Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte I – A finança básica hoje – 10. Os Derivados, as falhas do sistema financeiro e a economia global (3ª parte), por Randall Dodd

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

Seleção, tradução e montagem de Júlio Marques Mota

Parte I – O básico na finança de hoje 

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10. Os Derivados, as falhas do sistema financeiro e a economia global (3ª parte)

Por Randall Dodd

Este texto é uma montagem baseada em dois artigos de Randall Dodd: “Backgrounder: Derivatives” publicado por Initiative for Policy Dialogue em 28 de junho de 2010 e “Primer Derivative Instruments” publicado por Financial Policy Forum, Derivatives Study Center, 2004.

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(3ª parte)

Swaps

Os contratos de swaps (de troca) são uma das inovações mais recentes nos contratos de derivados. O primeiro contrato de swap de divisas foi feito entre o Banco Mundial e a IBM e começou em agosto de 1981. A ideia básica num contrato de swap é que as contrapartes acordam em trocar dois tipos diferentes de pagamentos. Um pagamento é ou fixo ou projetado flutuar de acordo com uma taxa de juro subjacente, taxa de câmbio, índice ou o preço de um título ou de uma mercadoria. Quando os pagamentos devem ser feitos na mesma moeda, então somente será feito o pagamento do valor líquido do contrato.

Cada pagamento é calculado aplicando uma taxa de juro, índice, taxa de câmbio, ou o preço de alguma mercadoria subjacente ou ativo a um nocional principal. O principal é considerado nocional porque o swap geralmente não exige nem transferência nem a troca do principal (à exceção de divisas estrangeiras e alguns swaps em divisas estrangeiras). Os pagamentos são programados em intervalos regulares durante todo o período de vida do swap. Quando os pagamentos devem ser feitos na mesma moeda, então paga-se somente a diferença dos dois pagamentos.

Um swap de taxas de juro tipo vanilha é estruturado de modo a que uma série de pagamentos seja baseada numa taxa de juro fixa e a outra série de pagamentos seja feita numa base de taxa de juro flutuante tal como a LIBOR ou um rendimento de um bilhete do tesouro americano. Um contrato de swap sobre divisas estrangeiras é constituído por duas transações; a primeira delas envolve a compra (ou a venda) de uma divisa estrangeira a uma taxa de câmbio específica, e a segunda operação envolve vender depois a moeda comprada (ou a compra da moeda vendida): Por outras palavras, a segunda operação é a operação inversa da primeira a uma outra taxa de câmbio específica. Um swap sobre divisas é estruturado de modo que uma parte faça uma série de pagamentos calculados a uma taxa de juro em uma moeda e depois receba uma série de pagamentos na outra moeda e calculado o seu valor na taxa de juro dessa mesma moeda. Um swap sobre ações tem uma série de pagamentos baseados numa posição longa (ou curta) sobre ações ou sobre um índice de ações, e a outra série de pagamentos serão fixos ou flutuantes de acordo com uma taxa de juro ou uma posição diferente da posição em capital.

Considere um exemplo de um dólar de E.U. por troca da divisa estrangeira, neste caso com o peso mexicano. Um investidor mexicano entra num swap para comprar $100.000 a uma taxa de câmbio de $0,1000 por unidade peso (pagaria assim por estes 100.000 dólares a quantia de 1.000.000 pesos). Simultaneamente, o mesmo investidor compromete-se a vender, daqui a 180 dias, os mesmos $100.000 dólares (isto é a retomar os pesos antes vendidos) mas a uma taxa de câmbio agora de $0,0950 (assim recebendo 1.050.000 pesos). Nesta transação, neste swap, o investidor ganhou 50.000 pesos porque o valor dos seus dólares em pesos aumentou 50.000 pesos, ou seja, o dólar subiu de valor relativamente ao peso.

Opções

Há dois tipos de opção, de compra e de venda. As opções de compra são contratos ou acordos padronizados que concedem ao comprador de opções, (o subscritor da opção) o direito, mas não a obrigação, de comprar ou vender um ativo ou uma mercadoria a preço especificado preço de exercício (strike price) antes de uma determinada data fixa. Inversamente, as opções de venda são contratos ou acordos padronizados que concedem ao comprador de opções, (o subscritor da opção) o direito, mas não a obrigação, de vender um ativo ou uma mercadoria a preço especificado, o preço de exercício (strike price), antes de uma determinada data fixa.

Uma opção de compra concede ao comprador da opção, o subscritor da opção de compra, o direito de comprar a preço especificado dito preço de exercício e assim ganha com a opção se o preço efetivo no mercado do ativo subjacente à opção for superior ao preço de exercício, ganho a diferença de preço a que se deve subtrair o prémio pago pelo seguro que a opção lhe confere. Uma opção de venda concede ao seu comprador o direito de vender ao preço de exercício, dito strike price, e a opção compensa quando o preço efetivo no mercado é inferior ao preço de exercício. Vende mais caro com a opção do que venderia sem ela. Com a opção de venda garantiu um preço de venda superior ao que se verifica no mercado. Por outro lado, o vendedor da opção, seja de compra ou seja de venda, o emitente da opção, têm a obrigação de pagar quando o comprador de opções exerce o seu direito. As opções são negociadas em bolsas clássicas e nos mercados de balcão, ditos mercados OTC. Por exemplo, a parte A compra uma opção de compra que lhe conceda o direito de comprar em setembro 1 milhão de Euros a $0,9400 que ele exercerá se o euro estiver a uma cotação superior a $0,9400.

