A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. VI – A Alemanha e o investimento: uma potência com pés de barro (parte 2).

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

pés de barro

VI – A Alemanha e o investimento: uma potência com pés de barro (parte 2), por Onubre Einz

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde.fr, em 6 de junho de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em

14 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/14/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-vi-a-ale-2/) e em 15 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/15/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-vi-a-ale-3/).

(continuação)

A-2 – Lógicas particulares dos investimentos.

A análise da lógica do investimento privado visa mostrar que a tese de uma possível influência da partilha da riqueza nacional a favor dos ricos e abastados alemães não é simplesmente ilustrada pela lógica do investimento público, mas também pela lógica do investimento privado.

a) Os dados em valor.

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O sector da construção deve ser o nosso primeiro objeto de análise. A FBCF-construção tem aqui como particularidade que ela liberta rendimentos – consumíveis ou aforráveis – à medida que esta baixa, e a sua queda condiciona as transferências de rendimentos para as famílias alemães ricas. Como tal, a baixa acelerada do valor da construção sob Schröder e a sua correção sob Merkel são novamente patentes. Elas têm como correlação uma aceleração das transferências de rendimento para as famílias de rendimentos acima da média ou muito ricas, transferências estas mais fortes sob Schroeder do que sob Merkel.

As duas componentes da construção: habitação (Dwellings = B) e imobiliário de empresas (também incorporando à margem uma fração de edifícios civis ou engenharia civil) ou construção não residencial (= C) atestam uma queda no nível de investimento, pontuado pelos mesmos eventos políticos.

No que diz respeito aos investimentos produtivos, encontramos o que já anteriormente dissemos. Os equipamentos (D) foram privilegiados em detrimento do ramo imobiliário do sector produtivo, seja de bens seja de serviços, (C), este investimento focado em equipamentos (D), no entanto, declinou sob Schröder e foi retomado sob Merkel enquanto se sofriam as consequências da crise. Deve notar-se que os investimentos em máquinas e na produção de peças metálicas (E) foram mais fortes e mais significativamente afetados pelos efeitos do reinado de Schröder que os investimentos em transportes. Sacrificar o imobiliário das empresas tem, portanto, permitido apoiar o investimento produtivo sem que isso represente uma fração demasiado importante da riqueza nacional. A transferência de riqueza a favor das famílias ricas e abastadas, através do aumento dos rendimentos e da moderação do investimento produtivo (imobiliário de empresas) é de novo visível.

     b) Os dados em taxas.

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Os dados em taxas permitem-nos medir os esforços da Alemanha para a acumulação de capital fixo. Pode-se deixar de lado os investimentos em imóveis residenciais (B), estes últimos em queda livre mostram-nos um peso cada vez menos forte na partilha da riqueza alemã dedicada à construção residencial; isto só pode levar a favorecer a acumulação de rendimentos para o topo da escala social. É a mesma coisa face aos empreendimentos imobiliários das empresas(C). As nossas análises anteriores, portanto, continuam validadas.

Se isolarmos agora os elementos do capital produtivo, não podemos deixar de ficar espantados pela erosão da taxa de investimento em maquinaria e na produção de peças metálicas (E) que acompanha a queda na taxa de investimento no ramo imobiliário empresarial (C). A taxa de investimento produtivo assim concebida permite não ter em conta a taxa de investimento nos equipamentos (D = E + F) refletindo os equipamentos de transportes do capital produtivo, transportes esses que se destinam a fazer circular os stocks dos produtos que entram ou saem do processo produtivo.

Se notarmos que uma queda da taxa bruta de formação de capital produtivo é acompanhada por uma inevitável queda nas taxas de formação de capital fixo líquido então é necessário considerar que na Alemanha as taxas de formação de capital adicional líquido eram pobres em termos de capital produtivo (C + E) e ligeiramente mais favoráveis nos transportes (F).

Segue-se que o capital produtivo acumulado teve um aumento fraco desde 1992 na Alemanha, o que mostra a queda do esforço nacional em favor do investimento produtivo, o que é mostrado pelo nosso último gráfico.

 

B – A lógica do investimento e a lógica do crescimento.

Resta compreender como é que se podem articular os níveis de investimento, o alargamento enorme das diferenças nos níveis de rendimento e os stocks de capital acumulado. O modelo de crescimento alemão permite esclarecer estes pontos.

