Trickle-down, trickle-up, eis a questão. E qual tem sido a opção? – Parte I – 2. Os anos de 1930 revisitados (2ª parte-conclusão), por Larry Elliott

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte I – 2. Os anos de 1930 revisitados (2ª parte-conclusão)

A corrida para o abismo: o que a Grande Depressão nos revela sobre o futuro

Por Larry Elliott LarryElliott

Publicado por The Guardian, em 4 de março de 2017

 

Um desastre deflacionista

Há, claro, diferenças, bem como semelhanças, entre as duas épocas. Na reunião deste ano do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, realizada na semana depois da tomada de posse de Trump, os membros da elite de negócios global encontraram razões para estarem contentes.

Alguns confortaram-se com a tecnologia: a ideia de que o Facebook, o Snapchat e o Google reduziram o mundo, tornaram todas as distâncias mais curtas. Outros disseram que a imposição de tarifas em bens importados numa era de complexas cadeias internacionais de valor aumentaria o custo das exportações e tornariam impensável, mesmo para um país tão grande quanto os EUA adotarem uma estratégia económica autónoma. Roberto Azevedo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, disse: “A grande diferença entre a crise financeira de 2008 e o início dos anos 1930 é que hoje temos regras comerciais multilaterais e nos anos 30 não as tínhamos“.

A maior diferença entre as duas crises, no entanto, é que, no início da década de 1930, os erros dos bancos centrais e dos ministérios das finanças tornaram as coisas muito pior do que elas poderiam ter sido. Nem todas os quebras do mercado de ações se transformam em colapso e um foi evitado – quase – no período que se seguiu ao colapso de Lehman Brothers.

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Uma coleção de cabanas de pessoas desempregadas em ‘Hooverville’ em Seattle, Washington, em 1933. Photograph: AP

Os primeiros sinais dos dados sobre a produção industrial e o comércio mundial no final de 2008 mostraram declínios semelhantes aos dos primeiros meses da Grande Depressão. Os responsáveis políticos foram justamente castigados por estarem a “dormir ao volante” enquanto a crise das hipotecas sub-prime estava em gestação, mas conhecer um pouco de história económica ajudou bastante quando o Lehman Brothers entrou oficialmente em falência. No início dos anos 30, os bancos centrais esperaram demasiado tempo para cortar as taxas de juros e permitiram que a deflação se instalasse. Houve uma política de negligência maldosa em relação aos bancos que foram autorizados a sofrerem falências atrás de falências. Face aos grandes défices orçamentais provocados por maior desemprego e por um crescimento mais lento, os ministros das finanças pioraram as coisas aumentando os impostos e cortando as despesas públicas.

A resposta ao Grande Colapso, de acordo com Adam Tooze no seu livro The Deluge, foram políticas deflacionistas em todos os países. “A questão que os críticos levantaram desde então foi porque razão é que o mundo estava tão ansioso por se comprometer com esta austeridade coletiva. Se os economistas keynesianos e monetaristas estar de acordo numa coisa, é nas consequências desastrosas deste consenso deflacionista“.

 

Se os economistas keynesianos e monetaristas estão de acordo numa coisa, é nas consequências desastrosas deste consenso deflacionista – Adam Tooze

No coração deste consenso estava o padrão-ouro, a firme convicção de que seria possível trocar libras, dólares, marcos ou francos por ouro a uma taxa de câmbio fixa. O sistema tinha o seu próprio processo de regulamentação automática: se um país vivesse além dos seus meios e gerasse um défice na balança corrente, o ouro sairia e só retornaria quando a política tivesse sido apertada para reduzir as importações.

Após os esforços concertados do Banco da Inglaterra e do Tesouro, a Grã-Bretanha retornou ao padrão-ouro em 1925 com a sua paridade de antes da guerra que era de US $ 4,86. Isso implicou um aumento da taxa de câmbio que tornou a vida mais difícil para os exportadores, uma vez que tornou os produtos ingleses mais caros no estangeiro.

O que os decisores políticos não conseguiram perceber foi que o mundo tinha mudado muito desde a era anterior a 1914. Apesar de estar no lado vencedor, a economia da Grã-Bretanha ficou muito mais fraca. A economia alemã também tinha sofrido entre 1914 e 1918, e estava ainda prejudicada pelas reparações de guerra. A América, ao contrário, estava numa posição muito mais forte.

