Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em ação Texto 20 – O ciclo neoliberal a chegar ao fim”. Entrevista com Jean-Michel Quatrepoint

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 20. O ciclo neoliberal a chegar ao fim”, entrevista com Jean-Michel Quatrepoint

Jean-Michel Quatrepoint, jornalista económico e ensaista

Publicado por Metamag em 22 de março de 2017

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Num vídeo publicado no canal de Xerfi, o senhor explica que nós estamos em vias de mudar de ciclo e que o neoliberalismo atingiu os seus limites. O que é que o faz dizer isso? Será a eleição de Trump nos Estados Unidos? O Brexit na Europa?

Sim. O neoliberalismo entrou num processo de refluxo, depois do seu pico que considero localizado em 2007-2008, com a grande depressão: a crise dita de subprime nos Estados Unidos, depois a crise dita da “dívida soberana” e a crise do euro, por ricochete, na Europa.

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Este ciclo neoliberal tinha começado a 15 de agosto de 1971, com o abandono da convertibilidade do dólar em ouro, ou por outras palavras, o fim do sistema de Bretton Woods. Um fim decidido unilateralmente por Nixon quando os Americanos tinham necessidade de criar muita moeda para financiar ao mesmo tempo a guerra do Vietname e a guerra das estrelas. Em 1971, dá-se uma viragem a favor de um sistema de câmbios flexíveis. Na mesma altura, a escola de Chicago [uma escola de pensamento neoliberal cuja figura emblemática é Milton Friedman] empreende um trabalho teórico destinado a construir um corpo de doutrina em rutura com o keynesianismo. Esta escola teoriza «o peso excessivo do Estado, a existência de demasiados sindicatos, demasiados conglomerados e monopólios». Esta escola defende a desregulação e a rutura do sistema para o tornar mais dinâmico.

Depois, Reagan chega ao poder nos Estados Unidos (Thatcher precedeu-o na Grã-Bretanha, da mesma maneira que o Brexit precedeu Trump com uma diferença de poucos meses) para aplicar este programa. É de resto engraçado recordar que ele se fez eleger na base do slogan “Make America great again”. Porque no fim dos anos 1970, a América é prisioneira de uma grande dúvida. Estamos após o caso Watergate, o impeachment de Nixon, a derrota ao Vietname, a tomada de reféns na embaixada do Irão. Além disso, é a época em que se levantam os primeiros problemas da desindustrialização. Os Estados Unidos chocam-se com a ambição japonesa, da mesma maneira que se chocam hoje com a ofensiva chinesa. Durante a primeira metade da década de 1980, organizam por conseguinte a contraofensiva. Esta salda-se pelos acordos monetários do Plaza de setembro de 1985. O Japão é posto de joelhos e é obrigado a revalorizar a sua moeda em 100% num ano. De passagem, a Alemanha deve revalorizar a sua moeda, ela também.

Quer com isso dizer em resumo que o início da Presidência Reagan correspondia à entrada num ciclo, como agora com a Presidência Trump resulta que estamos a sair dele?

Sim. Com algumas diferenças, mas também com semelhanças. Naquela altura – esta é uma diferença – Reagan começa por desmantelar os monopólios: nas telecomunicações, nos transportes aéreos, etc. Depois, desregula os mercados, liberaliza progessivamente os movimentos de capitais. Finalmente, vira-se para os europeus e pede-lhes para fazerem o mesmo, em nome da reciprocidade. Mas por outro lado – falo de semelhanças – Reagan dá um impulso fiscal às empresas, por um lado e, por outro, compromete-se a fazer as grandes obras de infraestruturas. No início dos anos de 1990, o comunismo entra em colapso.

 É uma nova etapa do ciclo…?

Completamente. Uma etapa decisiva. Considera-se que o sistema americano ganhou, dado que é o único a subsistir. Ganhou porque produziu mais riquezas no Ocidente e redistribuiu-as melhor que o comunismo. Dado que ganhou vai-se por conseguinte aplicar a aplicar as suas regras – comércio livre, privatizações, desregulação, democracia à ocidental – nos quatro cantos do mundo. E começa-se a teorizar a globalização.

Politicamente, os Estados Unidos entram na era Clinton. É um momento decisivo. Enquanto os Republicanos eram uma coisa sem serem a outra, pela primeira vez chegam aos comandos, com os Democratas, pessoas que são ao mesmo tempo muito neoliberais em economia e muito “diversitários” no plano cultural. Em consequência, vê-se crescer em força a glorificação das minorias e a sacralização das diferenças.

