15. Carta aberta àqueles que passaram do Coletivo Mao para o Rotary Club – Parte III

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 15 – Parte III

MAO_1968

(Por Guy Hocquenghem)

Camaradas arrependidos

Camaradas congéneres, ou seja do mesmo modo geração, vocês sois, como os terroristas italianos passados a delatores, que compram a sua graça contra a denúncia dos seus cúmplices, “arrependidos”. “Camaradas”: isto faz-vos sorrir, e no entanto vocês estão sempre em camaradagem, mesmo que vocês se denunciem uns os outros. A camaradagem que subsiste entre os que não têm mais nada em comum, com os anos, que não seja a renegação da sua contestação passada, assume um gosto amargo, ignóbil, de cumplicidade, o gosto  do veneno vertido gota a gota na alma até aí assassinar tudo o que seja orgulho assim como  tudo o que seja poesia.

Vão, “camaradas”, conhecem-se efetivamente todos muito bem! Aguentem-se bem juntos, braços apertados contra braços apertados, disparem sobre os vossos pés, entre os “ex-Maio de 68”; mas, sobretudo, está-se no mesmo banho tépido e enlameado, que me suja a mim como a vocês, dado que, conhecendo-os pessoalmente, há também, o banho infecto da camaradagem, que desculpa tudo! “Esta camaradagem […] corrói as mais belas almas. Ela estraga o seu orgulho, mata o princípio das grandes obras e consagra a cobardia do espírito. Exigindo esta moleza de consciência em toda a gente, certas pessoas cuidam bem da absolvição das suas traições, das suas mudanças de partido. Eis como a porção mais esclarecida de uma nação se torna o menos estimável” (Balzac). A ver como, de um campo político ao outro, de um jornal a um ministério, vocês retomam sempre o ascensor, não se pode senão dar razão ao autor de Une fille d’Eve quando descreve o efeito perverso destas amizades de geração entre jovens, cada vez menos jovens ambiciosos.

Evidentemente, vocês acusar-me-ão de que falto a esta amizade. Misturo-me com vocês. Amizade vil, esta que solda o conjunto dos cínicos de baixo nível, (existe um cinismo de elevado nível, mas esse é um exercício solitário), feita de desprezo recíproco e de arranjos de consciência. Amizade e camaradagem que são também ódio, ódio de si-mesmo e dos outros, ódio do grupo para o exterior e para o seu interior.

Caros arrependidos, caros sumparanekromenoi, caros amigos do crime, caros sócios da Amicale   (falsos ou verdadeiros, que importa) dos ex-esquerdistas, dos ex-contestatários, dos ex- revoltados, dos ex-maridos sempre em divórcio de Maio de 68, hoje membros para a vida do clube paradisíaco dos renegados! É a vida, a idade, o jogo das gerações, é o que me sussurram. Não tínhamos nós jurado que pelo menos connosco não seria assim? De resto, onde está a geração seguinte? Onde estão os nossos próprios contestatários? De certa maneira, está pior, com efeito permanecemos fiéis ao nosso juramento; como o mercantilismo ou o arrivismo vocês continuam a empregar os métodos de infiltração e de agitação de grupúsculos esquerdistas, nós  permanecemos paradoxalmente fiéis à nossa juventude ocupando todo o terreno, bloqueando qualquer futuro. Nada de novos, eis pois a palavra de ordem secreta. Jovens para sempre, quarentenários da classe 68 barram resolutamente a estrada a  qualquer um que tenha nascido depois deles. Será que se pode então viver apenas de ter sido e renegar tudo aquilo  que se foi? Sim, sei, toda e qualquer geração esquece os seus ideais, ou, pior, “realiza-os”, como se “realiza” um bem de família, vendendo-o. Mas as gerações não se fazem todas elas apologistas, campeãs da renegação, não fazem todos elas disso a sua especialidade, o único prato reaquecido que é sempre passado ao público. Nem todas  trazem com elas  o seu crachat como elemento de decoração.

Sois os ex-guerrilheiros do Quartier Latin a exigir a guerra preventiva contra Kadhafi, sois os militantes que defendiam como prioridade o poder à classe operária e que se têm tornado patrões de choque, sois os provocadores entrados no aparelho de Estado. Certamente, trocaram o charro pela cocaína, os cabelos longos contra o charuto, a “scooter” contra o Porsche e os calças jeans contra o incómodo fato com colete; e dão lições, regulam a moral, admoestam os outros! Mesmo com um gorro Stetson e botas, o antigo esquerdista leninista permanece reconhecível nos seus métodos, na sua arrogância. Novos burgueses saídos de Maio de 68, não são os conteúdos das vossas abjurações sucessivas que estão em questão, mas o oportunismo como forma única de pensamento, e as técnicas autoritárias de intoxicação, postas ao serviço de novos fins, que vocês continuam a utilizar.