Esta mudança de equilíbrio de poder significava que restaurar o regime de antes da guerra era um processo longo e doloroso, e no final dos anos 20 as tensões de se estar a tentar fazê-lo começavam a tornarem-se insuportáveis, do mesmo modo que as tensões no euro – o equivalente moderno mais próximo ao padrão-ouro – se tornaram evidentes desde 2008.

Em vez de facilitarem as coisas, os responsáveis políticos na fase inicial da Grande Depressão pensaram que a resposta era redobrar os esforços até aí seguidos, ou seja, aplicar mais austeridade. Peter Temin, um historiador económico, compara os bancos centrais e os ministérios de Finanças aos médicos do século XVIII que trataram Mozart com mercúrio: “não só eram singularmente ineficazes na cura da doença económica; também mataram o paciente.

Skidelsky explica que na Grã-Bretanha, os chamados “estabilizadores automáticos” entraram em cena durante a fase inicial da crise. As receitas fiscais caíram porque o crescimento era mais fraco e as despesas em Segurança Social e em subsídios de desemprego aumentaram. As finanças públicas caíram no vermelho.

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Os defensores NEW DEAL marcham através das ruas de Nova Iorque contra os despedimentos, Janeiro 1937

Em vez de se congratularem com o endividamento suplementar como uma almofada contra uma recessão mais profunda, as autoridades tomaram medidas para equilibrar o orçamento. O governo de Ramsay MacDonald criou o Comité de Maio para saber o que poderia ser feito quanto ao défice. Dada a composição do Comité, fortemente a favor dos empresários, o resultado nunca esteve em dúvida: a libra esterlina estava sob pressão e, para manter a paridade relativamente ao ouro da Grã-Bretanha, o Comité de Maio recomendou cortes de £ 97 milhões no orçamento estatal de 885 milhões de libras esterlinas. Os subsídios de desemprego foram reduzidos em 30%, a fim de equilibrar o orçamento no espaço de um ano.

A severidade dos cortes dividiu o governo trabalhista e provocou a formação de um governo nacional liderado por MacDonald. Philip Snowden, o chanceler, disse que a alternativa ao status quo era “o dilúvio”. Os editores financeiros foram convidados ao Tesouro para serem informados sobre as medidas tomadas para proteger a libra, e quando alguém perguntou se a Grã-Bretanha deveria ou poderia permanecer no padrão-ouro, o mandarim do Tesouro, Sir Warren Fisher, levantou-se e trovejou: “Sugerir que devemos deixar o padrão-ouro é uma afronta não só à honra nacional, mas também à honra pessoal de cada homem ou mulher do país “.

O show de masoquismo orçamental falhou em impedir a venda da libra nos mercados cambiais e, por fim, a pressão acabou por se tornar insuportável. Em setembro de 1931, a Grã-Bretanha provocou um grande choque no resto do mundo, tão grande como o que ocorreu em 23 de junho de 2016 com o Brexit, ao abandonar o padrão-ouro.

A libra caiu e o impulso para aumentar as exportações do Reino Unido foi reforçado seis meses depois, quando o governo da coligação anunciou uma política de preferência imperial, a instalação de barreiras tarifárias em torno das colónias e das antigas colónias, como a Austrália e a Nova Zelândia.

A Grã-Bretanha não era o primeiro país a recorrer ao protecionismo. A agora infame tarifa Smoot-Hawley tinha sido anunciada nos EUA em 1930. Mas a América tinha uma história recente de protecionismo – construiu a sua indústria manufatureira ao abrigo de uma tarifa de 40% na segunda metade do século XIX. A Grã-Bretanha, como explica Tooze, foi a favor do livre comércio desde a revogação das leis sobre o milho em 1846.

“Agora era responsável por iniciar a espiral mortal do protecionismo e as guerras cambiais contra os seus próprios parceiros comerciais que abalariam a economia global”.

