13. A semana onde a esquerda virou à direita – PARTE II

Os militantes da linha de Chevènement atacam os militante da linha de Rocard, e falam “de consentimento a uma fatalidade”, “de submissão melancólica aos condicionalismos de um ambiente hostil”, “de uma controvérsia antiprotecionista” que seria “a ponta avançada de uma operação política em grande escala”, que conduziria ao “liberal deflacionismo ”.

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 13 – Parte II

(Por François Ruffin, Abril de 2013)

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Neste dia, o presidente abre por conseguinte a porta “à uma outra política”. Os seus partidários põem-se ao trabalho. Entre eles, um patrão iconoclástico, Jean Riboud, PRESIDENTE de Schlumberger: “Sim, François Mitterrand vai ganhar. Mas para fazer o quê? interrogava-se antes de Maio de 1981. Se for para ouvir Delors e fazer como Raymond Barre, então a França terá perdido uma possibilidade, a última, de se modernizar e desaparecerá da cena dos grandes, dissolvendo-se num magma neoliberal europeu. ” E preconiza que, a partir da sua chegada ao poder, Mitterrand “marque a rutura com o conformismo ambiente com duas medidas fortes: investir massivamente para modernizar o aparelho industrial francês e passar imediatamente à semana das 35 horas. Faria assim desaparecer instantaneamente uma parte do desemprego e preparar-se-ia para digerir os ganhos de produtividade que resultam da modernização dos meios de produção. ” E se isso não funcionar com as 35 horas, que se tente com as 32 horas!

Estas ideias, Mitterrand retoma-as, completa-as (“desendividar massivamente as empresas”, “baixar duravelmente o custo do crédito”, “proteger os produtos franceses da concorrência estrangeira”), expõe-nas ele no Eliseu. E um grupo informal, heterogéneo, “os visitantes do serão”, “os Albaneses”, constitui-se, para lhe proporem esta “outra política”, para “pôr entre parênteses a condicionalidade externa”. Face a estes, Jacques Attali, Jean Peyrelevade, Jacques Delors, Michel Rocard e bem de outros enarcas, diversos altos funcionários, preconizam o contrário: que se termine com esta “experiência”. O presidente não diz nada, mantém a ambiguidade: “Durante este período, nota o seu conselheiro Charles Salzman, François Mitterrand fará confidências contraditórias a  uns e a outros, a fim de baralhar todas as pistas e deixar-se a liberdade total de escolha, sem compromisso de nenhuma espécie.”

De qualquer modo, não decidirá nada antes das municipais.

E no 19 de fevereiro ainda, em privado, diz-se “dividido entre duas ambições: a da construção da Europa e a da justiça social. O SME é necessário para ter êxito do primeiro e limita a minha liberdade para a segunda.”

14 Março de 1983 – A recusa

Este dilema atormenta o presidente, nesta manhã. Mas divide o PS, como testemunha a imprensa desse dia: em Le Monde, os militantes da linha de Chevènement atacam os militante da linha de Rocard, e falam “de consentimento a uma fatalidade”, “de submissão melancólica aos condicionalismos de um ambiente hostil”, “de uma controvérsia antiprotecionista” que seria “a ponta avançada de uma operação política em grande escala”, que conduziria ao “liberal deflacionismo ”.

É necessário decidir.

.Pierre Mauroy senta-se à sua frente. “Mantenho-o como Primeiro-ministro, anuncia-lhe François Mitterrand, mas para fazer uma política económica mais contundente, que implica a saída do franco do SME.

 — Não! responde-lhe Pierre Mauroy. Não saberei fazê-la! Não sou o homem de uma tal política! “Depois desta recusa, por conseguinte, a incerteza permanece: para que lado se inclinará a balança?