Renegar o vosso passado: tal era por conseguinte a tarefa que vos estava reservada; tarefa ingrata, trabalho de Danaïdes: o tonel da renegação nunca está completamente cheio. Não vos é já suficiente recusar os vossos objetivos antigos, devem levar a apostasia ao pináculo, ao estatuto de supremo valor, colocá-lo onde dantes estava a Revolução e pôr ao seu serviço ideológico o mesmo ardor devoto. Reneguem as vossas ideias, o vosso passado, a vossa indignação, a vossa posição do mês precedente, reneguem a vossa renegação e disfarcem-na em fidelidade, sejam somente fiéis à própria renegação, reneguem, ainda e sempre, tornem-se militantes da renegação; conservem da vossa fase contestatária apenas a única coisa que deveriam lançar fora, esta metodologia da manipulação que só tinha por desculpa estar ao serviço de uma nobre causa; de tudo isso, restar-vos-á sempre qualquer coisa, uma pequena prebenda, um posto oficial, uma pequena celebridade do momento. A celebridade duvidosa do arrependido.

Pequenos chefes

Arrependidos de ideias, mas sobretudo nada de pretensões, a vossa única fidelidade é a vossa própria vontade de poder, a vossa autocelebração. Mudar ou permanecer? Mudar de religião mas para ficar a ser o chefe. Chefes para rir, nunca cansados de se autoproclamarem irrisórios mas obstinados no culto deles mesmos. Fazendo o retrato adulado de certo Benny Lévy, a propósito da sua “mudança ” (sic), do maoismo para o Talmud e para a Bíblia, Libération escreve em (22 Dezembro de 1984):

““O Number One” mítico dos maoistas infiltrava-se, para se sentir mais perto, nas marchas massivas [compreenda-se : as manifestações]. A base ignorava até a sua existência, [… ele] que subjugava os líderes esquerdistas pela força das suas análises e pela agilidade das suas sínteses. ” Por toda a parte, aliás, desacreditado na vossa imprensa, Maio 68 vê-se pelo menos reconhecer uma qualidade: a de ter gerado o Chefe Desconhecido (como Saint-Martin foi “o filósofo desconhecido” do século XVIII). Inenarrável e sórdido, este culto do Chefe: “Odiado, amado, carismático: o chefe. […] desprovido […] de paixão, incapaz de nunca fazer rir alguém”, aí está o homem proposto como “um oceano de génio intelectual” à veneração dos leitores de Libération. E, a propósito de uma das companheiras do Chefe, o jornal acrescenta sem humor: “Ela era a “pequena chefe”, de acordo com a terminologia da época. ” Esta encantadora hierarquia, que indigna ou faz sorrir, data da Esquerda proletária que pretendia abolir a hierarquia nas fábricas. Mas ela dura ainda: “Tinha-lhe acontecido gostar desta frase de Kafka: “Sou mandatado, mas não sei por quem””, dizem-nos  a propósito do mesmo Lévy. Nós também não.

Mudar o que se podia mudar, a generosidade idealista, manter o que era necessário mudar, desde os pequenos chefes à mentalidade manipuladora, aí está a vossa resposta. Tomemos um segundo exemplo. “A utopia ou a morte”, era o título de um editorial de Actuel há dez anos, recordava este jornal no seu número 31 consagrado a constatar “a mudança”, a começar pelo antigo “local ” da revista mensal, que se tornou num “escritório”: “Os escritórios pós modernos do jornal Actuel acabam de abrir os seus corredores brancos, […] numa melhoria genial a fazer lembrar os anos de 1930 . ” As suas salas de redação encheram-se de businessmen e de gestores de alto calibre. “Apesar dos antigos amigos, de muitos amigos de longa data, é possível, que vos cuspam na cara […] é necessário olhar bem à sua frente: ali, passados os 500 000 exemplares, a febre desaparecerá. ” Tudo isto é ainda bastante inocente. Mas não é suficiente fazer dinheiro; quer-se persuadir os leitores. Tenta-se convencer o leitor reticente face à “mudança”: “Não compreendias que provocávamos, que era necessário rever os valores dos marginais. ” Mesmo na renegação, há uma vanguarda. Um leitor tornou-se proprietário de uma fábrica de guitarras elétricas. “Evidentemente, todos os honrosos correspondentes [do jornal] não evoluíram de forma tão vigorosa e tecnológica”, lamenta-se. “Há duas palavras de ordem: eficácia e flexibilidade. ”

Terceiro exemplo. “Incentivar e animar uma espécie de Grande Revolução cultural ocidental (seria precisamente a simétrica inversa da GRCP chinês -Grande Revolução Cultural Proletária) destinada a transformar a atitude dos seus concidadãos face à crise”, para “rasgar” o paradisíaco “ Estado providência, a Segurança social, os apoios às famílias, o subsídio de desemprego, a segurança na reforma ”, tal é o programa fixado por Serge July (editorial do suplemento especial Libération “Viva a crise”, em 1984) aos responsáveis políticos e mediáticos. Poder-se-ia continuar até ao infinito.

