De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder. Texto 4. 6 – Presidenciais: a armadilha Macron–Le Pen, por Régis de Castelnau

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder

 Texto 4. 6 – Presidenciais: a armadilha Macron–Le Pen. Porque estamos a viver uma situação gravíssima [1]

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Régis de Castelnau, publicado por Revista Causeur, 3 de maio de 2017 (*)

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Emmanuel Macron. Sipa. Numero de reportagem : AP22047409_000031

O recriar da grande quinzena antifascista de 2002 excede todas as esperanças. Pensa-se, é certo, de forma quase irresistível na famosa citação de Marx sobre a passagem da tragédia à farsa em história, e poder-se-ia rir da farsa de agora se os desafios não fossem tão graves. Não voltaremos aos comentários que analisaram a campanha eleitoral desta primeira volta em toda a sua extensão, a não ser para dizer apenas que o único voto que tinha realmente sentido, era o que teria permitido gripar a máquina com a presença de Jean-Luc Mélenchon na segunda volta. Infelizmente, estamos encurralados entre as duas garras da ratoeira. Todos os que têm interesse, de facto, em que nada se altere e sobretudo que se prossiga a mutação da França num Land alemão de segunda classe passaram para modo histérico e dão-nos a ordem de bem votar, nem que seja com insultos, anátemas e injunções ameaçadoras. Tudo isto é de uma violência bastante espantosa e arrisca-se a deixar fortes sequelas e por muito tempo. Enquanto isso, as instituições da República, já em parte destruídas pela trágica presidência de François Hollande, correm o risco de definitivamente serem derrubadas. E cada um sabe que o presidente que sairá das urnas após estas eleições traficadas não terá a legitimidade para ser o Presidente de todos os franceses e conduzir o país num período tão difícil.

E é a razão pela qual a recusa de participar pouco ou muito nesta mascarada, de aceitar este atentado contra a democracia, de lhe dar uma qualquer legitimidade é uma posição política responsável. E isto por três razões.

Antes de mais, disse várias vezes na revista Causeur que considerava estarmos em presença de um golpe de Estado. Fui imediatamente tratado “de conspirador”, o insulto que permite evitar o debate uma vez que eu tinha no entanto revelado uma evidência, a grosseira parcialidade pela parte dos meios de comunicação e pelos meios judiciais da operação que veio a permitir a desqualificação de François Fillon.

Antifascismo de pacotilha

Mas há ainda pior: houve ainda outras instituições que abdicaram das suas missões de controlo, e pôde ver-se a campanha eleitoral desenrolar-se fora de todas as regras previstas pela lei e pela jurisprudência na matéria. A sinceridade de uma eleição é o meio fundamental para assegurar a legitimidade da própria eleição. Enquanto uma justiça pouco preocupada com a imparcialidade e com o respeito das regras se obstinava contra o candidato Fillon, seja a CSA, a Comissão das Contas de Campanha, ou o Conselho Constitucional. todos estes organismos permaneceram completamente mudos apesar das evidentes e grosseiras violações dos regulamentos na campanha eleitoral de Emmanuel Macron. O sistema mediático, serviço público à cabeça, apoiou esta candidatura em proporções insensatas e em condições manifestamente ilegais.

A segunda volta entre Macron e Le Pen que seria a única variante que permitiria o advento do “televangelista”, fazia certamente parte da operação. Quando se é confrontado com uma tal agressão do aparelho de Estado contra um desenrolar regular da eleição mais importante da Vª República, só há uma coisa a fazer: opormo-nos a esta maquinação e recusar participar nela. Esta é a primeira razão.

