Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte I – A finança básica hoje – 10. Os Derivados, as falhas do sistema financeiro e a economia global (2ª parte), por Randall Dodd

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

Seleção, tradução e montagem de Júlio Marques Mota

Parte I – O básico na finança de hoje 

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10. Os Derivados, as falhas do sistema financeiro e a economia global (2ª parte)

Por Randall Dodd

Este texto é uma montagem baseada em dois artigos de Randall Dodd: “Backgrounder: Derivatives” publicado por Initiative for Policy Dialogue em 28 de junho de 2010 e “Primer Derivative Instruments” publicado por Financial Policy Forum, Derivatives Study Center, 2004.

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(2ª parte)

Futuros

Os futuros são acordos padronizados para comprar ou para vender no futuro uma determinada quantidade de um ativo ou de uma mercadoria a um preço acordado, numa data estabelecida e num lugar especificados. São padronizados em termos de quantidade dos ativos ou das mercadorias específicas subjacentes e padronizados igualmente no tempo. Somente o preço e o número de contratos são negociados no processo de elaboração do contrato.

Por exemplo, a parte A vende 10 contratos que estabelecem o preço do índice de ações S&P500 em 1500 em Outubro – se os preços descem então nesta data abaixo de 1500 a parte A irá lucrar pela diferença de preço entre os 1500 dólares acordados e o preço efetivo depois verificado do índice que está abaixo dos 1500 dólares a multiplicar por dez contratos, acontecendo o inverso se o preço aumenta acima de 1500 pois neste caso a parte A perde um valor expresso pela quantidade vezes a diferença de preço efetivo e os 1500 dólares do contrato.

Os contratos de futuros são como como os contratos a prazo, salvo que são altamente padronizados. Os contratos de futuros negociados nas bolsas mais organizadas do mundo são tão padronizados que são fungíveis – significando que são substituíveis por outro. Esta fungibilidade facilita a troca e conduz a um muito maior volume de transações e a uma muito maior liquidez do mercado. A negociação pública dos futuros num ambiente transparente significa que todos podem observar o preço de mercado ao longo do dia de negociação. Como é que isto pode ser feito? Como é que cada um de nós pode substituir um contrato de futuros em grãos de soja por um contrato de futuros em ienes?

Aqui entram as câmaras de compensação. As câmaras de compensação são utilizadas para liquidar contratos de futuros negociados em bolsa. Os contratos negociados são comunicados à câmara de compensação, e os contratos para liquidar os anteriormente feitos são escritos de novo, ou renovados [novados], de modo que a câmara de compensação se transforma em contraparte em cada contrato que se queira liquidar. Desta forma, a câmara de compensação assume o risco de crédito de cada contrato em que ela se assume como contraparte.

A presença de uma câmara de compensação no centro das transações do mercado significa que cada participante do mercado tem um risco de crédito (AAA) como contraparte. Em vez de ter que fazer uma avaliação do crédito de cada contraparte potencial ou real, o negociante de futuros tem apenas que avaliar a capacidade de empréstimo da câmara de compensação, e no caso das bolsas de futuros dos E.U., todas as câmaras de compensação têm um rating de crédito AAA.

As câmaras de compensação têm as classificações, ratings, de crédito mais elevadas porque estão muito bem capitalizadas. Isto faz com que a sua capacidade de resposta para executar ou para cumprir os termos dos contratos de futuros (e das opções) seja segura. O seu capital inclui o capital realizado mais o capital dos membros da câmara de compensação- Além disso, a câmara de compensação mantém uma linha de crédito da emergência com uma rede de bancos. Para lá de tudo isto, a câmara de compensação recolhe, atualiza diariamente e mesmo frequentemente se for necessário, as contas de margem [garantia que é depositada para cobrir o risco de crédito da contraparte] de todos aqueles que têm posições de contratos ativos, ditos abertos.

A primeira linha de defesa contra o incumprimento do contrato são as contas de margem. Embora os contratos de futuros sejam altamente alavancados com a manutenção da conta de margem, ou de depósito de garantia, que vai de 1429: 1 nos contratos em eurodólares a 17.4:1 para o índice S&P 500 futuros (em maio de 2004), o nível de margem é ajustado geralmente de modo que cubra 95% a 98% do maior movimento diário de preços nos seis meses precedentes. A bolsa reserva-se igualmente o direito de fazer chamadas de margem ao longo do dia para proteger a integridade do mercado dos futuros (e das opções) no caso de uma variação excecionalmente grande do preço. Se um comerciante não cumpre as exigências da margem, a bolsa reserva-se no direito de liquidar as posições do negociante de títulos.