Privados de guerra do povo, outros maoistas lançaram-se na guerra comercial. A psicologia de secretário-geral à Estaline, como o caracterizava Trotski, é também a do especulador que “puxa os fios”. “Mao ensinou-me a arte de negociar ”, confessa Gilbert Castro, que “era um dos chefes maoistas do início dos anos de 1970”, diz o subtítulo. Gilbert Castro  “continua a aplicar as receitas Mao”, e, ele que, todas as noites, ia ter com “Geismar, Benny e July e uma  dezena de outros chefes para fazerem o ponto da situação”, decidiu revolucionar … uma caixa de discos. “Primeira etapa, a preparação política… Então, agora, na ordem, as sondagens-agitações, as operações partidárias, a consolidação política, as ações de massa. Incidir sobre o público com ações partidárias! ” (Actuel, n° 17, Março de 1981). Libération também, filho da sondagem Mao, reivindica-se deste vocabulário gelado, entre o vocabulário do polícia manipulador, do terrorista e do Comissário político dos exércitos (“a consolidação política”, é a eliminação dos suspeitos). E o complexo do pequeno chefe oculto está por toda a parte.

Pequenos chefes autoproclamados de ridículas conspirações, aí está o que vocês são, o que vocês sempre foram. Quando os maoistas  pretendiam, no início dos anos de 1970 , combater os “pequenos chefes” nas fábricas, eram já eles, os pequenos chefes sujos e enraivecidos mas nunca ecónomos de sangue ou de riscos a que estavam sujeitos os executantes, as manobras das suas cadeias de grupúsculo. A palavra “chefe” está-lhes sempre debaixo da língua com deleite; um outro Castro, Roland do seu nome, que ouvi há muito tempo, no seu pequeno grupo, comparar-se a Foch, é assim apresentado em cobertura de um número de Actuel: “Como é que este antigo chefe maoista fez para ter êxito? ” Resposta: “Roland Castro partiu à caça do todo poderoso Estado.” E, em subtítulo, “em 1969 , os maoistas queriam malhá-lo. ” (sempre a elegância viril), e alguns retratos completam o quadro: Olivier Rollin, tornado editor, “tinha como alcunha o Marechal, estratega clandestino da Esquerda Proletária ”, os inevitáveis Glucksmann e July, Jean-Marc Salmon, (“um dos primeiros chefes” maoistas, então membro do gabinete de Max Gallo), Thierry Haupais (ex-grande braço de serviço de ordem prochinês, tornado produtor de rock), etc

A julgar pelo número de generais clandestinos, a Esquerda proletária devia ser um pouco como o exército do México. Este mundo de pequenos chefes, míticos ou não, retroativos ou ocultos, segregam o seu estilo, a sua ética, o seu sentimentalismo também. Não há uma mulher, não um que se “desvie” entre vocês. O machismo, ou pelo menos a sua afetação, é apenas o complemento de um espírito de corpo, corpo de guarda, de solidariedade de caserna. Mas a reivindicação histérica de masculinidade, de força, de dureza, mas quanta  fraqueza nisto, que pena nos mete a vossa cara! Os pequenos chefes são ternos,  gostam de jogar a fazer de duros. Em Maio de 1984, sob o título “Puros e duros”, Actuel no seu editorial escreve: “Puros e duros: não se enganem. Isso não quer dizer triste, nada simpático, machista, fascista, isso quer dizer: manter a minha linha com integridade. […] Verdade e qualidade tanto quanto o sucesso também. ” É o cúmulo. Ter êxito pela renegação, é ser fiel basicamente ao fundo do seu coração e não ter mudado uma só polegada, sequer. Nos pequenos chefes tudo é puro. E para os outros, o KGB. Tudo isso ao serviço de uma causa que se enuncia assim no sumário do mesmo número: “Tendências, muito classe, mexericos de  todos os tipos, músculo, o negócio e a techno. ” A renegação, é a pureza; os escrúpulos na ação ou a proclamação, isto é o inimigo. Nó borromeano onde se entrelaça o cinismo e a culpabilidade, o mito da força e da fraqueza da alma, a mudança de campo e a fidelidade ao totalitarismo, o economismo e a vontade de ter êxito com o politismo e a crapulice leninista: a psicanálise do pequeno chefe – à qual ele se entrega – não é nada simples.

Este economismo e este liberalismo com que vocês agora se apresentam são ideologicamente “duros”, são geradores de  outros  princípios. Este oportunismo é de aço, é de betão tanto quanto as antigas dialéticas, e a sua língua é de madeira, como a das antigas brochuras vermelhas.

 (A quarta parte deste texto será publicada amanhã, 22/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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