De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora: Uma outra série de textos. 3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande, tempos do desprezo. Texto 3.6 – Sem as classes populares, crisântemos para a esquerda em 2012, por Henri Rey

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande, tempos do desprezo

Texto 3. 6 Sem as classes populares, crisântemos  para a esquerda em  2012

Por Henri Rey[*], publicado por Cairn.Info 2012/1

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RESUMO

Qual é hoje o eleitorado da esquerda? As classes populares são elas um apoio para os candidatos de esquerda? Este artigo propõe-se abordar este questionamento respondendo ao mesmo tempo à contribuição do think thank Terra Nova que afirma que o eleitorado de esquerda mudou e que é necessário romper os laços com a classe operária. Mas a esquerda pode realmente existir sem as classes populares?

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Num texto bem estimulante e muito controverso [1] o think tank progressista Terra Nova entrega-se a um exercício estratégico da mais alta importância: definir a aliança dos eleitorados e das camadas sociais que levaria ao poder a esquerda em 2012, uma coligação a que chama a França de amanhã. Em grande parte fundado sobre as análises socio-eleitorais, produzidas por especialistas (E. Schweisguth, V. Tiberj), mas talvez mal assimiladas, e sobre a compilação de sondagens, o estudo conclui pela necessidade de renovar completamente a visão da sociedade e das dinâmicas que a atravessam. Assim a referência ao coletivo operário e mais em geral às classes populares não faria mais sentido devido a uma redução demográfica e a uma transformação qualitativa deste grupo bem como também devido a uma conversão bastante desenvolvida das categorias populares a favor da direita ou da extrema-direita, sobre o terreno dos valores. Para substituir esta base histórica, tornada arcaica e obsoleta, propõe-se uma outra aliança entre os diplomados, os jovens, as mulheres, os imigrantes da segunda geração e os habitantes dos bairros populares em torno de uma visão do futuro que lhes é proposta.

Valores de abertura, de tolerância e de permissividade, valores opostos àqueles com que se identificariam hoje as categorias populares, seriam a solda que uniria entre elas estas diversas categorias. Numerosas reações emanando do Partido socialista e da sua periferia tenderam a rejeitar, pelo menos em parte, estas propostas, fazendo observar, em primeiro lugar, que tais orientações conduziriam ao malogro eleitoral em 2012 de um candidato privado de um suficiente apoio popular. Várias observações se impõem: sobre a exatidão e a pertinência das observações formuladas a propósito dos comportamentos eleitorais dos diferentes coletivos passados em revista, mas uma análise detalhada não entra no âmbito deste artigo que a isso fará apenas alusão. Mas também sobre as sobreposições entre subconjuntos opostos ou, pelo contrário, destinados a unirem-se, e o caráter heteróclito que daí resulta, e primeiramente e sobretudo, sobre a maneira como a questão é posta pelos seus redatores. Com efeito, tudo se passa como se o voto em prol da esquerda das diversas categorias evocadas fosse independente das posições, do programa, da atividade e das mensagens que emanam dos próprios partidos de esquerda e resultasse apenas das disposições, em certa medida naturalizadas, dos eleitores. Sabe-se no entanto a importância que têm os fatores especificamente políticos nas rupturas sucessivas que surgiram entre a esquerda e as categorias populares. Vejamos isso.

A classe operária e o político

Analisando um longo período, desde há cinquenta anos, de relações entre os trabalhadores e a política, os sociólogos Guy Michelat e Michel Simon [2] lembram-nos, na sua contribuição para l’État de l’opinion 2011 [3], que o sentimento de pertença à classe operária estava, em 1982, ainda ao mesmo nível que em 1966 e que diminuiu de maneira extremamente rápida nos anos que se seguiram, e desde logo entre 1982 e 1985. A amplitude e o ritmo desta desfiliação subjetiva da classe operária não podem evidentemente ser ligadas ao efeito mecânico de transformações sociais e demográficas, afetando o coletivo operário, que operam, quanto a elas, de forma gradual e contínua desde há dezenas de anos.

