Sobre os nossos dirigentes internacionais: da falta de ética à incapacidade de compreender a realidade económica. 6. Crescimento: boom ou bolha? Por Jean-Luc Gréau

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Fotografia de Leonel Brás. Tirada junto à IP3, 24 horas depois do fogo ser considerado extinto.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

texto 6 boom ou bolha 3

   6. Crescimento: boom ou bolha?

 

 

Por Jean-Luc Gréau (*) jean luc greau

logo CAUSEUR em 24 de outubro de 2017

Em todo o mundo, o crescimento vai bem, muito bem mesmo, dopado por políticas monetárias não convencionais expansionistas. Esta seria uma excelente notícia se dois dos principais ingredientes de uma retoma económica autêntica não estivessem ausentes: o aumento dos salários e da produtividade.

Jean-Luc Gréau entendeu tudo ao contrário. O crescimento está de volta, na França e na zona euro. Agora está até a acelerar na China e na Índia, mantém-se nos Estados Unidos, onde o ciclo ascendente está já no nono ano consecutivo, quando o ciclo médio é de sete anos. Eis que o crescimento está igualmente a restabelecer-se nesses países emergentes como a Rússia, que tinha sido posta de joelhos pelo colapso dos preços das matérias-primas entre 2013 e 2015. Agora estamos também a sonhar com um renascimento do Japão há muito arrasado pela deflação. Espera-se até pela cura da economia grega! Se excluímos o Brasil, ainda a lutar com a depressão, Gréau enganou-se em toda a linha, enganou-se em tudo. Basta de Cassandras!

Não vou me aventurar a desmentir o diagnóstico de retoma da economia e do emprego um pouco por todo o mundo após um período de recessão, de marasmo ou de baixo crescimento, que tem preocupado os grandes do mundo que vivem em Washington, Bruxelas, Berlim e outros locais de governança planetária. Não quereria contrariar o clima de otimismo, argumentando que a recuperação económica se assemelha a uma remissão, se observarmos que os volumes de desempregados, os verdadeiros, quando incluímos as pessoas saídas do mercado de trabalho, permanecem substancialmente superiores aos de 2008, exceto na Alemanha super-industrial e nesta Inglaterra, cuja adição ao consumo não se desmente. Abster-me-ei ainda de destacar os desequilíbrios comerciais mais fortes que nunca, com os fabulosos excedentes da Alemanha e da China, por um lado, e os défices ainda mantidos, ou mesmo agravados, no Reino Unido, em França e especialmente nos Estados Unidos; logo, as trocas comerciais permanecem altamente deficitárias, apesar da produção de petróleo e gás de xisto que explodiu entre 2007 e 2016 [1]. Voltamos ao padrão de crescimento neoliberal para o qual é o crescimento que conta acima de tudo.

«Aí está a retoma»

Retomo a expressão proferida por François Hollande, que se aventurou a emiti-la em agosto de 2013, perante um valor aleatório do PIB [2]. Levou quatro anos para se materializar para deleite de jornalistas economicamente iletrados que teriam gostado de re-eleger Normal 1º. Mas como podemos dizer que esta melhoria é de facto efetiva depois de tantas falsas auroras?

O primeiro critério é o preço das matérias-primas. Apesar do forte aumento da capacidade de produção de energia e de metais, como o cobre, que é substancialmente utilizado na construção de habitação em todo o mundo, estes preços tendem a aumentar. A China, de que alguns, incluindo eu próprio, esperaram uma viragem, após 37 anos de crescimento entre 5% e 12% ao ano – o que coloca este país não na esfera dos países emergentes, mas na esfera dos novos países industrializados – mantém num ritmo que sustenta o entusiasmo dos mercados financeiros. Quando a China vai, o mundo vai. Os países produtores de matérias-primas estão melhor agora, com exclusão do Brasil, e os fabricantes de máquinas industriais e as empresas ligadas às grandes obras públicas [3] estão otimistas.

