15. Carta aberta àqueles que passaram do Coletivo Mao para o Rotary Club – Parte II

Combinaram-se assim duas renegações : a “de ex” maio de 68 tornados conselheiros ministeriais, patrões de choque ou novos guerreiros em descanso e a do socialismo que se passou de tal modo que ficou  mais à direita que a própria direita. A vossa apostasia serviu de aguilhão à da esquerda oficial.

Maio 1968-Maio 1986 : as vossas carreiras atingiram a sua maioridade Chegou o momento de se fazer o balanço.

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 15 – Parte II

MAO_1968

(Por Guy Hocquenghem)

 

Caros ex-contestatários

O regresso da direita não vos devolverá a vossa juventude. Mas é de facto a esquerda no poder que vo-la fez perder. Definitivamente. Foi sob Mitterrand que vocês ficaram “normalizados”; e sob Fabius que mudaram de casaca. Para ficarem os neoburgueses dos anos de 1980.

Os maoistas‑esquerdistas‑contestatários, cuspindo sobre o seu próprio passado, aproveitaram-se da hipocrisia nacional que foi o poder socialista. Sob o poder socialista, eles enfiaram-se sobre todos os queijos. Mais do que ninguém, enfartaram até mais não. Combinaram-se assim duas renegações : a “de ex” maio de 68 tornados conselheiros ministeriais, patrões de choque ou novos guerreiros em descanso e a do socialismo que se passou de tal modo que ficou  mais à direita que a própria direita. A vossa apostasia serviu de aguilhão à da esquerda oficial.

Maio 1968-Maio 1986 : as vossas carreiras atingiram a sua maioridade Chegou o momento de se fazer o balanço. Bem gostariam de o evitar; tudo é passado, e passou-se bem rapidamente! Mas mantenho-me sobre este duplo balanço, o de dezoito anos de ex-esquerdismo e o de cinco anos de esquerda. Passado já obsoleto, fora de moda, vocês condená-lo-iam de boa vontade ao esquecimento; mas, para evitar que o refaçam, sob a direita ou “a coabitação”, uma virgindade, este livro obrigar-vos-á a colocar o nariz na vossa merda, este livro vos mandará à cara as vossas infâmias recentes.

Carta a uma arrependida

Porque a verdadeira “Restauração”, não é o regresso de Chirac ou de Raymond Barre. Foi o reino de Mitterrand 1, sob o qual, graças a vocês, eternos “ex” que se tornaram depois pais Joseph dos ministros, todos os conformismos, tudo o que tinha sido criticado, contestado desde há vinte anos, voltou e está agora à boca do palco: o culto do arrivismo, da bomba, da Razão de Estado e do dinheiro.

Paradoxo bem conhecido: é a esquerda que procedeu à desvalorização generalizada da utopia. Jean Baudrillard tinha-o explicado: se o socialismo “se instalar sem desferir nenhum golpe, não é tanto porque tenha vencido a direita, é que todo o espaço foi varrido à sua frente pelo refluxo das forças vivas”. Como dizia L’ Express, “a vitória da esquerda efetivamente foi o toque de finados para o pensamento socialista. E para o sonho ecológico também”. Vocês foram os operadores deste deitar por terra, deste dobre de finados. Quaisquer que tenham sido os vossos alinhamentos sucessivos – “os novos filósofos” a Giscard em 1978, os Libération-Actuel à Mitterrand em 1981, e amanhã à coabitação, a Raymond Barra ou outros – foi com o PS que vocês realmente selaram o pacto maldito; é “à modernização” de Fabius que vocês venderam a vossa alma. Sob pretexto, certamente, “de mudar”, de se modelar sobre a moda; mas sobretudo, simplesmente, porque a ocasião era demasiado bela: no socialismo que estava no poder, era o poder que vos atraía e, dado que a corte era de esquerda, vocês usufruíam também de um ar de continuidade. Fidelidade aparente, negação e manteiga estavam do mesmo lado da fatia de pão. Que sorte!

Azar da história. Da mesma maneira que se ligaram ao PS, vocês ligar-se-iam igualmente a Giscard, se este tivesse ganho em 1981. E o alinhamento teria sido provavelmente menos odioso, menos agressivo. O homem de direita, que trava e modera o seu eleitorado, é menos detestável que o homem de esquerda, tipo Mitterrand-Hernu, que exacerbou o seu, com o vosso apoio, os reflexos reacionários, xenófobos, guerreiros, neoconformistas. Mais vale a velha direita que a néo direita de esquerda, que mostrou graças a vocês, ex-esquerdistas passados ao autoritarismo realista, a dureza dos neófitos.

Resumidamente, vocês serão rapidamente convertidos e sem nenhuma dificuldade, asseguro-vos. Libération, este Pravda dos novos burgueses, saberá igualmente acariciar tanto os novos governos como os antigos; o importante, para vocês, não é o facto de se ser de direita ou de esquerda, mas sim o facto de se estar do lado que interessa. Daí o vosso gosto, atualmente, para o consenso das reações, PS, RPR ou UDF. Não se dispara sobre uma ambulância, mas faz-se a autópsia a um cadáver. Para dissecar a ditadura defunta dos oportunismos conjugados, entre Fabius e os ex‑maoístas, que nos governam desde há cinco anos, eu tive paciência até ao fim da comédia. Para evitar participar na redistribuição das cartas, evidente desde há meses, preferi esperar que esta redistribuição seja concluída. Não queria entrar em nenhuma querela política, nem ajudar, por pouco que seja, a um regresso dos direitistas. As alternâncias políticas são-me indiferentes. O que está em questão aqui já não volta atrás. Seria antes uma questão de geração. “Uma geração [… que] inaugura o encontro entre a esquerda e o capitalismo, […] entre a tecnologia e o sonho, […] entre o negócio e a criatividade”, como escrevia-o um dos vossos jornais subvencionados (Globe). “Individualismo e sucesso […], responsabilidade de geração”, era este o elogio, por seu lado, de Actuel.