Vejamos um outro exemplo. No caso de uma opção de compra, esta dará ao seu titular o direito de comprar, por exemplo petróleo bruto a $50 o barril durante um período de 3 meses. Se o preço aumentar acima do preço de exercício $50 (strike price) antes da opção expirar (isto é, antes do final dos 3 meses ), então o investidor pode exercer a opção e capturar um lucro igual à diferença de preço do mercado do baril menos os 50 dólares que pagou pela opção. Seja por exemplo o preço do barril de petróleo de $60. O investidor exercerá a sua opção de compra, comprará o petróleo a $50 e vende-o no mercado livre a 60 dólares, o seu preço de mercado. Terá pois um ganho de 10 dólares por opção de barril de petróleo. Se, por outro lado, o preço nunca aumenta acima de $50 ou mesmo fica abaixo deste valor, 45 dólares por exemplo, a opção expira sem nenhum valor, ou sejam está sem valor de mercado (out the Money) e o investidor perde apenas o dinheiro que pagou para ter o direito à opção (conhecido como o prémio da opção).

Uma opção de venda é similar. Seja uma opção de venda sobre o café. Uma opção de venda significa que o comprador da opção de venda dá ao seu detentor o direito, mas não a obrigação, de vender a dado preço, o preço dito de exercício, de $0,65, por exemplo, por Kg de café; se o preço de mercado cair para digamos $0,60, então o investidor poderia exercer a sua opção de venda (isto é, venda o café na opção a $0,65 e vai comprá-lo no mercado livre a US$0.6 o Kg) e ganha assim $0,05 por cada Kg de café cujo preço está coberto pelo contrato de opções, ou seja, que é o direito de vender a 0,65 dólares Kg.

Desta maneira, a opção de venda funciona para quem a comprou como um seguro sobre o preço, que lhe garante ou um preço mínimo. Com efeito, se no mercado físico o café estiver a 0,70 o Kg o comprador da opção de venda deixa a cair. Não a exerce pois vende no mercado físico a preço mais alto. Porém, se o preço desce, por exemplo, para o,60 então exerce-a, isto garantiu como preço de venda, o preço de exercício da opção, ou seja 0,65 o Kg quando no mercado físico os outros vendedores estão a vender a 0,60 o Kg. Como um seguro, o preço pago pela opção é então chamado o prémio da opção.

Tal como toda e qualquer transação financeira, há dois lados em cada contrato. Por exemplo, visto que o comprador de uma opção de compra tem o direito de comprar um ativo, mas não a obrigação de comprar, para ganhar com um movimento favorável do preço, o vendedor da mesma opção tem a obrigação de vender (conhecida como a posição de opção curta) o mesmo ativo se a opção é exercida pelo seu comprador. O subscritor da opção compra a proteção contra a subida do produto no vendedor é por isso que o comprador paga um “prémio” ao emitente da opção pelo seguro adquirido a este último com a opção de compra, de não comprar a preço mais alto que o preço de exercício. Vista a mesma coisa pelo lado da aquisição de uma opção de venda teremos o raciocínio inverso. Com a compra dessa opção de venda, o nosso agricultor, o subscritor da opção, adquire o direito, mas não a obrigação, de vender ao preço de exercício, ganhando assim face a uma descida do preço de venda. Por essa via garante que o preço mínimo a que irá vender a sua produção será ao preço de exercício. Em contrapartida o vendedor desta opção de venda, o emitente da opção de venda tem a obrigação de comprar o referido ativo se a opção é exercida pelo seu comprador.

Considerando que o detentor da opção tem o direito de exercitar a opção a fim comprar ou vender ao preço de exercício mais favorável, o emitente da opção, de compra ou de venda, (conhecido como tendo uma posição curta) tem a obrigação de cumprir o contrato se é exercido o direito do comprador da opção, seja ela de compra ou de venda. O emitente de uma opção é assim exposto a perdas potencialmente ilimitadas. O emitente de uma opção de compra é exposta às perdas do preço de mercado a ficar acima do preço de exercício e as perdas são potencialmente ilimitadas enquanto o emitente de uma opção de venda fica exposto às perdas se o preço do artigo subjacente era cair abaixo do preço de exercício.

As opções de ações para empregados, que durante algum tempo estavam eram notícia de caixa nos jornais, não são nada mais do que as opções de compra que são pagas ou concedidas pela empresa aos seus empregados. A grande empresa é o emitente da opção em que, se o empregador decide comprar as ações da empresa a determinado preço, a empresa é obrigada a vendê-las a esse preço.

(continua)

Textos de Randall Dodd disponíveis em:

“Backgrounder: Derivatives”, Initiative for Policy Dialogue, 28/06/2010, http://policydialogue.org/files/publications/Derivatives.pdf

e “Primer Derivative Instruments”, Financial Policy Forum, Derivatives Study Center, 2004, http://www.financialpolicy.org/dscinstruments.htm

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