Em nome de uma certa ideia de «abertura»?

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E em nome da ideia que visto que se ganhou é porque temos o melhor modelo. Não há prosperidade possível sem a aplicação deste modelo. É o que os Americanos vão tentar explicar aos Chineses e aos Russos.

No que respeita aos Russos, visa-se sobretudo fazer deles fornecedores de matérias-primas. Mas primeiro são punidos desmantelando-se-lhes o edifício regional de que eles eram o centro. A Rússia passa a ter 140 milhões de pessoas enquanto a URSS contava 300 milhões. E Brzezinski – o autor muito ouvido “do Grande tabuleiro de xadrez” que durante muito tempo defendeu uma separação irreversível da Rússia e da Ucrânia – queria ir bem mais longe ainda.

Quanto à China, ela é vista como sendo um eldorado para onde as multinacionais americanas vão poder massivamente deslocalizar, na esperança de se apropriarem a prazo do mercado chinês. Os Estados Unidos encaram instalar toda a indústria na China e especializar-se nos setores da finança, dos serviços, da Defesa, do entertainment (Hollywood, os produtos culturais…). Previa-se igualmente que se compensaria o défice comercial assim gerado graças aos excedentes sobre os serviços os rendimentos das patentes, os capitais, e as compras de dívida americana pelos países que acumulam os excedentes comerciais. Lawrence Summers (economista e secretário do Tesouro de Bill Clinton em 1999-2001) de resto teorizou a coisa explicando que era necessário deslocalizar toda a indústria poluente para os países emergentes, e conservar sobre o solo americano unicamente as atividades “nobres” e de conceção.

Mas hoje, muda-se de política…

Para ser franco, é Obama que deveria ter feito esta viragem. Foi eleito precisamente para isso. Aquando das primárias democratas, ele tinha sido escolhido contra Clinton, para surpresa geral. Sabendo que os dois Clinton encarnam todos os processos de desregulamentação económica (revogação do Glass–Steagall Act que separava os bancos de depósito e os bancos de investimento, por exemplo), o voto Obama representava já uma tentativa de sair desta armadilha.

O problema é que Obama desiludiu enormemente. Contudo, ele queria agir. Mas capitulou face a todos os grupos de pressão e o balanço do seu Obamacare é muito mitigado. Em contrapartida salvou a General Motors e levou a bem uma revolução energética que permitiu ao país tornar-se autossuficiente face ao objetivo de diminuir o défice da balança comercial. Isto, não é pouca coisa.

Regressemos a Trump. Que pode ele fazer atualmente?

Trump tem uma obsessão, é o défice da balança corrente. E tem razão. Quando se olha para os números deste défice, apercebemo-nos de que nada se alterou sob Obama. As vantagens tiradas da política energética voluntariosa são apagadas. No último ano, o défice comercial cifrou-se em 750 mil milhões de dólares. Certamente, com 250 mil milhões de benefícios nos serviços e na finança, o défice da balança corrente é “apenas” de 500 mil milhões. Mas isto, faz já dez anos que esta situação é assim! É colossal! Porque seguramente, tudo isto se traduz por mais dívida. Com Obama, a dívida pública duplicou. Passou de 10 milhões de milhões a 20 milhões de milhões de dólares. Quanto à dívida privada, a das empresas e das famílias, atualmente ela volta a subir. A poupança é negativa nos Estados Unidos.

O que Trump quer, é acabar com estes défices colossais. Por conseguinte fixou-se como objetivo recuperar a indústria transformadora e a matéria fiscal. É também a razão pela qual se apressou em visar os países que têm excedentes sobre a América. Esses países são a China, a Alemanha, o México e o Japão. Este último, é uma peça chave do dispositivo geoestratégico americano no Pacífico, por conseguinte é relativamente poupado. Mas os três outros são bombardeados pela administração Trump.

De onde é que vem a ideia inverosímil do muro na fronteira mexicana, por exemplo?