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Uma mulher idosa senta-se perto de uma vitrine cheia de anúncios de cigarros, 1935. Fotografia: General Photographic Agency/Getty Images

A saída da Grã-Bretanha em 1931 do padrão ouro significou que garantiu a vantagem de ter sido o primeiro país a sair antecipando-se assim aos seus principais rivais. Para a Alemanha, a dor foi especialmente grave, uma vez que a montanha da dívida externa do país excluía toda e qualquer desvalorização e deixou o governo do Chanceler Brüning com a escolha entre o padrão ouro (ou seja, entrar em incumprimento) e a deflação. Brüning resolveu aplicar outra ronda de austeridade, não percebendo que para os eleitores havia uma terceira escolha: um partido que insistiu que as soluções nacionais eram a resposta a um sistema internacional falhado.

A razão pela qual os custos de empréstimos foram reduzidos em 2008 é que os banqueiros centrais conheciam a sua história. Ben Bernanke, então presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, era um estudioso da Grande Depressão e reconheceu plenamente que a sua instituição não podia cometer o mesmo erro duas vezes. As taxas de juros foram reduzidas praticamente a zero; o dinheiro foi criado através do processo conhecido como flexibilização quantitativa; os bancos foram resgatados; Barack Obama defendeu um programa de estímulo orçamental através do Congresso.

Mas esta política foi apenas um sucesso parcial. As baixas taxas de juros e a flexibilização quantitativa evitaram a Grande Depressão 2.0 inundando as economias com dinheiro barato. Isso aumentou os preços dos ativos – ações, obrigações e casas – em benefício daqueles que são ricos ou estão confortavelmente instalados.

Para aqueles que não estão a ir tão bem, tem sido uma história diferente. Os aumentos salariais foram difíceis de obter e o forte desejo dos governos de reduzir os défices orçamentais resultou em medidas de austeridade fortemente impopulares. Nem todas as lições da década de 1930 foram bem aprendidas e a excessiva pressão sobre a política orçamental diminuiu o crescimento e causou uma certa alienação política entre aqueles que sentem que estão a ser punidos por uma crise que não criaram, enquanto os verdadeiros vilões escaparam impunes. Um refrão familiar tanto no referendo do Brexit como nas eleições presidenciais dos EUA de 2016 era o seguinte: pode estar a haver uma retoma da economia, mas não é isso que está a acontecer por aqui.

Soluções autoritárias

O internacionalismo morreu no início dos anos 30 porque apareceu associado a políticas desacreditadas: especulação desenfreada, desemprego em massa, austeridade permanente e queda dos níveis de qualidade de vida.

Os estados totalitários promoveram-se como alternativas às democracias liberais fracassadas e decrépitas. A Alemanha de Hitler era uma delas, a União Soviética de Estaline, outra. Enquanto a primeira era da globalização estava a terminar, Moscovo avançava com a coletivização da agricultura e a industrialização rápida.

Ainda por cima, os resultados económicos dos países totalitários nos anos 30 eram muito superiores aos das democracias liberais. O crescimento foi em média 0,3% ao ano na Grã-Bretanha, nos EUA e na França, em comparação com 3,1% ao ano na Alemanha, Itália, Japão e União Soviética.

Erik Britton, fundador da consultoria Fathom, diz: “A década de 1920 viu o fracasso das políticas liberais de livre comércio e de livre mercado em proporcionarem estabilidade e crescimento. Apareceram outras pessoas com uma com uma posição populista que realmente funcionou, durante algum tempo“.

Segundo Britton, há uma razão pela qual os partidos dominantes estão a ser rejeitados: “Não é seguro assumir que se podem ter maus resultados económicos durante mais de uma década sem que haja uma reação política que se repercute na economia.”

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Um carro vai à venda por US $ 100 após o Grande Colapso de Wall Street. Fotografia: PPP

A devastação económica causada pela Grande Depressão acabou por forçar as democracias ocidentais a repensar a política. O período-chave foi o dos 18 meses entre a saída da Grã-Bretanha do padrão-ouro em setembro de 1931 e a chegada de Roosevelt à Casa Branca em março de 1933.

Sob Hoover, a política económica dos EUA tinha sido incansavelmente deflacionária. Como na Alemanha – o outro país a sofrer mais gravemente com a Depressão – havia uma obstinada insistência em proteger a moeda e equilibrar o orçamento.

