Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF – Introdução, Parte II

 

François Mitterrand: “A luta de  classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!”

Lionel Jospin:  “Eu sou um socialista de inspiração, mas o projeto que proponho ao país  não é um projeto socialista. É uma síntese do que é necessário hoje. Ou seja, é  a modernidade. ”

François Hollande   “Vivi cinco anos de poder relativamente absoluto. (…)  Eu naturalmente impus ao meu campo que, sem nenhuma sombra de dúvida, só iria aprovar as políticas que eu consideraria serem justas.” 


Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF

(Introdução, por Júlio Marques Mota)

JULIO_MOTA

A farsa acabou. O povo francês, Macron escolheu. Um outro ciclo de tragédia e de  farsa já começou.


Hollande e a submissão ao grande capital francês e internacional, que de seu grande inimigo passou a ser  o seu grande amigo

Um outro grande marco para toda esta trajetória encontramo-la em Hollande I  na sua política de submissão ao grande capital francês e internacional, depois de ter ganho as eleições em plena crise (2012), garantindo que o seu principal inimigo era a alta finança. Logo que eleito, nomeou como secretário-geral do Eliseu um homem da alta finança, e esse homem era nem mais nem menos que Macron.

A respeito de Hollande I  diz-nos Dominique Meda[1] , tomando como base o problema das leis do trabalho de Macron e de El Khomri que agora vão ser ainda mais aprofundadas sobre a Presidência Macron (se as ruas o deixarem seguir em frente na submissão ao império alemão) e tomando como referência o livro publicado por Gérard Davet e Fabrice Lhomme, Un président ne devrait pas dire cela, sobretudo o capítulo V intitulado Le Masque:

No capítulo 5, “Le Masque”, os jornalistas voltam à discussão sobre a lei do Trabalho e à posição de François Hollande: o Presidente explica aos jornalistas que escreveu em 2011 um texto sobre a inversão da hierarquia das normas, texto que continua ainda a defender. O texto a inversão da hierarquia das normas? Tenho-o na cabeça desde 2011. Mas não sou mais preciso para não chocar. Implicitamente, os acordos de empresa, também lá estão”. A lei do Trabalho é apresentada como o prolongamento normal do acordo sobre a segurança do emprego; confirma o seu apoio a Laurent Berger (mas também a Pierre Gattaz): “Laurent Berger diz que se fizermos esta reforma da negociação coletiva, se pusermos muito mais responsabilidade sobre os parceiros sociais nas empresas, iremos necessariamente para uma reestruturação da paisagem sindical. Teremos, assim, um patronato que será obrigado a empenhar-se, o que não faz hoje, e sindicatos que podem continuar a ser o que são, numerosos, mas que serão levados a assinar acordos”, defende Hollande. Confirma igualmente que os seus dois principais lugares tenentes fizeram verdadeiros saltos de corça em inventividade, para acrescentarem disposições que mostram bem o seu reformismo: “É verdade que isso foi introduzido porque Emmanuel Macron e Manuel Valls pensavam que se podia aproveitar a ocasião desta lei para ir nesta direção. Os dois queriam ir o mais longe possível, dizendo-se: “É o último texto importante sobre o trabalho neste mandato presidencial”, os dois a quererem mostrar que eram reformistas intrépidos (…) Mas a ideia que, de resto, partilho é a seguinte: “é a última vez que iremos ao Parlamento, coloquemos pois no texto tantas disposições quantas as que do nosso ponto de vista sejam necessárias ” “.

