Crise da democracia, crise da Política, Crise da Economia: o olhar de alguns analistas não neoliberais – 13. Análise do ciclo económico da economia europeia no verão de 2016: nenhuma recuperação em lado nenhum (parte 1). Por Heiner Flassbeck

Seleção e tradução de Francisco Tavares, revisão de Júlio Marques Mota

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13. Análise do ciclo económico da economia europeia no verão de 2016: nenhuma recuperação em lado nenhum. Parte 1.

 

Heiner-Flassbeck

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Por Heiner Flassbeck, publicado por Flassbeck-economics em 18 de Agosto de 2016

 

1.Cálculos incorretos do PIB

A diferença entre o que um observador conhecedor pode deduzir dos dados respeitantes à economia europeia e aquilo que o departamento das estatísticas oficiais faz desses dados está a tornar-se cada vez mais grotesca. Na semana passada, o Departamento Federal de Estatísticas divulgou um crescimento do PIB alemão de 0,4% no segundo trimestre de 2016 em relação ao primeiro trimestre (ver aqui). O Eurostat apresenta – utilizando os valores alemães, claro – um crescimento de 0,3% para a zona euro enquanto estimativa preliminar (ver aqui).

Já o dissemos muitas vezes e infelizmente temos de repeti-lo: estes valores não valem sequer o papel em que estão inscritos. Escandalosamente, os estatísticos têm uma imaginação muito fértil para produzirem aquilo que os políticos querem ouvir. E isto está a piorar constantemente. Os meios de comunicação não mostram nenhuma apetência por análises críticas ou clarividentes. A comunidade científica dominante pega nestes números ardentemente e com júbilo apregoa as grandes novidades por todo o mundo. O nosso pedido feito ao departamento federal desde há muito, a divulgação complete do cálculo dos dados das contas nacionais torna-se mais importante que nunca.

Na Alemanha, todos os dados concretos (i.e. aqueles que podem ser consultados no curto prazo) apontam para uma diminuição da produção no segundo trimestre em comparação com o primeiro. No segundo trimestre, o índice da produção na indústria transformadora (ou seja construção mais indústria) passou de 109.0 para 110.1 (2010 = 100). O retalho, que contribui para a produção e é ao mesmo tempo o indicador mais importante da procura, registou uma evolução de 106.1 para 106.5 no primeiro trimestre (dados do  Deutsche Bundesbank, ver aqui).

O quão erradas estão as avaliações do Departamento Federal de Estatísticas pode ser imediatamente compreendido quando se vê que praticamente apenas consideram o lado da procura da economia, sobre a qual, em cima da hora, sabem virtualmente nada. A divulgação na imprensa diz que:

“Os impulsos positivos provieram, em comparação com o trimestre anterior, (os preços ajustados pelos efeitos de sazonalidade e de calendário) principalmente das exportações líquidas. De acordo com cálculos preliminares, as exportações aumentaram em comparação com o primeiro trimestre de 2016, enquanto as importações diminuíram ligeiramente. A despesa em consumo e o consumo público cresceram e estão a suportar o crescimento. Contudo, o crescimento foi prejudicado pelo fraco investimento bruto. Principalmente, houve menos investimento em equipamentos e em construção do que no forte primeiro trimestre.”

O problema é que tudo aquilo que a Alemanha exporta tem de ser produzido. Isto aplica-se tanto às exportações como ao consumo. Se a produção industrial está a diminuir, então o crescente volume de produtos que foram vendidos terá caído do céu.

Se o principal indicador do consumo está em queda, é caso para nos perguntarmos como podem os estatísticos defender que a despesa em consumo está a suportar o crescimento. A única escapatória que resta, e está na verdade a ser utilizada, são as importações. Se numa economia em declínio as importações diminuem e o saldo da conta corrente (exportações líquidas) aumenta em consequência disso, é possível que apesar da situação de declínio citado o valor do PIB ainda assim aumente, uma vez que parte da redução em bens importados é substituída pela produção de bens nacionais, [a que se chama efeito de switching] e que faz assim aumentar o PIB.

Um resultado assim tão patético significaria que mesmo a primeira afirmação do comunicado à imprensa do Departamento Federal de Estatística “A economia alemã continua a crescer” é enganadora. Porque então, a economia não está realmente a crescer de modo nenhum. É uma questão de um cálculo estatístico que apresenta um resultado positivo em virtude de uma produção em queda estar a ser aplainada por menos importações e um ligeiro maior consumo de bens domésticos. O que interessa nos dados do Departamento Federal é o importante recado político por detrás deles: estamos a obter bons resultados.

2.A economia alemã estagna

Mas não estamos a obter bons resultados. Os resultados concretos dos inquéritos estatísticos dos últimos meses demonstram que a Alemanha permanece em modo estagnado. As novas encomendas na indústria não dão sinais de recuperação ou de crescimento (ver figura 1). A procura de produtos industriais alemães permanece ao nível de 2014, nível que tinha sido atingido também em 2011. Isto é válido para a procura tanto externa como interna.

Figura 1

13 parte 1 ciclo economico economia europeia verao2016 1

O índice Ifo para a atividade económica [indicador preparado pelo Instituto de Investigação Económica de Munique], que não abrange somente a indústria (incorpora também o comércio e a construção) mostra que não existe crescimento do volume de encomendas (ver figura 2) (consulte o índice aqui). Esta justaposição entre o índice e o volume de encomendas significa também que não é de esperar haver crescimento enquanto o volume de encomendas na indústria se mantiver sem alteração.

Figura 2

13 parte 1 ciclo economico economia europeia verao2016 2

Vários comentadores referem-se com optimismo ao setor de construção, onde, de facto, as encomendas subiram. Mas se e quando exatamente a construção estará na verdade a subir com base de indicadores como novas encomendas e licenças de construção é uma pergunta a que não é fácil responder. Até ao momento, pelo menos, não parece que haja uma retoma e o índice Ifo sugere que as expetativas de negócio na construção, embora avaliadas como positivas, mantêm-se diminutas.

Também não são de esperar substanciais novos impulsos do exterior. A análise das encomendas dos países europeus e dos países não europeus tão pouco evidencia uma dinâmica ascendente (ver figura 3). A reativação de encomendas vindas de fora da zona euro, iniciada em 2014, terminou e não existem novos impulsos da zona euro tão pouco. Como dissemos atrás, a Alemanha apenas pode reclamar efeitos positivos no comércio externo em virtude da diminuição das importações. O verdadeiro escândalo europeu é que a Alemanha está ainda à espera de tais impulsos do exterior, em vez de os provocar ela própria e dinamizar a economia europeia.

Figura 3

13 parte 1 ciclo economico economia europeia verao2016 3

Na segunda parte deste texto poderá ver como evoluiu a indústria europeia no segundo trimestre. A terceira parte mostrará outros indicadores relevantes para a Europa e interrogar-se-á sobre as consequências que devem ser extraídas desta má situação.

Texto original em: http://www.flassbeck-economics.com/cyclical-analysis-of-the-european-economy-for-the-summer-of-2016-no-recovery-anywhere-part-1/

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Hitler, nos finais da guerra de 39/45, teve o topete de anunciar estar para aparecer uma arma que tudo modificaria em favor dos hunos. Viu-se !!! CLV

    Gostar

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