IN MEMORIAM – O ADEUS A JOÃO MARQUES, por JÚLIO MARQUES MOTA – em apêndice “SERÁ QUE APRENDEMOS AS LIÇÕES DA CRISE FINANCEIRA?”, de GILLIAN TETT.

júlio marques motaOntem foi dia de despedida, para sempre, de um amigo meu, o jornalista João Marques. Familiares e amigos disseram-lhe o último adeus, ontem, 26 de Setembro.

Dele, conservo na memória a retidão de princípios e de comportamentos. Dele sublinho a sua capacidade de resistência face à “besta” que o consumia por dentro. Dele, nunca deixarei de referenciar a sua lucidez de análise[1] levada até ao último sopro de vida, bem patente em todos os seus artigos, incluindo o último que me enviou horas antes de morrer. Dele, relembrarei sempre a sua capacidade de interrogar a realidade e de a perspetivar numa visão de médio-longo prazo, característica hoje muito difícil de encontrar, tal é a pressão que o “presentismo” exerce sobre todos nós. Dele, sublinho no plano dos afetos uma característica também ela, numa sociedade cada vez mais uberizada, raríssima: a sua disponibilidade de ajudar o amigo em necessidade, mas sempre a tentar que o mesmo disso não tivesse conhecimento, para evitar o consequente agradecimento.

Quis hoje dedicar, em sua memória, a edição de um texto de um jornalista que tenha sido publicado no dia em que dele nos despedimos. Optámos por uma das mais corajosas e lúcidas vozes do jornalismo atual, a jornalista Gillian Tett,  do Financial Times, intitulado “Será que aprendemos as lições da crise financeira?”,  em que esta concluiu que “nunca  antes os livros de história financeira tiveram tanta importância” como agora,  tal é o sentimento de ignorância que atravessa todo este setor que hoje comanda a vida das sociedades atuais. Comanda a vida e destrói os sonhos, a relembrar uma antiga aluna e amiga minha, despedida de uma grande empresa estrangeira depois de vir de férias, quando se apresentou ao serviço,  que me dizia: professor, que sociedade é esta que  nos proíbe de sonhar? Que nos proíbe, a nós jovens, de algo tão simples como sonhar!

Boa leitura.

Coimbra, 27 de Setembro de 2018

Júlio Marques Mota

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[1] De entre muitos textos seus, envio-vos um publicado antes de férias,   intitulado “Desilusões”

 

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Gillian Tett questiona-se porque é que os sinais de perigo sobre de onde é que a próxima crise pode rebentar têm sido ignorados

© Stephen McLaren

 

Um dia no início do verão de 2007, recebi um e-mail de um erudito banqueiro central japonês chamado Hiroshi Nakaso. “Estou um pouco preocupado”, começou ele de forma tipicamente a subestimar a sua afirmação, antes de alertar que uma crise financeira estava prestes a explodir por causa dos problemas criados com e nos mercados hipotecário e de crédito americanos.

Fiquei espantada. E fiquei assim não porque discordasse da análise de Nakaso: até Junho de 2007, tinha escrito sobre o setor de crédito durante um bom par de anos como editora de mercado de capitais do Financial Times em Londres, e andava inquieta. Mas fiquei surpreso que tenha sido Nakaso a dar o sinal de alarme.

 Dobrado do outro lado do globo em Tóquio, ele estava a trabalhar no edifício cinzento, como uma fortaleza, em que está abrigado o Banco do Japão. Os seus homólogos nos bancos centrais americanos e europeus, bem mais próximo dos mercados subprime, não estavam a dar o sinal de alarme. Não davam sinal de estarem preocupados.

Pelo contrário, Alan Greenspan, o ex-presidente da Reserva Federal dos EUA, passou a década anterior a celebrar o triunfo (aparente) dos mercados de capitais ocidentais. E o sucessor de Greenspan, Ben Bernanke, tinha acabado de declarar que os problemas no mercado hipotecário de subprime eram tão “limitados” que não criariam “repercussões significativos”.

Então, porque é que Nakaso estava tão pessimista? “Déjà vu”, respondeu ele. Uma década antes, em 1997, Nakaso estava a trabalhar no banco central japonês, quando Tóquio mergulhou numa crise bancária terrível, desencadeada por um milhão de milhões em credito mal parado deixados pela baburu Keiki ou bolha imobiliária do Japão nos anos de 1980.

