A NOSSA PENÍNSULA – 13 – Tratados, ventos e casamentos e… portuguesadas – por Carlos Loures

Recordei anteontem, 11 de Janeiro, o 128.º aniversário sobre o envio pela Grã-Bretanha ao Governo português do ultimato que obrigava Portugal a abandonar o Chire e o País dos Macololos. Por estas e por outras, há entre o povo português um sentimento de amor-ódio relativamente à Grã-Bretanha e aos seus naturais um nítido sentimento de amor/ódio. Por um lado, admiramos o método, o sangue-frio com que os britânicos, particularmente os ingleses, enfrentam as situações e organizam a sua vida em sociedade. Por outro lado, muitos de nós achamos ridícula a pompa em torno dos reis, a pachorra que modestos trabalhadores da região de Londres têm para se levantar de madrugada para verem o bebé real ou qualquer outra chachada relacionada com a família que vive em Buckingham e que ao longo dos tempos tem transformado o velho palácio numa casa dos segredos ou mesmo num bordel. Como dizia anteontem, o velho Tratado de Windsor foi dos poucos convénios internacionais de que tirámos algum partido. Os que firmámos com Castela apenas serviram para confirmar o aforismo que nos diz que de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. A indignação popular contra os nossos mais antigos aliados foi avassaladora. «Contra os bretões, marchar, marchar».

E, no entanto, o Tratado de Windsor, firmado em 1386, implicando o casamento do nosso rei com Filipa de Lencastre, deu-nos a ínclita geração – Pedro, o das sete partidas, o sábio D. Henrique, o ilustrado D. Duarte… Um bom vento que nos soprou das Ilhas Britânicas. Em 1890, era reduzida a capacidade de resposta aos bombardeamentos pelos navios de Sua Majestade, de Lisboa e do Porto. Mas diga-se que não havia muitas potências por aquela época capazes de responder às prepotências britânicas. «marchar «contra os bretões», «marchar, marchar!,»! era uma “fanfarronada” popular. Nós, portugueses gabávamo-nos. Aquilo a que se pode chamar uma portuguesada.

O Diccionario de la Lengua Española, editado sob a égide da Real Academia Española, define Portuguesada como  dicho o hecho en que se exagera la importância de una cosa. No seu Grande Dicionário da Língua Portuguesa, José Pedro Machado na entrada Espanholada: s.f. Dito próprio de espanhol; fanfarronada Hipérbole. Mas nada de pensar em originalidades peninsulares. Entre França e Inglaterra a guerra pícara de aforismos e significados depreciativos  entre vizinhos é semelhante. Um só exemplo – preservativo: para os franceses, capot anglais; para os ingleses: french letter (Oxford Advanced Learner´s Dictionary)…

De Espanha, nem bom vento nem bom casamento. Este provérbio diz quase tudo sobre o que em Portugal se pensa do estado vizinho. E refere-se aos ventos meteorológicos e aos casamentos de Estado. Porque numa acepção abrangente, «casamento» pode significar negócio, tratado, acordo bilateral… De ventos que nos venham pela raia, nada sei. Ou melhor, sei o que li no belo romance Suão, de Armando Antunes da Silva – um escritor neo-realista, cuja obra merecia ser mais divulgada. Dos casamentos e referindo-me só aos que foram protagonizados por infantas e por gente da Corte, sei o que todos sabem – desde a mártir Inês de Castro, filha natural de um importante fidalgo galego, cujos amores clandestinos com o herdeiro do trono português são por demais conhecidos, até à dissoluta Carlota Joaquina, uma Bourbon que podia ser acusada de muita coisa, mas nunca de fidelidade conjugal. Porém, foi a política de casamentos, sempre praticada e seguida pelos «reis católicos», que lançou as bases do poderoso império dos Habsburgo, a chamada Casa de Áustria, que chegou a ser a «superpotência» europeia e sob Carlos V, que casou com Isabel de Portugal, sua prima, filha de D- Manuel I, fez acalentar o sonho de através desta política endogâmica, criar uma «monarquia universal». Ou seja, a política de casamentos, ao contrário dos ventos meteorológicos, que vão desde a brisa agradável ao furacão destruidor, terá tido vantagens e desvantagens.

Por acaso, com excepção dos tratados definidores das fronteiras portuguesas, não me estou a lembrar de vantagens que casamentos (no sentido lato) ou ventos, tenham trazido – a não ser o vento que impelia os navios das armadas (ventos que não sopravam de Castela). Afonso V que acalentava a ideia de uma união dos reinos peninsulares (sob o domínio português), envolveu-se na luta pelo trono de Castela, tomando partido por sua sobrinha, D. Juana, a Beltraneja. Foi derrotado pelos defensores de Isabel, a Católica- na batalha de Toro. Seu neto, Afonso, casando com a herdeira do trono castelhano, esteve quase a cumprir o sonho de O  Africano, mas morreu num estranho acidente. Será que o casal que comandava os ventos em Valladolid não teve nada a ver com a morte do genro?

E de casamento em acidente, de vento em casamento… Portugal caiu de mão-beijada nas mãos de Castela. Filipe II era, de facto, o legítimo herdeiro do trono português – filho de Isabel de Portugal e de Carlos V, neto de D. Manuel falava português sem acento estrangeiro, pois aprendeu-o com sua mãe. Mas, por melhor que falasse a nossa língua, não convenceu o povo português, que se considerou cativo do reino vizinho. Formalmente, Portugal continuou a ser independente. Quando o conde-duque de Olivares, ministro de Filipe IV, decidiu acabar com as «independências» de Portugal e de Leão e Aragão (que incluía a Catalunha, Valência e as Ilhas Baleares), os povos da Catalunha e Portugal revoltaram-se.

No próximo capítulo, veremos como se mata um regime democrático. Antecipemos que em 1931, eleições ditaram uma vitória republicana, a partida do rei Afonso XIII para o exílio e a proclamação da República. Em 1936, as esquerdas coligadas numa Frente Nacional, assumiram o poder. Não perca o próximo capítulo.

(continua)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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