12. O ano de 1983: A « viragem para as políticas de rigor » em questão – PARTE I

Momento europeu, traição da ideologia socialista para uma política neoliberal ou ainda crise política no seio da maioria, “a viragem” de 1983 catalisa as dificuldades dos primeiros passos socialistas à frente do país.

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 12 – Parte I

(Por Floriane Galeazzi e Vincent Duchaussoy, 02/05/2011)

Os socialistas chegam ao poder em 1981, num contexto económico internacional difícil, a crise que se seguiu ao primeiro choque petrolífero agrava-se depois de 1979. Os socialistas têm no seu programa “as 110 propostas”, que são medidas internas de reformas sociais e económicas a aplicar. Quebrando com as políticas precedentes, os socialistas põem em prática uma ação voluntarista de luta contra o desemprego e a reativação do consumo interno. A desvalorização de Março de 1983 é frequentemente encarada como o momento em que o governo de esquerda toma consciência das dificuldades económicas e que a elas se adapta. Momento europeu, traição da ideologia socialista para uma política neoliberal ou ainda crise política no seio da maioria, “a viragem” de 1983 catalisa as dificuldades dos primeiros passos socialistas à frente do país. Porque é que este “momento” de 1983 se impôs como o da reversão da política socialista? Quais são os constrangimentos que se impõem ao governo de esquerda? Como é que ele responde a estes constrangimentos? Este acontecimento essencial da presidência de François Mitterrand, que anima ainda os debates socialistas, justifica um exercício comemorativo?

Três formas de constrangimentos aparecem: um constrangimento externo ligado a um contexto económico de crescimento quase nulo, um constrangimento político em parte ligado à construção europeia e por último um constrangimento interno ligado à organização do governo e aos desafios ideológicos.

O CONSTRANGIMENTO ECONÓMICO EXTERNO

A situação económica internacional degradou-se sob o efeito do novo choque petrolífero de 1979. Ora, a posição externa da França é particularmente sensível às evoluções da cotação do petróleo e por duas razões: por um lado porque um aumento de um dólar representa cinco mil milhões de francos para a balança dos pagamentos e por outro lado porque o total das compras de energia era então superior à 20% das exportações

A obsessão da balança dos pagamentos

Entre 1981 e 1983, o disparar da cotação do dólar pesa sobre as importações energéticas francesas. Com efeito, o dólar passa de 5,44 francos em 1981 a 7,61 francos em 1983. A fatura energética líquida da França atinge então 178 mil milhões de francos em 1982, para não passar de 169 mil milhões em 1983 e atingir os 187 mil milhões de francos em 1984 (2). O défice comercial permanece estável entre 1980 e 1981 seguidamente alarga-se em 1982 para atingir um pouco mais de 102.000 milhões de francos; reduz-se a 62.500 milhões de francos em 1983 e é apenas de 35.930 milhões de francos em 1984 (3). A fatura energética não pode, por conseguinte, explicar por si só, o défice recorde de 1982. A política de relançamento da economia conduzida desde 1981 a fim de diminuir o subemprego por um aumento dos salários e do consumo conduziu igualmente ao crescimento do défice. O desfasamento de crescimento com os outros países da OCDE (4), que conheceram uma retoma apenas depois de 1983, provocou uma deterioração rápida das contas externas.

Durante o ano 1982, observa uma forte acumulação de défices: défice do comércio externo, défice da balança dos pagamentos correntes que triplica entre 1981 e 1982 e défice das contas das administrações. A política socialista efetuada desde maio de 1981 até junho de 1982 revela o malogro de uma política de crescimento limitada a só um país. A tomada em conta do contexto internacional nas escolhas operadas em matéria de política nacional torna-se inevitável, e é sem dúvida o sinal dos primeiros efeitos da mundialização da economia. Os efeitos nacionais positivos desta política tiveram consequências pesadas sobre a posição externa da França. O desvio de inflação com os outros países da OCDE e particularmente com a Alemanha permanece importante, de aproximadamente 10 à 15%. A balança comercial da França com a Alemanha sente-se – de 23,2 mil milhões de francos correntes em 1981, passa para 39,1 mil milhões de francos em 1982.