Estes autores observam de resto que o recuo da identificação operária afeta todos os grupos sociais [4]. Entre 1982 e 1986 há outros fenómenos que devem ser sublinhados, num registo especificamente político: a progressão da abstenção nos bairros populares onde, dantes, não era mais importante que noutros lugares, o desmoronamento eleitoral do Partido comunista francês, que se apresentava como o (único) partido da classe operária e a absorção provisória de uma grande parte do seu eleitorado pelo Partido socialista (até 1988), a perda de numerosos municípios de esquerda durante a Primavera e o Outono de 1983, o aparecimento da Frente Nacional como força eleitoral influente. Este curto período vê produzir-se uma reestruturação importante da cena política, com a implementação, depois o congelamento e, por fim, o abandono de um programa reformador e uma nova alternância, desta vez em proveito da direita, nas legislativas de 1986. Com estas transformações, o lugar das classes populares no imaginário e na dinâmica social é alterado profundamente. No final dos anos de 1970 e o início dos anos 1980, as classes populares são chamadas à mobilização e incitadas a agir coletivamente pelos partidos e sindicatos de esquerda contra um sistema, contra as suas classes dirigentes, contra valores opostos àqueles que pretendem promover.  Apenas alguns meses depois da chegada da esquerda ao poder, o alcance das reformas introduzidas traduz-se de maneira desigual na vida diária, o salário e as condições de trabalho e muito rapidamente o horizonte de transformações mais profundas ou em que se terá avançado mais, fecha-se, a partir de 1983, com a viragem, não publicamente confessada, para as políticas de rigor orçamental. Que se chame a este sentimento, deceção, desaprovação, divórcio, este processo de distanciamento entre as classes populares e a esquerda de governo, que culminará em 1993 e conduzirá à eliminação do candidato socialista às presidenciais de 2002, desencadeia-se naquele momento. Marcado por uma progressão muito importante da abstenção, amplifica as reações de desconfiança em relação ao poder político constatadas no conjunto do eleitorado.

Desde logo, a associação privilegiada entre apoio aos partidos de esquerda e pertença às categorias populares tranformar-se-á numa inconstante, irregular e cada vez mais distante. A influência da extrema-direita sobre uma parte do eleitorado popular confirmar-se-á de eleição em eleição. “Ouvrièro-lepénisme” (N. Mayer), “gaucho-lepénisme” (P. Perrineau) designam então, nas análises dos politólogos, a importância crescente da componente popular no eleitorado da Frente Nacional a partir das presidenciais de 1988. Amplificando esta constatação, numerosos comentadores apresentaram a FN como o novo partido operário ou as classes populares como tendo globalmente aderido aos pontos de vista da extrema‑direita. Calcula-se [5], realmente, em um quarto a proporção dos eleitores frentistas entre os trabalhadores que vão às urnas e 15-16 % o seu peso no conjunto dos trabalhadores, abstencionistas e estrangeiros incluídos, nas eleições presidenciais de 2002, na qual a FN esteve presente na segunda volta.

Quando Terra Nova surfa sobre a vaga

O desalinhamento observado estabelece-se num contexto económico e social que afeta uma parte crescente dos assalariados e acaba por dar forma a uma representação muito negativa do seu futuro no seio de sociedades caracterizadas pela permanência de um desemprego de massa, pela precarização dos estatutos profissionais, pela desregulação generalizada do mercado do trabalho e pelas dificuldades de acesso a emprego estável das jovens gerações, pela deslocalização das atividades de produção e pela pressão salarial. Bem conhecidos, estes fenómenos dizem respeito aos assalariados em situações diferentes e em graus diversos de intensidade, às vezes simplesmente desfasadas no tempo, e não oponíveis entre elas, como se postula numa visão dualista que apareceu durante meados dos anos 1980 com a promoção da noção de exclusão. A oposição entre incluídos e excluídos ou, sob a sua nova forma para o documento Terra Nova, entre insiders e outsiders, é apresentada como substituto de uma conflitualidade de classe, julgada, sem apelo nem agravo, anacrónica. Esta nova oposição tem por efeito amplificar e construir como legítimo um complexo de tensões no próprio seio da antiga sociedade salarial, atirando as suas componentes umas contra as outras: entre gerações, entre desempregados e ativos, entre estáveis e precários, etc., tensões bem presentes na sociedade mas alimentadas ou tendo como aval os poderes públicos. A visão da formação social que daqui resulta, a de uma concorrência generalizada e de uma surda luta de todos contra todos, está no oposto de um discurso de esquerda, geralmente fundado sobre a ideia de uma agregação maioritária de pessoas e de interesses, propondo um princípio compreensível de divisão, por um lado, e de reagrupamento, por outro lado, entre as diversas forças sociais. Para dizê-lo rapidamente, a simultaneidade entre o descontentamento das categorias populares em relação à esquerda e a evanescência de um discurso de esquerda por parte da própria esquerda constituindo-os em sujeitos é impressionante.