Sim, este anúncio é muito simbólico. A minha hipótese é que Trump fez a escolha, porque é do seu temperamento e porque constatou o malogro de Obama em “ter um grande êxito”, incluindo mostrando-se muito provocador. Trump parte do princípio que com o establishment, a maneira suave é inoperante. Por conseguinte resolve-se a questão a maçarico. Por exemplo, brutaliza os jornalistas e dispensa os meios de comunicação social: ele usa o tweetter. E isto está longe de não ter efeito! Vejam as grandes empresas. O que conta para elas, é evidentemente o seu valor bolsista. E se o Presidente fizer um tweet que explica que Ford é uma má empresa americana porque quer deslocalizar 1000 empregos, imediatamente, a ação cai na bolsa.

A contrapartida é que Trump levou a que se constituísse uma associação de inimigos irredutíveis que farão tudo o que lhes for possível para se desembaraçarem dele. Entre estes figuram as agências de inteligência e informação, que são numerosas e empregam mais de 800.000 pessoas. Desde o 11 de setembro de 2001, assumiram uma importância considerável e constituem um verdadeiro Estado dentro do Estado. Entre os inimigos de Trump figura igualmente a administração, não menos ciosa das suas prerrogativas do que possa sê-lo em França. Vem depois o establishment mediático, que não tentou acalmar a situação nem um milímetro sequer. Outros inimigos, por fim, os gigantes da WEB, os “GAFA”, (os Google, Apple, Facebook, Amazon). Estes fascinavam Obama, que tudo lhes deixou fazer, que nada soube regular e que nunca conseguiu que repatriassem os lucros acumulados no estrangeiro. Trump, ignorou-os. Ganhou as eleições silenciando deliberadamente as costas Leste e Oeste, e não fazendo quase campanha a não ser nos dez Estados decisivos. Neste swing states, ele utilizou, aliás, na sua campanha um software fabricado por uma empresa que pertence a Peter Thiel, o único magnata de Silicon Valley que o apoiou e é hoje o seu conselheiro para as tecnologias. Este instrumento permite uma seleção de marketing extremamente fina que possibilitou aos organizadores da campanha identificar os eleitores que, nos Estados em causa, eram capazes de fazer inclinar a balança em prol do candidato. Era sobre estes que era necessário incidir o esforço e ao máximo.

Mas Trump foi eleito em circunstâncias improváveis, numa disputa eleitor a eleitor. Se ele só tem inimigos, com quem é que pode governar?

Com metade dos americanos, mesmo assim, isto é, com aqueles que o elegeram! Trump também tem do seu lado uma boa parte dos sindicatos, incluindo os dos transportes rodoviários, do setor petrolífero, do sector da construção. Inevitavelmente, com investimentos à altura de 1.300 mil milhões anunciados em infraestruturas…

Há também alguns banqueiros… e é paradoxal. Querer fechar um ciclo neoliberal rodeando-se de antigos quadros da Goldman Sachs… temos o direito de estar céticos, não?

Nós temos esse direito. Mas acho sobretudo que Trump compreendeu que não se pode ter muitos inimigos ao mesmo tempo. Assim, poupa Wall Street. Basta ver o mercado de ações dos EUA, supostamente iria estar em queda e na realidade afinal bate recorde após recorde. Além disso, é inteligente. Porque os GAFA, que muitas vezes estão sobrecotados no mercado de ações, têm mais necessidade de Wall Street do que o contrário. Se se zanga com uns é importante não estar de mal com os outros.

Uma parte do patronato, enfim, apoia Trump. Certos empresários efetivamente compreenderam que uma mudança de ciclo já tinha começado. O principal sinal é que o comércio mundial progride doravante menos rapidamente que o PIB mundial… ao mesmo tempo que este aumenta menos rapidamente. Desde há dois ou três anos, as grandes empresas, sem estarem a ir até ao ponto de se relocalizarem, começam a reorganizar a sua cadeia de valor. Os investimentos começaram já a ser reorientados antes da chegada de Trump à presidência. A dificuldade, nesta fase, é que estas coisas não se operam num estalar de dedos. Uma decisão de relocalizar um investimento pode exigir anos de estudo e de trabalho. Note-se igualmente: a criação de fábricas relocalizadas nos Estados Unidos levam até muito longe a lógica da robotização e não criam necessariamente tantos empregos quanto o esperado. É de resto aí que está a verdadeira questão do novo ciclo económico que se abre, e não somente nos Estados Unidos: onde é que se pode criar empregos?

O problema é tanto mais relevante quanto ninguém realmente antecipou a mudança de ciclo. Todos – até Pascal Lamy – concordam que a globalização foi longe demais. E que é necessário estabelecer regulamentações e travões. Que regulamentações, no entanto? E que travões?…

Entrámos nós numa fase de desglobalização?

