A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. V – Será a Alemanha o modelo para uma saída da crise através das exportações? Uma análise desmistificadora (parte 4)

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

mistificação realidade

V – Será a Alemanha o modelo para uma saída da crise através das exportações? Uma análise desmistificadora (parte 4), por Onubre Einz

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde.fr em 23 de maio de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 11 de abril de 2015 https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/11/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-v-sera-a-alemanha-6/.

(conclusão)

C – O absurdo de um modelo alemão generalizado

A adoção por toda a Europa de um modelo alemão e de um relançamento da competitividade por uma muito forte moderação salarial não será possível de aplicar sem levantar sólidas objeções.

     1° O crescimento pelas exportações

A Alemanha tem uma estrutura de exportação onde se ilustra o peso de três sectores: o sector dos bens de equipamento, o sector da química e um sector das matérias-primas transformadas. Os bens de equipamento e os produtos químicos são preponderantes.

A adoção de um tal modelo pelos países europeus teria dois efeitos: ser concorrente com os alemães no seu próprio mercado e sobretudo aumentar consideravelmente os investimentos num fundo de moderação salarial. É comprar um bilhete para a queda da procura e para uma situação de sobre-acumulação absoluta de capital: os produtos não se podem vender se não há uma procura correspondente e os investimentos só poderão tender para a sobre-acumulação de capital se o consumo permanecer fraco. É uma política votada ao fracasso.

Existe, portanto, uma válvula de escape. Aumentar as exportações significativamente fora da Europa. Existem duas objeções de dimensão suficiente para reduzir esta opção a pouca coisa. Se todos os europeus começam a recuperar o crescimento pelas exportações com base no modelo alemão, terão a concorrência da Alemanha nos seus mercados exteriores. Esta opção significa novamente acumular capital sem poder ter como certo um desempenho milagroso das exportações.

O exemplo da Alemanha, país que dispõe de vantagens sólidas, é um caso que nos deveria fazer refletir. A Alemanha alcança bons resultados económicos nas exportações, mas não consegue verdadeiramente impor-se nos mercados dos países ditos dinâmicos. Seguir a Alemanha nestes mercados e inspirar-se no que é suposto ser a causa do sucesso alemão — equipamentos e produtos químicos — será correr o risco de jogar a carta em mercados que não serão um grande local para os europeus, os quais irão assim acrescentar a uma concorrência via preços pouco favoráveis, a aglomeração das suas exportações.

E, depois, há nesta hipótese de um relançamento pelas exportações um vício mais profundo. Supõe-se que os países europeus vão ter e manter um crescimento novo através de exportações dinâmicas. Na ausência de um mercado europeu dinâmico, é apostar num comércio assimétrico. Ir-se-á procurar o crescimento na Ásia? Seria necessário criar excedentes quando a Europa o que tem agora são défices? Na América Latina, o exemplo alemão deixa-nos pensativos. Na América do Norte? É duvidoso que a região sustente um enriquecimento europeu, ela conhece apenas uma falsa retoma. Verdadeiramente, esta política pode conduzir apenas à estagnação económica da Europa ou até levar a que esta fique ainda pior.

A Alemanha não parece pois mostrar que o futuro está num crescimento pelas exportações, acompanhado por uma concorrência reforçada na Europa ou pela busca de novos mercados no resto do mundo. Esta estratégia não é idiota, ela é muito limitada. O exemplo alemão mostra que prosseguir uma tal política é uma quimera. A prossecução de uma política de crescimento pressupõe criar condições de crescimento na Europa e fora da Europa.

O problema central da Europa é o de não ter tido uma coordenação das suas políticas. A Alemanha jogou o seu jogo e a crise da competitividade tem muito largamente a ver com a moeda comum, de virtudes duplamente pervertidas devido à concorrência pelos custos salariais que drenou o crescimento de outros países, como mostram os gráficos que usámos.

     2° Os saldos comerciais

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Quando se examinam os saldos comerciais, os absurdos de um crescimento através de exportações reproduzem-se a uma escala quase infinita. Reencontramos novamente a distribuição por três grandes conjuntos de excedentes comerciais. Mas a pergunta que deve ser colocada é a seguinte: o que é que resultaria desse processo de crescimento com a sua origem no relançamento geral das competitividades e nas condições que nós enunciámos no ponto anterior? Os excedentes alemães seriam melhor distribuídos entre os países europeus, quer esses excedentes fossem alcançados na Europa ou fora da Europa. Os alemães, portanto, perderiam a vantagem que ganharam com as reformas Schröder e não iriam escapar ao risco que representa um regime de sobre-acumulação de capital na Europa e de avanços mitigados no que se refere às exportações.

     3° Modelo generalizável e modelo substituível

Os pontos 1 e 2 empurram-nos para a defesa da ideia de que o modelo alemão não é generalizável sem se envolver toda a Europa numa via que é uma falsa saída. A recessão atual mostra que esta solução é uma visão de espírito que só poderá servir — e ainda só a muito curto prazo — os interesses alemães.

Mas se nos quisermos dar ao trabalho de pensar um pouco, surge rapidamente a ideia de que o modelo alemão não é substituível. As condições do sucesso alemão são específicas para a Alemanha. Querer transpô-las tem, portanto, o risco de erradamente estar a ser induzido pela referência permanente das elites que nos governam — especialmente as francesas — a um modelo alemão mítico de que se retém apenas alguns aspetos bem definidos onde figura à cabeça a redução dos encargos e dos salários e os seus efeitos positivos sobre o crescimento.

Este trabalho mostrou que a palavra de ordem: competitividade-exportação-baixa dos custos do trabalho não garante nenhum sucesso brilhante na Europa e no mundo. Muito pelo contrário. A desinflação competitiva que a Alemanha implementou resultou no aumento dos desequilíbrios, tanto nas trocas comerciais como no crescimento dos países na Europa. Ela não garante as melhorias desejáveis nas exportações nem nos saldos comerciais. Mais importante ainda, ela é insustentável num contexto de euro forte que implica entrar em mercados dinâmicos com um handicap monetário. O modelo alemão aparece de novo como muito pouco generalizável a não ser que se siga um caminho absurdo de relançamento pelas exportações que se constitui já como um impasse quando se medem os sucessos — bem mais limitados do que o que parece — da Alemanha.

No final deste artigo, só posso acrescentar duas notas: se a Alemanha tenta uma Sonderweg, fá-lo de um modo muito inábil. Não quererá a Alemanha retomar a sua visão de uma hegemonia pós-nacionalista? É possível, mas neste caso a Sonderweg alemã é, em última análise, a expressão da ganância de uma fração das famílias alemãs ricas ou muito ricas…

 

Texto original “L’Allemagne est-elle le modèle d’une sortie de crise par les exportations : Une analyse démythificatrice” em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

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