Um elemento importante parece residir numa má apreensão do contexto internacional, e mais particularmente a sua importância quando se põe em prática uma política nacional. Acontece que a divulgação e a partilha de informações a propósito das posições externas dos diferentes países estão a dar os primeiros passos. Se podemos presumir a política que teria sido conduzida no caso contrário, é certo que uma das chaves de compreensão da crise de 1983 reside numa falta de informação sobre o contexto internacional e sobre as situações económicas dos principais parceiros comerciais da França. Ora a França participa cada vez mais na internacionalização da economia: é o sexto exportador mundial, as suas importações representam 24,1% do PIB (o governo tenta manter a sua parte do PIB em redor de 20%). Não sendo nem uma grande potência agro-alimentar nem uma potência industrial, a França é vítima de fraquezas devidas à estrutura da sua balança comercial. A sua maior fraqueza é a fatura energética, mas sofre igualmente de uma forte dependência em relação economia mundial e de uma perda de competitividade ao nível internacional ligada à obsolescência do seu sector industrial. A vontade de modernização da indústria e da política do emprego, de que as nacionalizações são um elemento central, tem para objetivo afrouxar o constrangimento externo sobre a indústria, para que as empresas industriais se tornem modernas e competitivas e, por conseguinte, criadoras de empregos. “Ora é o que chamávamos à época o constrangimento externo porque se temos um crescimento demasiado forte e que o aparelho de produção não é capaz de responder à est0e acréscimo de procura, nesse momento nós estamos a criar um défice. […] E por conseguinte a política de modernização cujas nacionalizações vão ser um dos elementos central que nos leva a isso.

A modernização da indústria francesa

Os primeiros tempos socialistas foram os das grandes reformas sociais: as trinta e nove horas, a quinta semana de licenças pagas, o aumento das contribuições sociais e das contribuições para o desemprego. A prioridade foi dada ao emprego e ao social mais do que na melhoria dos fundamentais os económicos. Estas medidas aumentaram as cargas das empresas, e isto precisamente numa altura em que a diminuição do crescimento provocava uma redução da atividade. A política de preservação do emprego reencontra-se no apoio dado aos sectores antigos e pouco dinâmicos como a siderurgia ou o carvão, que permanecem uma fonte de emprego importante. Se os efeitos desta política em termos de emprego se fizeram sentir, ela não permitiu a diminuição da inflação e aumenta os défices do Estado. Assim, desde junho de 1982, as medidas, nomeadamente no que diz respeito à política para o emprego, parecem tomar uma nova orientação.

Dá-se uma mudança sobre a questão do desemprego: a situação dos sem emprego degrada-se e as políticas de ajuda às categorias mais atingidas como os jovens reforçam-se. Assim, as medidas tomadas por Barre em 1977 centram-se em redor das reduções de cargas para incitar as empresas à contratação enquanto os socialistas desenvolvem medidas que visam ao reforço das formações e da ligação diploma/emprego. Assiste-se igualmente a aplicação de uma grande flexibilidade, encarada pelo CNPF (Centro nacional do patronato francês) como um progresso neoliberal e pelos sindicatos como um crescimento da mobilidade dos trabalhadores. A negociação social constitui um elemento importante da política económica socialista, que encontra limites em redor do ano 1984. A vontade do Estado socialista de democratizar o mundo do trabalho é bloqueada por relatórios de força que estruturam o patronato e o sindicalismo

Os limites da política de modernização não são por conseguinte unicamente devidos a um constrangimento económico internacional. Apesar de tudo, o constrangimento externo aparece ao mesmo tempo como um motor e como um travão à política económica francesa. Primeiro, porque é a vontade de afrouxar este constrangimento que constitui um dos elementos da política posta em prática pela política de modernização dos fatores de produção franceses, por outro lado porque é ela que impedido a plena realização desta política.

O desafio é bem aqui a interdependência nova das economias que impede que qualquer movimento de reativação unilateral venha a dar todos os  frutos esperados.

“É que chamei a economia encravada. No projeto socialista indiquei que para reconquistar o mercado interno, devemos limitar a parte das importações no PNB à 20%”. A readaptação ao contexto internacional conduz a um crescimento nulo para o ano 1983 e a um descontentamento social. Economicamente, a França vira-se para a procura externa, o que provoca uma baixa do consumo e um crescimento do número de requerentes de emprego. Mas a progressão das exportações e uma baixa da fatura petrolífera permitiu uma nítida melhoria da balança comercial. A crise de 1983 não pode ser explicada apenas a partir dos fundamentais económicos; certamente a posição externa da França fortemente deteriorou-se em 1982, mas fatores políticos não devem ser menosprezados.


(A segunda parte deste texto será publicada amanhã, 12/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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