Geração: durante anos, tinha jurado a mim-mesmo de não pronunciar esta palavra; por instinto, detesto utilizá-la.  Não gosto da ideia de pertencer a este bloco coagulado de deceções e favoritismos, que não se realiza e não se ressente como tal no momento da massiva traição da idade madura. Só nos tornamos geração quando nos retraímos como o caracol na sua casca e o arrependido na sua célula; o malogro de um sonho, o estrato dos rancores, o precipitado que cai de uma revolta já antiga, a tudo isto se chama “geração”. A que, hoje, vai do final dos trinta anos ao início dos anos cinquenta depositou-se como o sal amargo da desilusão. É necessário efetivamente pronunciar a palavra, delimitar o adversário -dado que ninguém ousa fazê-lo: Libé e Actuel, Chéreau e Glucksmann, Coluche e Médicins du Monde, as instituições em que vocês se tornaram, “ex” dos grupúsculos, ninguém ousa atacar-vos. O vosso poder insolente estabeleceu-se sob o governo da esquerda, mas não é nem de direita nem de esquerda, é de uma idade; a que partiu de Mao-Maio para chegar ao Rotary e aos Rolls. Diretores de jornais e convertidos da energia nuclear, capitalistas recentes e estrategas da dissuasão, vocês renegaram muitas das vossas ideias, mas não as vossas estruturas mentais nem os vossos métodos. Nem direita nem esquerdo, mas o pior dos dois em conjunto; fiéis no mais perigoso estilo manipulador dos pequenos grupos quando vocês renunciaram à utopia generosa que pretendiam servir; mais que “recuperados”, ostentando o vosso crachat de renegado medalhado, vocês sois a Legião da desonra, os condecorados de vira-casacas; e, além disso, pretendem dar lições de permanência na agilidade.

Nos dois extremos desta geração sem confissão, de que eu conheci todas as cabeças, estás tu, caro “arquicube” Fabius, [antigo membro da Escola Normal Superior-ENS] que foste meu colega de estudos na ENS, corrompido a partir da tua juventude a todas as crapulices, tu, tu que executaste Rocard no congresso de Metz do PS em nome da ortodoxia marxista antes de lhe roubares a sua “modernidade”; e, depois, tu, meu caro Dany Cohn-Bendit, tornado senador pelos Verdes, e “realpolitik”, “convertido aos encantos da política politiqueira” em Hesse, de acordo com Le Monde. Eu tenho-te em muito mais baixa consideração que aos outros; Laurent Fabius pelo menos nunca foi esquerdista, e Danny nunca deixou de o ser. O monstro, o inimigo do qual vou aqui traçar o terrível retrato, Proteu de cem caras, está no meio de vocês os dois, e é caracterizado apenas pela energia da sua reviravolta, desejada  e proclamada

Há também o nariz de Glucksmann, o charuto de July, os óculos redondos de Coluche, o bronzeado Lang, os cabelos longos de Bizot, o bigode de Debray, a camisa aberta de Bernard-Henri Lévy e a voz de Kouchner. É o neofilisteu orgulhoso de o ser, e que no entanto anda sempre, sempre a dizer aos outros o que devem fazer e a pregar-lhes sermões. O seu nome, em política, é Consenso; sob a esquerda, encarregou-se de apagar o polo contestatário e toda e qualquer diferença entre ideologias. Não criticando-as a todas, mas misturando-as todas de uma ponta à outra.

Uma democracia mede-se pelas suas diferenças internas; enterrando a contestação, em fazendo a junção, a ponte entre todas as repressões, os ex-esquerdistas, enterraram a democracia. Do que é que July se declara mais orgulhoso? De ter defendido, sob a esquerda, e por aí tê-la tornando unânime, a política de austeridade e o ódio antipacifista. O tecnocratismo de matriz cientificista, o rearmamento nuclear, os media que deviam ser considerados lixo, o retorno de sagrado repressivo e de um Deus da polícia, o liberalismo contra os pobres e a valorização do Poder e da Razão de Estado contra as liberdades, aí estão  os traços do vosso consenso.

Eu sei, não sou realista. Ineficaz, sem dúvida, este livro, na época do consenso direita-esquerda-ex-esquerdistas? “Pela sua posição histórica, os aristocratas franceses e ingleses tinham encontrado uma vocação: escrever panfletos contra a sociedade burguesa moderna. […] Para eles, não se poderia tratar de uma luta política séria. Tudo o que lhes restava, era o combate literário. ” Estas linhas, Marx, no Manifesto comunista, escreveu-as para desacreditar de uma vez por todas, “o socialismo feudal”, ou seja a aristocrática com necessidade de utopia de que eu me sinto muito próximo. Elas condenam apenas o pesado realismo político do seu autor. Vocês, sois como Marx, realistas por princípio. Não há pior ideologia. Certamente, o vosso realismo moralizante, injurioso em relação aos sonhos do vosso passado, agarrou-se à dobra do poder e ao peso do sucesso, mantendo como armas as receitas do terror propagandista do marxismo-leninismo. Ineficaz, talvez, mas necessário no entanto: por neste livro, extirpo-vos da minha vida e dou à Primavera de há dezoito anos a sua eterna juventude.

 (A terceira parte deste texto será publicada amanhã, 21/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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