Crise da democracia, crise da política, crise da economia: o olhar de alguns analistas neo-liberais – 15. Reflexões sobre a economia alemã. Uma abordagem macroeconómica. Parte 2: Salários e preços. Por Egon Neuthinger

Seleção e tradução de Francisco Tavares, revisão de Júlio Marques Mota

 

Crise da democracia texto 13 analise ciclo economico

15. Reflexões sobre a economia alemã. Uma abordagem macroeconómica. 

Parte 2: Salários e preços

 

 

Por Egon Neuthinger, economista, antigo funcionário do Ministério das Finanças da Alemanha e colaborador em diversas instituições de investigação.

Publicado por Flassbeck-economics em 8 de junho de 2016  flassbeck_logo

 

(As partes que se seguem assentam fortemente em várias contribuições respeitantes às relações entre salários e a conta corrente da balança de pagamentos que Heiner Flassbeck e Friederike Spiecker publicaram em Flassbeck-economices e noutros locais ao longo dos anos).

A objeção de fundo contra os economistas da corrente dominante que defendem que a agenda da Alemanha foi um sucesso, é que estes autores simplesmente omitem fatores determinantes e interdependentes essenciais nas suas avaliações do desenvolvimento económico na Alemanha. Estes fatores são, em primeiro lugar, o baixo aumento dos salários nominais que permaneceram muito abaixo da produtividade mais a meta da taxa de inflação estabelecida pelo BCE; em segundo lugar, o tremendo surto do excedente da conta corrente da balança de pagamentos para agora mais de 8,5 % do PIB.

Este excedente é uma proeza única em relação a todos os grandes países desenvolvidos, que não pode ser explicado sem a evolução salarial e a União Europeia Monetária. Os custos salariais alemães sempre estiveram, internacionalmente e no longo prazo, dentro da escala de valores mais baixos. Consequentemente, a evolução dos preços também esteve nesta escala de valores mais baixos. Após uma subida em 1991/92 ligada à unificação alemã, os custos unitários do trabalho tenderam crescentemente a nivelar-se. A moderação salarial foi também suportada pelo chamado debate de “Standort”, um debate que foi desencadeado pelo receio de que a Alemanha tivesse ficado a perder no processo de globalização.

O principal argumento a favor da moderação salarial era que crescendo os salários reais menos que a produtividade no longo prazo, seria necessário impulsionar a procura interna e (principalmente) estimular o investimento privado e o emprego em resultado de mais elevadas margens de lucro e uma mais elevada eficiência marginal do investimento. Esta previsão apenas muito parcialmente foi concretizada. A procura interna e principalmente o consumo privado permaneceram em média bastante baixos; o investimento privado registou aumentos irregulares e insuficientes. A característica dominante e a causa do “sucesso” alemão – se se pode usar este termo – foi o crescente e duradouro excedente da conta corrente, uma grande e permanente fonte de procura da produção alemã.

Uma vez mais, a história económica alemã repetiu-se: os resultados de “políticas de consolidação ” de longo prazo foram, em regra, não o aumento da procura privada interna, mas o declínio das importações e o surto das exportações e da procura externa. Um exemplo patente é o período de 1982 a 1989, quando a conta corrente da balança de pagamentos passou de um défice de 2% em 1982 para um excedente de mais de 5% em 1989. A Alemanha tinha registado resultados similares em períodos anteriores, quando as principais causas para conseguir fazer a economia sair de recessões ou oscilações de descida foram o crescimento das exportações e os excedentes da conta corrente. Não é sem razão que a OCDE falou de um crescimento alemão conduzido pelas exportações. As análises sobre a evolução económica da Alemanha que ignoram estas peculiaridades fundamentais são simplesmente tendenciosas e fundamentalmente incorretas.

As relações entre evolução salarial, procura externa líquida e conta corrente da balança de pagamentos estão empiricamente devidamente fundamentadas. Sem dúvida, a economia alemã é caracterizada tradicionalmente por um elevado nível de produção internacional e oferta de competitividade, mas é evidente que desde o início da UEM e as suas taxas de câmbio fixas, os custos nominais do trabalho alemães caíram consistentemente abaixo da meta de estabilidade de preços do BCE. Em consequência, o excedente da conta corrente alemã cresceu. O ponto de vista dominante nega a existência desta relação e explica o excedente na base de um desempenho económico superior alemão, com a Alemanha fazendo melhor na inovação tecnológica, por exemplo. De modo algum a corrente dominante considera o excedente um desequilíbrio macroeconómico.

É bastante estranho que nos debates económicos na Alemanha sobre a UEM seja posto um grande ênfase na subida dos custos nominais do trabalho nos países onde estes custos subiram mais do que o admitido pela Regra de Ouro Salarial, por exemplo em Itália, na Grécia e em Espanha, mas que, normalmente, quase nada ou nada mesmo seja dito sobre o facto de que os custos nominais unitários alemães permaneceram consideravelmente abaixo dessa Regra de Ouro Salarial. Aumentos acima do limite estabelecido por esta regra (crescimento da produtividade mais 1,9% da taxa de inflação) são vistos como prejudiciais para a competitividade, enquanto que aumentos abaixo da regra não são considerados nada nocivos ou um imerecido ganho de competitividade internacional contra o tratado original europeu.

Contrariamente à Alemanha, os custos nominais do trabalho em França estiveram, no passado, aproximadamente em conformidade com a Regra de Ouro Salarial; em França os salários nominais cresceram em média de acordo com a meta de preços do BCE acrescida da evolução da produtividade da economia. Como disse Heiner Flassbeck, a França nunca fez nada de errado, não esteve abaixo nem acima da Regra de Ouro (ver, por exemplo, aqui). Deveria analisar-se se a evolução em França foi uma ação consciente dos parceiros sociais e do governo. De qualquer modo, se foi possível à França ter aderido à Regra de Ouro, então também devia ter sido possível a outros países aderirem também a esta regra. Como ficou dito, a Regra de Ouro Salarial é vital para a sustentabilidade da UEM. Esta fórmula é provavelmente mais importante que as normas sobre défices ou orçamentos equilibrados e o travão da dívida porque torna impossível que ocorram desequilíbrios importantes nas contas correntes entre países.

Por ultimo mas não menos importante, a interdependência entre a conta corrente e os saldos das contas públicas deveria ser tida em conta. Saldos positivos da conta corrente reduzem os défices públicos e, vice versa, grandes défices na conta corrente tornam os países mais susceptíveis a défices públicos elevados e dívidas. O saldo do setor público alemão não pode, por conseguinte, ser avaliado sem ter em consideração o muito elevado excedente da conta corrente alemã. Isto deve ser enfatizado, principalmente em relação às chamadas políticas “black zero” [nt: défice zero] – a necessidade de orçamentos equilibrados – que são presentemente elogiadas na Alemanha como sendo um grande sucesso nacional. Poderia acrescentar-se que este ‘orçamento equilibrado’ é, na realidade, parcialmente financiado pelo resto do mundo e pelos países da UEM em particular. Para a Alemanha o tremendo contínuo excedente da conta corrente de 8 % do PIB é, definitivamente, o verdadeiro “salva-vidas” de Fritz Machlup (ver parte 1 aqui). Sem a permanente injeção externa de procura num ambiente geral de redução de salários e de postura orçamental neutral, a Alemanha não teria sido capaz de manter a sua posição política. Por conseguinte, segundo todos os padrões tradicionais de teoria económica, é preciso dizer que a economia alemã se caracteriza por um relevante desequilíbrio.

Texto original em:

http://www.flassbeck-economics.com/reflections-on-the-german-economy-a-macroeconomic-approach-part-2-wages-and-prices-by-egon-neuthinger/

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