O segundo critério é a construção e a produção industrial na zona euro. A Alemanha deixou de estar sozinha. A construção deixou de estar a cair, mesmo nos países vítimas de um crash dos bens imobiliários como a Espanha, e a indústria está a progredir um pouco em toda parte, numa dinâmica criada pelas antecipações favoráveis das companhias envolvidas. O fenómeno é agora demasiado geral para deixar espaço para dúvidas. O boom da construção e da indústria na zona euro, que tem estado numa situação de marasmo desde há sete anos, chegou finalmente para colocar em dificuldade os adeptos da saída do Euro [4]. Neste contexto, os ativistas da integração europeia pregam agora pela manutenção desta integração não para se sair da trapalhada em que está, mas para coroar a retoma económica.

O terceiro critério é o do crescimento americano. Nada a ver com a “Trumpeconomics” neste caso. O Presidente eleito em 8 de novembro é sempre o Presidente eleito. Ele está condenado à impotência pela hostilidade do Congresso. O plano de estímulo às infraestruturas, a coisa menos discutível no seu programa, parece ter que permanecer letra morta. Os cortes de impostos ainda não estão incluídos no orçamento. A vaga do protecionismo permaneceu vaga. Mas a desaceleração na atividade e criação de emprego notado em 2016 [5] não degenerou em recessão. E alguns alegram-se que os índices da bolsa tenham atingido níveis históricos. Iremos voltar a isto.

No que diz respeito a estes três critérios, o otimismo de Christine Lagarde deixou de ser um bom exemplo.

A última bolha?

Jean-Michel Quatrepoint estava ele enganado? Este analista intransigente das anomalias e da depredação do planeta neoliberal aventurou-se a anunciar, após a crise financeira de 2008, a explosão futura de uma última bolha [6] : a dos défices públicos. Ele viu como o sistema desesperadamente tinha conseguido evitar uma grande depressão, resgatando o sistema bancário ocidental à custa de subsídios estatais, mas principalmente à custa de injeções monetárias nos mercados em causa. Mas, da mesma forma que eu, ele não tinha antecipado a inovação financeira chamada “flexibilização quantitativa”[QE- quantitative easing]. Poucas pessoas compreenderam a sua originalidade. Este processo consiste primeiro em retirar, de uma vez por todas, uma massa de títulos públicos e privados de dívida para a colocar nos cofres-fortes dos bancos centrais, à custa de uma criação monetária que é a sua contrapartida. Assim os empréstimos correspondentes já não pesam nos mercados de crédito e consequentemente, as taxas de juro indicadas nestes mercados tendem a descer até atingirem limites mínimos históricos, na indiferença total quanto à solvabilidade real dos devedores. Nós já conhecemos e conhecemos ainda uma manipulação monetária cujo segredo escapa ao comum dos mortais. Pelo menos o estado revolucionário francês mostrou a cor emitindo os Assignats (títulos de crédito). Mas, ao contrário dos Assignats, a manipulação monetária denominada “flexibilização quantitativa”, confinada aos mercados financeiros, não gerou inflação.

A “QE” formou a base do relançamento do crédito a um nível desconhecido até agora. O rendimento de certos empréstimos, tais como os do Estado alemão, ou mesmo de alguns grandes grupos, é agora negativo: os compradores pagam mais pela compra desses títulos agora do que irão no futuro receber pela sua entrega. Um especialista na análise de taxas de juros [7] diz, com humor, que vivemos uma era inédita em 5 000 anos de história. Um outro perito surpreende-se que a Argentina, que foi banida da emissão de empréstimos no mercado internacional de crédito há dois anos, tenha sido capaz de lançar um empréstimo de cem anos sem obstáculos, enquanto as emissões do Egito, Costa do Marfim e Senegal beneficiavam do favor dos investidores: será que se pode falar de “taxas subprime” do crédito público internacional [8]? Um terceiro especialista põe o dedo sobre o papel permissivo das agências de rating que sobreavaliam de novo a qualidade dos empréstimos [9].

Teremos o cuidado de não esquecer os mercados de ações. Nova Iorque está sobrevalorizada. Tendo em conta a erosão monetária e o impacto das recompras de ações [10], o rácio da cotação relativamente aos lucros, («price-earning ratio ») – que relaciona o valor das ações relativamente ao número de anos de lucros atuais que o título representa – está bem acima do valor 30 alcançado em Outubro de 1929. Mas as expectativas favoráveis são mantidas precisamente graças a esta estimulação do crédito feita a nível global.

