A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. VI – A Alemanha e o investimento: uma potência com pés de barro (parte 1).

mapa_alemanha

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

pés de barro

VI – A Alemanha e o investimento: uma potência com pés de barro (parte 1), por Onubre Einz

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde.fr, em 6 de junho de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 12 de abril de 2015 https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/12/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-vi-a-alemanha-e-o-investim/) e em 13 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/13/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-vi-a-ale/)

 

Estamos a escrever um livro sobre o investimento na Alemanha e mantemos a intenção de comparar esse investimento com o investimento americano. Não se trata de fazer uma comparação num espírito positivo de volumes e taxas de investimento, isso seria pouco relevante.

Nós queremos, sobretudo, comparar o modelo de crescimento alemão com o modelo de crescimento americano para levantar a seguinte questão: o modelo de crescimento alemão será ele diametralmente oposto ao modelo de crescimento americano ou será que não se encontram semelhanças entre os dois países?

A questão que nos interessa portanto é a seguinte: a economia dos EUA tem tido a tendência para ter um aumento muito importante do rendimento dos 10 % das famílias mais ricas – alargado para os 20% das famílias mais ricas, se quisermos alargar o leque de análise. Este aumento teve dois efeitos principais; por um lado uma diminuição da parcela do rendimento dos percentis de 1 a 80 das famílias, por outro lado, uma queda da taxa histórica de investimento ainda chamada a taxa de acumulação de capital, queda esta que é constatada tanto no investimento privado como no investimento das administrações públicas. Não vamos voltar a analisar os mecanismos complexos que permitiram a transferência de rendimento para as famílias do topo da pirâmide social: a enorme polarização dos salários, os rendimentos da propriedade direta e indireta do capital produtivo, as desigualdades de distribuição de riqueza financeira e do endividamento foram os instrumentos dessa transferência, ampliando as desigualdades de rendimento. As mais-valias mobiliárias de cessação (e acessoriamente imobiliárias) desempenharam um papel mais apagado nesta enorme transferência de riqueza entre grupos sociais.

No caso americano, a escolha do crescimento nos desequilíbrios externos da balança de pagamentos e dos fluxos de capitais levaram a uma tolerância marcada em relação à desindustrialização do país: os bens de consumo estrangeiros baratos importados tinham a vantagem distintiva de reduzirem o custo de vida e de tornar tolerável as crescentes desigualdades de rendimento (1). Os ativos imobiliários também geraram uma ilusão de enriquecimento como parte de um modelo consumista.

Gostaríamos, voltando a partir do investimento – medido em volume, em taxa e pelos principais sectores – interrogar o crescimento alemão, tratando-se de mostrar aqui como é que o crescimento das desigualdades sensíveis na Alemanha desde o início do século XXI se pode ter desenvolvido e combinado com o investimento num país que continua a ser um grande exportador, e manteremos bem presente o modelo americano para apontar as semelhanças e as diferenças com o modelo alemão.

Para nossa surpresa, descobrimos que os modelos alemão e americano têm um ponto em comum: escravizam o sistema de produção ao desejo das elites económicas de acumulação de riqueza e de apropriação de uma parcela crescente dos rendimentos gerados. Este desejo produz em ambos os casos, uma sub-acumulação de capital, mas esta última é combinada com as trocas externas que não têm a mesma configuração. Mas também fomos levados a constatar um outro ponto comum aos dois modelos de crescimento: a queda das taxas de investimento.

O plano seguido neste trabalho será simples: em primeiro lugar, vamos examinar os investimentos alemães (A1 e 2). Em seguida, examinaremos a lógica de investimento e de crescimento tendo em conta as realidades europeia e americana (B). Finalmente, interrogar-nos-emos sobre as razões pelas quais as taxas de investimentos são orientadas à descida nos EUA e na Alemanha e assinalar alguns dos paradoxos do crescimento alemão (Conclusão).

Tocar-se-á, portanto, numa questão mais abrangente: as causas da crise económica dos países do Espaço Atlântico. E não é a falsa retoma da economia dos Estados Unidos que nos impedirá de defender a tese de uma depressão do Atlântico Norte, ainda não superada atualmente.

A-1 – Lógicas gerais do investimento

     1) O investimento em valor

A formação bruta do capital fixo (FBCF) divide-se em dois setores:

1° A FBCF das administrações públicas (Governo) que inclui a administração do Estado federal, Subfederal (Länder ou Estados federados) e as administrações locais (Landkreise ou distritos rurais) e as Kreisfreie Städte (cidades distrito livres) também chamadas Stadtkreise (distritos urbanos) em certos Länder (Bade-Wurttemberg, Bremen, Berlin e Hambourg).

2° A FBCF privada que agrupa o conjunto dos investimentos privados e inclui os investimentos produtivos, a formação de stocks e os investimentos residenciais (habitação).

ab1

Primeira evidência: a FBCF privada aumentou muito pouco na Alemanha entre 1992 e 2002. Ela parou depois de 2000 e só recuperou em 2005.

Segunda evidência: a FBCF das administrações públicas estagnou entre 1992 e 2012. Teve mesmo uma tendência à queda entre 1992 e 2004, tendo sido retomada em 2005.

O único ponto interessante é o de poder constatar um facto que interessa na nossa comparação da Alemanha com os EUA: o aumento da desigualdade de rendimentos sob Schröder coincide com a queda da FBCF privada depois de 2000 e com uma erosão da FBCF pública até 2005.

