Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte I – O básico na finança de hoje – 8. Conheça o mundo da Negociação em Alta Frequência, o mundo do fogo de artificio gerado pela alta e que também pode ser visto no You Tube (2ª parte-conclusão).

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

Seleção, tradução e montagem de Júlio Marques Mota

Parte I – O básico na finança de hoje parte I texto 8 fogo artificio money

8. Conheça o mundo da Negociação em Alta Frequência, o mundo do fogo de artificio gerado pela alta e que também pode ser visto no You Tube (2ª parte-conclusão)

 

O texto que se segue insere-se nesta longa série de textos de denúncia quanto à necessidade de regulação séria do mundo da finança.

Um trabalho feito por montagem dos seguintes textos:

  • “Un exemple des joies de la fraude à haute-fréquence”, Les Crises de Olivier Berruyer, em 24 de junho de 2013.
  • “It finally comes out! Elite traders are getting access to data before everyone else”, Financial Post, Business Insider, em 13 de junho de 2013.
  • Nanex – 28-May-2013 – Consumer Confidence Jump Start, por Nanex.

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(2ª parte-conclusão)

Antecipando-se repetidamente às principais notícias, parece haver alguém que sabe algo antes que aconteça – parece haver ordens bolsistas que são lançadas com extrema força e com extrema rapidez antes de as notícias serem efetivamente escritas.

Isto tem vindo a acontecer há algum tempo e as pessoas começam finalmente a perceber porquê.

O alvo da atual ira coletiva é a Thomson Reuters. Houve algumas operações suspeitas no fim do mês passado, antecipando o Índice de Confiança dos Consumidores (Consumer Confidence dos EUA). Cerca de um quarto de segundo antes de o índice ter sido difundido, houve uma erupção de ordens de bolsa no SPDR S&P ETF (SPY), no e-Mini (negociação electrónica de futuros) e em centenas de títulos bolsistas, segundo a Nanex, uma empresa de estudos de mercados.

Após alguma pesquisa, o jornalista da CNBC, Eamon Javers, reportou que a fonte das transações antecipadas era a Thomson Reuters. A empresa tem um bem conhecido acordo com a Universidade de Michigan, a fonte dos dados, que permite à Thomson Reuters difundir (às 9:55 da manhã) os dados, aos clientes que pagam por esse privilégio, 5 minutos antes do que é suposto serem difundidos publicamente.

Mas a Thomson Reuters fornece também um serviço chamado “ultra baixa latência” que permite aos seus clientes premium, por $2.000 por mês, obterem indicadores como o Índice de Confiança dos Consumidores e o índice de produção industrial do Institute for Supply Management, 2 segundos antes de serem difundidos publicamente.

Dois segundos nas transações financeiras de alta frequência é uma eternidade.

A Universidade de Michigan respondeu dizendo, essencialmente, ‘fazemo-lo porque as pessoas pagam por isso’.

No Wall Street Journal pode ler-se:

Richard Curtin, um economista que dirige o inquérito da universidade, reconhece que o negócio dá uma vantagem aos investidores selecionados.

“Dificilmente alguém pagaria se não visse um fim lucrativo,” disse Curtin. Mais tarde, acrescentou: “Este inquérito [do índice de confiança do consumidor] é totalmente financiado por recursos privados em benefício da análise científica, para avaliar as políticas públicas e para promover os interesses dos negócios. Sem essa fonte de rendimento, o projeto deixaria de existir e os benefícios desapareceriam.”

Antes de pormos o nosso moralista chapéu de raiva e de nos atirarmos à Thomson Reuters de forquilha na mão, sejamos realistas. Eles não são os únicos que atuam desta maneira.

Para se obter o índice ISM [da produção industrial] antecipadamente, se não tiver uma conexão de alta velocidade às bolsas, também há que pagar uma comissão de $1.025, segundo o Wall Street Journal.

Mais uma vez, se é que não tem já uma conexão de alta velocidade.