 

A Grande Depressão inaugurou o isolacionismo, o protecionismo, o nacionalismo agressivo e o totalitarismo.

Isso mudou sob Roosevelt. A política tornou-se mais intervencionista e mais isolacionista. Se Londres podia adotar uma política assente primeiramente nos interesses da Grã-Bretanha, então também poderia Washington. Roosevelt rapidamente tirou o dólar do padrão ouro e sabotou as tentativas para evitar guerras cambiais. Wall Street foi travada; a política orçamental foi flexibilizada. Mas era tarde demais. Na altura, Hitler era já chanceler e reforçava o seu controlo do poder. Em última análise, a Depressão foi eliminada não pelo New Deal, mas pela guerra.

King diz que o mundo já está a começar a tornar-se mais protecionista em termos de movimentos de capital e de trabalho. Trump tem denunciado e humilhado as empresas dos EUA que procuram aproveitar-se do trabalho mais barato nos países emergentes, enquanto a Brexit é um exemplo da ideia de que a migração precisa de ser controlada.

Os EUA apoiaram o quadro institucional global pós-guerra: a ONU, o FMI e a União Europeia, através do plano Marshall. “Tentou criar um quadro em que os países individualmente pudessem florescer“, acrescenta King. “Mas eu não vejo isso [a acontecer de novo] no futuro, o que cria dificuldades para o resto do mundo“.

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Cartazes da campanha eleitoral para a Coligação do Governo que se estendeu por duas eleições. Fotografia: Conservative Party Archive/Getty Images

 

Até agora, os mercados financeiros têm uma visão positiva de Trump. Eles concentraram-se no potencial de crescimento dos seus planos de redução de impostos e de despesas mais elevadas em infraestruturas, mais do que na sua ameaça de construir uma parede ao longo do Rio Grande e de impor tarifas sobre as importações mexicanas e chinesas.

Há, no entanto, uma visão mais escura do futuro, em que cada país tenta fazer o que Trump está a fazer. Nesse cenário, uma economia global em contração levará à contração do comércio global e a deflação significa que as dívidas pessoais se tornam mais onerosas. “Isso torna-se um ciclo vicioso e auto realizável“, diz Britton. “As pessoas procuram respostas e encontram-nas no autoritarismo, no populismo e no protecionismo. Se um país pode mostrar que isso funciona, há uma forte tentação para outros lhe seguirem o exemplo“.

Isto pode ser muito pessimista. A economia global está a crescer cerca de 3% ao ano; a Grã-Bretanha e os EUA (se não a zona do euro) têm estado a ver o seu desemprego a diminuir desde a crise de 2008-09; os baixos preços do petróleo mantiveram a inflação baixa e levaram ao aumento dos padrões de vida.

Mesmo assim, não é difícil ver porque é que o apoio às ideias políticas que impulsionaram a segunda era da globalização – livre circulação de capitais, bens e pessoas – começou a fraturar-se. Os vencedores do sistema económico liberal que surgiram no final da guerra fria, tal como seus antepassados nos anos 20, não conseguiram cuidar dos perdedores. A maré do crescimento não elevou todos os barcos, e aqueles que não se consideram beneficiários da globalização ficaram cansados de ouvir o quão maravilhosa ela é.

Os anos 30 são prova de que nada em economia é inevitável. Houve, eventualmente, uma reação contra as ortodoxias económicas e Skidelsky pode ver porque é que há uma outra reação a verificar-se hoje. “A globalização permite ao capital escapar do controle nacional e sindical. Eu sou muito mais compreensivo desde o início da crise com a maneira marxista de analisar as coisas“.

Trump poderá ser destituído, assassinado ou frustrado pelo Congresso“, sugere Skidelsky. “Ou ele permanecerá suficientemente popular para ultrapassar o consenso liberal de que ele é uma merda da primeira ordem. Afinal, muitas pessoas concordam com o que ele está a fazer“.

 

Crash course: what the Great Depression reveals about our future. Texto disponível em   https://www.theguardian.com/society/2017/mar/04/crash-1929-wall-street-what-the-great-depression-reveals-about-our-future

Larry Elliott, jornalista inglês, é editor económico no The Guardian.

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