Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte II – Compreender a alta finança. Compreender a finança nº4 – Capital bancário – a ressurreição de um mito? (3ª parte). Por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Seleção de Júlio Marques Mota, tradução de Francisco Tavares

Parte II – Compreender a alta finança

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Compreender a finança nº4 – Capital bancário – a ressurreição de um mito? (3ª parte)

Por Finance Watch, 2014/2015

(3ª parte)

Parte 2: O debate

Não têm os bancos muito mais capital depois da crise?

Claro, os bancos aumentaram os seus capitais próprios desde a crise, por um lado, para cumprirem os novos regulamentos e, por outro lado, para atenderem às expectativas mais elevadas dos seus investidores, acionistas e credores.

Vamos começar com os requisitos oficiais em matéria de “fundos próprios regulamentares”.

Existem várias definições de fundos próprios ou capitais próprios (“capital CET1”, “capital de Nível 1”, “capital total”) neste regulamento muito técnico. Cada uma delas tem requisitos específicos, mas limitar-nos-emos aqui ao que diz respeito ao “capital total” (totalidade dos fundos próprios de diferentes naturezas). Os acordos de Basileia III impuseram que os bancos possuíssem um mínimo de “capital total” equivalente a 8% dos ativos ponderados pelo risco. O objetivo do regulamento é chegar de 11,5% a 13,0% para bancos de importância sistémica e 10,5% para os outros, até 1 de janeiro de 2019.

A pressão do mercado levou os bancos adaptarem-se rapidamente e a maioria dos grandes bancos já alcançaram esses novos objetivos. O Banco de Pagamentos Internacionais anunciou num relatório de acompanhamento que a média do “capital total” médio detido por bancos sistemicamente grandes era de 13,1% no final de 2014 (calculado sem medidas de transição, enquanto os regulamentos o permitirem) e um pouco mais para bancos de menor dimensão.

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Diagrama 8: “Capital total” regulamentar médio dos bancos de importância sistémica em percentagem dos ativos ponderados pelo risco, calculado em 31 de dezembro de 2014, sem medidas transitórias autorizadas pela regulamentação de Basileia III (© BIS 2015, gráfico 5)

Como se pode ver no gráfico, o rácio de fundos próprios aumentou recentemente e a maioria dos bancos já atingiu os seus objetivos. Seríamos tentados a acreditar que “a missão está cumprida”. Mas não é assim! Estes números podem parecer impressionantes, mas baseiam-se apenas no capital como uma proporção dos ativos ponderados pelo risco. Conforme explicado mais adiante (ver “A magia do risco ponderado”), os ativos ponderados pelo risco são uma maneira muito imperfeita de medir a solidez de um banco.

O nível de alavancagem do endividamento é uma maneira mais fiável de avaliar a solidez dos bancos. Após a crise, Andy Haldane, então diretor de estabilidade financeira no Banco da Inglaterra, demonstrou que o simples rácio de alavancagem do endividamento era mais eficaz na previsão de falhas bancárias reais do que o rácio ponderado em função do risco. Um estudo da OCDE chegou à mesma conclusão, mostrando assim que a alavancagem de endividamento não ponderada revelava-se mais eficaz na previsão do risco de falência.

Infelizmente, a melhoria na alavancagem dos bancos tem sido muito menor desde a crise. Em junho de 2015, os grupos de bancos europeus de grande dimensão e de grande complexidade apresentavam níveis de alavancagem de 4% em média (BCE). Conforme mostrado no gráfico a seguir, essa alavancagem não melhorou muito, em média, em comparação com a que existia anteriormente a crise.

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Diagrama 9: “O aumento de fundos próprios reais aumentou muito pouco desde a crise” (Relatório ao Parlamento europeu, junho de 2015). [Single Supervisory Mechanism Banks (= SSM banks): Bancos submetidos ao Mecanismo Único de Supervisão do BCE: Bancos sistémicos a nível mundial]

Claro, tem havido alguns progressos, mas não é tão idílico quanto a aparência dos números nos fariam acreditar. Ao contrário do que é dito, não houve um aumento assim tão significativo da almofada de segurança em matéria de fundos próprios.

 

A magia do risco ponderado

Na primeira parte (“Como está regulamentado o capital bancário?”), vimos como a ponderação do risco poderia permitir que os bancos cumpram o requisito oficial de “capital total” de 8%. continuando a operar com menos de 3% de capitais próprios em relação aos seus ativos não ponderados. Esta “ponderação” do risco é um conceito simples, mas muito controverso.

