Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte I – O básico na finança de hoje – 2. Christophe Nijdam, o cruzado de Finance Watch. Por Edouard Lederer Ninon Renaud

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte I – O básico na finança de hoje

2. Christophe Nijdam, o cruzado de Finance Watch

Por Edouard Lederer Ninon Renaud

Publicado por Les Echos.fr, em 24/03/2015

parte I finance watch Christophe Nijdam

Ex-operador de sala de mercados (especulador) conheceu bem os excessos da finança., os excessos de Wall Street, antes de se tornar um fortíssimo crítico do banco modelo universal à francesa. Este antigo analista financeiro dirige desde janeiro a ONG Finance Watch, uma organização hoje incontornável em Bruxelas. (*)

 

 

Não faço a revolução, e esta não é desejável.” Os que apostavam que o novo secretário-geral de Finance Watch faria da ONG, hoje reconhecida em Bruxelas pelos seus conhecimentos especializados, uma Greenpeace europeia da finança mais interessada em tomar atitudes rápidas e espetaculares, enganaram-se.É o que podem dizer os que procuram desacreditar-nos. Mas não estamos nessa linha de trabalho: somos apartidários e apresentamos argumentos principalmente técnicos”, insiste Christophe Nijdam. O antigo analista do gabinete independente AlphaValue, campeão da fórmula choque, mudou de partitura.

As suas primeiras posições, tiveram já o seu impacto e incidiram sobre um tema que lhe é muito caro e que lhe valeu a sua imagem de forte crítico do banco universal à francesa. Durante os dois últimos meses, desmontou o discurso bancário e explicou ao grande público porque é que é importante que Finance Watch apoie o projeto europeu de lei de separação das atividades bancárias, a última peça do sistema financeiro deixada em aberto pelo antigo Comissário Michel Barnier. Este texto deve com efeito ser objeto nas próximas semanas de um voto na comissão dos negócios económicos e monetários (Econ) do Parlamento europeu.

Pasta na mão de antigo professor de Finanças em Science Po, Christophe Nijdam veio nomeadamente explicar, em meados de fevereiro no Senado francês, as razões da sua apreensão, acusando o eurodeputado sueco Gunnar Hökmark, autor de 90 alterações, de diluir a reforma Barnier. Essas alterações esvaziá-la-ão da sua substância e torná-la-ão ineficaz face aos seus três grandes objetivos iniciais de interesse geral”. Nomeadamente, limitar o risco sistémico, o risco de contágio das atividades voláteis de mercado sobre as atividades centrais dos bancos, e reequilibrar as fragilidades do modelo de banco demasiado grande para poder falir”.

À pergunta de um eleito que se interroga sobre a necessidade de um tal texto quando uma lei bancária francesa de separação das atividades de mercado está já em vigor, responde: Essa lei falha também e por inteiro sobre estes três objetivos. Números e exemplos concretos em seu apoio, desenvolve a sua demonstração sob o olhar de Alain Papiasse, o Diretor Geral adjunto de BNP Paribas, ele também convidado pelos senadores para este dia.

A priori, o banco da rua de Antin [BNP Paribas] não leva o ex-analista no seu coração, ele que nos seus estudos não foi nada meigo para os bancos franceses. O setor recorda-se ainda dos seus estudos arrasadores de nomes evocativos, como “Produtos derivados: quais bancos são Fukushima em potência”. Alguns, excitados pelo facto de que o seu modelo de supermercado bancário possa ser assim criticado com tanta rudeza, durante algum tempo eliminaram-no mesmo da lista dos seus analistas oficiais. Isso correspondia à nossa linha editorial, mas Christophe tem além disso uma incrível capacidade de síntese e pode assumir riscos por uma simples fórmula. Às vezes foi necessário “minimizar os danos” e reatar o contacto, recorda-se Pierre-Yves Gauthier, o seu antigo empregador em AlphaValue.

Mas, desde que mudou de chapéu no princípio de janeiro, Christophe Nijdam pensa sete vezes antes de dizer seja o que for. Tem muito cuidado em falar menos e ouve atentamente os argumentos dos 1.600 lobistas de Bruxelas da finança. É necessário aprender os usos e costumes. É um mundo onde não se tem inimigos… apenas há desacordos, descodifica doravante.

É claro que o antigo analista de língua afiada, que alguns dizem estar “quebradiça”, não desapareceu completamente por detrás do lobista de boa aparência com barba aparada. Quando um senador o compara a um “arrependido”, ele, o antigo banqueiro, reage com firmeza imediatamente. Assume totalmente o seu estatuto de ex-financeiro de alta craveira, que trabalhou em Wall Street nas salas de mercado nova-iorquinas do Crédit Lyonnais, do CCF e do Crédit du Nord. É, de resto, esta primeira vida de solteirão feito trader que explica que, tendo embora cinquenta e nove anos, nenhum dos seus dois filhos ultrapassou ainda o tempo da terna idade. Deixei o sector antes de algumas das suas derivas sobre os mercados financeiros. Além disso, um arrependido é um mafioso que denuncia os outros para beneficiar de uma impunidade. Não é o meu caso, recorda. O seu amigo de infância Bruno Garcin-Nicolas, que usou como ele calções curtos nos bancos da escola em Provence que pertence aos Jesuítas, reconhece-lhe um enorme rigor intelectual e moral. É capaz de defender opiniões com coragem e na base de sólida argumentação.”