Outra implicação da novação é permitir que as posições de contratos existentes possam ser compensadas (anuladas) ou completamente liquidadas, subscrevendo contratos de sentido oposto. Por exemplo, a parte A comprou 10 contratos de futuros para o gás natural em novembro. Fica pois com uma posição longa sobre o gás em 10 contratos padronizados que pode ser reduzida para 2 contratos – ou no minuto seguinte ou em qualquer momento até ao vencimento dos contratos em Novembro – com a venda de 8 contratos, ou seja, assumindo uma posição curta em 8 contratos. A venda a descoberto de 8 contratos neutraliza todos os contratos existentes do agente económico em posição longa exceto 2 contratos. Fica pois em posição longa de 2 contratos apenas.

Percebe-se assim a pergunta acima de como é que se pode passar de um contrato de futuros sobre soja para um contrato de futuros sobre yens. Vende o contrato de soja e anula assim o anterior contrato comprado. Compra depois um contrato sobre ienes-dólares. Simples, portanto.

Como é que funcionam os contratos de futuros? Considere o exemplo de uma cobertura do agricultor que entrou num contrato de futuros para vender o milho de outubro a $3 um alqueire. A dimensão do contrato padrão é 5.000 alqueires e assim o valor nocional do contrato pode ser pensado como sendo de $15.000. A exigência de margem para a abertura de posição de contrato de futuros é uma posição em conta de margem inicial de $750, e depois $500 para que haja uma manutenção da conta de margem . No primeiro dia o preço aumenta de $0,02 a desfavor do agricultor de modo que o valor da posição curta perde $100 (os dois centavos por alqueire vezes os 5000 alqueires especificados no contrato). A Câmara de compensação debita $100 na conta de margem do agricultor que totaliza agora $650 como conta de margem. A quantidade nova na conta de margem não fica abaixo do nível da manutenção, (750-500) e assim mais nenhuma ação é exigida. Se a perda fosse tal que reduzisse o nível na conta abaixo do nível da manutenção, a seguir seria exigido ao agricultor que repusesse o valor da conta inicial, o mais alto, ou seja os 750 dólares. Se o preço se mover a favor do agricultor, a seguir a câmara de compensação credita a conta de margem do agricultor e é permitido ao agricultor retirar os fundos adicionais da conta de margem para que este fique apenas com o valor da posição inicial de margem. Este processo de ajustamento da conta de margem às mudanças diárias dos preços dos futuros é conhecida como ajustamento da posição ao valor de mercado, ou “mark to market” [marcar ao preço de mercado].

Como é que faz o agricultor que assume uma exposição ao risco vendendo um contrato de futuros em milho para mais tarde, para outubro? Este assume uma posição curta, é um “short-hedger”, e em que condições pode então beneficiar com um contrato de futuros? Considere o resultado do preço dos futuros cair para $2,80 o alqueire em outubro. O agricultor fecha a sua posição comprando um contrato do milho nos dias antes da expiração dos contratos de futuros em outubro (caso contrário, o agricultor teria que entregar o milho num lugar designado no contrato, e esta situação é provavelmente menos conveniente do que entregá-lo no silo local). Como é que fica a conta de margem deste agricultor? No processo da marcação ao valor de mercado da posição curta do agricultor, a câmara de compensação terá adicionado a quantidade líquida de $1.000 ( 5.000 alqueires vezes a descida de preço que é de $0,20 no preço) à conta de margem do agricultor durante o período de permanência ativa do contrato de futuros. Estes $1.000 nos pagamentos ao agricultor devem compensar o efeito de uma diminuição de 20 centavos no preço de mercado de 5.000 alqueires de milho recolhidos em outubro. Em suma, este processo diário do marcar ao preço de mercado, do dia, gerará um fluxo de caixa à medida que se adicionam fundos à conta de margem, e secará a conta de margem tanto quanto haja perdas nos contratos feitos. Estas mudanças, tomadas no seu total, ajustarão o ganho ou a perda final na posição da conta de margem face ao preço inicial a que o contrato foi negociado.

(continua)

Textos de Randall Dodd disponíveis em:

“Backgrounder: Derivatives”, Initiative for Policy Dialogue, 28/06/2010, http://policydialogue.org/files/publications/Derivatives.pdf

e “Primer Derivative Instruments”, Financial Policy Forum, Derivatives Study Center, 2004, http://www.financialpolicy.org/dscinstruments.htm

 

 

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