Que lugar lhes atribuir, que evolução lhes desenhar, para que alianças as guiar? Depois do programa comum e da união da esquerda, fio vermelho-rosa eleitoralista dos anos 1970, não houve mais nada. No seio da esquerda de governo, a lógica administrativa, assumida pela tecnocracia socialista, conduz progressivamente da defesa do serviço público a um liberalismo dificilmente a poder ser classificado de moderado, mas legitimado pela convergência parcial com os outros socialismos europeus. A implosão do bloco soviético, a queda eleitoral e organizacional de um comunismo francês, cuja única estratégia foi tentar sobreviver ainda um pouco mais, ainda que mesmo que em peças soltas, aliviaram progressivamente o PS, partido de eleitos e de funcionários, dos seus pudores classistas e dos seus escrúpulos marxisantes. É com base neste nada proposicional de uma esquerda que deixa de falar para as classes populares que prosperam construções surpreendentes, como a de Terra Nova. Outros já os tinham precedido, tendo como ponto comum o de misturarem como ela um blairismo ideológico, mais ou menos explícito, impondo ordem moral e suspeição nas classes populares e uma utilização insensata de refinamentos estatísticos ao alcance do comum.

Porque, afinal, qual é a consistência de uma montagem entre as categorias constituídas em partes de mercado e de que se vê bem, além disso, que estas partes de mercado, que não são da mesma natureza, se sobrepõem parcialmente entre elas?

Pode-se ser ao mesmo tempo do sexo feminino, jovem, diplomada, urbana e assim por diante. Passemos por cima desta objeção elementar para colocar uma questão diferente. O raciocínio apresentado, apoiado em dados de sondagens, postula que os principais determinantes do voto a favor da esquerda não são mais de ordem social, mas cultural, remetem menos para os interesses do que para os valores, entendidos estes principalmente em termos de permissividade e, por conseguinte, ao nível de estudo. Assim, o coração da esquerda de “France de amanhã” situar-se-ia entre os quadros superiores altamente diplomados dos grandes centros urbanos. Um marcador chave da pertença à esquerda seria, por exemplo, o grau de concordância com a existência de pais do mesmo sexo. Muito bem. Mas ao mesmo tempo que se dissocia observação sociológica e prescrição para uma campanha eleitoral, há pois lugar para nos interrogarmos sobre o que se entende então por “esquerda” para além das preferências eleitorais expressas como sendo de esquerda. Que relação há entre esta identidade de esquerda e os valores, as tradições, as culturas políticas, por um lado, as redes partidárias, e os enraizamentos locais, sempre visíveis sobre os cartões de eleitor, por outro lado, que dão substância ao conceito de esquerda? É à custa de um grande salto para trás, que ficam então apagados os padrões de justiça social, de igualdade ou de progresso que a definem e geram laços flexíveis mas duradouros para com os seus partidos e aos seus candidatos nos sindicatos dos trabalhadores, numa grande parte do mundo associativo ou, mesmo em retrocesso, nos meios laicos e de ensino. A esquerda “burguesa”, mesmo alargada às minorias, tal como é desenhada após um crivo estatístico dos inquéritos de opinião, não é somente minoritária, ela é, acima de tudo, totalmente inconsistente. Além disso, torna-se inseparável do seu duplo negativo: as classes populares “reacionárias”. O correlativo de uma esquerda reduzida ao liberalismo cultural é realmente a produção de um juízo de valor desqualificante sobre o que não lhe interessa na expressão política das classes populares: a relutância em relação à globalização neoliberal, a oposição à deslocalização de empresas, as divergências sobre o texto da Constituição Europeia, a incompreensão face à total latitude deixada aos  mercados financeiros … É esta postura que leva a caracterizar de populismo tudo o que não se alinha  com a visão das elites e que amalgama divergências sobre a condução da economia, a desconfiança relativamente às instituições e reações xenófobas ou autoritárias. É a mesma atitude que pretende delimitar o jogo político, restringindo-o aos dois centros, o de esquerda e o de direita e arrumando tudo o que não está entre eles na categoria ignominiosa dos extremos reunificados. Mas estas misturas deliberadas são de natureza ideológica, porque as coisas não se apresentam desta maneira. Como também o mostrou Guy Michelat e outros [6] não existe homogeneidade entre a oposição ao liberalismo económico e partilha de atitudes xenófobas e autoritárias. Aqueles que confiam nas pessoas e ao mesmo tempo se mostram cautelosos em relação às instituições são “eles próprios ao mesmo tempo os menos liberais económicos e os menos xeno-autoritários. Está-se longe, muito longe, de um populismo simplista. “

