5. O jornal “LIBÉRATION“ e os patrões : juntos desde 1984 – PARTE III

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 5– Parte III

(Sébastian Fontenelle, in blog Bakchich, 2014)

Tão rapidamente sonhado, tão rapidamente feito: o visconde Villiers  conseguiu apenas com a magia da sua palavra (e sem estar a adivinhar que o seu gesto forçará alguns anos mais tarde à admiração [quase beata] de eminentes jornalistas progressistas) convencer os nativos “ a que o ajudassem”.

Sobretudo, “a administração”, excedendo (por uma só vez) a sua cinzenta tristeza, aceita “não obstruir os seus esforços” (e renuncia, por extraordinário que pareça, à utilização da força bruta das tropas, descartando Turreau.).

A sequência é um conto de fadas bem badalado e divulgado, típico dos anos 1980, onde “o espetáculo” do Puy-du-Fou apresenta cinco anos após a sua criação “um volume de negócios de 10 milhões de francos” – e no qual “a revista Challenge” consagrou mesmo, suprema unção, “uma reportagem, história de sucesso deslumbrada por este jovem antigo subprefeito em rutura com a Administração, enarca da Vendeia, todo ele envolvido no espírito de empresa e dos ares dos tempos”.

É muito ( muitos franceses bater-se-iam por uma reportagem em Challenge), mas isto não é mais do que justiça, porque “a epopeia de Vendeia e de Philippe de Villiers reúne a maior parte dos ingredientes que compõem esta indefinível boa notícia que se sente estar a  aparecer por detrás da crise” – como, por exemplo, “a autonomia” (em vez da “ velha noção” sovietóide “de uma cultura sob tutela do Estado, patrocinada, frágil e deficitária”), que deve entrar em grande parte em qualquer epopeia que tenha sucesso , ou a “ recusa da instituição”, garante “de um espírito de infância” que faz do Puy-du-Fou uma inebriante “aventura libertária e fraterna” – e cristã, também, dado que Villiers afirma bem alto e claramente “que a fé”, aí está ela, é ela que o seu “verdadeiro motor”: isto cria-lhe “algumas suspeições de ordem política”, e “ocasionalmente um papel mais irónico” mas isto “não é grave”, conclui Jean-Claude Guillebaud, que não tem nenhuma intenção de deixar que alguns mal-intencionados lhe estraguem o objeto da sua admiração.

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Acontece por vezes que certas histórias de amor acabam mal, e o realismo obriga a confirmar, à luz (crua) dos vinte e oito anos que se seguiram à sua publicação, que a ode de Libération a Villiers constitui um dos mais exemplares casos de flagrante divagação da história da imprensa.

Alguns anos mais tarde após a sua publicação, na verdade, o visconde, reprimindo o impulso que o tinha levado a escolher a recusa da instituição e a liberdade colorida (em vez da acinzentada função pública), entra na política e ganha, ao mesmo tempo, um lugar de deputado, à cabeça de uma administração – o conselho geral de Vendeia – que não passa para ser a mais funky da metade Norte da França: irá permanecer mais de dez anos no cargo e encherá algumas boas obras de subvenções que farão tossir fortemente a câmara regional das contas.

Sobretudo: o anarquizante (e muito convivial) jovem progressista de quem o Libération gostava tão ternamente do seu “espírito de infância” (e até à fixação num cristianismo levemente datado) revela-se ser, em política, onde faz um trajeto ao lado de tão notórios progressistas como Charles Pasqua, um dos mais notórios representantes de uma direita (muito) dura, onde a convivialidade entra apenas (em muito) pequena parte, e na qual a história libertária não conta como uma das principais referências.

Mas claramente: os visionários profetas de Libération não podem adivinhar mesmo nada de tudo isto, quando eles o escolhem como a sua nova mascote de nova França.

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Esta França modernizada, e finalmente liberalizada do jugo do Estado, é Yves Montand que, em 1984, dela fala melhor: é por conseguinte a ele que Libération deixa a última palavra do seu legendário número fora de série – e é um festival, onde o ator passado do culto ao grande Estaline ao de Ronald Reagan transmite (para os jornalistas Jean-Michel Helvig e Laurent Joffrin [definitivamente incontornável], que recolhem [devotamente] algumas das suas ideias) a plena medida do seu excecional talento.

Desde o princípio: Yves Montand declara que de longa data tem tido uma “ideia da crise” – e essa ideia veio-lhe à cabeça ao ver o espetáculo (deprimente) ” de uma manifestação  de agricultores em protesto contra a entrada de Espanha no mercado comum onde os manifestantes ” estavam bem vestidos, bem alimentados, como se fossem quadros médios.”.

Naquele dia, Yves Montand disse: “Nos anos trinta, mesmo assim, era completamente diferente, era uma outra coisa – as pessoas realmente lutavam para comer, para sobreviver. “

Com esta experiência extremamente rica, o especialista desenvolveu a sua visão do mundo – que não deve ser muito diferente da, por exemplo, que tem a direita americana: ” Nós estamos num capitalismo. Fora dele, só existem os sistemas de Leste”.

Então (e não se encontrar melhor coisa do que os mercados), “nós temos que viver com eles “, com este capitalismo, onde se ilustram também ” pessoas competentes e boas” que “sabem como fazer funcionar a máquina”, e que, portanto, “tem o direito de obter lucros: “pessoas como Dassault, por exemplo” – que é, reconhecidamente, um pouco marcado politicamente, mas cuja contribuição para o desenvolvimento dos seus compatriotas devem ser melhor valorizado.

De resto, é chegada a hora, de acordo com Yves Montand, de renunciar a certas degradantes designações: “A palavra esquerda”, por exemplo, “esconde demasiadas abominações, demasiadas cumplicidades insuportáveis” com demasiado infâmias soviéticas – enquanto que se “pode dizer muitas coisas sobre ” o muito simpático “Reagan, mas quando este explica que é necessário impedir que a América central se transforme numa base russocubana, ele tem razão”.

E que importa, se a pax americana é feita à custa de grandes chacinas patrocinadas por Washington, nos indigenatos locais, com algumas centena de milhares de mortes – Yves Montand não “suporta” de resto “” que se lhe fale do Chile, ou de Salvador: “Isso, eu conheço, conheço muito bem, para., papá”

Corta com um tranquila segurança – ainda mais meritória quanto os seus interlocutores negligenciaram sugerir-lhe que se mostrasse menos odioso.

O ator – o que se previa – confirma-o seguidamente sem se  estar a fazer rogado: “saiu da família da esquerda”, e considera doravante (enfim, ganhou bem mais sabedoria do que quando era jovem em que se entusiasmava por Estaline) que “não se pode dizer, de modo nenhum, que tudo é culpa do capitalismo”, e que conviria, pelo contrário, fazer-lhe mais aclamações, porque produz, não desagrade aos comunistas, “ patrões competentes e corajosos”, e protege contra o assistencialismo onde “as pessoas que trabalham se contentam apenas em estender a mão ”.

E conclui pela necessidade (por falta “de outra coisa, os gajos”) “de uma adaptação pura e simples da França ao capitalismo mundial”, em que os socialistas fizeram bem em se empenharem – pressionados, é verdade, pela urgência: “A esquerda é bem obrigada a retomar posições sobre a economia que eram tradicionalmente as posições da direita.”.

Pois que não há alternativa.

“O aborrecimento, é que se perderam três anos”

(NT: Esta última frase é uma adaptação de um capítulo de Vive la crise (Ver link)).


.(O sexto texto desta série será publicado amanhã, 23/06/2017, 22h)


Texto original aqui

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