Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – À procura de um Terceiro Milagre Económico Alemão. Por Jacob L. Shapiro

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

À procura de um Terceiro Milagre Económico Alemão

jacob shapiro Por Jacob L. Shapiro

friedman logo em 27 de junho de 2018

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A economia da Alemanha está em apuros. De acordo com o Instituto IFO, um relevante think tank alemão com sede em Munique, “pesadas nuvens estão a juntar-se sobre a economia alemã.” E tal como uma tempestade, os problemas apareceram repentinamente. Foi apenas há um ano atrás que Handelsblatt, um jornal de negócios alemão com sede em Dusseldorf, disse que 2017 iria ser um ano recorde para a economia alemã e que as perspetivas pareciam muito boas para o futuro. Foi apenas há seis meses que o Fundo Monetário Internacional publicou as suas previsões para o crescimento económico alemão em 2018, e há apenas cinco meses que o governo alemão reviu em alta as suas próprias previsões de crescimento de 1,9 por cento para 2,4 por cento. E foi apenas há quatro meses que a UE se vangloriou pelas suas maiores taxas de crescimento numa década, creditado em grande parte ao ressurgimento económico da Alemanha.

Agora tudo isso parece ter sido há já muito tempo atrás. Die Welt, um influente diário conservador, proclamava em 19 de junho que “o segundo milagre económico alemão acabou.” O Instituto IFO recentemente desceu na sua previsão de crescimento de 2,6 por cento para 1,8 por cento; outro think tank sediado em Berlim chamado DIW desceu a sua previsão para 1,9 por cento este ano e 1,7 por cento no próximo ano. Os dados económicos oficiais alemães mostraram que o crescimento no 1º trimestre deste ano era metade da taxa do trimestre precedente. O 2º trimestre seguiu-se com diminuição na produção industrial e de encomendas industriais- maus presságios para o futuro próximo. Em 20 de junho, a Daimler AG, uma das empresas mais visíveis e importantes da Alemanha, “adaptou” as suas expectativas de ganhos. Pelo menos a tendência alemã para o eufemismo permanece inalterado.

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A narrativa dos media que foi rapidamente adotada coloca a culpa nas políticas protecionistas americanas. Para confirmar, os tweets ameaçadores do Presidente dos EUA, Donald Trump, a propósito da aplicação de uma tarifa de 20% sobre as importações de carros alemães, não ajudaram em nada as questões da Alemanha. Mas essa não é a principal causa dos problemas de Berlim. É também tentador atribuir a instabilidade na economia alemã às contendas políticas em Berlim, onde todas as declarações da Chanceler Angela Merkel estão a ser analisadas nervosamente como sinais de fraqueza. Os laços que ligam os democratas cristãos de Merkel e o seu partido irmão bávaro, a União social cristã – uma aliança política que dura desde há 69 anos – estão-se a desgastar. Mas a verdade é que o Die Welt tem razão. Os problemas económicos da Alemanha são estruturais, uma inevitável consequência dos mesmos aspetos que catapultaram a Alemanha da estagnação para a única esperança da economia europeia após a crise financeira de 2008.

O primeiro milagre económico da Alemanha, o chamado milagre do Reno, deu-se após a segunda guerra mundial. A recuperação rápida da Alemanha Ocidental a partir dessa guerra foi impressionante, mas, no sentido literal, não exatamente milagroso – ao contrário de um milagre, a regeneração da Alemanha Ocidental era muito facilmente explicável.

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Primeiro, houve uma explosão populacional. A Alemanha Ocidental, que na véspera da segunda guerra mundial parecia um pesadelo demográfico, viu a sua população crescer 28 por cento de 1950 a 1970, com uma taxa média de fertilidade total a ser quase o dobro da atual taxa de 1,5 por cento. Segundo, os nazis deixaram a Alemanha com uma herança moral assombrosa, mas legaram à Alemanha Ocidental uma tremenda vantagem económica. Os Aliados conseguiram danificar apenas cerca de 20 por cento da estrutura industrial alemã até maio de 1945, e os investimentos massivos do governo nazi em novos equipamentos industriais e o seu foco em indústrias fortemente utilizadoras de engenharia e na indústria de veículos fizeram com que a produção alemã nestes produtos seja de primeira classe a nível mundial. Por outras palavras, a Alemanha não era conhecida como uma potência industrial antes dos anos 1950. E depois houve o imenso apoio dos Estados Unidos, que precisavam de reconstruir a Alemanha Ocidental para manter a linha contra a cortina de ferro. Somente através do plano Marshall, os EUA contribuíram com $1,45 mil milhões de dólares (cerca de $13,77 mil milhões de hoje) para a reconstrução da Alemanha Ocidental.