Na verdade, não há nada de pessoal, vingativo ou ideológico nas posições de Christophe Nijdam. Ele tem a fé do Cruzado, mas todas as suas análises são cientificamente baseadas, baseia-se em dados e é a sua compreensão profunda do setor, combinada com o seu igualmente profundo conhecimento sobre os trabalhos académicos que o fazem temer pelo lado do lobi bancário, analisa Laurence Scialom, professora de economia em Nanterre e pessoa qualificada dentro de Finance Watch. O seu sentido de responsabilidade bem agarrado ao seu corpo alimentou-se de uma educação um pouco rigorista. Tenho a obrigação de” saber “: não podemos deixar dizer certas coisas, acrescenta Christophe Nijdam, que quer colocar os bancos de volta ao serviço da economia. Esta vontade ética é acompanhada de um liberalismo no sentido anglo-saxónico do termo, com os valores de transparência que pressupõe. Acrescente-se a este cocktail uma grande dose de espírito crítico presente desde a sua juventude. Jovem giscardiano, ele encontrava-se então a animar um comité parisiense. O nosso empenho era querer mudar a sociedade após anos de gaullismo, lembra um seu companheiro de juventude.

A sensação de que as finanças se tornaram loucas vive dentro dele desde o final da década de 1990 e disso não faz mistério nos cursos que ele leciona em Sciences Po. Mas o encontro entre o autor de “Talking bank in 30 questions” e Finance Watch finalmente ocorreu em 2011. Um ex-operador das salas de mercado, estudante de mestrado, fala com ele sobre o seu ex-chefe no BNP Paribas: Thierry Philipponnat, então secretário-geral da então jovem organização que era Finance Watch. Desde o início, os dois homens deram-se muito bem e Christophe Nijdam juntou-se ao grupo de membros fundadores de Finance Watch, como especialista. Rapidamente, eu propus retirar-me da ONG porque não queria misturar esse papel com o de um analista independente da AlphaValue. Eu estava 95% de acordo com as posições de Finance Watch, mas esse duplo chapéu colocava um problema de eficiência tática, explica. Para Finance Watch, o interesse geral, para ele, o argumentário bolsista para, finalmente, defenderem a mesma causa. O tiro cruzado aumentou o impacto da proposta. Isso não o impede de ter alguns membros da ONG a escrever na sua crónica, “Ma chère banque”, no “Le Nouvel Economiste”, o jornal dirigido pelo … seu irmão mais velho.

É de resto Michel Crinetz, um destes contribuintes, que, com a demissão de Thierry Philipponnat, o solicita. A associação já recebeu 80 candidaturas, mas consegue descobrir a pérola rara. Uma vez a proposta sobre a mesa, a dúvida não incomodou durante muito tempo Christophe Nijdam, tanto mais que os seus amigos o previnem: Se não te candidatas, irás lamentá-lo toda a tua vida.” O que lhe interessa é existir de maneira pública empenhado a tratar de temas importantes, observa Pierre-Yves Gauthier. A ocasião é demasiado bela de mudar de dimensão: até aí visível na França sobre os bancos nacionais, acede ao escalão europeu. Christophe não é um idealista e, aos comandos de um instrumento como Finance Watch, pode fazer mexer mais as coisas do que na sua posição de analista, na medida em que a organização visa explicar às instâncias de decisão política o lugar que a indústria financeira deve ocupar na economia, decifra Bruno Garcin-Nicolas. Para Christophe Nijdam, o momento é tanto mais interessante quanto, doravante bem instalado na paisagem de Bruxelas, Finance Watch vai poder intervir mais a montante do que em reação a textos europeus já lançados.

Interesses divergentes

A associação vai nomeadamente implicar-se no projeto de união dos mercados de capitais, sublinha Christophe Nijdam, tirando da sua pasta o recente “ green paper” da ONG sobre o assunto. Mas o secretário-geral deseja também alargar o campo de intervenção de Finance Watch a assuntos mais dedicados ao público em geral e tomar a opinião pública como testemunho para influenciar mais ainda sobre as escolhas europeias. O nosso roteiro não se limita à estabilidade financeira, mas cobre a noção “de interesse geral”, por conseguinte porque não abrirmo-nos a assuntos de consumo como a mobilidade [portabilidade] da conta bancária?”, argumenta ele.

Mas, para influenciar o melhor possível as decisões europeias e fazer prosperar a associação – que não conta nunca mais que doze membros permanentes -, Christophe Nijdam deverá também convencer as associações membros da ONG, que aprovam cada ano o seu programa de trabalho. Tipicamente, Finance Watch não toma parte nos debates sobre a taxa sobre as transações financeiras (TTF), tema sobre o qual no entanto esperar-se-ia que se empenhasse. Tenho uma opinião pessoal sobre a questão, mas há já uma dezena de associações que tratam o assunto. Sobre todos os debates, devemos ver se somos ou não os mais competentes, qual é o valor acrescentado que poderemos trazer, detalha Christophe Nijdam. Ora não é sempre simples obter ganho de causa porque as associações membros da ONG podem ter interesses divergentes. Isso, de resto teria pesado sobre a decisão de Thierry Philipponnat em se demitir. Ao novo secretário-geral cabe agora provar que tem o sentido político necessário para guiar a carruagem.

Texto original disponível emhttps://www.lesechos.fr/24/03/2015/LesEchos/21904-058-ECH_christophe-nijdam–le-croise-de-finance-watch.htm#lYM72JGexyCi4CXH.99

(*) Antigo analista do gabinete independente AlphaValue, Christophe Nijdam é desde o início do ano (2015) o novo secretário geral da ONG Finance Watch.

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