Crise da democracia, crise da política, crise da economia: o olhar de alguns analistas neo-liberais – 15. Reflexões sobre a economia alemã. Uma abordagem macroeconómica. Parte 6: a abordagem de mercado, o modelo sectorial keynesiano e os custos unitários do trabalho. Por Egon Neuthinger

Seleção e tradução por Francisco Tavares, revisão de Júlio Marques Mota

Crise da democracia texto 13 analise ciclo economico

15. Reflexões sobre a economia alemã. Uma abordagem macroeconómica. Parte 6: a abordagem de mercado, o modelo sectorial keynesiano e os custos unitários do trabalho.

 

 

Por Egon Neuthinger, antigo funcionário do Ministério das Finanças da Alemanha  e colaborador em diversas instituições de investigação.

Publicado por Flassbeck-economics em 3 de agosto de 2016  flassbeck_logo

1. Diferentes abordagens: a falácia dos fundamentos micro-económicos da macroeconomia

O “modelo de mercado” assenta na visão de que os agregados familiares privados são as unidades representativas que guiam os processos económicos. O cerne desta abordagem é o processo monetarista-neoclássico de transmissão dos preços relativos. As decisões dos agregados familiares distribuem e transformam através dos mercados; a oferta e a procura dentro e através dos mercados específicos – trabalho, capital real e investimento real, financeiro e externo – são as variáveis explicativas. Neste modelo a possibilidade de falhas de coordenação não existe. O mercado satisfaz a visão económica e os desejos dos atores representativos. Por detrás destes atores está o, à primeira vista, compreensível desejo dos economistas de apresentarem uma teoria assente nos fundamentos microeconómicos da macroeconomia. A macroeconomia, ou seja, o comportamento dos agregados macroeconómicos deverá basear-se nas decisões económicas e escolhas dos indivíduos. Os atores representativos centrais englobam todas as decisões económicas que ocorrem. Os cavalos de batalha são a Teoria do Equilíbrio Geral ou seus modelos ou a atual Teoria Dinâmica Estocástica do Equilíbrio Geral.

Como a definição o expressa, existem dois componentes básicos: a parte dinâmica aleatória, ou seja, existem processos dinâmicos e aleatórios que oscilam mais ou menos mas que, eventualmente, conduzem a um equilíbrio. Os economistas neoclássicos e de mercado reconhecem, certamente, as volatilidades do mercado e, de vez em quando, a prolongada fraqueza da procura, mas eles confiam que estes desajustamentos ou desequilíbrios se corrigirão e conduzirão no médio e longo prazo a resultados satisfatórios, de modo que não é necessária a intervenção do Estado. Estes economistas desconfiam de políticas económicas estatais ativas, também com base na experiência das imperfeições e lacunas das ações do governo; apenas em situações evidentes e facilmente compreensíveis, como por exemplo na Grande Recessão de 2008/09, reconhecem a necessidade de políticas orçamentais ativas.

Importante nesta visão é que a diferença fundamental entre consumidores e investidores é esbatida e, portanto, também entre poupança e investimento. Nestes modelos as equações da procura agregada não incluem investimentos, um enorme e flagrante erro.  As empresas e os empreendedores são assumidos como sendo os ajudantes dos agregados familiares; eles desempenham uma função de vigário (Vikar-Funktion). As empresas são deste modo vistas, na medida em que pertencem e são guiadas pelos agregados familiares enquanto atores económicos centrais e representativos. As identidades de fornecedores e compradores não são consideradas relevantes, como não o são as diferenças nos seus comportamentos económicos, nas suas avaliações económicas e nas suas decisões. É óbvio que por detrás deste modelo está a visão de um processo de equilíbrio e harmonia; a encarnação deste modelo é a Teoria do Equilíbrio Geral. O “Modelo de Mercado” é também, certamente, o enquadramento teórico para a teoria neoclássica.

2. O modelo setorial de inspiração keynesiana

O outro ponto de vista é o “modelo setorial” de inspiração Keynesiana: o modelo distingue a diferente atuação das instituições e setores macroeconómicos: agregados familiares, empresas (produtoras e financeiras), o governo e o setor externo (o resto do mundo). Todos estes setores estão ativos nos mercados, mas as suas decisões de mercado têm diferentes fundamentos económicos e objetivos: os agregados familiares ganham os seus rendimentos nos mercados, recebem transferências principalmente do governo e pagam impostos. Consomem e poupam. Elemento importante nesta abordagem sectorial é o facto de os agregados familiares, no seu conjunto, serem um setor com excedente, ou seja, os seus rendimentos são mais elevados que as suas despesas. As empresas são entidades produtoras e de investimento, as suas decisões económicas são determinadas por previsões e expetativas quanto à procura e aos proveitos (lucro dos seus produtos); geralmente são unidades deficitárias. O governo e o setor público devem tomar decisões diferentes das tomadas pelas empresas e pelos setores externos.

Os keynesianos são frequentemente acusados de verem por detrás de cada volatilidade de mercado uma falha de mercado que tem de ser corrigida e justificada por ativas intervenções macroeconómicas do Estado. Esta admoestação deve, certamente, ser tida em conta. Mas, por outro lado, existem uma série de argumentos e critérios que são salientados nesta óptica de abordagem. Consistem eles na grave fraqueza da procura agregada cíclica de curto prazo que é manifesta e deve ser tratada.

Será útil, para a compreensão e conhecimento do desenvolvimento e da estrutura da economia alemã, uma mais detalhada explanação da sequência e das alterações dos saldos financeiros dos setores macroeconómicos: os agregados familiares e as empresas (os setores privados), o governo e o resto do mundo. É possível detectar diferentes fases dos grupos de dados mas, no geral, destaca-se um inequívoco padrão e tendência: caracteriza-se por um persistente, e mesmo dramático aumento nas fases mais recentes, dos excedentes da conta corrente para os atuais 8% do PIB.

3. Uma curta panorâmica histórica e a atual situação

Os agregados familiares apresentam um excedente permanente e mais ou menos estável. Contudo, foi o setor das empresas que teve a evolução mais surpreendente. Este setor era, até ao início da última década, deficitário, ou seja, os investimentos eram mais elevados que as poupanças, e o setor incorria em mais despesas do que tinha de proveitos, acumulando assim dívidas. Mas o facto essencial é que a posição deficitária das empresas decaiu gradualmente desde meados dos anos 70 em diante. O último ano em que o setor das empresas apresentou défice foi em 2001 com um saldo de quase – 2% do PIB. Desde então tiveram sempre, com a excepção de 2003 (saldo zero), excedentes. É notável que desde a Grande Recessão em 2008/09 o setor das empresas tenha obtido excedentes relativamente substanciais, de 2,5% do PIB em média. Os investimentos das empresas tinham falta das suas próprias poupanças em considerável extensão.

Deve recordar-se que do ponto de vista do enquadramento macroeconómico e suas interdependências, o saldo do setor público não pode ser avaliado através de uma meta concreta, por exemplo um saldo zero, devendo antes ser instrumental, ou seja, um item equilibrador particularmente em relação ao setor privado de um país. O ideal clássico: um saldo positivo dos agregados familiares deverá ser a contrapartida de um correspondente saldo negativo do setor das empresas. Em tal enquadramento poder-se-ia conceber um orçamento equilibrado que, na mesma ordem de ideias, implicaria uma conta corrente equilibrada. A economia alemã está muito longe de tal estado ideal de equilíbrio. Assim, o setor privado teve em 2014 um excedente da sua conta financeira de 7 % do PIB. Em 2010 o excedente foi mesmo de 10%. Nesta situação somente era racional e adequado que o setor público incorresse em défices financeiros de até – 4% do PIB, a fim de travar as posteriores forças de mercado depressoras. Recuando mais atrás, e começando pelos elevados excedentes nos anos 50, de algo mais que 4% do PIB durante vários anos, e ainda próximo de 2 % na primeira metade dos anos 60, o setor público incorreu, geralmente, em défices ao longo das décadas até ao ano de 2012.

Nestes períodos de tempo é claramente possível distinguir fases de elevada instabilidade económica e recessões e de períodos de forte desaceleração. Assim, o défice do setor público foi visivelmente elevado no período instável desde meados dos anos 70 até início dos anos 80, e novamente desde o início dos anos 90 até aos anos 2000, e principalmente, e mais uma vez, na Grande Recessão dos anos 2009/010. O saldo da conta corrente espelha logicamente o desenvolvimento que acabámos de traçar dos saldos dos setores domésticos. Desde o início dos anos 50 até ao início dos anos 90 a conta corrente alemã esteve numa posição positiva, embora em evolução, relativamente forte. Apenas em meados dos anos 60, com – 1,5% do PIB, e no início dos anos 80 com uma idêntica média de – 1,5% do PIB, e depois novamente ao longo dos anos 90 até 2001 com um défice em média de cerca de -0,5% a -1% anual, o saldo foi negativo em que os valores decaíram um pouco desde meados da década. Nos anos 50 ocorreram, temporariamente, excedentes relativamente elevados de cerca de 2,5% do PIB, decaindo gradualmente para quase zero e em 1965 mesmo para um défice; e após défices de 1979 a 1981 de -1,5%, passaram a fortes excedentes até 1989 de 4 a 4,5% do PIB. Assim, a avaliação da Alemanha como sendo um país estruturalmente com excedentes durante prazos longos e de uma significativa baixa absorção em contrapartida, ou seja, uma procura interna substancialmente mais baixa que o rendimento, é correta.

Mais importante, esta evolução do excedente da conta corrente mostra, desde o início dos anos 80, uma tendência crescente, somente interrompida pelas decisões políticas dos anos 90, designadamente a unificação alemã e, eventualmente, as decisões de Maastricht de 1992. Segunda observação: nas duas fases do crescimento mais evidente dos excedentes da conta corrente, de 1982 a 1989 e novamente desde os anos de início da UEM, registaram-se tendências de diminuição dos défices do setor público e de excedentes crescentes do setor das empresas. Ambas estas tendências são claros indicadores de uma mais baixa absorção. O saldo financeiro negativo do setor público passou da média de –3,5% no período 1980-1982 para um saldo de quase equilíbrio no final da década. O saldo financeiro do setor das empresas evoluiu de um défice de –3,5% em média no período 1979 /1981 para um saldo de quase zero no final da década, ou seja, uma melhoria considerável. Um padrão similar em ambos estes setores é válido para o período 2000-2014. O saldo do setor público, no período 2000-2014, passou gradualmente de défices médios de – 3 % dos anos 90 e ainda nos primeiros anos após 2000, para saldos negativos mais baixos, apenas interrompidos em 2008/010, e para ligeiros excedentes desde 2012. Idêntica evolução se registou no setor das empresas: o défice de quase – 4% do PIB no início da década transformou-se num excedente, em média de 2,5% do PIB, até 2014. Neste último período, a evolução caracterizou-se, acrescidamente, por uma situação de quase estagnação dos custos unitários nominais dos salários. Poderia ter sido desejável reduzir os défices do setor público em face do aumento da parte da dívida pública no PIB. Mas o desenvolvimento ocorrido identifica com clareza que o postulado, constantemente repetido, de que finanças públicas sãs constituem uma condição prévia de mais investimento das empresas e mais procura agregada, é altamente questionável. Em ambas as fases a resposta da economia aos “esforços de consolidação” foi antes um elevado aumento do excedente da conta corrente, não muito mais investimento.

4. Uma série de diferenças cruciais

Contudo, existem algumas diferenças em ambos os períodos que vale a pena salientar: de 1980 até 1990 os custos unitários nominais do trabalho aumentaram consideravelmente mais do que no período de 1990 até hoje. Já nos anos 90 os custos unitários nominais dos salários aumentaram consideravelmente de forma moderada, continuando assim na década seguinte, desde 2000 até à Grande Recessão de 2008/09 e depois até 2014. Considerando em conjunto as duas décadas e meia os custos unitários nominais do trabalho mantiveram-se consideravelmente abaixo do procedimento da Regra de Ouro. Este facto teve um efeito moderador na procura interna, principalmente no consumo privado, mas também indiretamente no investimento das empresas privadas. O efeito moderador foi reforçado também pelo esforço de redução dos défices do setor público, com uma postura pronunciadamente restritiva da política orçamental, apenas interrompida pelas medidas expansionistas de 2009/010. O resultado destas opções políticas foram os fortes esforços das empresas alemãs em reestruturarem as suas capacidades produtivas relacionados com a posterior penetração nos mercados de exportação, bem como com importações mais fracas, conduzindo tudo em conjunto a um enorme excedente da conta corrente. Mas, não obstante este permanente influxo de procura externa, o investimento das empresas permaneceu bastante fraco e modesto. A Alemanha certamente exagerou porque negligenciou o conhecimento das interligações económicas. Este exagero diz respeito aos grandes desequilíbrios nacionais e internacionais.  Contudo, os desequilíbrios alemães, diferentes dos de outros países, são, não obstante, desequilíbrios, porque são a contrapartida dos desequilíbrios de outros países e, por consequência, não são menos adversos.

Podem-se obter perspetivas adicionais observando as diferentes fases do desempenho económico alemão desde os anos 50. Esta análise permitirá distinguir alterações nas constelações do mercado, que podem ser demarcadas aproximadamente em termos de década completa.

Texto original em http://www.flassbeck-economics.com/reflections-on-the-german-economy-a-macroeconomic-approach-part-6-the-market-approach-the-keynesian-sector-model-and-labour-units-costs-by-egon-neuthinger/

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