10. O consenso de Paris : a França e as regras da finança mundializada – Parte VII (conclusão deste texto)

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 10 – Parte VII

(Por Rawi Abdelal, 2005)

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A afirmação de  que “os franceses” influenciaram a mundialização da finança pode ser compreendida sob dois pontos de vista.  Primeiramente, a política oficial francesa relativa à modificação das regras das três organizações aqui estudadas influenciou-a de maneira desproporcionada, e em dois dos três casos foi  mesmo decisiva no debate entre Estados-Membros acerca da inscrição nos códigos da liberdade dos movimentos dos capitais. Em segundo lugar, os três franceses citados desempenharam papéis extraordinariamente importantes na formulação das agendas das organizações no que diz respeito à liberalização da conta de capital.

Sob um e outro destes dois aspetos, os franceses desempenharam três papéis sucessivos na internacionalização da finança. Entre 1961 e 1983, fizeram obstrução. Entre 1983 e 1988, deixaram que se fizesse  a internacionalização e reservaram-lhe mesmo um bom acolhimento. Por último, em 1988, lançaram-se uma nova missão internacional. Personalidades francesas então desempenharam um papel de primeiro plano no movimento para tornar a mundialização possível.

O paradoxo francês pode explicar-se em parte pela combinação de duas observações simples: uma minoria modernizadora de ministros e de altos funcionários do Tesouro e do Banque de France ganhou uma vitória em Paris quando o país se encontrou mergulhado na crise no início dos anos 1980; e quando deixaram o governo para exercer a sua influência nas organizações internacionais que governam a mundialização, estes vencedores generalizaram e para proveito do vasto mundo as políticas que tinham podido escolher para a França. Mas, diz-nos Delors, “não havia nenhum  plano destinado a liberalizar os movimentos de capitais em  todas as  organizações internacionais. Não era uma conspiração. Nós, esta  minoria modernizadora, partilhávamos uma doutrina comum, que continuamos a defender quando nos  encontrámos em funções   nas organizações internacionais (97).

Há também, mais fundamentalmente, uma abordagem francesa da mundialização, e embora numerosos investigadores e instâncias de decisão pública não pareçam ter-se apercebido, os Franceses eles mesmos exprimem uma estratégia desde há já muito tempo. No 20 de Setembro de 1999, o Primeiro-ministro Lionel Jospin declarava na Assembleia Geral das Nações Unidas: “Mais quanto mais o mundo se globaliza, mais tem necessidade de regras”.

E, como diz Hubert Védrine, um dos pensadores franceses mais influentes sobre as questões internacionais: “A França partilhará a aventura da mundialização, que também será marcada pela França. Toda a nossa política estrangeira gira em redor desta ideia”   (98). No que diz respeito ao sistema financeiro internacional, a França marcou certamente a mundialização estando na linha da frente no que se refere à formulação e à redação das suas regras. A formulação pelos franceses de regras para a liberalização dos movimentos de capitais foi e é essencial, precisamente porque é mesmo centrada na existência  de regras e pela organização que é suposto  seguir-se-lhe . De modo que, de acordo com Lamy, “na Europa, nessa época, é a visão francesa que ganhou : a liberalização associada à organização. Os episódios do FMI e da OCDE são análogos; foram tentativas de liberalização e de organização simultâneas” (99).

O tipo de mundializações que temem os Franceses – descontrolada, caso  a caso, sem regras – é exatamente o tipo de mundialização que tem a preferência dos Estados Unidos. “Se não há  sistema  com regras que se impõem aos Estados, então tem-se um problema”, sublinha Lamy (100),  Devido à dominação esmagadora dos Estados Unidos sobre os mercados financeiros, nem Wall Street nem o Tesouro americano vêem  razão de pôr preto no branco regras que poderiam um dia ser-lhes opostas. No essencial os resultados que as grandes instituições financeiras ou o Tesouro americano desejariam atingir exigem apenas os recursos americanos. Não tinham certamente necessidade de um Delors, ou de um Chavranski ou um Camdessus para defender a mundialização em seu nome.

A abordagem americana de uma mundialização ad hoc, que convém a uma superpotência de ambições económicas estreitas, contrasta fortemente com a abordagem francesa “da mundialização controlada”, estratégia que convém a uma potência média dotada de ambições mundiais. La Fontaine já o tinha referido “É senhor dos lugares quem os organiza ”.


Rawi Abdelal , editado por Champ Libre e Cairn, Le consensus de Paris : la France et les règles de la finance mondiale.

Traduzido do inglês para francês por  Rachel Bouyssou.  

Tradução de Júlio Mota do francês para português.


Notas:

[97] Entrevista com  J. Delors, citado.

[98] Hubert Védrine, Dominique Moïsi, Les cartes de France à l’ère de la mondialisation, Paris, Fayard, 2000. Citação traduzida da versão inglesa, France in an Age of Globalization, Washington (DC), Brookings, 2001, p. 45.

[99] Entrevista com  P. Lamy, citado.

[100] Ibid.


(O décimo primeiro texto desta série será publicado amanhã, 07/07/2017, 22h)


Texto original (em tradução francesa) aqui

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