François Mitterrand: “A luta de classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!”
Lionel Jospin: “Eu sou um socialista de inspiração, mas o projeto que proponho ao país não é um projeto socialista. É uma síntese do que é necessário hoje. Ou seja, é a modernidade. ”
François Hollande “Vivi cinco anos de poder relativamente absoluto. (…) Eu naturalmente impus ao meu campo que, sem nenhuma sombra de dúvida, só iria aprovar as políticas que eu consideraria serem justas.”
Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF
A farsa acabou. O povo francês, Macron escolheu. Um outro ciclo de tragédia e de farsa já começou.
Quem é o «senhor dos tempos» invocado por Emmanuel Macron ? – Texto V
(Por Amélie James, In Jornal Libération, 17/05/2017)

De volta à expressão utilizada pelo novo Presidente da República quando era ainda apenas um candidato.
Quem é o “senhor dos tempos[1]” invocado por Emmanuel Macron?
Emmanuel Macron em “Senhor dos tempos “? Conhecíamos a expressão “Senhor do Tempo ” nas entranhas de Fort Boyard , mas “O senhor dos relógios[2]“… Durante várias semanas, aquele que se tornou presidente da República em 7 de maio é regularmente definido como tal, em resposta a todos aqueles que desejavam impor-lhe um ritmo.
“Eu vou ficar como o senhor do Tempo, os media vão ter que se habituar a isso , eu sempre fiz isso.” “Eu não vou saltar para a frente das câmaras, porque a Sra. Le Pen o faz “, disse ele no estúdio de France 2, em Abril. O então candidato tinha, através desta expressão, tentado justificar a sua presença tardia no local da Whirlpool onde o candidato de direita tinha acabado de passar.
Desde a sua chegada ao Eliseu, o Presidente da República realmente faz o que quer com os pêndulos dos relógios. Depois de adiar o anúncio de seu primeiro-ministro na segunda-feira, ele optou por adiar o anúncio do governo planeado nesta terça-feira para quarta… Uma maneira de mostrar que ele decide sozinho sobre o calendário. Mas de onde é que vem esta expressão de “senhor dos tempos ” ?
Utilização recente em politica
Em Setembro, pouco depois de sua renúncia ao governo de François Hollande, Emmanuel Macron já tinha avançado esta comparação sobre a questão das questões políticas em France Inter: “Vamos fazer as coisas em ordem, porque eu pretendo ser, sobre esta matéria “o senhor dos tempos”. Trata-se então da questão da sua eventual candidatura presidencial, quando ele deixou o governo pouco antes.
Em Outubro, Marisol Touraine utilizou essa personificação por sua vez. Era então François Holland que era assim qualificado, sobre a sua eventual candidatura. “ele é o senhor do Tempo .” É ele que decide do calendário, disse o ex-ministro da saúde no micro da RTL.
Se a fórmula já foi usada no final do quinquénio anterior, esta expressão é porém de utilização recente na política. Nós ainda não encontrámos nenhum político que a tenha utilizado antes de 2016. Como Delphine Gaston-Sloan explica, autora do livro o Pourquoi et le Comment de nos expressions françaises (Larousse, 2016) a expressão “senhor dos tempos” não está listada.
“O Estado, guardião dos tempos “
“devemos ver uma espécie de reapropriação da metáfora voltairiana do grande relojoeiro?”, pergunta-se Delphine Gaston-Sloan. Na verdade, em 1772, num dos seus dísticos publicados em Les Cabales, o autor tinha tomado a figura do relojoeiro em referência a Deus, “o criador do universo”: “o universo embaraça-me, e eu não posso pensar que este relógio existe e não tem nenhum relojoeiro.” Esta comparação entre Deus e o relojoeiro já tinha sido feita por René Descartes nos seus ensaios filosóficos, seguidos da metafísica.
Mais perto de nós, em 1992, o enarca Philippe Delmas, doutorado em Economia e em Matemáticas, assume a metáfora voltairiana para falar sobre o papel do Estado sob a V República e, em seguida, fala então de… “o senhor dos tempos “. “o Estado é o moderador do tempo, o provedor dessa lentidão necessária que está vedada aos mercados por ser contrária à rapidez que lhes confere a força “, diz-nos ele na obra O senhor do tempo, a modernidade da ação do Estado, edições Asa, pag 28-29.
O senhor dos tempos designa assim, conforme os casos, Deus ou o Estado. “É claro que o termo refere-se à ideia de que a ação pública se inscreve no longo prazo da sociedade por oposição à lógica do imediatismo. O “Senhor ” é uma forte imagem na governança, quanto aos relógios representam uma leve matiz já fora de uso no discurso, diz-nos a sorrir Delphine Gaston-Sloan. Se acrescentarmos uma outra metáfora Emmanuel Macron, a do “presidente jupiteriano”, referindo-se a Júpiter, o deus dos deuses na mitologia romana, interrogamo-nos se não é já tempo de regressarmos à Terra. Emmanuel Macron é a esquerda e a direita, é deus e senhor.
[1] Em francês a expressão é Maitre des Horloges. Num livro editado em Portugal por Edições Asa , optou-se por senhor do Tempo. Pessoalmente prefiro a expressão senhor dos tempos, dos diversos tempos dos mercados, uma vez que cada mercado tem o seu próprio tempo, o seu próprio ritmo e cabe ao senhor dos tempos ajustá-los para evitar o disfuncionamentos dos mercados.
[2] Para evitar confusões a expressão francesa maître des horloges será por nós sempre traduzida por senhor dos tempos, levemente diferente do título do livro em português da obra de Philippe Delmas na edições Asa editores em que se optou por senhor do Tempo, no singular, portanto. .
Deixem-me aqui referir que este foi um dos livros selecionados pela equipa de docentes, na época, da disciplina de Economia Internacional da Faculdade da Universidade de Coimbra, como livro de cultura geral e de leitura obrigatória para todo o estudante que escolhia como método de avaliação, a avaliação contínua. Mais de vinte anos depois, o livro volta a ser referência!
O sexto texto desta série será publicado, amanhã, 30/08/2017, 22h
