulher, não pode haver perdão. O povo, desde há algum tempo que entendeu perfeitamente ter sido manipulado graças às técnicas que variam de um a cinco. Ele tende a dizer que esta é a prática habitual, ou seja, vira o disco e toca o mesmo.

Mas estou certo de uma coisa: em caso algum, o povo não perdoará a manipulação criminosa da justiça com fins baixos, se perceber que se procura evitar que dê o voto a quem ele o quer dar. Eu não sei, no entanto, e isto é muito importante. Será que esta revolta inevitável vai levar as pessoas a votar por Fillon ou por Marine Le Pen? O povo irá votar em Marine Le Pen se pensar que Fillon também pertence à superclasse.

E, neste caso, Le Pen será eleita. E os homens de Davos terão o que merecem.

Charles Gave, Economista. Revista Causeur. Davos, ton univers impitoyable- Macron, l’euro, Le Pen : petit précis d’ingénie sociale. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/davos-euro-macron-ue-huntington-43120.html

 

__________________________________________________________________________________

AF-flyer-A5-inequality-2016

Dia 11 de maio, pelas 18 horas no Grande Auditório do ISCTE-IUL: Conferência sobre como a desigualdade nos Estados Unidos criou Trump. Com a presença de Robert Reich, antigo Secretário de Estado do Trabalho (1993-97) na Administração Clinton. Especialista na área Económica e do Trabalho, Robert Reich é hoje um comentador político com grande reconhecimento nos Estados Unidos, bem como internacionalmente, tendo sido colocado pelo Wall Street Journal em sexto na lista dos “Mais Influentes Pensadores de Negócios”. Nos últimos anos tem-se dedicado ao combate à desigualdade, sendo um defensor do aumento dos salários e das condições laborais como forma de resolver as crises económicas e financeiras.

_____________________________________________________________________________________

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: