De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 2ª Parte: Os tempos de Lionel Jospin, tempos de vazio. Texto 2.3 – Em torno da campanha de Lionel Jospin: a falta de valores em política, por Jean-Pierre Esquenazi

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2ª Parte: Os tempos de Lionel Jospin, tempos de vazio.

 Texto 2.3 – Em torno da campanha de Lionel Jospin: a falta de valores em política

Por Jean-Pierre Esquenazi, professor em Ciências da Informação e da Comunicação (Universidade Lyon 3), autor de L’Écriture de l’actualité, (PUG) e de Sociologie des Publics (La Découverte).

Abril de 2003

Extrato do artigo Lionel Jospin e a campanha de 2002, Erro de comunicação ou erro político? (Lionel Jospin et la campagne de 2002, Erreur de communication ou erreur politique ?), publicado por CAIRN.INFO.

Resumo

Os atos políticos, no âmbito de uma campanha eleitoral, obedecem a regras precisas: os políticos devem representar um partido, exprimir a sua posição, prometer uma vida melhor. Estes três atos (representar, exprimir, prometer) organizam o discurso de qualquer candidato à eleição. No caso da campanha para as presidenciais de 2002, estes atos inscrevem-se no contexto de uma crise do político, onde a comunicação política já não aparece como um ato necessário, distinto da atividade política, mas acrescentado a esta. O falhanço de Lionel Jospin nesta eleição presidencial explica-se de forma bem simples se examinarmos as suas afirmações políticas neste contexto. O candidato, um Primeiro-ministro, muito simplesmente ignorou as regras constitutivas do jogo político: recusa-se a representar, é a expressão de si-próprio, promessas eleitorais confusas e vagas marcaram a sua campanha.

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A «crise do político»?

A campanha das últimas eleições presidenciais francesas desenrolou-se numa atmosfera específica. Repetia-se um pouco por toda a parte que a França vive “uma crise do político” em relação ao conjunto do pessoal político. Só Lionel Jospin, pelo menos durante os primeiros anos do seu ministério, pela sua “integridade”, pelo seu “rigor” e pelo seu “método”, teria sabido escapar a estas críticas. Contudo, certos acontecimentos, durante o ano de 2001 (a crise corsa, a substituição de Claude Allègre, os problemas de aplicação das 35 horas, etc.) começaram a atingir esta credibilidade duramente conquistada. Por outro lado, o ambiente “de crise do político” corroía de novo o país quando o Primeiro-ministro se envolveu na campanha.

Antes de se analisar as suas atitudes, vejamos primeiramente o significado deste termo: que queremos dizer quando falamos de “crise do político”? Observemos, em primeiro lugar que esta noção não está ligada a certos julgamentos negativos expressos a propósito de homens ou de discursos políticos. A recusa por um eleitor de esquerda em acreditar que uma política económica liberal possa ser “boa para a França” significa simplesmente que este eleitor não valida a promessa representada por esta política. A crise da política não visa os juízos de valor sobre as promessas dos políticos. Ela tem a ver com as condições de possibilidade da avaliação dos discursos políticos como promessas. Há pois crise do político quando o discurso político já não pode ser interpretado como uma promessa de um mundo melhor, com o qual se pode ou não concordar, mas que permanece para o intérprete uma visão política.

Quando há crise do político, a cena política já não consegue desempenhar de maneira aceitável o papel para o qual ela está destinada, o papel de permitir a escolha de um ator político para ocupar durante um dado período de tempo o cargo do poder. Esta rutura de crença produz-se, diz-nos Pierre Bourdieu, quando a homologia entre esta cena e o espaço social deixa de ser aceitável: “É esta homologia que faz com que […] os profissionais tentem satisfazer, por acréscimo, os interesses dos seus mandantes, dos seus dadores de ordens, e em que as lutas dos representantes podem ser descritas como uma mimesis política das lutas dos grupos ou das classes de que se consideram os grandes defensores”[1]. As razões de tal desfasamento são clássicas: ou é a peça que não interessa ou são os atores que são maus.