É assim que funciona: o valor de cada ativo específico é ponderado ou ajustado, pelo banco de acordo com a sua própria avaliação do nível de risco do ativo, tudo para fins regulatórios. Em seguida, o banco usa este valor “ponderado” para estabelecer a quantidade de capitais próprios necessários, e não o valor exato do ativo. Por exemplo:

  • Um empréstimo hipotecário “seguro” de 100.000 euros que apresentaria um risco teórico ponderado de 15% e, portanto, um valor ajustado em 15.000 euros. Aplicando a isso os 8% de fundos próprios obrigatórios, isso nos dá um requisito de capital próprio de 1.200 euros para esse empréstimo (€ 100k x 15% x 8%).
  • Um empréstimo hipotecário “arriscado” de 100.000 euros que apresentaria um risco teórico ponderado de 50% e, portanto, um valor ajustado de 50.000 euros. Aplicando a isso os 8% de fundos próprios obrigatórios, isso nos dá um requisito de capital próprio de 4.000 euros para este empréstimo (€ 100k x 50% x 8%).

Em suma, o montante mínimo exigido no capital próprio para financiar esses dois empréstimos seria de € 5.200 (€ 1.200 + € 4.000), o que corresponde apenas a um pequeno montante de 2,6% do total do empréstimo de € 200.000. Eis como opera a magia da ponderação de risco que permite que os bancos atinjam o requisito regulamentar de 8% de “capital total”.

É daqui que provém a controvérsia: em primeiro lugar, a ponderação do risco permite desmultiplicar o efeito de alavanca da dívida (na verdade, alguns argumentam que esta é a principal razão pela qual os bancos gostam tanto da regulamentação centrada sobre o risco ponderado). Além disso, o banco poderia ter muitos ativos “seguros” com muito pouco capital próprio e estar em plena conformidade com os regulamentos. No exemplo anterior, seria suficiente para o banco sofrer uma perda de 2,6% nas suas duas hipotecas, para que isso reduzisse a nada os seus fundos próprios, e isso mesmo que os requisitos de 8% do “capital total” estivessem satisfeitos à partida.

Vamos agora assumir que os ativos rotulados como “seguros” se revelam serem empréstimos que provocam perdas pesadas, por exemplo, se o modelo estatístico que avalia os riscos “ponderados” estiver errado, a falta de fundos próprios induzida por esse erro pode afundar o banco. Isso é exatamente o que aconteceu em 2007-2008 com os valores mobiliários subprimes, títulos negociáveis cuja classificação, triplo A, se mostrou ser enganosa. Isso pode muito bem acontecer com outros ativos ditos seguros. Por exemplo, a ponderação do risco de dívida soberana na zona do euro ainda é equivalente a 0% (zero, você leu corretamente) e de acordo com um relatório do Parlamento Europeu, os bancos da União Europeia detêm duas vezes mais de fundos próprios desde a crise de 2008.

Os [grandes] bancos [europeus] aumentaram seus investimentos em títulos do governo em comparação com seus ativos totais, expondo-os mais ao risco de dívida soberana. Os bancos são empurrados, de forma inapropriada, para investir nesses títulos do governo com 0% de ponderação de risco na dívida soberana. ” Relatório do Parlamento Europeu, de junho de 2015.

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«Mais cedo ou mais tarde, os banqueiros […] vão errar novamente. E é esse o interesse dos fundos próprios. Os fundos próprios não estão lá para enfrentarem os riscos conhecidos, mas sim para os riscos que não são esperados.» Discurso de Robert Jenkins, antigo membro do comité de política financeira do Banco de Inglaterra, novembro de 2015.

Em segundo lugar, encorajar os bancos a emprestarem a mutuários ditos “seguros”, evitando cuidadosamente os empréstimos à economia real, com os riscos inerentes e necessários para o crescimento da economia, podem levar a uma má alocação de capital e à formação de uma bolha de crédito especulativa. O exemplo anterior ilustra como os acordos de Basileia podem ter incentivado os bancos a oferecer empréstimos hipotecários em vez de empréstimos comerciais. E é aí que reside o problema, a maioria das crises bancárias estão relacionadas com bolhas especulativas de imobiliário.