Durante quase quatro décadas a economia da Alemanha Ocidental andou a cantarolar, até que a União Soviética inesperadamente se desmoronou em 1991. A maioria dos economistas acreditavam que a reunificação alemã iria ferir fortemente a economia da Alemanha ocidental. Na verdade, os primeiros resultados não foram elegantes. Tudo dito, a Alemanha gastou cerca de 2 milhões de milhões de euros para fornecer aos alemães do leste benefícios sociais, para reconstruir a infraestrutura da Alemanha Oriental e para permitir uma taxa de câmbio de 1:1 para a moeda da Alemanha Oriental. A situação era tão sombria que em 1999, um relatório do The Economist concluiu que a Alemanha estava relegada para o papel de “homem doente da Europa” e isto para um futuro previsível. O golpe de mestre da análise foi uma comparação do estado alemão recém unificado com o esclerosado Império Otomano na véspera do seu colapso. No início, parecia que a análise estava correta. Em 2003, após anos de estagnação do crescimento, a economia alemã reduziu o seu PIB em 0,71 por cento.

Mas então, a Alemanha arrancou para o crescimento mais uma vez. A receita para o segundo milagre económico alemão tem pouca semelhança com o primeiro. A taxa de fertilidade da Alemanha continuou a declinar ao longo dos anos 1990 e 2000. Mas a Alemanha compensou isso aproveitando o trabalho barato na Europa Oriental. Relocalizando a produção a leste e introduzindo a tecnologia alemã e métodos industriais de produção, os custos diminuíram fortemente e a produtividade disparou. O estabelecimento da moeda comum em 1999 ajudou a tornar os bens alemães mais competitivos em toda a Europa e pôs um fim aos efeitos voláteis que os ciclos alemães de expansão e contração tiveram sobre o marco alemão. Uma boa política também ajudou. Levado à crise económica e ostentando taxas de desemprego teimosamente elevadas relativamente ao resto da Europa, em especial na anterior Alemanha Oriental, o governo alemão não teve nenhuma outra escolha que não fosse adotar grandes reformas do mercado de trabalho assim como efetuar grandes cortes no longo e sagrado Estado social e isto num país a ficar envelhecido.

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A combinação destes desenvolvimentos funcionou. A economia alemã passou da situação de se estar a contrair para a situação de crescimento a quase 4 por cento anualmente. Mas as sementes da crise atual foram colocadas nas mesmas soluções que permitiram que a Alemanha reunificada prosperasse. A Alemanha tornou-se viciada em exportações para dinamizar a sua economia. Em 1991, a economia da Alemanha dependia das exportações em 27,3 por cento do seu produto interno bruto. De acordo com o Banco Mundial, essa posição tinha subido para 46,1 por cento em 2016. Para os países da Europa Oriental que se tornaram parte da cadeia de suprimentos alemã, este número é astronomicamente maior.

Além disso, as reformas do mercado de trabalho que tiveram papel de relevo no arranque da economia alemã e reduziram o desemprego para níveis historicamente baixos geraram, contudo, um subproduto infeliz: a desigualdade económica. Em muitos casos, os ricos ficaram mais ricos, enquanto os pobres simplesmente têm benefícios do governo menos generosos. As políticas de flexibilização monetária promulgada após a crise financeira de 2008 agravou o problema, a ponto de que a Alemanha agora tem a segunda maior taxa de desigualdade de riqueza de entre os países da OCDE (apenas os Estados Unidos ultrapassam a Alemanha a este respeito).

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Estes são os verdadeiros problemas que a Alemanha enfrenta. Já não estão a ser obtidos ganhos de produtividade do trabalho – as taxas de produtividade do trabalho europeu do leste ultrapassaram a dos trabalhadores alemães há já alguns anos atrás. Não há mais bebés para se ter – as taxas de fertilidade atingiram o seu mais alto nível em 43 anos em 2016, mas situada em 1,59 está ainda muito longe da taxa de reposição de 2,1, e a sua população é uma das mais velhas na Europa. Não há nenhum novo e grande mercado para poder vender – a China está a tentar aumentar a procura interna, os Estados Unidos estão a tornar-se um país protecionista, a Europa está sobresaturada e o poder de compra do russo médio não faria muita diferença mesmo se as sanções da UE não impedissem que as relações económicas russo-alemãs se aprofundassem.

E isto já para não falar do antiquado sistema de educação da Alemanha, das altas taxas de imposto sobre as empresas, com as infraestruturas de conectividade de banda larga digital do século XX e das estruturas hierárquicas da empresa que sufocam a inovação. Mesmo nas áreas onde a Alemanha é suposta ser excelente, como nos carros, os melhores dias da Alemanha parecem estar a ficar para trás. A Volkswagen, Audi, Porsche, BMW e Daimler foram agora acusadas de distorção de emissões e estão a recolher centenas de milhares de veículos no que se tornou conhecido como “Dieselgate”. Por último, mas não menos importante, o sistema bancário da Alemanha está em frangalhos.