Seguidamente, o antifascismo de pacotilha que se pratica sem limites, a partir de anacronismos idiotas, de assimilações abusivas e de mentiras descaradas, é insuportável. Eu combati a Frente Nacional desde sempre e disse-o várias vezes. É uma mercearia familiar cuja direção reúne uma parte da fina flor de uma extrema‑direita de tendência sofrivelmente fascistoide. Mas não é um partido de massas, não há bandos de amotinadores, de paramilitares armados, não há desfiles noturnos de velas na mão, não há autos de fé, não há grandes comícios, não há mortíferos motins nas ruas, tudo coisas que os fascismos europeus praticavam antes da sua tomada de poder. É o equivalente destes partidos populistas de extrema‑direita que agora se encontram em muitos países da União Europeia.

E é necessário recordar que a chegada ao poder de regimes fascistas sempre se produziu, desde que o grande capital e a oligarquia o tenham decidido. A chegada de Hitler é o exemplo mais evidente disto mesmo e as ditaduras da América Latina instaladas, financiadas e aconselhadas pelos Estados Unidos são outros tantos exemplos. De momento, os dominantes escolheram Macron. Assim, pretender que Marine Le Pen eleita como presidente da República levaria a uma nazificação da França no espaço de seis meses, é pura propaganda.

A França dos ricos, essa salva-se

Sempre combati o verdadeiro fascismo, que conheci em Espanha com o franquismo agonizante, na Grécia com a ditadura dos coronéis e sobretudo na América Latina. Não tenho nenhuma, mas verdadeiramente nenhuma, lição a receber de quem quer que seja sobre esta matéria. Esta é a segunda razão.

Há por último a gravidade do que acaba de se verificar. Há doravante uma verdadeira convergência nas análises das fraturas francesas e sobre o regresso da luta das classes. A França dos ricos, dos privilegiados, dos filhos dos ricos estragados com os mimos da globalização, a França dos d’en haut, dos abastados, contra a França dos pobres, dos desempregados, dos desclassificados, dos invisíveis, dos franceses d’en bas. O problema é que os que lucram com a mundialização financeira e neoliberal querem absolutamente continuar a lucrar. E estão prontos a tudo o que for preciso para o conseguirem. Incluindo e sobretudo, como se demonstra pelo funcionamento da sua muito querida UE, pondo em causa a democracia representativa. Sonham com uma democracia sem “o démos” e os ataques sistemáticos dos ideólogos do mainstream contra o próprio princípio do sufrágio universal em cada referendo ou em cada eleição perdida não são palavras no ar. O desprezo de um povo que protesta e se exprime, transformou-se hoje em ódio. Emmanuel Macron, não fica atrás de tudo isto e é ele próprio que qualifica os eleitores de Marine Le Pen e de Jean-Luc Mélenchon “de assaltantes”, qualificando-os mesmo de inimigos: “são eles os nossos verdadeiros inimigos, potentes, organizados, hábeis, determinados. Cruzamo-nos com eles nas ruas, nas campanhas, na internet, frequentemente disfarçados, tão odiosos quanto cobardes.”

Como é que Macron foi fabricado

Analisemos um pouco como foi este incrível nascimento do “televangelista”. Homens da sombra entraram na zona do claro-escuro e vimos uma camada específica destes homens dirigir a manobra do princípio ao fim. A operação não requeria câmara escura, apenas a existência de redes que permitissem ligar, naturalmente, uma série de coisas. No seu famoso discurso do Cairo, de Gaulle estabelecia a lista dos que tinham derrubado a IIIª República, em 1940: “Um bando de politiqueiros tarados, de especuladores sem honra, de funcionários oportunistas e de maus generais“. No que respeita aos políticos tarados, não há nenhum problema de especial, eles estão em fileiras cerradas atrás do “televangelista”; os especuladores sem honra, esses também lá estão, a segurarem a carteira que para o efeito já a têm aberta.

