A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. II – Repartição da riqueza e a economia alemã: uma pequena desmistificação (parte 1)

mapa_alemanha

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

II – Repartição da riqueza e a economia alemã: uma pequena desmistificação (parte 1), por Onubre Einz

Publicado por criseusa.blog.lemonde em 20 de abril de 2013

Transferência de riqueza, transferênci

 

Reedição revista do artigo publicado na Viagem dos Argonautas em 25 de março de 2015 https://aviagemdosargonautas.net/2015/03/25/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-ii-reparticao-da-riqueza-e/

 

 

 

Neste trabalho questionamos a economia alemã numa dupla perspetiva. Nos EUA, a partilha da riqueza nacional levou a uma repartição do rendimento desfavorável aos rendimentos salariais e ao investimento. Esta desvantagem conduziu a um lento enfraquecimento da taxa de investimento produtivo e a uma desigualdade crescente do rendimento entre o Top Ten (ou 20 famílias) e o resto da população. A queda da taxa de investimento – totalmente compatível com a necessidade de deslocalizar a produção industrial e de produzir mercadorias que entram no consumo dos agregados familiares – foi acompanhada de uma partilha dos rendimentos da propriedade do capital (rendimentos da propriedade direta e indireta das empresas + juros das aplicações financeiras) sempre mais favorável a uma reduzida fração dos americanos.

Põe-se, portanto, uma pergunta: poder-se-á encontrar na economia alemã traços similares que permitam mostrar que a Alemanha segue o modelo dos Estados-Unidos manifestando, porém, tendências de declínio específicas?

Escusado será dizer que estas tendências não podem reproduzir-se de modo completamente idêntico. É por isso que deveremos estar muito atentos ao modo como fenómenos comuns se podem exprimir de maneira, por sua vez, particular: os alemães não são os americanos.

Este artigo debruça-se sobre o período que vai da reunificação até 2012. Este período é fundamental: com efeito, a partir das reformas Schröder, a economia alemã reforça a sua competitividade moderando fortemente a evolução dos seus salários. É, pois, necessário interrogarmo-nos e examinarmos a quem beneficiou a riqueza produzida. Será o nosso primeiro ponto (A). Em seguida será necessário examinar a lógica do investimento produtivo – construção incluída (B). Veremos que o investimento alemão assumiu uma forma ambígua e que os dados disponíveis não deixam de colocar problemas de interpretação.

Tentaremos, em conclusão, mostrar que tendências profundas conducentes a problemas inevitáveis de investimento e de distribuição do rendimento ficaram, entretanto, suspensos pela crise. A nossa conclusão permanecerá aberta e problemática devido aos dados por vezes contraditórios e a uma americanização entretanto suspensa.

A – A repartição do rendimento nacional alemão.

O rendimento nacional alemão é composto pelos rendimentos da propriedade do capital (A = rendimentos de propriedade e gerados pelas empresas), pelas remunerações dos empregados constituída por salários diretos e prestações indiretas, pensões incluídas (B = Compensação de empregados), pelos impostos sobre a produção e as importações (C = Impostos sobre produção e importações) e a formação de capital fixo (D = Formação bruta de capital fixo).

O Rendimento Nacional Bruto diferencia-se do PIB porque a este último é acrescentado o saldo dos rendimentos do capital (juros+lucros+dividendos). No caso da Alemanha, o saldo sendo positivo, o RNB é ligeiramente superior ao PIB.

Os rendimentos da propriedade do capital são calculados como líquidos: rendimentos recebidos menos rendimentos pagos.

rnb1

A repartição do rendimento (bruto) mostra períodos bem marcados.

De 1992 a 1999, as progressões das componentes do rendimento são aproximadamente paralelas.

  • Os rendimentos da propriedade do capital (A) aumentam ligeiramente antes de caírem, modestamente, no final da década.
  • As remunerações (B) conhecem um certo aumento pontuado por uma estagnação em 1995-1997;
  • Os impostos sobre a produção e as importações (C) e a formação bruta de capital fixo (D) aumentam de modo constante, mantendo-se em valores grosso modo idênticos.

Os anos de Schröder (1998-2005) distinguem-se por uma ruptura a partir do segundo mandato de Schröder (2002-2005). Enquanto que o primeiro mandato de Schröder (1998-2001) foi marcado por um aumento das remunerações e uma queda dos rendimentos da propriedade do capital, o segundo mandato de Schröder caracterizou-se por uma estabilização das remunerações e por um enorme crescimento dos rendimentos da propriedade do capital; tudo o resto mantendo-se idêntico (C e D).

A chegada ao poder de Merkel (2005 e anos seguintes) e a crise terão tido por efeito uma arbitragem entre as categorias de rendimento nacional, menos favorável para o rendimento da propriedade do capital e mais favorável para as remunerações, mantendo-se tudo o resto mais ou menos idêntico (C e D). A crise explica este fenómeno pelas dificuldades das empresas de propriedade direta ou indireta (por ações), pela queda das taxas de juro e pela contração das atividades financeiras nacionais e internacionais (Saldo líquido dos juros, lucros e dividendos da balança dos rendimentos de capitais).

rnb2

Uma análise das componentes do RNB expresso em percentagem permite examinar as coisas mais pormenorizadamente.

1° Primeira evidência, a partilha RNB é, depois de 20 anos, desfavorável às remunerações. Os anos de Schröder não inverteram uma tendência para a erosão das remunerações no rendimento (1992-1998). Aquando do seu primeiro mandato, o Chanceler Schröder estabiliza a parte das remunerações no rendimento, mas as reformas do seu segundo mandato aceleraram como nunca a queda das remunerações, que prossegue com a chanceler Merkel.
2° Segunda evidência: o recuo da parte das remunerações tem múltiplas causas antes do período do segundo mandato de Schröder e dos anos Merkel. Verifica-se a recuperação dos rendimentos de propriedade do capital (1993-1997), dos impostos sobre a produção e as importações (1992-2002) ou da formação bruta de capital fixo (1992-2002).

É somente a partir das reformas do segundo mandato de Schröder e dos anos Merkel que a correlação central entre aumento dos rendimentos da propriedade e baixa das remunerações se desenha muito claramente com um efeito ligeiramente negativo sobre a formação de capital fixo que cai ligeiramente.

É notável que a queda da taxa de investimento é significativa a partir de 2002 e que a crise tenha tido por efeito invertê-la muito modestamente desde 2008.

Antes de deixar esta primeira parte do nosso trabalho, gostaríamos de sublinhar que durante o período de passagem de uma lógica económica tradicional (1992-2001) para uma outra lógica (2002-2007), os impostos sobre a produção e as importações mantiveram-se neutros: na partilha do rendimento estão estagnados.

Em suma, parece que a Alemanha somente terá tido uma redistribuição do rendimento nacional a favor dos rendimentos da propriedade do capital, como foi o caso nos EUA, e em detrimento dos rendimentos salariais diretos e indiretos. Em contrapartida, este fenómeno não parece ter sido acompanhado por uma queda da taxa de investimento produtivo. E parece também que a crise atuou globalmente a favor das remunerações e em detrimento dos rendimentos da propriedade do capital. A crise terá beneficiado as remunerações em desfavor dos rendimentos da propriedade do capital, e a tendência para uma desigualdade crescente na repartição do rendimento terá sido parada ou suspensa.

(continua)

 Texto original em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor

 

 

 

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