Há, no entanto, uma nesga de esperança no meio destas pesadas nuvens. A Alemanha não está ainda no auge de uma crise – está de pé sobre o precipício. E quando a Alemanha moderna (i.e., post-1871) atinge momentos sérios de crise, as pequenas e mesquinhas querelas políticas são geralmente postas de lado, e a população alemã responde com uma disciplina social que poucas outras nações no mundo já igualaram. Por exemplo, a estrutura industrial da Alemanha sobreviveu à II Guerra Mundial intacta, mas o sistema ferroviário alemão não. No dia V em 1945, apenas 10% das linhas de caminho-de-ferro alemãs estavam operacionais. Apenas 13 meses depois, a Alemanha Ocidental tinha reconstruido 93 por cento do seu sistema ferroviário, que incluía reparações em 800 pontes. A Alemanha tinha vantagens – não sendo a menor a ajuda americana – mas o que a Alemanha foi capaz de fazer com essa ajuda foi absolutamente impressionante. O mesmo se pode dizer da rápida recuperação da Alemanha da sua integração com a Alemanha Oriental e do seu subsequente mal-estar no final dos anos 1990, um processo que teria paralisado nações menos coerentes.

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A peça que falta em tudo isto é saber onde é que a Alemanha vai encontrar ganhos de produtividade. Na década de 1950, foi a explosão populacional, e na década de 2000, foi a Europa Oriental. A única tábua de salvação da economia alemã agora é a procura interna saudável, mas os níveis atuais de procura interna não podem compensar a dependência excessiva da Alemanha nas suas exportações. Talvez o plano de Merkel com os refugiados e os migrantes tenha sido o de infundir na Alemanha um lote fresco de jovens, a sua própria versão dos acordos sobre trabalhadores convidados da Alemanha ocidental dos anos 1950, 60 e 70. Talvez o seu idealismo fosse tão fervoroso que ela acreditava que qualquer sírio ou somali ou afegão poderia ser integrado numa Alemanha que tinha já deixado o seu passado para trás e abraçado a ideia de uma Europa cosmopolita e multicultural. O Japão é de muitas maneiras a imagem espelhada da Alemanha, com uma população a reduzir-se e com uma dependência das suas próprias exportações, mas o Japão preparou-se para a sua situação atual, sacrificando o crescimento durante quase três décadas. A Alemanha pegou no dinheiro e fugiu -e agora está a chegar a hora de pagar a fatura.

É difícil escapar à iniquidade da situação da Alemanha. A Alemanha é simultaneamente o bicho-papão e o salvador do projeto europeu. O crescimento económico alemão e o tratamento dado pela Alemanha à crise financeira de 2008 tornaram os países da zona euro extremamente desconfortáveis – isto é, até que a perspetiva do crescimento económico alemão a estagnar se tornou uma possibilidade realista. Os gastos de defesa sistematicamente insignificantes da Alemanha – bem abaixo dos 2% acordados pelos países da NATO – é um problema para os seus aliados da NATO. Mas se a Alemanha realmente se começa a remilitarizar, a histeria sobre o retorno iminente dos cavaleiros teutónicos, os grandes soldados prussianos de Frederick O Grande, e as divisões nazis dos Panzer, rapidamente se sucederia. Mesmo agora, como o sentimento antialemão aumentou em toda a União Europeia, as autoridades da União Europeia olham para Berlim à espera das respostas. Até agora, a melhor resposta que eles têm para dar parece ser, “Perguntem a Paris.”

No entanto, apesar desta dissonância, este receio não é exatamente irracional. O imbróglio da Alemanha pode ser injusto – mas a Alemanha tem muito por que pagar. A hipocrisia da Alemanha impondo a austeridade à Grécia, enquanto estava refastelada em grandes excedentes comerciais, ou a sua reprovação dos Estados Unidos, sem qualquer sentido de apreço pelos dólares dos impostos enviados pelos cidadãos americanos para reconstruir um outrora inimigo mortal, parece perdida num governo alemão que, com as melhores intenções, acreditava que os leões já dormiam pacificamente com os cordeiros e as espadas já tinham sido transformadas em arados. Agora, a Alemanha, que ascendeu à atual posição montada às costas do euro e dos Estados Unidos, tem de olhar para os seus próprios interesses nacionais e tentar defendê-los sem impor a sua vontade aos seus vizinhos europeus. Se a Alemanha conseguir encontrar uma maneira de o fazer, talvez haja afinal espaço na história para milagres. De qualquer forma, as nuvens de tempestade estão a adensar-se, e o mundo aguarda para ver se o relâmpago irá eclodir uma terceira vez.

Texto original em https://geopoliticalfutures.com/search-third-german-economic-miracle-1/

 

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