Nenhuma questão, de momento, quanto aos maus generais, aqueles que nos interessam são os funcionários arrivistas. O sistema perverso de funcionamento da alta função pública do Estado, faz com que este esteja hoje confiscado por uma casta que acabou por tomá-lo sob o seu controlo sem nenhuma dificuldade durante o mandato de François Hollande. Temos Jean-Pierre Jouyet à cabeça deste grupo, foi ele que recrutou Emmanuel Macron. Depois, temos a inspeção das finanças, os grandes corpos da função pública, os que dirigem as grandes instituições e todos os que andam de pantufas e que nos cuidadosos jogos de cadeiras musicais se enchem à grande aproveitando-se do capitalismo de conivência. Porque o que os liga é certamente a atração do poder mas é, também e sobretudo, o dinheiro.

O golpe de Estado permanente

A política estrangeira da França, hoje toda ela feita de vassalagem, foi confiscada por um grupo de altos funcionários neoconservadores. O Conselho de Estado está sob controlo, idem para o CSA [Conselho Superior do Audiovisual], o Conselho Constitucional, e a Comissão Nacional do Financiamento da Vida Política, até ao serviço público de rádio e televisão, todos eles dirigidos por amigos da casta. O aparelho judicial é muito menos manejável, o ENM (Escola Nacional da Magistratura) não é a ENA. Então criaram-se órgãos jurisdicionais de exceção como o polo financeiro flanqueado da Autoridade Financeira Nacional (sigla PNF), de recrutamento cuidadoso e que se revelaram bem úteis ao sistema. Não é necessário elaborar uma lista, os nomes vêm imediatamente à cabeça de todos nós. São eles que estão no centro das operações e que as comandam, os políticos de terceira ordem nomeados ministros estão ao serviço apenas para as inaugurações e não dispõem de nenhuma autoridade sobre os seus serviços. Esta confiscação permitiu, por conseguinte, a criação completamente artificial de um provável futuro Presidente da República escolhido por esta casta, com a ajuda de uma operação fraudulenta. O mandato presidencial de cinco anos de François Hollande foi o da criação de dispositivos claramente liberticidas que Macron desenvolverá seguramente, até porque já o anunciou. O que leva, de resto, certos socialistas a apresentarem hoje o seguinte argumento: “Já imaginaram o que seria se estes poderes fossem parar às mãos de Marine Le Pen!”. Não estamos a brincar!!

Aude Lancelin tinha denunciado “um golpe de Estado mediático”, através do qual o CAC 40 [empresas que compõem o índice da bolsa de Paris] teria escolhido um candidato diretamente procedente das suas fileiras. Não partilho esta análise que é apenas parcial, a operação tem várias facetas, e o grande capital arranjou-se com a escolha da “noblesse d’État”, da Aristocracia Estatal, depois de se ter inicialmente inclinado a favor de Alain Juppé. Tudo isto é inquietante para a sociedade francesa, que pretendem conduzir brutalmente numa direção que ela, no entanto, recusa maioritariamente. Não devemos deixar a esta operação, que constituiria um precedente letal para a República, nem sequer um vislumbre que seja de legitimidade. E entre as duas garras da armadilha, a de Macron é provavelmente a prazo, a mais perigosa para a França.

Esta é a terceira razão. No dia 7 de maio não irei votar.

RÉGIS DE CASTELNAU, editado por Vu du Droit e reproduzido por Causeur, entre vários outros sítios.

(*) Titulo original: PRÉSIDENTIELLE : SORTIR DES MÂCHOIRES DU PIÈGE, disponível no site : http://www.vududroit.com/2017/05/presidentielle-sortir-machoires-piege/

Título do artigo na Revista Causeur: Présidentielle: le piège Macron-Le Pen. Pourquoi l’heure est grave. Texto disponível em: http://www.causeur.fr/presidentielle-le-piege-macron-le-pen-44124.html

Notas:

[1] Agradeço ao Lantoine Arnaud a revisão extremamente cuidada da minha tradução do presente texto. O pedido de revisão deve-se ao facto de se tratar de   um texto cuja tradução não era nada fácil pois o autor, um advogado, tem a precisão com a utilização da palavra semelhante à do joalheiro perante um diamante de muitos quilates. O mínimo descuido e a mensagem do autor estaria deturpada.

 

 

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