No primeiro caso, a estrutura do ou dos conflitos representados falha em configurar as situações reais dos atores sociais e daí que se possa dizer que a peça é má.  Estes não se sentem representados sobre a cena pública e estes, os cidadãos,  não validam os atos de representação que devem assumir os atores políticos. Estes desfasamentos produzem-se quando a expressão dos projetos apresentados pelos candidatos à eleição não correspondem às aspirações dos grupos sociais que pretendem representar. A multiplicação das candidaturas à eleição presidencial à esquerda do xadrez político de então revela, sem dúvida, o sintoma de uma crise deste tipo que atingia, desde o início do ano 2002, o eleitorado menos sensível à doutrina liberal. É porque certas posições cruciais da cena política permaneciam não ocupadas que numerosos candidatos se declararam para tentar preencher os vazios.

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N.T. A ilustrar a afirmação acima vejamos um quadro dos resultados da primeira volta das eleições presidenciais de 2002:

De uma crise a outra 2 Parte texto 2_3 imagem 1

De uma crise a outra 2 Parte texto 2_3 imagem 2

Agrupamento por referências políticas:

  • Extrema-direita: Le Pen, Bruno Mégret; total em percentagem: 19,20%
  • Direita: Jacques Chirac, Christine Boutin, Jean Saint-Josse, Alain Madelin ; total em percentagem : 29,21%
  • Centro: Corinne Lepage, François Bayrou; total em percentagem: 8, 72%
  • Esquerda: Christiane Taubira, Noël Mamère, Lionel Jospin, Robert Hue, Jean-Pierre Chevènement ; total em percentagem :  32,45%
  • Extrema –Esquerda : Daniel Gluckstein, Arlette Laguiller, Olivier Besancenot ; total em percentagem : 10,44%

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O segundo caso está ligado à ausência de empenhamento dos atores e, por isso, se diz que os atores são maus. Vimo-lo, os atores políticos só são aceites se parecerem sinceros. Qualquer falha neste campo traduz-se imediatamente na convicção de que aos políticos somente interessa o teatro político, os seus desafios e as vantagens daí decorrentes: o ator político torna‑se um candidato aos benefícios do poder em vez de ser um candidato aos sufrágios dos eleitores. É aqui, devido à insuficiência da “interpretação” dos seus papéis pelos atores, que a cena política é declarada em crise. Mas o resultado é o mesmo: os cidadãos pensam não estarem representados na cena política. A multiplicação dos negócios pela parte da câmara municipal de Paris ou o exemplo infeliz do slogan “da fratura social”, não incentivavam certamente o eleitorado de direita a acreditar na sinceridade do candidato Chirac. Quanto aos outros candidatos de direita (Alain Madelin, François Bayrou), não se sabia muito bem se estavam interessados pelo gosto do poder ou se empenhados efetivamente numa causa política. Jean-Marie Le Pen, cuja autenticidade não podia nunca ser posta em dúvida, tinha boas razões para mencionar “os jogos politiqueiros” e “o arrivismo” dos dirigentes da direita clássica.

“A crise do político” produz-se logo que o espaço público do político deixa de estar firmemente ligado à sociedade real. Produz-se então uma distorção que faz aparecer os atos de linguagem realizados pelos políticos como atos gratuitos. Parece igualmente que estes últimos não fazem nada mais do que “ comunicação” em vez de fazerem política. Este diagnóstico é paradoxal, vimo-lo. De facto, a política é uma forma singular de comunicação e os atores políticos deixariam de o ser se não fizessem “ comunicação”. Mas na medida em que a retórica politiqueira deixa de atingir as realidades da vida social, parece que as palavras pronunciadas sobre a cena da política estão a ser ditas somente para se valorizar o que se poderia chamar os “comediantes” da política. Pode-se pois concluir que não há má comunicação política, mas antes ato de linguagem política falhada, que os cidadãos se recusam validar.

Lionel Jospin em campanha?

É neste contexto que Lionel Jospin entra explicitamente na disputa eleitoral no final de fevereiro de 2002. Ele pensa que pode escapar à “crise política” e conseguir rapidamente provar que está acima do lote dos políticos de então. Este clima dura quase um mês durante o qual se envolve principalmente nos jornais televisivos de France 2 em 21 de fevereiro, na TF1 em 3 de março e na F3 em 19 de março. Vamos examinar as suas principais respostas nestas intervenções e mostrar que elas violam as regras constitutivas do discurso político. O candidato Jospin irá violar logica e pragmaticamente os seus axiomas: Jospin recusa não só em submeter-se à gramática própria do discurso político, mas também parece ignorar a situação política francesa do momento. Estes erros prendem-se principalmente com a lei da representação a que ele desdenha submeter-se. Nós, então, iremos ver que a sua declaração pessoal demonstra uma falta de compreensão da situação do ator político em época de eleição. Finalmente, a sua conceção do debate social contemporâneo, e, portanto, a estrutura das relações de força ideológicas em 2002, revela uma postura de resignação social bem longe, ao que parece, das expectativas do eleitorado e, sobretudo, das clivagens da sociedade francesa.

1. A recusa em representar

No dia 21 de fevereiro, dois dias depois de anunciar a sua candidatura, Lionel Jospin vem aos estúdios da televisão do noticiário de France 2 e faz uma declaração surpreendente:

  •  «Sou socialista de inspiração mas o projeto que proponho ao país, não é um projeto “socialista”…»
  • «Como o definiria?»
  • «Penso que é uma síntese de que é realmente necessário hoje, ou seja, a modernidade…»

O candidato do Partido Socialista recusa-se a dizer-se “socialista”, preferindo dizer‑se “moderno”. Esta declaração, impossível em 1995 quando Lionel Jospin foi dificilmente designado para representar os socialistas nas eleições presidenciais, parece ainda mais estranha em 2002, vinda da parte de um candidato que tem a sua legitimidade, não pela sua posição de primeiro-ministro, mas pela sua nomeação pelo mesmo partido, para não mencionar os 20% a 30% dos franceses que, ano após ano, votam socialista.

No canal TF1, uma dezena de dias mais tarde, Lionel Jospin dá uma versão aparentemente mais aceitável pelos eleitores de esquerda desta síntese do moderno:

  • “Os eleitores de esquerda sabem que sou socialista. Sabem que dirijo desde há 5 anos uma maioria plural. Era talvez ao centro desta maioria que era necessário situar-me. A partir desta inspiração devemos modernizar os meios da nossa ação, devemos ter em conta a evolução do mundo tal qual ele é e é isso que justifica que nos estejamos a dirigir ao conjunto dos Franceses, não somente a certas categorias de Franceses.”

Lionel Jospin reduz aqui o leque político ao da maioria que dirigiu entre 1997 e 2002. Proclama-se “o centro” e afirma de novo que ele encarna, não um socialismo liberal, um socialismo generoso ou qualquer outra forma de socialismo, mas o partido que “moderniza”. No dia 19 de março, no canal França 3, o candidato persiste em intitular “modernidade” “o partido” que representa:

  • “O que quero fazer é ter uma França moderna que encontrará o seu lugar na globalização, que a melhore não deixando de ser uma França justa.” [Notar-se-á o início de oposição entre “globalização” e justiça, questão de que voltaremos a falar.]

Ter-se-ia podido conceber que Lionel Jospin se reclama de um partido socialista modernizado ou da parte moderna do socialismo. Mas é muito surpreendente ouvi‑lo não se assumir como “socialista” e preferir a designação “de moderno”. Jospin recusa situar-se na cena política, cena onde cada ator deve marcar a sua representatividade nomeando o seu partido e o projeto que defende, colocando-se em vez disso ao centro como “o candidato moderno”.

Compreende-se facilmente os efeitos desta resistência à lógica elementar do jogo político. Os eleitores que se sentiam mais ou menos representados por Lionel Jospin, que sentem simpatia pelo projeto socialista, não podem senão ficar surpreendidos ou feridos por esta declaração. E os eleitores de outro campo descobrem, com surpresa, que o seu adversário se recusa em apoiar-se sobre os seus próprios valores e assumir o seu percurso de porta-voz socialista.

Podemo-nos interrogar sobre o significado do termo de modernidade como o utiliza Lionel Jospin na situação eleitoral. Notemos em primeiro lugar que este termo implica imediatamente uma relação hierárquica entre dois valores, “a modernidade” e “o conservadorismo”: é evidentemente vantajoso ser moderno e é prejudicial ser‑se um conservador. A visão que oferece Lionel Jospin do campo político consiste em apresentar duas ofertas desiguais, de que uma é em certa medida inevitável, porque “naturalmente” superior à segunda. Esta visão opõe-se à visão habitual, de um conjunto de projetos políticos julgados pelos eleitores sobre a sua capacidade presumida de enfrentarem a realidade social.

À primeira vista, o termo parece ser pouco diferenciador: quem é que ousa não se afirmar como moderno? Ao mesmo tempo, na situação contemporânea, o termo conota-se, e em muito, com um conjunto ao mesmo tempo vasto e de contornos difusos que compreende as novas tecnologias, a nova economia, a nova televisão e, inevitavelmente, a globalização. Reivindicar a modernidade, é de maneira bastante clara situar-se dentro desta corrente, sem o precisar perfeitamente. O caráter vago da nossa enumeração mostra bem a dificuldade para definir o que significa realmente a modernidade. Que quer então realmente dizer Lionel Jospin referindo-se à modernidade?

Parece-me que a resposta a esta pergunta encontra-se na resposta do candidato à pergunta de um jornalista da France 2 sobre a sua candidatura finalmente tardia:

  • “Era necessário que conduza a minha tarefa de chefe de governo pelo menos até ao fim da sessão parlamentar…”

Este “dever”, que Lionel Jospin se atribui a si mesmo, foi repetidamente recordado antes da campanha, sobretudo pelos mais próximos dos seus colaboradores. Ouviu-se por exemplo François Hollande, Primeiro secretário do PS, explicar desta maneira o atraso na declaração de candidatura. Passando do papel de Primeiro‑ministro ao de candidato à presidência da República, Lionel Jospin permanece como o “moderno”: se modernidade há aqui, deve ser procurada naquela  que Lionel Jospin encarnou durante cinco anos no hotel Matignon. Lionel Jospin é aqui a sua própria referência. Se ele representa algo ou alguém, trata-se do modo de governo que ele mesmo instaurou em 1997 (deste ponto de vista, “o lapso” pronunciado no meio dos jornalistas, onde descrevia Jacques Chirac como o contrário “de um moderno”, como um candidato do velho jogo, como um testemunho de um passado recuado, é perfeitamente preciso).

O candidato Jospin não considerou útil afirmar a sua representatividade através do projeto que ele apresentava. Podemos mesmo dizer que este último induzia uma contradição com a sua situação no terreno. Tudo se passou assim como se, para Lionel Jospin, as relações de homologia entre a cena política e as relações de força no seio da sociedade real pudessem ser menosprezadas. Para dizê-lo, talvez, de uma forma mais simples, ele recusou em aceitar-se como sendo um porta-voz, como qualquer ator político. Ele quis mesmo chamar a atenção sobre a sua diferença com os concorrentes do Partido Socialista. Assim, declara ele com um sorriso em France 2:

  • “Eu gosto de Dominique Strauss-Kahn ou de Henri Emmanuelli, mas o senhor já notou que nem Dominique Strauss-Kahn, nem Henri Emmanuelli são candidatos à eleição presidencial. É em torno dos cinco compromissos que propus ontem aos franceses, em torno de um desejo de síntese e de nos reunirmos em conjunto que eu vou conduzir a campanha.”

Desta atitude, muito logicamente, nasce uma compreensão singular do que é um cidadão. O princípio democrático assenta na ideia de que os eleitores julgam o empenhamento dos vários candidatos e determina qual deles o representa da melhor forma. Mas desde que Lionel Jospin não se declara o representante de um movimento associado a uma doutrina, parece que cabe ao eleitor e não a ele, Lionel Jospin, empenhar-se:

  • “Os responsáveis políticos não podem agir sozinhos. Eles devem procurar o bem público. Devem propor eu não digo um modelo, mas um modo de ser e de viver juntos. Mas, ao mesmo tempo, se os franceses e as francesas não assumirem as suas responsabilidades, não apenas a responsabilidade dos políticos, mas a responsabilidade dos cidadãos, não podemos agir. O destino coletivo da França deve apaixonar os próprios franceses.”(TF1)

Como se a modernidade do candidato induzisse não uma alternativa, mas sim um fardo ou uma obrigação para os eleitores. O candidato propôs o seu modo de governo como a única referência. Ele fez o que tinha que fazer; aos cidadãos cabe agora cumprirem com as suas obrigações. O candidato deixa de ser aquele que está empenhado com os cidadãos, para ser aquele que observa os cidadãos a cumprirem com as suas responsabilidades. Nesta perspetiva, são pois os primeiros e não os segundos que devem ” fazer ver quem é que eles são” colocando os boletins de voto apropriados. Portanto, é evidente que todo e qualquer fracasso do candidato seria devido aos eleitores [2]: tudo acontece como se o candidato Jospin levasse à inversão da relação entre os cidadãos e os atores políticos.

2. Um homem que não tem nada a provar

Como Hannah Arendt precisamente descreveu e mostrou, o espaço público é esse lugar onde a palavra tem o poder de forjar o futuro. No caso de uma eleição onde os candidatos se apresentam como protagonistas potenciais do exercício do poder, esta característica é simultaneamente decisiva e manifesta. É então claro, a trajetória pessoal de candidatos não deixa de influenciar a interpretação dos seus atos discursivos. No entanto, é-lhes possível assumir novos compromissos. O Jacques Chirac de 1995 pôde, assim, ser eleito com o tema da “fratura social”, o que estava bem longe das suas primeiras preocupações. Por outras palavras, novas promessas proferidas com sinceridade e adaptadas à situação social, são capazes de fazer esquecer antigos compromissos não cumpridos (é por isso que Arendt faz do perdão e da promessa os atos essenciais do espaço público).

No entanto, a estranha estratégia de Lionel Jospin aquando das últimas eleições para as presidenciais conduziu-o a reduzir ou a comprimir as suas promessas e daí o aspeto contratual do seu discurso. Por exemplo, interrogado pela apresentadora de TF1 sobre as reformas, satisfez-se em fazer declarações gerais:

  • “O processo das pensões de reformas não foi até agora tratado sobre as questões de fundo. Será o primeiro grande tema social e de sociedade da próxima legislatura ou do próximo mandato.”

Seguidamente, tendo que se explicar sobre a insegurança, Jospin privilegia a explicação da sua ação passada para chegar depois a uma promessa indefinida:

  • “Tenho de lamentar ter de constatar que a insegurança progrediu durante estes cinco anos. Pequei por ingenuidade, não em relação à insegurança, porque estava muito consciente que era necessário mobilizar meios, de resto fizemo-lo, nós aumentámos o número de polícias, de magistrados, de mais educadores… No fundo disse a mim mesmo: se conseguirmos fazer regredir o desemprego, então, por esta via, vamos reduzir a insegurança porque esta é, na verdade, uma das razões, esta precariedade, este subemprego que fazem disparar a insegurança. Conseguiu-se reduzir o desemprego, mas este facto não teve um efeito direto sobre a insegurança. Tenho uma ação resoluta a levar a cabo quanto à insegurança.”

Teve a oportunidade na televisão, em França 3, de sublinhar até que ponto a política fiscal projetada por Chirac era conforme a uma ideologia neoliberal (no sentido que assume este termo em economia). Mas as suas críticas mal tocam no projeto de Chirac. Além disso, não procura associar as suas próprias propostas com um projeto ideológico, com uma visão política:

  • “Falemos do que distingue: a fiscalidade. As propostas de Jacques Chirac estão centradas no imposto sobre o rendimento, ou seja no imposto progressivo que é suposto assegurar melhor a igualdade entre os franceses. Propõe diminui-lo massivamente. Penso que não é credível tendo em conta o que ele propõe, além disso, em matéria de aumento das despesas. Como Chirac se centra no imposto sobre o rendimento, 50 % dos Franceses que não são tributados, disso não saem beneficiados.”

“Enquanto que o senhor Lionel Jospin quer centrar-se no imposto sobre a habitação que quer reduzi-lo em 50 %. É isso?…”

  • “… Que é certamente o imposto mais injusto e que pagam muitos franceses e francesas que não pagam impostos sobre o rendimento mas que pagam este imposto local. Além disso, proponho alargar o crédito fiscal (la prime sur l’emploi). Sabe, isto permite rendimentos suplementares aos homens e às mulheres que se situam com remunerações entre 1 smic e 1,4 smic, ou seja, beneficia 9 milhões de pessoas.”

Rigidamente sentado no sofá, falando “de longe”, fica aqui à defesa, realizando como que mecanicamente um trabalho penoso de campanha. Em contrapartida, a convicção reanima-se quando fala do livro redigido para as eleições. Inclina-se para a jornalista, as suas mãos agitam-se, sorri; o assunto sensibiliza-o:

  • “É por isso que me parece que este livro, da parte de um candidato, a sair exatamente antes das eleições e no momento em que a campanha começa, é um exercício onde o candidato dá conta de tudo e se expõe com clareza, é também para mim um dado importante e espero que interessará os franceses porque, finalmente, em todos os seus capítulos, em todo o seu percurso, a experiência governamental, nas propostas, que apresenta, este livro é feito para eles.”

Aí está o principal argumento lançado, a flecha disparada, a prova fornecida: dado que Lionel Jospin se reclama apenas da sua própria modernidade, é necessário detalhar como esta se construiu num percurso exemplar. O livro, que detalha por exemplo a pureza do jovem homem muito ligado ao trotskismo ou a fidelidade e as reservas que o ligam a Mitterrand, estabelece um retrato que deve ser suficiente para os Franceses: o que Jospin promete aos seus eleitores, é ele mesmo. Como se a sua prática política pudesse ser imediatamente deduzida da sua própria trajetória, tal como ele a apresenta no seu livro [3].

Mesmo se é verdade que os políticos se propõem sempre eles mesmos aquando de uma eleição, não é menos verdade que devem revestir a sua candidatura de um programa que constituirá o fundamento de um julgamento que no fim do percurso será feito pelos eleitores. Há nisto mais do que uma convenção que permite julgar os atos mais do que a pessoa. A lógica democrática quer, com efeito, que o poder não se reduza nunca a ser ele mesmo encarnado por uma pessoa.

É verdade que muitos atores políticos foram reeleitos em nome deste argumento que poderia ser resumido na seguinte fórmula: “vocês conhecem-me, isso deve ser suficiente”… Mas, se nos restringimos ao contexto de eleições presidenciais, poder-se-ia, por um lado, contestar o facto que o de Gaulle, que certamente tinha esperado a segunda volta das eleições de 1965 para se bater ferozmente, ou o Mitterrand de 1988, que tinha mostrado uma fortíssima tenacidade e a vontade de ancorar o seu propósito à esquerda, tenham apostado a tal ponto sobre os seus próprios retratos para assegurar a sua eleição. E, por outro lado, os eleitores, mais habituados a entender as propostas políticas e vivendo no meio “da crise do político” são hoje muito exigentes. Por outras palavras, há aqui mais do que uma ingenuidade de Jospin em acreditar que a sua própria figura qualificada de moderna seria suficiente para esclarecer os eleitores. Não seria injusto, parece-me, falar de fatuidade. Sabe-se que Goffman distingue, entre as diferentes facetas da nossa identidade, “a pessoa” (o sujeito de uma biografia) do “responsável” que assume um “papel”: Lionel Jospin apresentando-se como uma pessoa mais do que como um responsável jogou um jogo muito perigoso.

3) A mundialização é inevitável

O mais importante reside provavelmente na aposta feita por Lionel Jospin de evitar qualquer discussão sobre a natureza da mundialização a favor da posta em cena de um duelo entre um candidato “velho” e um candidato “jovem”. Repare-se na sua ignorância bem expressa em relação a todos os “outros” candidatos (fala apenas de Jacques Chirac e de si mesmo). Concebe a eleição como um desafio que o opõe apenas a Jacques Chirac. Trata-se por conseguinte de contrapor uma nova maneira de fazer a política a uma outra mais datada:

  • “Há um pessimismo, uma falta de confiança sobre a França e os Franceses no outro candidato.” (França 3).”

Notar-se-á nesta citação a referência ao “outro candidato”, que exclui de facto o conjunto dos “pequenos candidatos” (sabe-se que esta expressão foi bem infeliz). Assim o xadrez político é dual. No entanto, a demarcação não distingue a direita da esquerda, mas sim um homem antigo de um homem moderno. É importante verificar que esta divisão é, para Lionel Jospin, homóloga – no sentido que Bourdieu dá ao termo – às divisões sociais características do país, o que aparece na definição do seu projeto que propõe na TF1:

  • “Tanto que eu quero que aqueles que criam, que inovam, que têm empregos com salários, que se adaptam ao que se chama a globalização não sejam prejudicados no seu espírito de iniciativa; tanto eu não quero que homens e mulheres cujos rendimentos são mais baixos, cuja situação é mais precária ou que, por vezes, podem ter dificuldade em se adaptar a esta modernização, venham a ser esquecidos ao longo do caminho e, por isso, a minha abordagem é uma abordagem de racionalização, uma abordagem de compromisso entre estas duas Franças … se a França é dual, porque para mim só existe uma França e para mim todos os franceses devem merecer a mesma atenção.”

A citação levanta duas questões:

  • O termo “globalização” funciona aqui como uma unidade indivisível, e é a realidade fundamental a que se refere o candidato. Assim, ele não tem necessidade de a definir: a palavra globalização é ela própria o cenário com o qual são confrontados os atores e a premissa a partir da qual os atos de linguagem do candidato são proferidos.
  • Os franceses são repartidos entre “adaptados à globalização” e “desadaptados face à globalização,” uma divisão isomórfica com aquela que opõe o candidato moderno ao candidato desgastado e que é descrita por Lionel Jospin. Assim, não faz nenhuma alusão a uma divisão política dos eleitores. Não se distinguem aqueles que acreditam em G e aqueles que acreditam em D, mas distinguem-se, isso sim, aqueles que são transformados pela globalização e aqueles que com a globalização foram deixados para trás. Jospin não se dirige aos cidadãos colocados perante escolhas ideológicas, mas sim a sujeitos (ou objetos?) da globalização, que a esta tentam reagir.

Há pois, uma e uma só política possível que consiste em confortar aqueles que conseguiram um lugar invejável na mundialização e ajudar aqueles que não o conseguiram. Completemos uma citação cujo início foi já comentado acima:

  • “O que eu quero fazer é ter uma França moderna que encontrará o seu lugar na globalização, que a melhore ao mesmo tempo que se mantém uma França justa. Não oponho a modernidade económica à justiça social e isso, é a originalidade da minha abordagem política.” (France 3)

A ambição do candidato, o fundo da sua promessa aos eleitores, é incorporar a França na globalização. Será assim “moderna”… O que o candidato acrescenta a esta promessa, a sua contribuição pessoal, é um suplemento de justiça social. Porque a globalização é de essência económica. Pode-se apenas acrescentar-lhe, como um embelezamento ou como uma decoração, medidas sociais tendentes a diminuir a carga para estes franceses que estão ainda “desadaptados” da globalização. O princípio de raciocínio desenvolvido consiste por conseguinte em viver a experiência da objetividade dos factos económicos, seguidamente tomar as medidas sociais de acompanhamentos acessíveis.

Não aparece neste discurso a controvérsia entre os defensores de uma autorregulação da globalização e os defensores de uma regulação política desta. O candidato ignora soberbamente a possibilidade de uma alternativa política nas escolhas económicas. Esta resposta a uma pergunta relativa a uma eventual privatização de EDF ilustra excelentemente este modo de pensar:

  • “Privatizar EDF certamente que não… Ao mesmo tempo EDF é uma empresa pública que se abre ao estrangeiro, participa nas privatizações nos países do Leste, compra empresas privadas no Magrebe e, por conseguinte, estende o seu poder e o seu espaço. É uma boa coisa para a nossa economia e para a nossa produção energética. Quando ela engloba empresas privadas, de uma certa maneira, isto modifica o seu capital… Então pode-se admitir, por um lado, uma certa abertura na condição de que esta seja controlada e, por outro lado, que esta seja feita na base de um consenso dos assalariados (que são os assalariados do serviço público), que assegure a preservação das missões do serviço público.” (França 2)

A visão da cena política de Lionel Jospin assenta sobre um facto inelutável, a irreversibilidade da “globalização”. A escolha que o candidato “socialista” propõe consiste em acompanhar a globalização dado que esta é a modernidade. Este acompanhamento supõe dar as melhores armas àqueles que compreenderam o movimento e permitir aos outros sobreviver, sendo este último ponto o que permite distinguir o candidato Jospin do “outro candidato”.

Este projeto levanta duas questões essenciais. Pode-se em primeiro lugar duvidar que isto possa constituir a base de um projeto político. Nem ideal de sociabilidade, nem projeto de sociedade, trata-se apenas de uma adaptação a uma realidade factual incontestável, “a mundialização [4]”, , mesmo se o candidato promete fazer tudo o que lhe for possível pelos inadaptados da globalização (neste contexto e independentemente da sua vontade, será pois muito pouca coisa: pense-se nas suas declarações sobre a sua impotência em face dos despedimentos na Michelin). Seguidamente, e toca-se aqui nas razões do seu malogro, a alternativa que propõe não aparece como sendo uma resposta às divisões da sociedade. A ausência de homologia é evidente: Lionel Jospin tem uma visão bem inexata das expectativas sociais.