Repare-se, as bolsas têm a sua própria forma de latência. Embora a Thomson Reuters esteja a apoiar as empresas na negociação assente nas notícias (uma estratégia chamada “event jumping” e/ou “news feed trades“), as bolsas aceitam uma latência baseada no momento em que enviam a confirmação de transações e no grau de avanço tecnológico e de conexão que a empresa tem com a bolsa. Scott Patterson do Wall Street Journal relatou isto no início de maio, e quase ninguém disse pio. O CME [bolsa de Chicago] admite mesmo que há “momentos em que os utilizadores vivem uma latência de uns poucos milésimos de segundo entre o momento em que recebem a confirmação das suas transações e o momento em que a informação está acessível ao público.”

Os operadores têm um conjunto de estratégias sobre como tirar proveito desta informação, mas na verdade é tudo a mesma coisa – algumas pessoas obtêm a informação antes de todos os outros. Não porque sejam mais espertas, mas sim porque pagam por esse previlégio.

John Carney da CNBC comparou esta situação com “as redes de peritos” sob importante escrutínio dos reguladores e as tristemente célebres “reuniões de transações” [trading huddles] da Goldman Sachs, nas quais os analistas passavam dicas a operadores e clientes favorecidos, e pelas quais a Goldman foi condenada em dezenas de milhões de dólares.

 

Sobre tudo isto, veja-se a seguir a posição dos jornalistas da CNBC, Kayla Taucshe e Andrew Ross Sorkin, a posição do Presidente da Commodities Futures Trading Commission, Bart Chilton, e, por fim, a conclusão final de Business Insider. Compare-se a posição dos media, os fabricantes da opinião pública, com a opinião do Presidente Bart Chilton e também com a posição do sítio Business Insider. Elucidativa a comparação.

 

No que respeita à latência, os reguladores não fizeram absolutamente nada. Não há regras. É o autêntico farwest. O presidente da Commodities Futures Trading Commission, Bart Chilton, esteve na CNBC hoje de manhã e, basicamente, disse: “bem, isto é uma porcaria rapazes, mas por agora vocês estão sozinhos”.

Eis uma transcrição da conversa que Chilton teve com Kayla Taucshe e Andrew Ross Sorkin:

Chilton diz: Pode não ser ilegal, mas penso que não é justo. A informação é uma mercadoria. Quero dizer, não é a mesma coisa que uma massagem de uma hora por 100 dólares. A Thomson Reuters está a pagar um milhão de dólares à Universidade de Michigan para ter uma vantagem de dois segundos.

Sorkin: Certo.

Chilton: O que isso significa é que são dois segundos.

Sorkin: Isso é a análise da Consumer Confidence?

Chilton: Correcto. Esses dois segundos podem ter um grande impacto nos mercados. Há operações de mercado de milésimas de segundo, sendo que dois segundos é enorme para eles.

Sorkin: Agora, a minha posição sobre isto é que, verdadeiramente, não me perturba assim muito. Olho para as organizações noticiosas e vejo que se quiser ter a Bloomberg News, por exemplo, tem de ter um terminal dedicado, que custa 20.000 dólares. Pode obter essas mesmas notícias no site da internet, mas mais tarde. Se tiver um terminal do Dow Jones, pode ter acesso antecipado aos artigos do Wall Street Journal. Tudo isso custa dinheiro e estas empresas são destinatários premium para esta informação. Agora, para mim não é claro porque é que decidimos que esta informação é de alguma forma mais valiosa do que a de outras organizações noticiosas.

Deixe de lado as organizações noticiosas. Dana Telsey, que é uma analista do mercado de retalho – produz um estudo analítico. Está constantemente a analisar os retalhistas. Se pagar por esse estudo, tem o resultado da análise. Se não pagar por isso, não o tem.

Tausche: A Bloomberg News é dona dos artigos da Bloomberg News. Neste caso a questão é que a Thomson Reuters está a aceder à informação de terceiros.

