A GALIZA COMO TAREFA – reintegracionismo 3.0 – Ernesto V. Souza

As línguas de cultura são cousa frágil, condicionadas por catástrofes, sucessos, azares, acasos políticos, invasões, migrações, expulsões, genocídios, mudanças dinásticas, económicas e  sociais; por inventos, descobertas, modas; sujeitas ao capricho, às vontades, teimas higienistas, restauradoras, historicistas, ou reformistas das elites; condicionadas pelo isolamento ou pela sua internacionalização em diversas épocas, pelo seu papel como língua franca de comércio ou das diplomacias, como principal de impérios ou como língua de periferia nos reinos e estados.

Como as religiões, as línguas, com as suas gramáticas e as ortografias, têm muito de rito, de convenção e não pouco de ilusão coletiva assumida. Têm muito também de capas, reformas e fases de ortodoxia, abertura, contato, regularização, autarquia e heterodoxia. Nesse sentido as ortografias são simplesmente umas convenções marcadamente epocais e submetidas à política, às técnicas de escrita e impressão e às modas culturais. Se procuramos na sua história ou na lógica das suas estruturas e sentido das exceções, logo advertimos a modernidade do eterno, as razões concretas que motivaram o que tomamos como tradição e, facilmente, começam emergir as incoerências.

Isto acontece em todas as línguas. Nenhum sistema é perfeito e lógico, senão composto por capas, camadas e níveis, cujo controlo e aprendizagem em não poucos casos revela marcação de status, de origem ou de classe. Entre as línguas mais próximas, algumas têm, como o castelhano, por causa da sua história, uma profunda construção regularizadora e simplificadora com aproximação entre escrita e oralidade (ou com condicionamento da oralidade a uma escrita imposta desde um centro), sobreposta a fases mais antigas de também refação, regularização e simplificação. Outras, como o francês, apresentam uma evolução diversa entre o oral e o escrito, com um pouso diverso e fases, re-estruturadas por um forte centralismo cultural e um destacado conservacionismo historicista definido por uma elite.

O português, como sabemos, é policêntrico e polimórfico, com uma tradição escrita escapista das origens galegas e da tradição castelhana, depois re-adequada às preferências do Hinterland lisboeta e da corte, internacionalizada, re-latinizada e posteriormente simplificada e modernizada, em processos diversos a respeito dos Estados e das sociedades que a hoje apropriam e dizem sua.

Todas as grandes fases de construção das línguas de Ocidente: a primeira medieval (arredor do Rei e da administração), a renascentista (na fase da grande gramaticalização humanística e a imprensa), a ilustrada (regularizadora e neoclássica) e a contemporânea (definida pela alfabetização maciça, o público e a imprensa de massas) foram de sistematização, e a sistematização é sempre uma oportunidade para a regularização, o ajuste e a coerência.

A questão da língua escrita na Galiza é bem interessante. Não apenas pela sua história, quanto porque dista muito de estar fechada uma base consensualizada. Rota uma continuidade de construção culta em fins da Idade Média, perdeu o renascimento e o iluminismo, e apenas com o nacionalismo do século XIX retomou uma construção e fixação culta, que, porém em grande medida foi feita depender do castelhano e nas asas do processo de escolarização e alfabetização em castelhano do Estado espanhol moderno.

Houve vozes, já sabemos, que ao longo do século XIX e já no XX, se declararam continuadoras da tradição culta, em formulação mais técnica, da desenvolvida como prática e programa por Martim Sarmiento, e continuada pelos Precursores e algum dos mestres, a Cova Céltica, Biqueira, Irmandades, Nós, Geração do 25, Guerra da Cal, Carvalho Calero, Marinhas del Valle.

Porém, o reintegracionismo moderno, organizado nos anos 8o do século XX como reação às propostas Institucionalistas para a fixação do Galego, já no seu dia e nomeadamente no decurso dos seus trabalhos de fixação, entendeu (dentro do esquema restaurador) que tinha de se achegar no possível da tradição escrita do Português moderno; e iniciou uma readaptação em coerência progressiva para reintegrar a tradição antes dita.

Neste sentido cumpre atender um pouco à história próxima para entendermos a evolução, na procura (ou nas asas) da coerência, do movimento reintegracionista galego moderno. Entendermos esta evolução é fundamental para compreender como a rápida mudança em discursos, posições, estratégias e imagens, ocasiona que a sua percepção resulte complicada, até para os mesmos protagonistas.

Em conflito com o modelo de tradição popularizante-castelhanista que as instituições escolheram e que desenvolveram ILG e RAG, o modelo reintegracionista, foi ganhando coerência e achegando-se mais do que nunca antes à moderna tradição escrita do Português.

Isto foi derivando numas novas bifurcações, causadas polos limites da aproximação e motivadas pelas velocidades na aproximação. Aquilatamento léxico, achegamento sintático, aproximação morfológica, deriva cara modelos literários e estilísticos portugueses, brasileiros, africanos. Mas não homogêneas (havendo quem defende um lusismo lexical, fraseológico e sintático combinado com um nacionalismo ortográfico e morfológico; e a contrario, quem apanha a ortografia dos padrões portugueses, brasileiros ou do Acordo e promove um diferencialismo lexical e fraseológico caracterizador; entre ambas todas as possibilidades combinatórias propositadas e as interferidas).

A diversidade não está definida, na realidade, estritamente pelos grupos e associações que se formaram, ou por marcadas tendências e estratégias; senão que se define em função das escolhas individuais, preferências e do jeito de aproximação e aprendizagem da língua portuguesa:  se este foi académico (EOI, Universidades, estudos em Portugal ou Brasil) ou se foi autodidata; e ambas podem ser modificadas em função se esta aprendizagem foi feita a partir do galego oral familiar, do castelhano galego ambiente, desde uma forte base oral, sem ela, com um conhecimento entusiasta pela tradição literária galega escrita; desconhecendo-a ou achando-a rural, imperfeita, obsoleta, repudiando-a; e também a respeito do valor, papel e função que o utente dá a esse pouso como elemento conformante – ou de descarte – do seu neo-português galego.

Os resultados são, pois, hoje, diversos, e os resultados estão em processo, combinatórios, diferenciados, interferidos, aparentemente categorizados por escolas, aprendizagens, magistérios, sistematizações de grupo, tendências, espaços de escrita.

Porém, o interessante é que se trata em conjunto de um realinhamento dialetal, relativamente coerente, definido em função dos elementos e do processo de reintegração. Pois uma vez rota a barreira do antilusismo que era própria da tradição (que definia que todos os textos que na Galiza, não estando escritos em castelhano ou latim não queriam ser confundidos com Português eram galego) é difícil determinar os limites do processo de reintegração. Limites que ficam definidos, em ausência de uma invenção coletiva assumida, mais pela coerência que se queira dar ao sistema (volvam ler o parágrafo primeiro) e pelas crenças e barreiras mentais auto-impostas ou entendidas como tradição.

One comment

  1. Abanhos

    Excelente texto, bem enquadrado e esclarecedor.
    Só acharia a faltar uma pequena referência, que já tens feito outras vezes, ao facto de o modelo dependente da supremacia do castelhano, esteve sempre ligado a posições conservadoras

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