De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder. Texto 4.10 – Macron, a grande impostura, por Jean-Loup Izambert

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder

Texto 4.10 – Macron, a grande impostura. O que esconde Emmanuel Macron aos franceses.

 Por Jean-Loup Izambert, 26 de abril de 2017.

De uma crise a outra 4 Parte texto 4_10 imagem 1

[Foto do artigo publicado por Liberté Politique, fonte: Egalité et Réconciliation]

Nos seus últimos discursos como aquele que pronunciou na noite de 23 de abril, Emmanuel Macron repete a seu belo prazer as palavras “República” e “pátria”. Mas o seu percurso profissional tal como o seu compromisso político testemunham que nunca deixou de agir contra o interesse geral das francesas e dos franceses. E de lhes dissimular os seus objetivos reais. Factos e argumentos.

Emmanuel Macron que os seus apoios omnipresentes nos meios de comunicação social apresentam como “um homem livre e independente” é realmente um puro produto estandardizado do sistema: o clone de François Hollande. Recordemos a estes apresentadores de marionetes que o seu “homem livre e independente” recusa sempre publicar a lista dos contribuintes financeiros da sua campanha eleitoral. Quer isto dizer que terá beneficiado de milhões de euros de vários representantes do sistema para montar o seu espetáculo e entrar em cena mediática representando o papel de candidato antissistema? Porque Macron não se tornou, a partir do mês de maio de 2012, conselheiro económico de François Hollande e depois ministro da Economia por um trabalho pessoal importante e inovador em matéria económica. Ele entrou no Eliseu sob as recomendações apoiadas dos velhos veteranos das redes do clã elitista e arrogante dos antigos alunos das grandes escolas e da grande finança capitalista. De Jacques Attali a Alain Minc, passando pelos inevitáveis snobs parisienses como Bernard-Henri Lévy e alguns multimilionários à semelhança de Pierre Bergé, intermediários não faltam, todos ligados aos círculos atlantistas. De 2011 às eleições presidenciais de 2017, estes não cessaram de acompanhar o seu percurso com o concurso, mais ou menos declarado, dos representantes no poder da casta dos grandes proprietários privados da economia. Pouco importa que sejam membros de Os Republicanos ou “socialistas”, o principal é assegurar a continuidade do sistema. O seu percurso tem por conseguinte um balanço que os meios de comunicação social oficiais não evocam e que é conveniente aqui recordar.

Um balanço económico desastroso

Relembremos que de 15 de Maio de 2012 a 15 de Julho de 2014 Macron foi Secretário-geral do Eliseu, chefe do polo Economia e financia, seguidamente, de 26 de Agosto de 2014 a 30 de Agosto de 2016 ministro da Economia e da indústria. A este título ele foi, por conseguinte, quem teve o papel mais importante, em conjunto com o presidente da República e os dois Primeiros ministros Ayrault e Valls, na política económica e financeira da França de 2012 à 2016. Quais são os resultados da política Macron-Hollande ? O desemprego explodiu: à sua chegada em maio de 2012, a França contava menos de 5 milhões de desempregados de todas as categorias. À data da sua saída em agosto de 2016, 11 milhões de pessoas estavam desempregadas! Porque, entre estas, aos 6,5 milhões sem empregos oficiais acrescentam-se de 5 milhões mais que estão excluídos das estatísticas.

A dívida pública: situava-se ligeiramente à volta dos 1800 mil milhões de euros à sua chegada e excedia os 2200 mil milhões de euros à sua partida em agosto de 2016, ou seja, quase 100% do Produto Interno Bruto. Quanto aos impostos cujo montante total se situava muito perto dos 900 mil milhões de euros por ano eram de 1000 mil milhões de euros por ano em agosto de 2016. As empresas? De acordo com um estudo publicado pelo Gabinete Deloitte e Altares, especialista dos dados sobre as empresas, mais de 63000 de entre elas (63 081) faliram em 2015, ou seja 0,8% mais que em 2014 (62 586). E no primeiro trimestre de 2015, mais de 18.000 sociedades entrarão em falência entre janeiro e março enquanto, desde 2009, cada primeiro trimestre fechava com cerva de 16.500 falências. O número de empregos ameaçados por estas falências excede os 66.000, número recorde desde 2009. Se em 2016, a tendência foi de uma ligeira baixa na maioria dos sectores de atividade (58057 falências contra 63081), em contrapartida na agricultura, na silvicultura e na pesca o número de falências aumentou de 4,5%, passando de 1365 falências no final de 2015 para 1427 no final de 2016. A evolução destes indicadores mostra claramente a responsabilidade de Emmanuel Macron no aprofundamento da crise económica e social. Mal entrou em Matignon como Ministro da Economia e da indústria, o jovenzinho de Rothschild continuou a mesma política dos seus antecessores.

