15. Carta aberta àqueles que passaram do Coletivo Mao para o Rotary Club – Parte IV

Vocês, tornaram-se, se assim se pode dizer, reacionários por conformismo, como também eram de esquerda por conformismo. O romantismo do fraseado já não é senão o resíduo lacrimal dos vossos choros sem razão por um comprometimento desejado, procurado, de uma necessidade de alinhar o pensamento e a imaginação sobre o realismo político.

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 15 – Parte IV

MAO_1968

(Por Guy Hocquenghem)

Eternos jovens

Sim, caros congéneres, somos uma geração maldita, estéril e seca, figo abortado que lança por terra o vento do realismo!

Eternos jovens, jovens velhos que estendem o negro manto da sua impotência sobre o futuro, última geração de uma demografia esgotada! Eternos jovens de quarenta e mais anos, jovens velhos de penas eternamente suspensas, eternos dirigentes estudantis, pequenos chefes que da juventude guardaram apenas aquilo que de pior ela lhes oferecia: a imaturidade sentimental e a fascinação pelos os métodos da ambição, mas nem o gosto da confrontação nem o da rebelião.

Eternos jovens filósofos, jovens escritores, jovens quadros, vocês fazem-me pensar no retrato que elabora Kierkegaard do homem mais infeliz: aquele que não teria sabido saborear a sua juventude e teria perdido a sua idade adulta a cismar nesta sua lamentação. Eternos maridos enganados pela História! O futuro “de uma renegação ” (ousemos o neologismo, plagiando o título do livro de um ex-esquerdista passado pelo rabinato, Alain Finkielkraut), é primeiramente a supressão, na juventude, daquilo que faz o seu movimento, para a mumificar, interditá-la de futuro, faz da contestação que poderia assumir a geração seguinte um folclore, a acusação terrível e tácita que murmuram contra vocês as pessoas de vinte anos de hoje, que as vossas mudanças completas no plano da política são uma enorme desilusão; a acusação de terem morto a esperança.

Vejam-nos a descreverem-se, quando vocês se dignam olhar complacentemente  sobre a sua condição de jovens  “sem ideologia ”, estes adolescentes de hoje. Actuel se indigna com estes propósitos de um irmão mais novo de um seu leitor: “É necessário regressar ao ponto de partida, ao sistema tribal. Mas primeiro, será necessário que haja uma guerra nuclear… Nesse momento, os homens, completamente dispersos, terão compreendido talvez. ” Resposta do jornalista de Actuel: “Então é necessário militar a favor da bomba, oh, meu velho! — É isto o paradoxo. ” Esta coisa sem sentido do “no future” nas faixas etárias mais jovens que nos descrevem por toda a parte e com tanto deleite, não será antes a forma vulgarizada (ou, em alternativa , uma vulgata) da tese de Glucksmann e consortes? Outra citação de Actuel: “Desde há já mais de três anos, no meio de confrontos entre pais e crianças, no mais profundo das famílias, um enorme esforço de redescobertas foi empreendido, […] que torna definitivamente fora de moda todos os conflitos de costumes das épocas precedentes. ” Vocês estão de tal modo convencidas de terem, pelo vosso exemplo, morto toda a juventude na juventude que vocês não deixam de lhe estender o mesmo espelho deformante: aquele graças ao qual o conformismo e o desespero se deslocam-se do velho para o jovem sociológico. Os jovens de hoje mais conformistas que os velhos: aí está a vossa análise, curta mas salvadora; graças a esta constatação, e pensem os interessados o que pensarem, vocês podem declarar que sois os últimos jovens.

Não há mais nada atrás de vocês, gritam vocês às crianças. Vocês estão sentados sobre o limiar do futuro, e, como o cão da parábola, o alimento que vocês não podem comer, este alimento do espírito que é a utopia, vocês impedem pelo menos os outros de nele tocar. Aos pobres jovens de hoje, vocês nem mesmo a esperança lhes deixam, uma vez desacreditado todo e qualquer ideal, ao ponto de reduzir quase ao vómito qualquer evocação de Maio de 68. Pela renegação ao quadrado, ao cubo, vocês edificaram uma pirâmide de abjurações sobre a qual vocês chegaram ao poder e ao dinheiro.