Quais são então os critérios para dizer se esse relançamento da economia será totalmente bem-sucedido ou se constitui uma nova bolha, que está repleto de uma crise financeira que já não se limitará ao mundo ocidental? São dois, fortemente ligados: a evolução dos salários e da produtividade. É aqui que a coisa dói. Os banqueiros centrais da esfera ocidental estão abertamente preocupados com isso. A recuperação no emprego não estimula os salários e a produtividade tende a estagnar. Isso enfraquece a recuperação que se iniciou amplamente. Mas isso também contradiz a correlação clássica entre o emprego e os salários.

Mas, porque é que os economistas oficiais do FMI ou dos bancos centrais esquecem o fator de globalização que torna os esquemas explicativos válidos ainda ontem mas obsoletos já hoje? Pode-se explicar em simultâneo tanto a fraqueza relativa dos salários [11] e a fraqueza relativa da produtividade no Ocidente, através da transferência de empregos produtivos para zonas de baixos salários e da criação simultânea de empregos menos produtivos nos serviços de zonas de altos salários. É um jogo de soma quase nula. Mas, ao contrário desta situação, seria necessário que os salários e a produtividade avancem em paralelo para que a bolha de crédito, que é o ponto-chave, seja absorvida quase em silêncio, mantendo os lucros das empresas que são avaliados pelos bolsistas.

Então, de duas coisas uma: ou os salários e a produtividade do trabalho têm um novo impulso, ou a sua estagnação continua, caso em que o risco subjacente de recaída económica e financeira se manifestará num momento não programado e num qualquer grande mercado.

Depois de mim, o dilúvio

Foi o título, em francês, de um artigo no Wall Street Journal dedicado em 2007 à partida de Alan Greenspan da Reserva Federal. O jornalista basicamente disse que o grande homem não teria de limpar os estragos da bolha do crédito que a sua política laxista tinha criado nos Estados Unidos. Texto premonitório e amargamente irónico.

Os povos não podem assumir por sua conta a fórmula de Madame de Pompadour porque eles não podem escapar dos erros ou falhas dos seus dirigentes. Bem pelo contrário, são eles que irão pagar a conta se a bolha acabar por implodir.

 

(*) Jean-Luc Gréau, economista, antigo perito do MEDEF

Revista Causeur, Outubro de 2017, com o título Croissance: Boom ou bulle ?

Agradecemos ao diretor da revista Causeur, Giles Mihaely, e a Jean-Luc Gréau a disponibilidade do presente texto.

Notas

[1] Os Estados Unidos são hoje um grande exportador de gás de xisto ao mesmo nível que o Catar.

[2] O crescimento resultava de uma stockagem momentânea das empresas.

[3] Como é o caso de empresas como Caterpillar que reviu e em alta as suas previsões para o mercado chinês.

[4] Exceto em Itália, onde a Liga do Norte, Berlusconi e num menor grau, Cinco Estrelas, todos eles são abertamente adeptos da saída do euro.

[5] O impacto recessivo do ciclone Harvey e do furacão Irma continuam a ser difíceis de avaliar.

[6] Veja-se: Quatrepoint, « La dernière bulle » Editions Mille et Une Nuits 2009

[7] Veja-se: James Grant «Candour from the central banks is overdue » Financial Times de 17 de julho de 2017.

Adenda do tradutor a esta nota. Iremos publicar na íntegra o texto citado. Dele aqui deixamos um excerto: “Nós não somos capazes de dizer com exatidão o que é que exatamente irá resultar da flexibilização quantitativa. E nós certamente também não podemos prever a que é que nos vai levar a anulação deste estímulo à economia. O futuro é um livro fechado. “

[8] Veja-se Gillian Tett Financial Times de 23 junho de 2017.

[9] Veja-se Frank Partnoy Financial Times de 1 de agosto de 2017.

[10] Veja-se o meu artigo publicado em Causeur «Wall Street, y’a un loup! » e publicado igualmente em A Viagem dos Argonautas com o título: Porque é que a bolsa sobe, sobe,sobe .

[11] Que, coisa notável, os muito altos salários dos banqueiros, dos operadores das salas de mercados, dos contabilistas e dos advogados em matéria de negócios não compensam.

 

 

 

 

 

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