15 Março de 1983 – A conversão

A esquerda nomeou, como diretor do Tesouro, Michel Camdessus, um liberal convencido, que se tornará desde cedo o diretor do FMI e que imporá aos países do Sul “planos de ajustamento” draconianos. Um tal personagem não é, adivinha-se, francamente favorável “à outra política”. Faz mesmo a máxima de oposição possível. Em relação com o grupo Attali, avisa mesmo que os cofres do tesouro estão vazios. E juntos, estes dois comparsas vão nesta manhã ao ministério do Orçamento. A Laurent Fabius, descrevem “as consequências terríveis que poderia ter uma saída do franco do SME: é pôr um fim na construção europeia, desvalorização de pelo menos 20 %, o que seria terrível para as compras de petróleo e para a dívida; taxas de juro que sobem para 15 a 20 %; um milhão de desempregados a mais e, no fim de contas, um plano de austeridade por parte do FMI”. Ao lado disto, as dez chagas do Egito são um brincadeira. Até então, Laurent Fabius estava muito próximo da “outra política”, favorável a uma saída temporária do SME. No Outono de 1981, preparou um orçamento com despesas públicas em aumento de 30 %, a contratação de 200.000 funcionários, 500 % de aumento para a investigação, 100 % para a cultura e a formação profissional, 40 % para o alojamento, 30 % para a justiça… Após a sua exposição, Michel Camdessus “viu abruptamente Fabius mudar de rosto. Não tinha percebido todas as consequências de uma flutuação generalizada. Mas talvez eu não tivesse conseguido convencer tão facilmente Fabius se ele não soubesse a que o Presidente podia ainda mudar de opinião”.

16 Março de 1983 – A decisão

O Conselho de Ministros aprova, esta manhã, a redução da idade da reforma para os 60 anos. Aí está, para a fachada. Pelo lado dos bastidores, o jovem Fabius pediu um encontro com o “Velho” e, por sua vez “vai esforçar-se então para fazer compreender as consequências terríveis que poderiam ter uma saída do franco do SME”. É, ao que parece, a entrevista decisiva. Imediatamente a seguir, François Mitterrand recebe de novo Pierre Mauroy e pede-lhe, esta vez, “que pense na formação de um governo no âmbito da manutenção no SME”. Os dados estão lançados, em princípio. Mas o presidente não intervirá, disse-o, na televisão senão na quarta-feira 23 de Março. Tudo dependerá, ainda, das negociações monetárias que se devem realizar neste fim-de-semana em Bruxelas.

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18 Março de 1983 – O único verdadeiro debate

É entregue a Jean-Pierre Chevènement, e a seu pedido, um relatório que recomenda a generalização da norma NF: “A normalização deve adaptar-se às preocupações económicas e sociais do governo”, indica o relator. “A outra política” aponta assim as suas “temíveis armas protecionistas”, como o escrevia o jornal Le Monde, que lhe era hostil. Como “participar à reconquista do mercado interno”. Porque, com exclusão de alguns iniciados, ignora-se ainda qual será o resultado do jogo. E Philippe Labarde, em Le Monde sempre, publica um notável editorial, que é ainda hoje  atual, que vê bem mais longe que a questão técnica do momento:

 “ A ideia é seriamente encarada de assumir uma grande decisão em termos de política económica e europeia, fazendo sair o franco do SME. Mas podemo-nos interrogar se na verdade o país não está a ser privado do único verdadeiro debate económico que valha a pena fazer. Dado que estamos com um poder de esquerda, e dado que este dispõe de três anos antes de ter de enfrentar reais perigos eleitorais, que política é necessário efetuar, apesar dos sacrifícios necessários, para que os resultados desta política possam ser qualificados de socialistas? Que tabus convêm abater, ou será que se deve fazer contrapé relativamente às teses ortodoxas? Tudo se passa como se o poder socialista guarde no bolso as suas teorias económicas e responde na urgência da situação utilizando o arsenal mais clássico possível. Não terá ele um outro discurso a defender, outras escolhas a fazer, e no mínimo um verdadeiro debate a propor? […] John Maynard Keynes, nos seus Ensaios sobre a moeda e sobre a economia, desejava que se relegasse o problema económico “ao lugar que lhe pertence:

“o plano de fundo, a fim de que o campo de batalha dos nossos corações e das nossas cabeças esteja ocupado, ou melhor reocupado, pelos nossos verdadeiros problemas, os de vida e das relações entre os homens, os da criação de ideias, os  do nossos comportamento e da religião.”


(A terceira parte deste texto será publicada amanhã, 15/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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