O stock acumulado de capital produtivo, cujo acréscimo é resultante das baixas taxas de investimento em capital fixo bruto e líquido, reflete as condições de produção do valor depois da queda do muro de Berlim. A queda do investimento produtivo alemão e do volume de capital acumulado marca a passagem do Made In para o Made By Germany: a taxa de investimento produtivo bruto e líquido em capital fixo produtivo resulta de que uma parte crescente da produção é feita nos países da Mitteleuropa (Hungria, República Checa, Polónia), ou mais longe ainda. Essa realidade envolve uma alteração de grande dimensão do aparelho produtivo alemão nas condições de produção do valor produzido dentro e fora da Alemanha.

Dominando a cadeia de produção material, a Alemanha também se coloca na posição de controlar a cadeia de valor de que ela se apropria na maior parte impondo condições de formação de preços que lhe são favoráveis. O sistema de produção alemão evolui cada vez mais para uma lógica mista de produção e/ou de montagem final. O capital acumulado na Alemanha só pode pois aumentar reduzidamente.

Esta lógica geral permite reduzir os salários alemães num quadro de regulação do salário direto e indireto cada vez menos generoso, que opera como uma condição sine qua non para a concentração dos rendimentos a favor do alto da pirâmide social.

Pode, portanto, haver na Alemanha, uma sub-acumulação de capital, uma queda das taxas de investimento em capital fixo produtivo e uma produção de valor ainda importante. Uma parte da riqueza é produzida noutros lugares e não paga a um preço justo, é o objetivo de toda a subcontratação. Ela concentra-se na Alemanha pelo volume de rendimento crescente e concentra-se cada vez mais e mais fortemente nas mãos dos alemães que estão no topo da pirâmide social, no final de uma série de condições que podem ser enumeradas simplesmente: limitação de investimentos residenciais, limitação dos investimentos públicos e produtivos e uma distribuição do rendimento cada vez mais desigual.

Nestas condições, a Alemanha pode tornar-se a base dos fluxos de capital, marcados pelo IDE que permitem produzir a melhores preços no exterior e pelos IPD (juros, lucros, dividendos) que aumentam o rendimento nacional. A financeirização por procuração permite registar um saldo líquido de rendimentos de capitais favoráveis à transferência de rendimentos para o topo da pirâmide social.

A compressão do investimento tem isto de peculiar: tende a permitir um equilíbrio entre a produção de valor gerado fora do solo alemão e a partilha da riqueza nacional entre investimento e rendimento favorável à transferência dos frutos do crescimento para o topo da escala social. O sr. Schröder acelerou este processo e alargou exageradamente as diferenças de rendimentos, conduzindo ao mesmo tempo a Alemanha para níveis de muito baixo investimento público e privado. Frau Merkel não pôs em causa esta orientação, simplesmente temperou-a um pouco.

Merkel moderou um processo que enfraquecia exageradamente o investimento alemão devido a um enriquecimento muito rápido das classes mais altas. Deve ser notado também que o agravamento das desigualdades foi menos polarizado para o topo. São especialmente os percentis 1-50 dos rendimentos que vieram a sofrer mais com os efeitos da moderação salarial sob Schröder. A política menos dura de Merkel em matéria de agravamento das desigualdades explica a sua popularidade.

Alienação da produção e alienação da Europa.

A Alemanha conseguiu muito habilmente combinar elementos que se excluem habitualmente.

 A Alemanha combina uma sub-acumulação de capital (taxas e volume de capital acumulado) relativamente à riqueza nacional (valor do PIB) que a Alemanha importa parcialmente e fica com a parte do leão (2). No caso contrário [de exportação], a riqueza criada pela Alemanha seria mais baixa devido ao nível de investimento e de stock de capital demasiado fraco.

 Esta riqueza importada (e não paga) é o exato equivalente da riqueza importada pelos EUA sob a forma de fluxos de mercadorias e do saldo líquido dos capitais financeiros (Entrada-saída de capitais). Mas onde os Americanos consomem em excesso (sobre-consumo) sem se estarem a preocupar em produzir (a sua balança dos pagamentos é deficitária) ou em poupar, os Alemães produzem com a preocupação de aumentar a sua riqueza nacional por subtração pela via das trocas desiguais que permitem a sua posição final na cadeia de produção dos valores.