Todavia, as nossas constatações não podem ir mais além. Com efeito, a FBCF privada combina elementos demasiados dispares e a evolução da FBCF pública não permite mostrar que a crescente desigualdade de rendimento conduziu a uma pressão sobre o investimento público. Este investimento baixa desde 1992, ou seja, antes do surto das desigualdades do início do século XXI.

ab2

A análise da Formação Líquida de Capital Fixo (FLCF) não resolve a questão que acabámos de levantar, mas coloca-nos perante uma pista interessante.

A FLCF, resultante da formação bruta de capital fixo menos a depreciação, aparece com muita clareza na análise das duas curvas, em que se mostra que a Alemanha acumulou cada vez menos capital fixo adicional desde há 20 anos. O capital fixo é adicional quando a diferença entre a FBCF e depreciação ou consumo de capital fixo produz uma FLCF positiva. O enfraquecimento da FLCF implica que o capital fixo acumulado ou stock de capital aumentou fracamente na Alemanha.

No caso da FLCF das administrações públicas (governo) esta acumulação tem uma tendência de queda contínua. Sob Schroeder, houve mesmo destruição líquida de capital fixo público alemão –as infra-estruturas deixaram de ser renovadas, permaneceram as mesmas em volume e começaram a deteriorar-se por falta de uma simples renovação na mesma escala.

No caso da FLCF privada, a queda é significativa, e dá-se sob Schroeder e é moderadamente corrigida por Merkel.

Portanto, a acumulação de capital fixo caiu na Alemanha.

Esta queda no investimento revela dois fenómenos:

  • uma acumulação de capital fixo – privado e público – fraca e, consequentemente, um stock de capital fixo a aumentar muito fracamente na Alemanha e
  • um nível de investimento demasiado baixo para desenvolver uma forte acumulação de capital.

Estes são os dois sinais característicos do efeito da subida em flecha dos altos rendimentos sobre o investimento de um país. Este efeito não se contenta em limitar o crescimento do rendimento do resto da população, pois também afeta o investimento. O momento do aumento do rendimento dos mais ricos, sob Schröder, e a evolução negativa do investimento em ativos fixos da Alemanha traz água para o moinho da nossa tese. Mas os indicadores que aqui utilizámos, a este nível de análise são demasiado toscos. Pode-se facilmente defender a tese de uma pressão dos rendimentos elevados sobre a queda do investimento público, mas os dados de investimento privado devem ser analisados mais de perto para validar esta tese e, por outro lado, a queda do investimento público é de anterior aos anos de Schroeder. Voltaremos a este tema.

     2) O investimento em taxa do PIB

O investimento medido em termos de taxa do PIB permite perceber a medida do esforço da Alemanha a favor do investimento.

     2.a – As administrações públicas

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Se considerarmos a formação bruta e líquida de capital fixo, então aparecem aqui dois resultados importantes.

1° É evidente que apesar da reunificação, a Alemanha consagrou uma cada vez menor parte da sua riqueza ao seu investimento público. A taxa de FBCF cai desde há vinte anos.

2° A taxa de formação líquida de capital fixo do governo em geral conhece o mesmo destino. A Alemanha negligenciou nacionalmente os seus investimentos públicos adicionais cada vez mais claramente.

As taxas de acumulação de capital fixo brutas e líquidas, portanto, arrastaram consigo uma estagnação do stock de capital fixo das administrações públicas. Ou para o dizer de uma outra forma, uma baixa taxa de acumulação de capital líquido do governo resultou em 20 anos num baixo desenvolvimento do stock de capital fixo. Reencontramos aqui um efeito da divisão desigual do rendimento produzindo taxas de acumulação de capital fixo e de um stock de capital insuficiente. Mas vê-se claramente que este fenómeno é anterior aos anos de Schroeder.

     2.b – O setor privado

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A acumulação de capital privado permite-nos ter uma outra medida da fraqueza do esforço nacional dos alemães para o investimento.

A FBCF não pára de cair ao longo dos últimos 20 anos. Este declínio acelera-se com os anos de Schroeder; esta formação de capital fixo é corrigida marginalmente, no início do reinado de Merkel (2006-2008), e sofre depois de 2009 os caprichos da crise.

A queda da FLCF é ainda mais perturbadora. A taxa de acumulação privada conhece uma queda histórica, marcada por uma aceleração sob Schroeder e uma certa correção sob Merkel. Mas no geral a fraqueza da FLCF leva a uma fraca progressão do stock de capital acumulado de capital fixo.

   3) A sub-acumulação de capital: taxas de acumulação e capital acumulado.

A queda das taxas de acumulação de capital e a falta de crescimento do capital acumulado permitem-nos dizer duas coisas:

1° Há na Alemanha uma sub-acumulação crescente de capital tendo por corolário,
2° Um stock de capital fixo que cresce lentamente.

Se a relação entre a queda da taxa de FBCF e da FLCF das administrações públicas permite falar sobre uma possível influência de uma captação excessiva de riqueza por parte dos altos rendimentos, influenciando negativamente as duas taxas, é difícil fazer o mesmo com o investimento privado, cuja diversidade requer uma análise mais detalhada nas suas componentes.

(continua)

Texto original ” L’Allemagne et l’investissement: une puissance aux pieds d’argile”, em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

 

Notas

(1) Como tradutor não resisto a colocar aqui uma afirmação do pai da livre-troca à escala mundial, Paul Samuelson, afirmação feita já no fim da sua vida. Mais vale um emprego, um salário real condigno, que os 20 por cento a menos nos preços de Wal Mart!

 

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