François Mitterrand: “A luta de classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!”
Lionel Jospin: “Eu sou um socialista de inspiração, mas o projeto que proponho ao país não é um projeto socialista. É uma síntese do que é necessário hoje. Ou seja, é a modernidade. ”
François Hollande “Vivi cinco anos de poder relativamente absoluto. (…) Eu naturalmente impus ao meu campo que, sem nenhuma sombra de dúvida, só iria aprovar as políticas que eu consideraria serem justas.”
Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF
A farsa acabou. O povo francês, Macron escolheu. Um outro ciclo de tragédia e de farsa já começou.
Emmanuel Macron pensa que ” nos falta um rei em França” : uma enorme regressão ideológica – Texto II
(Francis Métivier, filósofo)
Uma posição de Macron: ” temos falta de um rei em França”. O Ministro da economia teria tentado uma análise da história da França no semanário “Le 1”, que foi lançado na quarta-feira. Que pensar das suas palavras? Descriptagem do nosso colunista, Francis Métivier, filósofo.
Isso pode bem significar a afirmação absurda e inesperada (mas não tão como isso) de Macron: “Falta-nos um rei?” A fórmula pode significar que Macron inventa uma função política, entre déspota esclarecido e filósofo-rei.

Realeza, sim, monarquia, não
Ao contrário do que se poderia pensar, Macron não parecem querer um retorno da monarquia em França. Realeza sim, monarquia, não.
Ou uma monarquia parlamentar? Não, porque o Rei é uma figura de puro decoro. Macron quer um verdadeiro rei numa república. E quando há um verdadeiro rei numa república, isso é chamado de “despotismo esclarecido”.
O “despotismo esclarecido” é um conceito filosófico e, além disso, a observação de Macron faz parte de uma discussão sobre a filosofia.
Este conceito do pensamento das Luzes aparece como uma recomendação: o déspota esclarecido é um rei, um ser intermediário entre a razão e as pessoas, um servidor do Estado. Ele é guiado, portanto, pela razão e essa razão elucida o povo.
Na verdade, o chefe direciona sobre o seu povo a luz da razão que ele encarna. Mytho, o déspota esclarecido? Entenda-se, Deus é substituído pela razão… Mas o absolutismo permanece o mesmo.
O retrato deste “rei” é desenhado na obra “Cândido”, de Voltaire: a sua razão e as suas luzes estão fora dos nossos padrões. As finanças do Estado estão saudáveis, a sua política tem a adesão unânime das pessoas, a cultura e as artes são prioridades.
Em suma, o oposto da política do governo de François Hollande, de que entanto Macron faz parte. Então … o que é que ele está a fazer neste governo? Macron, implanta-se.
O rei é ele
“Falta-nos um rei.” Questão: quem poderia ser o rei? Um período do passado é citado: a era napoleónica. O tempo, não o nome … É verdade, citar Napoleão não é agradável de ouvir.
O único nome mencionado é o de um homem de direita, de Gaulle. Ainda mais surpreendente Macron não cita Mitterrand! Esquecimento, ofensa, desdém, ausência justificada?
Bem, sejamos claros: o Rei que falta à França é ele próprio. O Estado somos nós, mas o rei, é ele. “A democracia implica sempre algum tipo de incompletude, porque não se basta a si-mesma. “
As pessoas não são competentes. Com um rei, a democracia é completa. Com Macron-rei. O ex-estudante de filosofia, ele assumiria a figura do rei-filósofo da “República” de Platão.
Macron, inteligência monstro e versatilidade
De acordo com Hobbes, o líder deve ter todos os poderes. Macron, um Leviatã que viria aperfeiçoar a democracia imperfeita? O Leviatã de Hobbes é um monstro de força legal. Mas o poder pela força aberta e declarada não é possível numa democracia, a força torna-se a da inteligência.
Macron, um monstro de inteligência e versatilidade: economia, negócios, filosofia. O que justifique o seu lugar como rei. Macron está no lugar, mas ele quer o seu lugar.
Na verdade, ele quer aí deixar sua marca, criar a sua função, reinventar o rei, fazer emergir o seu trono. Seja o Frederico II da Prússia, …da França. Ao mesmo tempo o déspota esclarecido e o filósofo defensor do déspota esclarecido.
Rousseau, tinha no seu “Contrato Social”, uma bela fórmula: “uma nação e o seu líder” Primeiro as pessoas, o povo, depois o líder. Mas Macron, numa enorme regressão ideológica, inverte a hierarquia, primeiro o líder, depois o seu povo.
“A democracia francesa não preenche o espaço”: ser-lhe-á também necessário e até mesmo em primeiro lugar, o despotismo.
Macron, é o ” homem apressado ” da esquerda .
Por memória deixamos aqui um longo excerto da canção L’Homme pressé:
“L’homme Pressé”
J’suis un mannequin glacé
Avec un teint de soleil
Ravalé, Homme pressé
Mes conneries proférées
Sont le destin du monde
Je n’ai pas le temps je file
Ma carrière est en jeu
je suis l’homme médiatique
je suis plus que politique
je vais vite très vite
j’suis une comète humaine universelle
je traverse le temps
je suis une référence
je suis omniprésent
je deviens omniscient
j’ai envahi le monde
Que je ne connais pas
Peu importe j’en parle
Peu importe je sais
j’ai les hommes à mes pieds
Huit milliards potentiels
De crétins asservis
A part certains de mes amis
Du même monde que moi
Vous n’imaginez pas
Ce qu’ils sont gais
Qui veut de moi
Et des miettes de mon cerveau
Qui veut entrer
dans la toile de mon réseau
Militant quotidien
De l’inhumanité
Des profits immédiats
Des faveurs des médias
Moi je suis riche très riche
je fais dans l’immobilier
je sais faire des affaires
Y’en a qui peuvent payer
j’connais le tout Paris
Et puis le reste aussi
Mes connaissances uniques
Et leurs femmes que je…
Fréquente évidemment
Les cordons de la bourse
Se relâchent pour moi
Il n’y a plus de secrets
Je suis le Roi des rois
Explosé l’audimat
Pulvérisée l’audience
Et qu’est-ce que vous croyez
C’est ma voie c’est ma chance
Para ver mais sobre esta temática e esta fonte seguir este link.
O terceiro texto desta série será publicada, amanhã, 05/08/2017, 22h
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