Vocês ocupam, desde há muito tempo, todos os lugares, a vossa rede controla todas as vias de acesso e repele os novos, o estilo que vocês imprimem ao poder intelectual que exercem enterra qualquer possível e qualquer futuro. Do alto da pirâmide, um acumular  de fraudes e de descaramentos, vocês declaram friamente, afastando todos aqueles que quereriam olhar por eles mesmos, que não há nada para ver e que o árido deserto se estende até ao infinito.

Restaurações

 “A publicidade prova que pode servir todas as causas e todos os produtos. Ou hoje as causas são igualmente os produtos”, escreve por exemplo o ex-maoísta Philippe Gavi (Libération, 14 de Fevereiro de 1985) a propósito de um anúncio em que se elogia Médicos sem fronteiras; e o mesmo exemplar do diário da rua Christiani contém uma apologia do neoliberalismo, sob o título “Guizot, o Lénine da burguesia”, como comentário de um livro de Pierre Rosanvallon, outro transfuga do esquerdismo. “Enriquecei-vos”: façam das vossas causas (“a Causa do povo” dos maoístas) produtos. Entre Tapie e Mourousi, toda e qualquer reportagem, todo e qualquer artigo, todo e qualquer pensamento deve ser modelado neste quadro estreito, propagandeado por Iskra do neoburguesismo que é o Libération. Vivemos de facto e desde há cinco ou seis anos, uma época “de restauração”.

Não se trata de restauração política da direita. O seu regresso ao poder é apenas um epifenómeno. Não, esta restauração em profundidade, nas ideias, nos costumes, é sob a esquerda que ela é realizada. Mitterrand, é Louis XVIII. E os nossos esquerdistas arrependidos, são os Fouché e os Talleyrand sem elegância desta restauração.

Restauração de tudo o que tinha sido contestado, negado, abolido; disso, nós não somos, caros intrigantes, os responsáveis. É o espírito do tempo; e, como na França da Restauração do século XIX, a anglomania, a americanofilia, a reaganofilia, é o modelo para a direita e para a esquerda.

Não se é responsável do seu tempo, mas ficamos em falta se não nos distanciarmos dele.

O romantismo, cada um sabe-o, foi um dos frutos da Restauração do século passado. Mas, dado que vos tratei como românticos de convenção, que diferença, entre românticos e dandis que protestam no século XIX contra o prosaísmo moderno, e o subromantismo dos nossos renegados! Que diferença entre a evolução dos românticos de então e a evolução dos nossas trânsfugas de agora! Victor Hugo foi primeiro monárquico, legitimista; foi para se tornar republicano. Stendhal foi bonapartista; mas lia em Napoleão o sonhado encarnado da revolução conquistadora e a juventude do mundo. Vocês evoluíram da autogestão à monarquia, e gostam em Reagan e em Mitterrand da velhice cínica do mundo. Balzac foi legitimista, certamente, mas por crítica e reação ao universo limitado e espesso do filistinismo burguês. Esta revolta legitimista ou pietista é ainda mais característica do romantismo alemão

Vocês, tornaram-se, se assim se pode dizer, reacionários por conformismo, como também eram de esquerda por conformismo. O romantismo do fraseado já não é senão o resíduo lacrimal dos vossos choros sem razão por um comprometimento desejado, procurado, de uma necessidade de alinhar o pensamento e a imaginação sobre o realismo político.

Vocês não restauraram nem o rei nem o imperador. Restauram, isso sim, a mediocridade, e o serem convenientes, escolheram, como Libération ou Actuel, acompanhar este movimento restaurador, de o propagandear em vez de a ele  se oporem. Compreendam, no entanto, que os génios do século passado permaneceram grandes, primeiramente, por se terem contraposto à evolução do seu século, ou a verdadeira Restauração do seu tempo: o burguesismo estreito dos Homais, como é caracterizado por Flaubert.