É verdade que noutros candidatos a “globalização” desempenha o mesmo papel de ser de facto inelutável. Por exemplo Arlette Laguiller ou Jean-Marie Le Pen propõem-se simplesmente recusá-la. Mas a maioria dos candidatos avança uma imagem que também é um modelo político. Sem estarmos a entrar em detalhes, descobrimos em François Bayrou, Alain Madelin, Noël Mamère ou mesmo em Olivier Besancenot conceções da globalização que são visões políticas. Estas visões afirmam-se umas contra as outras, como um ideal a atingir visando uma civilidade harmoniosa. No fundo da cena política, por detrás dos principais candidatos e da sua ilusória oposição, o conjunto dos “pequenos candidatos” formava uma representação não tão inexata assim das divisões sociais da França. Em primeiro plano, o duelo Chirac-Jospin apenas nos faz lembrar uma imagem apolítica. Por isso, sem dúvida, a questão lancinante que tem pairado sobre toda esta campanha: “Mas o que é que os opõe, o que é que os diferencia? “Sem avançar muito, parece, contudo, que a sensibilidade da população a um pequeno número de interrogações fundamentalmente políticas deveria encorajar os candidatos – todos os candidatos – a renovarem o imaginário social da nossa sociedade. Por exemplo, a pergunta “o que significa ser francês?” não é apenas um artifício da extrema-direita. As questões da emigração, da Europa e da globalização implicam que seja respondido firmemente a uma questão tão fundamental, tanto mais que as definições passadas parecem hoje já esgotadas.

O candidato Jospin, por acreditar ter a eleição assegurada ou por outra qualquer razão, finalmente acabou por negar a existência de regras sociais no jogo político. Ele desdenhou aparecer como o representante de um partido político; ele evitou expressar uma visão fiel da doutrina deste mesmo partido; ele concebeu a sua escolha não como a promessa de um mundo melhor mas como a necessária adaptação a uma situação considerada inelutável.

Pode-se ficar surpreendido por esta abdicação por parte de alguém que, em eleições anteriores, se tinha voluntariamente mantido no campo político. Podemos mesmo interrogarmo-nos se os nossos políticos não sofrem de uma falta de educação política. Se a ENA aparece como uma escola de referência em termos de pragmatismo, não será então necessário adicionar-lhe uma formação sobre conceitos essenciais em política? Enfim, seja como for, parece que a campanha de Lionel Jospin foi animada por uma falsa conceção da política. A partir daí decorre uma “comunicação” artificial; mas esta era apenas a consequência inevitável de um contrassenso político grave. Parece-me, aliás, que a própria natureza da política deve obrigar-nos a considerar que não existem, a este respeito, senão erros políticos e não erros de comunicação. Apenas os conselheiros políticos têm interesse profissional em fazer-nos acreditar que este tipo de mal-entendido existe.

Jean-Pierre Esquenazi, Revista Cairn, Vingtième Siècle. Revue d’histoire, 2003/4 (no 80, Lionel Jospin et la campagne de 2002 Erreur de communication ou erreur politique ?

Texto disponível em : https://www.cairn.info/revue-vingtieme-siecle-revue-d-histoire-2003-4-page-101.htm

Notas

[1] Pierre Bourdieu, « La représentation politique. Éléments pour une théorie du champ politique », Actes de la recherche en sciences sociales, 36-37, 1981.

[2] Reconhece-se aqui o argumento de Sylviane Agacinski sobre o fracasso do seu marido, Journal interrompu 21 janvier-25 mai 2002, Seuil, 2002. Este « jornal » é a consequência lógica da cegueira política que atingiu Lionel Jospin.

[3] Lionel Jospin e Alain Duhamel, Le temps de répondre, Paris, Stock, 2002

[4] Deste ponto de vista, o analista do discurso giscardiano que eu fui não pode deixar de se sentir atingido pela similitude do enunciado dos projetos do Giscard candidato à eleição de 1974 et do Jospin candidato de 2002. A realidade « inelutável » de 1974 foi a crise do petróleo, a de 2002 é a globalização. Mas de qualquer modo, o diagnóstico consiste numa impossibilidade de ação política e o remédio numa adaptação técnica aos constrangimentos económicos.

 

 

 

 

 

 

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