Sorkin: Isto é o mesmo que comprar como se eu tivesse de contratar cinco jornalistas para irem fazer a pesquisa. Neste caso contrato a Universidade de Michigan para ir fazer a pesquisa. É a mesma coisa.

Chilton: Lembre-se do que está a dizer, e note, é um debate. Vamos publicar uma análise integrada sobre uma série destes aspetos tecnológicos dentro de um ou dois meses. E eu estarei a falar sobre isso dentro de uma semana, a respeito das nossas amigas felpudas, as chitas [animal mamífero mais rápido do mundo]. Mas, é tudo sobre dinheiro. Correto? Então, se tiver dinheiro para conseguir pagar estes serviços extra – se puder ter cinco jornalistas, se puder ter um supercomputador e fizer transações financeira de alta velocidade, ora bem, pode estar nos mercados. É para aí, realmente, para onde queremos ir, Andrew? Que tenhamos que ter o dinheiro, que tenhamos que ter os melhores e mais rápidos computadores?

 

Tudo isto nos mostra que não haverá grande diferença entre o autêntico Far West das bolsas mundiais, e falamos de um acontecimento de 2013, ou seja, 5 anos depois de ter rebentado a crise, e o mundo da Grécia antiga, de Pluto, o deus da maçaroca. Pelos vistos, face ao dinheiro e na ausência de regulação que presenciamos, tanto faz falar da Grécia do tempo de Aristófanes como de hoje, nos tempos de Obama (2013), com a diferença de que agora a rapidez para a ganância só tem um limite, a velocidade da luz e este limite lamentavelmente parece ser o único incómodo que condiciona a voragem da alta finança.

Talvez Chilton tenha razão quando nos diz:

“Agora, a questão aqui é – queremos que o mercado seja uma meritocracia ou queremos render-nos aos robots – na verdade nem mesmo aos robots, a quem pode comprá-los.”

E tem ainda razão, com toda a certeza, quando afirma:

E para todos os cínicos que há por aí – sim, tem havido sempre forma de as pessoas pagarem para manipularem desonestamente o mercado. Mas há regulamentos para eles. Esta é que é a diferença. Temos que fazer todos os esforços para melhorar isto, mas, por agora, neste caso, nem sequer estamos a tentar”.

 

De resto é no sentido da denúncia quanto à necessidade de regulação séria do mundo da finança que esta longa série de textos está a ser produzida.

 

Textos fonte da montagem:

 

2 comments

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Regulamentar é o sonho do bom justicialista e, neste caldo de cultura, inserem-se certas correntes – duas, pelo menos – da intervenção política. O bom regulamento só dá garantia de que tudo continuará como estava.
    Quem, entre nós, anos atrás, não só colocado bem alto como, também, servido pela sua apregoada bondade e não menor hipocrisia, em discurso proferido, soube passar a deixa que convinha aos negócios bolsistas. Digam lá quem foi? CLV

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  2. franciscogtavares

    Meu caro
    Quanto a deixas já houve várias. De resto, o sistema vive de deixas, de rumores, e à conta disso vão-nos esfolando. Isto é uma coisa, outra é a lógica em que se inserem os textos desta série que é, tecnicamente, demonstrar que nada foi feito, para que tudo o que resta possa vir a ficar desfeito. De novo! Um outro canário a morrer, escrevia uma articulista americana. Precisamos de lutar contra isto, mas para isso temos de saber, conhecer, o que é isto, a finança atual. Esse é o objetivo da série, mostrar o que é isto, a alta finança de hoje, aquela que nos dizem alemães, franceses, ingleses, belgas, italianos e em breve portugueses, que está tudo bem, podemos produzir risco que já estamos protegidos contra ele. E com a série queremos demonstrar que tudo isso é mentira, e fazê-lo apoiados nos documentos oficiais.
    Obrigado pelo comentário.
    Júlio Mota e Francisco Tavares

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