A GALIZA COMO TAREFA – spero lucem… – Ernesto V. Souza

PAXAROS; PEIXES, E HOMES,
DE DISTINTA CASTA SON :
AQUELLES CÓMENSE ASADOS,
PERO ¿OS RACIONALES ? NON.
Não há tantos anos, uma, duas décadas talvez, naquele remoto Reino da Espanha parecia claro que se consolidara a democracia; e que esta, campava, com os mais dos seus valores e indicadores, plena por discursos e livros de texto.
Nestes, a gente apreendia e confirmava que um dos grandes erros da história foram as repressões intensas à crítica religiosa, política, académica, intelectual e científica que sobrevieram às práticas e à cultura inquisitorial provocada pela Contrarreforma.
O erasmismo, a discrepância, a polêmica e a crítica foram por séculos varridas da Sociedade espanhola; a imprensa e a universidade acorrentadas, e as redes sociais (tertúlias, correspondência, salões, palestras, periódicos) controladas pelas polícias religiosas, privadas e do Reino.
O modelo de sociedade estamentalizada, com uma oligarquia fechada, que se repartia o poder e empregava todas as armas do sistema para defender os seus privilégios e modo de vida, prolongou-se tempo de mais, até que a evolução do mundo industrial provocou que colapsara sem remédio.
Por causa disso as ciências, a ciência experimental, o pensamento político e social, a filosofia, e também em consequência as artes, ficaram estupidamente infantilizadas; e com elas o mundo académico e a universidade. A industria, as comunicações, as mudanças próprias da revolução económica e industrial originadas no Século das luzes demoraram muito ou não chegaram a um país que ficara primeiro estancado e depois atrasado desde fins do século XVI.
A reação absolutista de 1814 levou-se também por diante os esforços técnicos, científicos e os logros industriais, as liberdades políticas e organizativas e até os sucessos militares e diplomáticos que conquistara a vencedora da França.
Eliminados da sociedade espanhola por centúrias, a imaginação, a crítica, o pensar e agir per se, gravaram a industria, a economia, a universidade, as ciências, as artes e as letras. Política caciquil, imprensa adscrita aos partidos legais e depois rotativistas. E sobre este caldo o franquismo, taurófilo, ultracatólico, machista e castrense, após eliminar brutalmente genocida, a tradição alternativa, liberal, operária, republicana, regionalista e nacionalista, caiu como uma imensa lousa de medo, repressão e silêncio.
A história narrada em forma simplificada e oficial; os escritores, jornalistas e pensadores promovidos em função dos seus discursos, parlamentos e escritos exaltantes da nação e das bondades do sistema político e judicial e não por qualquer mérito; as cátedras ocupadas por múmias silenciosas e salvaguardas dos valores sagrados da nação, a religião e a família, que são mais baratos que os científicos necessitados de recursos, laboratórios e método crítico.
Medo, repressão política e social, silêncio, desmemória e história nacional da pátria a imagem e símbolo de uma ditadura conservadora e ultra-católica, na qual o fantasma da Inquisição e dos seus familiares, tribunais e processos, cobrou de novo vida.
Quem ia pensar que com estes antecedentes e advertências, em 2017, e num crescendo de violentação dos princípios garantistas, com a lei Mordaça, iriam ressuscitar modos e medos nas assas de uma funesta legislação anti-terrorista? Quem ia dizer que as novas redes sociais, iam ser controladas como a correspondência e as cátedras na procura de delitos de opinião; quem ia dizer que a internet seria igual de suspeita que a velha imprensa erasmista.
O Reino da Espanha não aprende da sua própria experiência e continua a querer parar a história, a comunicação social, os protestos sociais e reivindicações nacionais com pressão policial e repressão judicial, apoiado por uma imprensa adscrita e por um mundo académico e social onde o silêncio reina a câmbio da promoção individual.
Escritores da contrarreforma, escritores do regime, “jornalistos”, “opiadores” e martelos de hereges, conformam o panorama dos jornais, os prémios, as tertúlias e as listagens de livros mais vendidos, em contraste com jornais fechados, contas de redes sociais afogadas, blogues e livros no Índice e exilados de média, livrarias e das recomendações a escolares.
Arrepia pensar quem em 2017, na Espanha continue sendo delito a opinião, e sendo punível a reunião publica e a manifestação, e que o protesto cidadão, a reação mesmo que passiva, a filmagem ou a sátira ante as atuações violentas da polícia e arbitrárias da judicatura estivesse também suspeita de delito e punição no grau máximo que permitem as suspensões de direitos fundamentais ao abeiro das delirantes leis anti-terroristas patuadas e toleradas pelos grandes partidos políticos espanholes.
Enfim, a polícia, o sistema judicial, a imprensa espanhola têm de sempre a curiosa capacidade de nos ajudar a situar política e civilmente. Como dizia aquele lema humanista e cripto-protestante dissimulado no meio do emblema do impressor do grande Cervantes: POST TENEBRAS SPERO LUCEM; e após o governo desta direita rançosa e escura haverá também de esperar mais luzes.

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