 O método para aumentar o rendimento das classes mais favorecidas produz efeitos similares (queda da taxa de investimento, base produtiva em contração relativa) mas há diferenças sensíveis em termos de contas externas. A Alemanha limitando a procura – que deve reduzir-se se o sistema produtivo estiver em contração relativa – de uma parte dos seus concidadãos (é a célebre moderação salarial) tem de encontrar vias de retransmissão do crescimento fora das suas fronteiras. Vimos que a Alemanha o conseguia em zonas moles (Zona Europa, Europa comunitária para lá dos 17, Europa fora da UE, América do Norte e Médio Oriente) e menos bem em zonas dinâmicas (Ásia e América do Sul) devido à especificidade das suas exportações e à qualidade-preço dos seus produtos. Segue-se que numa tal situação, era indispensável encontrar clientes sempre mais numerosos fora das suas fronteiras. O enriquecimento dos alemães de rendimentos elevados e dos muito ricos supunha por conseguinte a retransmissão do crescimento principalmente na Europa e acessoriamente no resto do mundo, como o mostra a enorme diferença persistente entre as exportações para a Europa e para o mundo inteiro.

 É assim que a Alemanha se tornou uma base de produção e de montagem que permite aumentar o volume de produtos exportados e vendidos pela Alemanha, em que uma parte crescente desse valor deve ser vendida para o exterior. Pode-se assim constatar, como o fizemos, que a parte das exportações alemãs no PIB não deixa de crescer. Isto seria impossível com taxas de investimento produtivo a evoluírem em sentido contrário. O balanço é o enriquecimento de uma fração da população alemã e a existência de desequilíbrios que ameaçam todo o edifício europeu. Estaríamos errados efetivamente se considerássemos esta situação como apenas um efeito do dinamismo da indústria alemã, a economia alemã a sofrer de uma sub-acumulação relativa de capital não tem o poder, a robustez, que representa o volume do seu comércio externo. Quanto mais o tempo passa, mais a Alemanha produz fora das suas fronteiras, mais a Alemanha se enfraquece. Este enfraquecimento é visível na queda na parte de riqueza consagrada ao investimento produtivo e na queda da parte do investimento público.

 Os EUA ao criarem desigualdades na repartição do rendimento distribuído tiveram que construir um compromisso nacional patrimonial na base do aumento do preço da habitação que compensava assim as formidáveis desigualdades de rendimento e de património financeiro. O modelo alemão é diferente. A Alemanha não construiu um vasto sistema financeiro, as famílias privadas exportam os seus rendimentos para os sistemas financeiros estrangeiros sem esquecer o repatriamento dos juros e dividendos. O sistema produtivo alemão centrado sobre a produção na Mitteleuropa não é senão uma base que permite acumular valor para as camadas de topo na repartição do rendimento e em que estas o exportam para o estrangeiro sob a forma de aplicações financeiras. Em suma, não há necessidade de uma corrida à dimensão dos patrimónios financeiros, permitindo captar uma fração dos rendimentos pela via de formas derivadas dos rendimentos da propriedade das empresas (dividendos) ou das aplicações financeiras (Juros). É o que explica que o investimento na habitação seja assim muito fraco na Alemanha. Não se trata de uma simples política imobiliária a permitir evitar uma inflação dos preços e dos alugueres imobiliários. Trata-se de uma variável que estrutura o modo de criação e distribuição do rendimento na Alemanha. Uma fraca taxa de investimento no imobiliário permite proteger o nível da procura (e o escoamento dos produtos alemães sobre o mercado interno), condicionando também a captação pelas camadas superiores de parte crescente de rendimento.

 

(continua)

Texto original ” L’Allemagne et l’investissement: une puissance aux pieds d’argile”, em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

Notas

(2) O autor faz aqui referência a um tema hoje banido dos manuais de Economia Internacional: a Troca desigual. Em termos simples, se os preços estivessem corretamente formulados, os produtos alemães que hoje valem 100 euros alemães valeriam 80 euros alemães, por exemplo. Em contrapartida, se os preços estivessem corretos e em euros alemães, o que é importado do exterior em vez de valer 100 euros valeria 120 euros alemães. Simplesmente quer isto dizer que para as mesmas mercadorias importadas ao valor de 100 (valem 120) os alemães teriam de pagar mais 50% do que pagam, teriam de exportar mercadorias avaliadas em 120 euros, quando as que exportam agora valeriam apenas 80 euros.

 

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