Em terceiro lugar, apenas os bancos muito grandes estão autorizados a definir a sua própria avaliação do nível de risco dos seus ativos, uma prática que Sheila Bair, que dirigiu a Autoridade de Resolução Bancária dos EUA durante a crise, descreveu como sendo uma grande ingenuidade: é realmente do interesse dos executivos bancários fingir que os ativos de seus balanços são de baixo risco, o que lhes permite maximizar o efeito de alavanca da dívida bancária e, assim, a aparente rentabilidade dos capitais próprios, elemento chave para justificar salários e / ou bónus mais altos.

Esta capacidade de auto-avaliação favorece os bancos muito grandes face aos mais pequenos, que não têm os meios financeiros para recorrer a estes modelos complexos e caros de avaliação (controversa e perigosa) de risco. Isso mantém este círculo vicioso entre bancos e Estados, mais conhecido como demasiado grandes para poderem falir (“too big to fail”) por causa da falência em cadeia que a sua queda provocaria, discriminando desfavoravelmente os bancos pequenos. Ora isso agrava a má alocação de capital na economia, porque são precisamente os bancos mais pequenos que concentram sua atividade na economia real e são deste modo penalizados.

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Adrian Blundell-Wignall

O rácio chamado Capital de Nível 1 (“Core Tier 1 – CET1”) [outra medida do capital baseada no risco, todavia mais restritiva e sólida do que o “capital total”] é a relação entre dois números sem relevância real, retirando, portanto, qualquer credibilidade a essa relação, uma vez que os bancos podem modificar essa relação. Basileia III não mudou nada em relação a isso“. Adrian Blundell-Wignall, Diretor dos Assuntos Financeiros e Empresariais e Consultor Especial sobre Mercados Financeiros do Secretário Geral da OCDE.

 

Em quarto lugar, existe o risco do modelo. A última crise financeira nos mostrou que os bancos sabiam prever muito bem os riscos “previsíveis”, mas eram muito menos bons na modelização dos riscos “imponderáveis”. E é claro que são os riscos que não se esperam que são os mais prejudiciais. Confiar neste modelos equivaleria a confiar num colete salva-vidas que passou os testes de qualidade para uso na piscina, mas que seria para utilizar em período de tempestade no alto mar.

É já um facto seguro que estes modelos subestimam frequentemente e amplamente a probabilidade de ocorrência de eventos em risco de perda extrema, bem como a magnitude dessas perdas“. Brookings Institution, Think tank americano.

Se você olhar apenas para o nível de risco dos ativos, esquece o facto de que pode precisamente enganar-se quanto ao de risco desses ativos“. Lloyd Blankfein, CEO da Goldman Sachs.

Os reguladores tomaram consciência de algumas destas dificuldades e foram tomadas algumas medidas para tentar remediá-las. Por exemplo, em janeiro de 2016, o Comité de Supervisão Bancária de Basileia anunciou um punhado de pequenos melhoramentos relativamente ao modo como as atividades de mercado dos bancos devem calcular as suas necessidades de capital: entre outros, a modelização interna do risco utilizada em determinadas atividades de mercado deverá de agora em diante ser submetida a um controlo de qualidade mais rigoroso pelos supervisores bancários, particularmente em termos de risco extremo («tail risk»). Mas, infelizmente, não é menos verdade que o próprio conceito de regulamentação através de “ativos ponderados pelo risco” continua a não ser posto em causa …

Com todos estes problemas, é sem surpresa que o capital regulamentar baseado nos coeficientes de ponderação dos riscos se mostra um indicador medíocre para prever as falências bancárias.

Até que ponto é mau? O Lehmans Brothers tinha um rácio de Nível 1 de 11% alguns dias antes da sua queda, e o Dexia estava bem com 10,4% apenas três meses antes de ter de planificar a sua liquidação de maneira ordenada. Em ambos os casos, esses índices eram muito próximos dos mínimos exigidos por Basileia III. Antes da crise irromper, havia muito pouca diferença entre o nível de capital regulamentar dos bancos que sofreriam dificuldades e os outros bancos. Andy Haldane, diretor no Banco de Inglaterra, conclui que “confiar nos rácios de capital regulamentar para prever uma crise é o mesmo que atirar a moeda ao ar“.

 

(continua)

Texto original em http://www.finance-watch.org/informer/comprendre-la-finance/1231-capital-bancaire

 

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