O programa Macron está já em aplicação

Como eles, Macron liquidou uma nova parte do património francês, lançou no desemprego milhares de assalariados e decidiu novas privatizações importantes: aeroporto de Toulouse-Blagnac, Nice-Côte d’Azur, de Lyon, … Encontrando-se com um destino mediaticamente obrigado para a França a fim de assegurar a continuidade da política atlantista de François Hollande ao serviço das grandes potências financeiras, cuidou empenhadamente da rutura industrial: liberalização das linhas de autocarros; aumento do trabalho ao Domingo e à noite; limitação do papel dos tribunais do Trabalho; fragilização do código de trabalho; desregulamentação da profissão dos notários; privatização da indústria de armamento e dos aeroportos; divisão em sucursais de centros hospitalares universitários, segmentando-os; flexibilização das normas ambientais… “Se o projeto se parece com um saco onde se pode meter tudo, não deixa, porém, de ter uma grande coerência ideológica que se pode resumir numa fórmula: “Sempre menos”. Menos Estado, menos proteção social, menos direitos sindicais, menos regras para as empresas, menos controlo público“ sublinhava já, em abril de 2015, a jornalista Martine Bulard (1). Já iniciado nessa época sob o antigo Primeiro-ministro Manuel Valls sob a denominação grandiloquente de projeto “para o crescimento, a atividade e a igualdade das possibilidades económicas(2), imposto à força através do artigo 49-3, este início de programa Macron tem já roupagem de grande passo em En Marche… passo atrás, uma vez que que já se traduziu num agravamento da situação económica e social. Emmanuel Macron tem o máximo cuidado, da mesma maneira que os meios de comunicação social oficiais, em não falar desta lei da qual é o iniciador bem como sobre as suas consequências catastróficas para as empresas e os franceses. Na realidade, através desta sua lei é já o programa Macron que está Em Marcha [En Marche]. Do mesmo modo, “a lei trabalho” Valls-EL Khomri-Macron é apenas uma amostra do seu programa dissimulado sob o vocábulo enganador “libertar o trabalho”. Cada um pode imaginar facilmente o que irá acontecer se este tiver as mãos livres para continuar na mesma linha em marcha forçada – e fúnebre – uma vez instalado no Eliseu.

Estas GOPE que Macron dissimula…

É forçoso constatar que Emmanuel Macron está a favor de todos os projetos concebidos para submeter a França a potências estrangeiras: apoio ao tratado de comércio livre transatlântico (TTIP ou TAFTA) que colocaria as empresas francesas sob o direito americano, apoio à União dita “europeia” de Bruxelas que conta hoje com 123 milhões de cidadãos pobres ou em exclusão social, apoio à NATO e à guerra em curso contra a Síria, etc. Mas quem fala sobre isto nos meios de comunicação social oficiais? Também, este homem que não tem deixado de agir contra o interesse geral dos franceses, como o atesta o balanço do que tem feito, não tem qualidades para se apresentar como um defensor do país, sobre o qual este ignorante diz mesmo que “não há cultura francesa”! (3). Toda a sua ação política, as suas decisões em matéria económica e financeira testemunham bem a sua impostura. Os cidadãos que, para além dos anúncios mediáticos, se interessam pelos programas políticos dos candidatos e pela realidade da sua atividade política sabem que as Grandes Orientações de Política Económica (GOPE) decididas pela Comissão europeia dos altos funcionários de Bruxelas serão cumpridas à letra por Emmanuel Macron que já as tomou como suas, para retomar os princípios e objetivos. Estas resumem-se em dez pontos:

1°- Redução das despesas públicas. O governo anunciou o seu plano de 50 mil milhões de economias. É a famosa contrapartida “do pacto de responsabilidade” para não fazer explodir o défice. Ora, todos os economistas sabem que praticar cortes drásticos nas despesas públicas quando um país está já em período de estagnação económica é uma política que pode apenas conduzir à recessão;

2°- Redefinir “o alcance da ação dos poderes públicos”. Isto significa intensificar as privatizações e a destruição do nosso sistema de saúde e dos nossos serviços públicos aos quais os Franceses maioritariamente estão ligados. O encerramento de várias dezenas de serviços de urgência médica já está programado;

3°- Realizar “importantes economias a curto prazo (que) não podem ser realizadas sem uma redução significativa do aumento das despesas de segurança social”. Isto far-se-á por uma diminuição massiva dos reembolsos de saúde dado que o ramo doença representa quase 50% das despesas da Segurança social e far-se-á também pela privatização galopante da Segurança social através do recurso crescente às mútuas privadas. Para o ramo velhice, após o aumento da idade de reforma, o congelamento do montante das pensões está na ordem do dia. Quanto ao desemprego, o texto fala de “redução gradual dos subsídios”: isto leva a pensar que se prevê uma baixa mais importante e mais rápida dos subsídios ao longo do tempo.

4°- “Simplificar os diferentes escalões administrativos”: não se trata aqui de lutar contra a burocracia, mas de afastar os cidadãos dos centros de decisão. O objetivo é acabar com a República francesa como Estado soberano e independente para o transformar numa província de Washington. O porta-voz do governo, Stéphane Le Foll, declarou‑o ele mesmo aos agricultores em cólera: “Não se pode fazer nada. A política agrícola decide-se em Bruxelas“…

5°- No capítulo custo do trabalho, “convém que o salário mínimo continue a evoluir de maneira propícia à competitividade e à criação de emprego”. Tradução: parar com as revalorizações do SMIC e começar a pôr em prática a sua supressão.

6°-Uma atenção específica deveria ser dada às disposições regulamentares do Código do trabalho ou às regras contabilísticas ligadas aos limiares específicos em matéria de efetivos, que obstruem o crescimento das empresas francesas“. O candidato Macron chama a isto “libertar o trabalho”. Trata-se, de facto, de reforçar “a liberdade de exploração” pelo grande patronato que “a lei trabalho” começou a pôr em obra. Estando os franceses orgulhosos do seu país, dos valores da sua República e das suas conquistas sociais, os grandes proprietários privados da economia desejam beneficiar de uma mão-de-obra sub-educada, barata, não sindicalizada e disponível para ser explorada a seu bel-prazer. Com as guerras contra a Líbia, e depois contra a Síria, Nicolas Sarkozy e François Hollande abriram as fileiras ditas “do Mediterrâneo” e “dos Balcãs”. Resultado: não somente a França está hoje em plena ilegalidade internacional como também, de acordo com a Comissão europeia, “três milhões de pessoas suplementares deveriam chegar à União europeia” por estes dois corredores e apenas para período 2015-2017. A Comissão não fixou quotas por país para os grupos criminosos vindos pelas mesmas fileiras…

7°- Aumentar a flexibilidade das condições de trabalho no caso de dificuldades económicas provisórias”. Trata-se de como começar a instituir “a lei trabalho” Valls-Macron- EL Khomri, de prosseguir o pôr em causa a própria existência de contratos de trabalho de duração indeterminada (CDI) e de aumentar a sua precarização.

8°- Uma maioria permanece confrontada com importantes barreiras à entrada ou com o exercício [de atividade ] (por exemplo os táxis, o sector dos cuidados de saúde, os notários e, mais geralmente, as profissões jurídicas)”. O objetivo é levar bem mais longe a desregulamentação destas profissões já em dificuldades na sequência de diferentes tratados da União “europeia”.

9°-As tarifas regulamentadas continuam a ser aplicadas para as famílias e, no que diz respeito à eletricidade, são fixados abaixo dos níveis de custos e o acesso para os outros fornecedores é limitado”. Leia-se: o aumento das tarifas e a privatização da EDF estão igualmente programados.

10°-No sector dos caminhos-de-ferro, as barreiras à entrada continuam a entravar o bom funcionamento do mercado”. A privatização da SNCF e a pressão em colocá‑la em concorrência forçada são igualmente visadas. A privatização parcial da SNCF já teve efeitos muito “significativos” em matéria de competitividade: desde o lançamento do TGV em 1982, nenhuma linha de grande velocidade liga ainda Paris a uma capital regional como Bordéus, considerando os acionistas das sociedades privadas que esta realização é demasiado dispendiosa… [4]

 

Para fazer passar todos estes golpes foi criado um dispositivo de comunicação com objetivos diferentes para a primeira e a segunda volta das eleições presidenciais.

O contrato social francês e a paz estão em perigo

A importante campanha de comunicação e de desinformação orquestrada pela equipa de Emmanuel Macron dissimula as consequências do programa político do candidato da grande finança: a dissolução do contrato social francês e a continuidade da política belicista de Bruxelas contra a Federação da Rússia e a paz. Aquando da primeira volta das eleições presidenciais, o objetivo procurado pela equipa e os apoios de Emmanuel Macron foi colocarem François Fillon fora de corrida sem efetuar nenhuma campanha específica contra Marine Le Pen. O objetivo era então reorientar o voto dos eleitores Les Républicans e do centro para o candidato posto em cena por François Hollande e pelos meios atlantistas. Por outro lado, estes últimos deixaram Benoit Hamon efetuar a sua campanha sob as bandeiras do partido “socialista” com o únicos objetivo de fazer falhar a campanha de Jean-Luc Mélenchon. François Fillon, o único candidato que teria podido pôr em cheque Macron, ao ser posto fora de corrida a comunicação muda de orientação para a segunda volta. Após “a rutura” de Nicolas Sarkozy e “a mudança agora” de François Hollande, nada mais resta aos dirigentes “socialistas” senão continuarem a diabolizar a Frente Nacional pelos seus habituais detratores apresentando ao mesmo tempo Emmanuel Macron como “o homem da renovação”. Novos rostos e a receita já provada para a mesma velha política.

“Vende-nos um personagem de teatro…”

No teatro mediático Macron representa para os franceses a peça “do candidato anti-sistema”. Esta competição de quem distribuirá mais promessas não cumpridas funcionou a fundo. Nesta democracia reduzida a um simples concurso de maquilhagem, as missas mediáticas em formato de grande espetáculo deram a alguns o sentimento de participarem no “poder do povo”. Farto! São apenas os espetadores ruidosos e animadores de um espetáculo de divertimento político descartável, os motoristas de sala e pequenos portadores de bandeirolas que aplaudem às declarações escolhidas, os espalmados alimentados à força de um produto tóxico tornado consumível e produto vedeta à custa de anúncios mediáticos repetidos. Assim como o sublinhou, não sem humor, o economista Jacques Sapir:

“Tudo isto põe à luz do dia o que é a candidatura de Emmanuel Macron. Uma peça montada, com este gosto ligeiramente adocicado e enjoativo das pastelarias de supermercado que têm açúcar e lípidos em excesso. É uma candidatura que precede o programa, enquanto a lógica imporia o inverso. Porque, apresentar-se nas eleições presidenciais não é nada, a não ser apenas ambicionar o posto de governador de uma França submissa em face da Alemanha. Espera-se de um candidato um programa e uma visão, que não se limite a posturas de efeito nos salões de reuniões e face a auditórios conquistados à partida. Espera-se algo de mais profundo; e este algo de mais profundo aqui, contrariamente à fábula do lavrador e dos seus filhos, é na verdade o que mais falta”. [5]

Sob uma apresentação enganadora sobre o tema da “revolução” e da “renovação”, o programa de Macron não propõe nada de outra coisa que não seja a continuidade da política de presidente e dos governos de François Hollande com a qual ele mesmo colaborou ao mais elevado nível do Estado.

Propõe-se ele libertar a Banque de France do espartilho do Banco central europeu e dos integristas dos mercados financeiros? Não. Propõe-se ele nacionalizar o sector bancário e financeiro a fim de permitir aos franceses controlar os movimentos de capitais para assegurar a estabilidade financeira e monetária do país? Não. Propõe-se ele nacionalizar as sociedades do CAC40 a fim de pôr a economia ao serviço do interesse geral, acabar com a evasão fiscal destas empresas, desenvolver a gestão democrática e criar novas relações entre estes grandes grupos e o tecido das PME e TPE? Não. Propõe-se ele proibir os despedimentos nas empresas que realizam lucros? Não. Propõe-se ele pôr em prática um quadro legislativo que favoreça progressos na gestão democrática das empresas, esses lugares onde homens e mulheres passam o essencial da sua vida? Não. Propõe ele novas disposições como o recurso aos referendos para desenvolver o debate e a escolha democrática do país sobre as grandes questões nacionais? Não. Propõe-se ele sair do bloco militar NATO a fim de voltar a dar à França a sua independência militar, o controlo da sua defesa e a empenhar-se pela paz do planeta contra qualquer imperialismo? Não. Propõe-se ele sair da União “europeia” de Washington para participar na construção da grande Europa, bem real essa, que se estende de Vladivostok a Lisboa? Não. Nada, mas mesmo nada, de tudo isto. Porquê? Porque se trata de um produto cruzado de ENA, da Inspeção das finanças, do banco Rothschild, de um pequeno-burguês, de um bluff do tipo dado à luz pela geração Mitterrand. Apresentar‑se se como “antissistema” quando se tem o quadro mental formatado na ENA – escola onde se aprende a gerir e a reproduzir o sistema à custa de regulamentos –, quando se trabalhou no Banco Rothschild – instituição que figura no número dos principais atores da financeirização da economia –, quando se foi conselheiro económico de François Hollande e ministro da Economia e da indústria do governo Valls – com os resultados desastrosos que se conhecem – significa pura e simplesmente uma grande impostura. Como tão bem o disse o economista Jacques Sair, “vende-nos um personagem de teatro, o arrivista que cospe na sopa que há muito o tem alimentado (6). E é em vão que se procura no percurso de Emmanuel Macron o mais pequeno elemento que permita ajuizar do seu afastamento, como ele diz, do sistema, bem antes que de ter deixado o banco Rothschild em 2012 para ser injetado nos corredores do poder político. Igualmente, Macron deve tranquilizar e embalar com ilusões a sua “clientela eleitoral”. De resto teve de dizer alto e bom som, bem desajeitadamente, por ocasião do 71º congresso da Federação nacional dos sindicatos de empresários agrícolas que se realizou em Brest no mês de Março de 2017, aquilo que pensava em voz baixa da França do trabalho: “Um criador não gosta de fazer sofrer os seus animais, é como pensar que um empresário gosta de despedir os seus trabalhadores.” Fala de gado, de bois, ou do quê?… Não é por acaso que os jornalecos de Paris ficam embasbacados, maravilhados, em face dos seus discursos ocos, com odor a adegas vazias. À imagem dos rienologues (pseudo-literatos) de Balzac na sua monografia sobre a imprensa parisiense: “A página parece estar cheia, parece conter ideias; mas quando o homem educado a procura ler, ele só sente o odor das adegas vazias. É profundo, e não há lá nada: a inteligência apagou-se como uma vela numa cave sem ar. O pseudo-literato é o deus da burguesia atual; está à sua altura, é limpo, é nítido, é-lhe inócuo, nunca lhe criou incidentes. Esta torneira de água quente gorgoleja e continuaria a fazê-lo, se pudesse, por todos os séculos sem parar“.

O essencial: salvar o contrato social francês

Como já o tinha dito, nos factos, o programa de Emmanuel Macron está já em aplicação. Os que se preparam para votar e fazer votar a favor deste impostor contribuirão para o assassinato premeditado, planificado, cinicamente calculado do que permanece do contrato social francês que assenta sobre o emprego assalariado. Sem dúvida é necessário recordar aos franceses a necessidade de se oporem tenazmente à sua destruição atual, como o faz Hervé Sérieyx, que foi dirigente de empresa, alto funcionário e professor da Universidade, na sua obra pertinente Alerte sur notre contrat social – Alerta sobre o nosso contrato social: “Recordemos que em França, o essencial do contrato social assenta sobre o emprego assalariado: é ele que financia na sua maior parte a Segurança Social, e por conseguinte, o sistema de saúde, as reformas e o sistema de solidariedade geracional, o nível de vida do Estado através dos impostos e, por conseguinte, é ele que garante o conjunto dos sistemas de redistribuição. Este emprego assalariado, no coração do nosso contrato social, depende ele mesmo do destino das nossas empresas (7).

Os franceses que votaram e se preparam para votar pelo candidato da coligação “socialistas- Republicanos” ou a absterem-se, visivelmente ainda não tomaram consciência da gravidade das consequências da conceção anglo-saxónica da empresa (“tudo para o acionista”) que defende o programa de Macron. Uma conceção que põe em causa o emprego assalariado sobre o qual assenta o essencial do financiamento dos nossos sistemas de solidariedade; uma conceção de que o programa de Macron, já em aplicação, pode pôr por terra todos os fundamentos da nossa proteção social e dissolver as relações que nos permitem fazer e ser sociedade. Quanto mais as empresas sejam privatizadas, em proveito de interesses específicos, mais o interesse geral continuará a sofrer uma regressão, mais o emprego assalariado se irá enfraquecer, mais as solidariedades se dissiparão, mais o desemprego e a miséria ganharão novas camadas da sociedade, mais o futuro será incerto e sombrio. Por esta razão essencial, mesmo sem estar de acordo com o programa da Frente nacional que não tem, do meu ponto de vista, nada de extremista, o voto na sua candidata ressalta, nestas circunstâncias, como o único meio para fazer barragem à destruição contínua da nossa sociedade pela grande finança voltando a dar a palavra ao povo de França. No seu oposto, uma vitória de En Marche! arrastaria a França para a instabilidade política pelas querelas internas e pela procura de maiorias de circunstâncias constituídas a partir dos velhos partidos – dos LR aos pequenos grupos esquerdistas passando pelos restos do par PS-PCF – e para o agravamento da situação económica e financeira do país devido ao prosseguimento da política de desregulamentação e de privatizações com consequências sem precedentes ao nível da precarização social.

Podem-se ver “vantagens” como quando Macron, antigo colaborador do criminoso François Hollande (8) à luz do estipulado no direito internacional, se declarou favorável à guerra contra a Síria e tomou posições hostis contra a primeira potência do continente europeu, a Federação da Rússia. Mas que outra coisa pode fazer um candidato da grande finança apátrida enquanto os meios atlantistas de Washington e de Bruxelas procuram provocar um novo grande conflito para apagar o seu endividamento e salvar o seu sistema em crise? (9). Mas isso é uma outra história tendo os resultados da primeira volta das eleições presidenciais mostrado que ela escapa visivelmente ao entendimento de uma maioria de franceses. Neste sentido igualmente, o voto por Marine Le Pen é um voto a favor de uma nova construção europeia e da paz.

Jean-Loup Izambert, Macron, la grande imposture- Ce que dissimule Emmanuel Macron aux Français. Texto disponível em :

http://www.mondialisation.ca/macron-la-grande-imposture/5586924

e ainda em https://www.egaliteetreconciliation.fr/Programme-economique-et-social-la-grande-imposture-Macron-45359.html

 

e em http://www.libertepolitique.com/Convaincre/Dossiers-thematiques/Macron-la-grande-imposture

Notas

(1) Loi Macron, le choix du toujours moins, por Martine Bulard, Le Monde Diplomatique, abril 2015.

(2) Sénat Projeto de lei considerado como adotado pela Assembleia Nacional por aplicação do artigo 49, alínea 3, da Constituição após adoção do procedimento acelerado « Pour la croissance, l’activité et l’égalité des chances économiques », 19 fevereiro 2015.

(3) Discurso de Emmanuel Macron, Lyon, 5 de fevereiro de 2017.

(4) Ler sobre este tema Les GOPE (Grandes Orientations de la Politique Economique) ou la feuille de route économique de Matignon, por Charles-Henri Gallois, responsável nacional de UPR encarregado das questões económicas, 13 de março de 2017, www.upr.fr, privatizações em França.

(5) L’inquiétant M.Macron, por Jacques Sapir,12 de fevereiro de 2017.

(6) Ibid 5.

(7) Alerte sur notre contrat social, por Hervé Sérieyx, Ed. Eyrolles, p.16.

(8) Veja-se  56, tomo 1 L’Etat français complice de groupes criminels e 56, tomo 2 Mensonges et crimes d’Etat, por Jean-Loup Izambert, IS Edition.

(9) Veja-se  Trump face à l’Europe, por Jean-Loup Izambert, IS Edition

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