É verdade, sois, nós somos uns abortos, comparados com estes gigantes. Todas as reviravoltas, estes falsos debates, estas polémicas sem sal, estes manifestos votados ao esquecimento, estas mudanças de orientação, de néo‑filosofia em néo‑socialismo, todos estes artigos, todas estas emissões, todo este matraquear mediático de renegações sucessivas, tudo isto é apenas vento. Releiam a Monografia da imprensa parisiense de Balzac. Tudo está aí dito, nessa monografia. Porque o verdadeiro romantismo, mesmo se for capaz de o utilizar, é primeiro que tudo o inimigo do poder mediocrático da imprensa e do desejo de conformismo que vocês aí impudentemente cultivam.

Desejo de conformismo

Agredidos, ensurdecidos, pelas injunções contemporâneas, novas, atuais, de serem eficazes, eficientes, positivos, atualizados, técnicos, informáticos, práticos, embrutecidos pelo comunicacional, “pelo look”, “as tendências”, pela modernização de matriz fabusiana-Libération (comum a Fabius e ao Libération ); delimitados pelo realismo, o BCBG, o clean , o retro, o tépida, o cómodo, o lacado, o fechar-se  sobre  si-mesmo, o razoável; com ar afetado com gravatas hi-tech, banda desenhada, figurativo, teclados e estatísticas; apanhados na viscosidade da adaptação, da readaptação, da nulidade como princípio de pensamento, as necessidades objetivas, o fim dos ideais de revolta como todo e qualquer viático filosófico; alimentados à força das redescobertas das boas velhas mediocridades de outrora (Sheila, Françoise Sagan, Marguerite Duras, Raymond Aron); martelados de pequenas certezas, egoísmos reencontrados, limitações aceites, reivindicadas; misturados pelo medo de serem abandonados, de não serem suficientemente informativos, de serem demasiado simplistas, de serem bastante desabusados, de não acompanharem de perto as necessidades, o social, de ignorar o eterno estereótipo de um novo que é retrógrado e repetitivo; paralisados pelo totalitarismo das ideias curtas que se proclamam enquanto tais; o nosso destino selado pelo fınito, pelo concluído, pelo adequado, pelo já visto, pelo já feito cujo reino se realiza neste tempo de glaciação das ideias mediáticas (sim,  as duas palavras lado a lado não vão muito bem em conjunto), quem de entre nós não sentiu já os efeitos deste culto do conformismo, de que a imprensa “jovem” (Libération, Actuel) se fez particularmente arauta?

Uma cultura renegada: como todos os arrivistas, na verdade, vocês não se contentam com o conformismo das pessoas próximas. Vocês sentem necessidade de exaltar o conformismo do desejo; Ciência ou Sujeito são apenas pretextos. Outrora, vocês assumiam-se como procuradores do egoísmo, e do poder, em donos da verdade e contestatários. Hoje vocês estão ainda melhor equipados para quebrarem  as nossas defesas   e serem  a ilustração de cada um por si e do tecnicismo incontrolável.

O conformismo, há sempre meio  de o transformar, nem que seja exagerando-o, como o dândi ou Bertolucci, até ao ponto de o virar contra a obediência ambiente. Vocês, pelo contrário, procuram colar-se-lhe, a este conformismo ambiente feito de pensamentos rasteiros  e de cultos vulgares, não por humor mas por desejo. Vocês gostariam de fazer dele um dever, o dever de conformismo; o prosaico, a técnica, o comum, o útil, o conveniente, já não são simplesmente os frutos da necessidade, assumem enquanto tal a frente do palco. Pensar rasteiro, arrivista, já não é somente apanágio daqueles que foram atingidos pela dura varinha da amarga experiência da vida, o preço (em valor de  alma) de qualquer sucesso, mas é, de facto,  uma obrigação que exige as honras outrora aristocráticas  atribuídas agora  à Revolução ou à  Causa do povo. Negar qualquer liberdade de pensamento em nome da liberdade para ficar poderoso e rico não foi, nesta geração, um movimento natural de envelhecimento das convicções, mas uma cruzada ao contrário, um regresso  triunfante  do recalcado,  uma mobilização para impor, pela moda, a vulgarização, o conformismo como um único e supremo valor do homem livre

 (A quinta parte deste texto será publicada amanhã, 23/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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