A GALIZA COMO TAREFA – formas – Ernesto V. Souza

Como surpreende sempre o tempo. Sabemos que passa, e o que é pior: constatamos, ao parar, que realmente passa. Mas no decorrer dos dias não sempre somos conscientes de como muda tudo, mesmo que tal lembrem sonetos, na idade ligeira.

Ouvimos Grândola, num documentário, e vemos os rostos, as roupas, os sapatos, os carros, os prédios, que acompanham a música, quase a branco e preto, e em cores já gastas ou simplesmente analógicas, nas imagens que se sucedem.

Pensemos nessas fotografias e cores dos 60 e 70. Talvez até nas dos 80. Alguns podemos lembrá-las, nítida ou vagamente em função da idade; para outras pessoas, mais novas, são quase história antiga. Nelas ainda podemos situar o charuto de Castro em Moscovo, o Vietnam Canto de Novoneyra, ou a fugida e morte de Feltrinelli, de revólver no sovaco, pela Itália ainda partigiana, popular e revolucionária. Anticolonialismo, revolução, luta contra as ditaduras, canção protesto, marxismo em todas as suas tribos, adaptações e gamas

Livros dessa época também, que em temas e estéticas manifestam uma explosão divulgativa de liberdades, uma declaração de construção social, e cultura popular em andamento. Pensemos nos coloridos livrinhos galegos de Castrelos (o Moucho), na coleção vermelha de AKAL (Arealonguiña), as Edicións do Rueiro, ou as coleições populares e cadernos das Ediciós do Castro, e em tantos outros, no meio de uma imprensa colorida e diferente e de revistas de pensamento crítico: os velhos números de Teima da minha mãe e os de A Nosa Terra depois. Lembranças com fundos de banda desenhada impressa em offset, os quadrinhos poster de Jack Kirby ou os profundos esquemas de Oesterheld. Músicas e filmes, ponham aí a vontade saudosa, que já divagamos.

Mas o mundo foi mudando. Mudaram os grafismos, as perspectivas académicas à moda, os conteúdos das coleções, os best-sellers de Ciências sociais e política foram desaparecendo a prol dos de auto-ajuda, religiões individualistas, o ecologismo, alimentação saudável e de conscientização por um consumo “natural”.

As mudanças é de considerar, não foram apenas na tona. Por vezes parece que só consideramos que a mudança é na estética, algo formal, profissional. Mas vai mudando tudo, o mesmo pensamento e a sua configuração. Mudam as formas, porque mudaram os conteúdos, as ideias, as razões, os princípios e saberes consagrados e inabaláveis. Ou simplesmente vão aos poucos mudando os conteúdos, os princípios, as ideias chave e os saberes, até mudar radicalmente – que surpresa – a fotografia.

Thatcher e Reagan são talvez os ícones mais representativos, o marco que destaca uma outra fase. A da “Movida” madrilenha, com imitação ou sucursal galega. Novas estéticas acompanhadas por uns média de mais em mais adscritos, e injeção de capitais institucionais, no cultural, no académico, no político, condicionando aos poucos o salto.

Muda a mobília, as modas, a arquitetura, a técnica, os instrumentos, a estética dos livros. Mudam as formas e os desenhos. E as ideias, a sua receção e formulação também. O salto tecnológico é espetacular: uma revolução cultural. Já nos andamos na era digital, invade-nos o plástico de embalagens e o capitalismo revelou-se mais uma religião que qualquer outra cousa.

Mas, não se trata de uma sucessão de fotografias. Na realidade é um filme, vai acontecendo, cena a cena, em continuo. Em progresso, por muito que na realidade pareça que o que se adiantou em estética, técnicas e propaganda, significou uma profunda recuada acrítica em ideias sociais e liberdades: antes no topo, à moda daquele tempo.

 

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