Desautorizado pelos da sua família política, imprudente nas suas formulações, arriscado nas provas que avança, o documento da Terra Nova oferece muitos pontos de vista passiveis de fortes críticas e como tal não tem grande interesse. Revela uma cegueira sobre a fragilidade da esquerda quando ela se priva ou quando ela é privada do apoio das classes populares de que as precedentes eleições presidenciais deram, de forma desigual, a medida e constituem, à revelia dos seus autores, um sinal talvez salutar para as próximas?

Henri Rey, Sans les classes populaires, des chrysanthèmes pour la gauche en 2012, texto disponível em :

https://www.cairn.info/revue-mouvements-2012-1-page-13.htm

 

Notas

[*] Politólogo, autor de La gauche et les classes populaires, histoire et actualité d’une mésentente, La Découverte, Paris, 2004.

[1] Veja-se por exemplo, o ponto de vista fortmente crítico de Frédéric Sawicki no jornal dans Libération du 10 juin 2011.

[2] G. Michelat et M. Simon, Les ouvriers et la politique, Presses de Sciences Po, Paris, 2004.

[3] G. Michelat e M.Simon «Inquiétudes, dynamiques idéologiques, attitudes politiques: quoi de neuf ? » em  O. Duhamel, E. Lecerf (dir.), L’État de l’opinion 2011, Le Seuil, Paris, 2011.

[4] A pertença objetiva e o sentimento subjetivo de pertença a uma classe social não coincidem. A difusão noutras classes do sentimento de pertença a uma de entre elas pode servir como um marcador da sua influência sobre toda a sociedade.

[5] Veja-se  H. Rey, La gauche et les classes populaires, La Découverte, Paris, 2004.

[6] F. Chanvril, G. Michelat, H. Rey, « Homogénéité ou hétérogénéités des manifestations de la confiance », in Les Cahiers du CEVIPOF n° 54, juillet 2011.

One comment

  1. SOCORRO! CHAMEM O LADRÃO! SOCORRO!
    POLÍCIA, POLICIA FEDERAL, MPF, JUSTIÇA, JUÍZES PROBOS (ACREDITO QUE OS HÁ),…SOCORRO!

    S O C O R R O ! ! !
    C O M P A R T I L H E .

    “ABSURDO!! – ALVO DE OITO INQUÉRITOS, JUCÁ [ISTO MESMO, AQUELE DO TELEFONEMA COM O SÉRGIO QUE CONFESSOU O GOLPE, LEMBRA?] É MEMBRO DO CONSELHO DE ÉTICA”
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2017/06/01/absurdo-alvo-de-oito-inqueritos-juca-isto-mesmo-aquele-do-telefonema-com-o-sergio-que-confessou-o-golpe-lembra-e-membro-do-conselho-de-etica/

    ABSURDO!! – ALVO DE OITO INQUÉRITOS, JUCÁ [ISTO MESMO, AQUELE DO TELEFONEMA COM O SÉRGIO QUE CONFESSOU O GOLPE, LEMBRA?] É MEMBRO DO CONSELHO DE ÉTICA

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