No dia 8 de maio de 2016, dois dias antes de pedir a Manuel Valls que aqui empenhe a responsabilidade do seu governo, o Presidente da República faz tudo para manter o artigo 2 na sua lei. Para o efeito, tem, na presença dos dois jornalistas, uma longa uma conversa técnica com Gattaz, no decorrer da qual diz o seguinte: “O ponto mais difícil, compreendemo-lo bem, tem a ver com o acordo de empresa, é aqui que se deve discutir , para vocês isto talvez não seja tão, tão essencial quanto o é para nós, mas para nós é muito importante, não somente porque os sindicatos reformistas o desejam, mas porque penso que é uma verdadeira evolução do diálogo social, daí que, se há uma rutura, esta terá a ver com este texto, enfim, sobre esta parte do texto. Para nós, esta é uma questão forte, é tudo. É a FO [CGT???], hein, que nos faz a batalha. É contra isso que FO [CGT] mobiliza os contestatários (frondeurs), e outros deputados, sobre o facto de que se está a inverter a hierarquia das normas, etc. por conseguinte é realmente contra isso que se tem mais dificuldade, hein. É pois contra isso que nós nos arriscamos a cortar com os contestatários – por último, com os deputados mais hostis. Se tem alguma influência sobre a direita   –   pode talvez ter alguma – não seria necessário que se esteja a bloquear, o artigo 2. Porque é o artigo 2 que é o mais importante, o artigo 2 sobre o acordo de empresa. Se se abstiverem, deixam passar o texto, não?

Um presidente da República de esquerda que suplica ao Presidente do Patronato francês que os deputados de direita votem uma lei vergonhosa detestada por uma grande parte dos sindicatos, e agravando consideravelmente a divisão sindical… a missa está dita. Não é somente um Presidente empurrado pelo seu Primeiro-ministro e por um ministro Macron, que vai muito rapidamente traí-lo; não é somente um Presidente cercado por economistas de que uma grande parte trabalha agora Emmanuel Macron; não é somente um Presidente forçado pelos acontecimentos. É tudo isto ao mesmo tempo, sobre um pano de fundo de convicções antigas e bem fixas, como testemunha Bruno Théret, que nos lembra que em 1983-84, sem que seja posto na ordem do dia a reconstrução de um referencial global, passou-se à consolidação a todo o custo, através de uma estratégia económica de desinflação competitiva, em todos os pontos oposta à que, inicialmente, tinha sido exposta e defendida e experimentada. O keynesianismo, ele mesmo, parece agora uma velha ideia, uma ilusão que nos volta sempre à cabeça. Tudo isto é arrumado na prateleira, em nome de três tabus que se ajustam uns aos outros: a moeda, o rigor, a Europa. Théret cita a obra de Moscovici e de Hollande publicada em 1991, L’heure des choix. Para uma economia política: “Esta conversão não é, nem vergonhosa nem injustificada. Está inscrita como uma etapa necessária no processo europeu”.

Sublinhemos aqui o que nos diz Méda:

“Um presidente da República de esquerda que suplica ao Presidente do Patronato francês que os deputados de direita votem uma lei vergonhosa detestada por uma grande parte dos sindicatos, e agravando consideravelmente a divisão sindical… a missa está dita”.

Entre estes dois marcos, a tragédia e a farsa, entre estes dois marcos, a morte lenta do PSF num arco de tempo de quase 35 anos. Lenta e dolorosa agonia a do PSF. E também aqui se trata de uma morte desejada.

Mas é uma longa história que convém explicar, porque por ela passam não apenas traições ativas, de Mitterrand, Fabius, Jacques Delors, Pierre Mauroy, Jospin, Hollande e de tantos outros traidores que nem o adjetivo de socialistas  merecem, como é o caso de Manuel Valls ou de Macron, mas passa também a traição dos intelectuais franceses desde longa data, bem pagos para justificarem o injustificável no plano dos princípios[2], por ela passa o desprezo pelas classes trabalhadoras das elites francesas que só pensam na França dos valores, a França moderna, como  se as classes trabalhadores estejam desprovidas de valores, por ela passa um lento mas continuado esvaziamento intelectual da vida política neste partido e no país, igualmente. Uma lição a perceber, uma lição com a qual, penso eu, muito temos que aprender. É sobretudo nessa história que estamos interessados nesta série de textos intitulada,  Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF.


Notas:

[1] Veja-se nesta série o artigo de Dominique Méda Porque é que a esquerda governamental esqueceu o trabalho ?

[2] Veja em Viva a Crise o texto Carta aberta a uma geração arrependida intitulada Carta aberta àqueles que passaram do Coletivo Mao para o Rotary Club, de Guy Hocquenghem.


A terceira parte deste texto será publicada, amanhã, 29/07/2017, 22h


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