Completamente. Ou de reterritorialização, ainda que as suas modalidades permaneçam por definir. A noção “de fronteira” está em curso de reconstrução.

E a Europa em tudo isto? Trump não tem deixado de vilipendiar os grandes países credores, ou seja, a China e a Alemanha. Que consequências pode isso ter sobre a Alemanha e, por conseguinte, sobre a Europa?

Não nos precipitemos. O principal problema para ele é a China, não a Alemanha. Os Estados Unidos permanecem muito dependentes de Pequim. E ainda que Trump tenha sido muito agressivo no início chamando a Presidente de Taiwan – era talvez uma gafe de resto – ele foi depois bem gentil para com os chineses renunciando ao TTP (Acordo de Parceria TransPacífico de Comércio e Investimento) que era dirigido explicitamente contra eles.

Vem depois a questão do mar da China. Os Chineses consideram que é o seu mar interior e que os Americanos não têm nada a fazer aí. Inversamente, os Americanos recusam desde sempre a ideia de que uma potência do Pacífico possua uma frota capaz de vir passar perto das suas costas. Para ser sincero, consideram-se como uma ilha e para eles – como para os Ingleses anteriormente – o controlo dos mares é essencial. Portanto, quando os Chineses mostram, como é o caso, o desejo de constituir uma frota de guerra com porta-aviões, trata-se para os Estados Unidos de um casus belli. Em suma, há aí, sem dúvida, entre as duas potências, um compromisso a negociar. Poderia consistir em deixar integralmente a mão aos Chineses no mar da China, e a pedir-lhes, por outro lado, um estrito respeito da doutrina Monroe (“a América para os Americanos”) enunciado no início do século XIX mas sempre presente.

Este “toma lá, dá cá” poderia também ser válido para com os Russos?

A Rússia, para os Americanos, não é um desafio da mesma amplitude que a China. A Rússia é verdadeiramente uma potência militar. É, de resto, um brilhante sucesso de Putin, que voltou a dar orgulho ao seu país utilizando o exército e com poucos meios. Em contrapartida, no plano económico, a Rússia não existe. O seu PIB é o da Espanha, pouco mais. É perseguida por essa maldição dos países produtores de petróleo que vivem da renda e não chegam a aceder à fase seguinte do desenvolvimento económico.

Por conseguinte, no fim de contas, se Trump quer normalizar as relações entre os Estados Unidos e a Rússia, é porque não vê nenhum perigo de especial por esses lados….

Não, a Rússia não é de maneira nenhuma um credor dos Estados Unidos. Acresce que os Americanos não têm nenhum interesse em que se forme uma aliança demasiado estreita entre a Rússia e a China.

 E para regressarmos à Alemanha?

Que quer a Alemanha? … É uma pergunta à qual eu teria muita dificuldade em responder, nesta altura. Esperemos para já, até se saber quem será o próximo chanceler, se Merkel ou Schulz. O SPD, com efeito, é tradicionalmente bem mais pró-russo que a CDU. Basta lembrarmo-nos da época Schröder, e a maneira como o eixo Paris-Berlim-Moscovo se opôs a Bush no momento em que este se lançava na guerra contra o Iraque.

Pode-se recrear este eixo? Para mim, o verdadeiro desafio da Europa é este. Ou a Alemanha joga o jogo “da Europa europeia”, para retomar uma expressão gaulista, e desse ponto de vista normaliza a sua relação com Moscovo. Ou a Alemanha joga o jogo do atlantismo e recusa então encarar a dimensão estratégica da sua relação com o mundo. Permanecerá então o país exclusivamente mercantilista que ela é atualmente, preocupada unicamente em ficar com a parte de leão no comércio mundial, usando e abusando para este fim de uma moeda que lhe convém, o euro. Mas não é certo que a construção europeia possa sobreviver muito tempo a esta segunda opção.

Jean-Michel Quatrepoint é o autor nomeadamente de Le Choc des empires. Etats-Unis, Chine, Allemagne: qui dominera l’économie-monde ? (Le Débat, Gallimard, 2014) e de Alstom, scandale d’Etat – dernière liquidation de l’industrie française (Fayard, em setembro 2015) . É membro do Comité Orwell presidido por Natacha Polony.

https://metamag.fr/2017/03/22/le-cycle-neoliberal-touche-a-sa-fin-entretien-avec-jean-michel-quatrepoint/

 

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