Nós encontrámo-nos naquele período tumultuoso: Eu era então uma correspondente de Tóquio para o FT e em que às vezes discutimos a crise bebendo chávenas de chá verde a acompanhar umas tijelas de arroz onigiri. No momento em que deixei o Japão, em 2000, a crise na sua e maior parte já tinha passado; os ocidentais consideraram-na uma nota de rodapé na história financeira global que refletiu uma falha peculiar dos japoneses. Ninguém no FED ou em Wall Street alguma vez sonhou que a finança americana poderia alguma vez sofrer a mesma humilhação que o Japão. Nem as luminárias da City Londrina, igualmente.

 Mas Nasako tinha aprendido, através de uma experiência amarga, sobre os perigos da ganância dos banqueiros. Ele sabia que aas autoridades públicas, muitas vezes minimizavam os problemas, tanto para si como para os eleitores, e notou que os mercados monetários estavam-se a comportar de forma que sugeria que os investidores e as instituições estavam a perder a confiança uns nos outros. Isto criou “semelhanças impressionantes… com as fases iniciais da nossa própria crise financeira [no Japão]”, disse-me. “As capacidades de gestão de crise dos bancos centrais e das autoridades financeiras serão verdadeiramente testadas.”

 Ele tinha razão. Algumas semanas mais tarde, em Agosto de 2007, os sistemas financeiros americanos e europeus começaram a implodir, como resultado do risco hipotecário. O seu desencadeamento não aconteceu rapidamente. Mas no Outono de 2008 uma crise de combustão lenta tinha-se transformado numa crise global, o que se traduziu, de imediato, pela falência dramática do Lehman Brothers e pelo resgate da AIG. Senti-me profundamente grata pela perspicácia de Nakaso.

Mas agora, quando eu olho para trás nesse período, também eu me sinto frustrada. O Fundo Monetário Internacional calcula que entre 1970 e 2011, o mundo sofreu 147 crises bancárias. Algumas delas eram minúsculas: poucos hoje se lembram da crise da banca em 1994 na Bolívia. Outras eram enormes: a crise dos EUA 2007-08 era tão grande que fez aumentar a dívida pública relativamente ao PIB em 24 por cento do produto interno bruto; quanto à crise japonesa de 1997, o salto na dívida pública foi de 42 por cento.

Mas qualquer que seja a sua dimensão estatística, as crises partilham duas coisas. Primeiro, o período pré-crise é marcado pela ganância, pela arrogância e pela opacidade-e uma visão estreita, dita de efeito túnel, entre os financiadores que lhes torna impossível poderem avaliar os riscos. Em segundo lugar, quando a crise atinge o seu ponto mais alto, há uma súbita perda de confiança, entre os investidores, governos, instituições ou em todos os três grupos. Se alguém entender as crises financeiras, então, vale a pena lembrar que as raízes da palavra “crédito” vem do latim “credere”, significando “acreditar”: as finanças não funcionam sem fé. A ironia, porém, é que a existência de muita confiança cria bolhas que (quase) inevitavelmente rebentam e é então a crise.

Embora tenham passado 10 anos desde o colapso do Lehman Brothers, as perguntas ainda estão a incomodar: porque é que parecemos destinados a sofrer crises umas a seguir às outras, de novo? Porque é que não aprendemos com o passado? E o que é que isso significa relativamente ao rumo que o sistema global está a ter hoje? Depois do Japão e da América, que parte do mundo vai desencadear o próximo drama?

As fotografias nesta história são de ‘The Crash’de Stephen McLaren, que será publicado pela Hoxton Mini Press em 27 de Setembro. As imagens, filmadas em Londres, documentam as consequências do acidente financeiro global.

hoxtonminipress.com/products/the-crash

 

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Quando eu comecei a escrever sobre os mercados de capitais ocidentais no início de 2005, eu não estava à espera de outro choque ao estilo do do Japão. Longe disso: como muitos outros jornalistas financeiros, eu inicialmente pensei que estava a presenciar o equivalente financeiro da revolução da Internet, uma onda de inovação selvagem que iria melhorar todas as nossas vidas.

Parecia uma aposta razoável. Durante séculos, o ofício da banca tem girado em torno do negócio relativamente simples de receber depósitos de empresas, governos ou consumidores, e, em seguida, emprestar o dinheiro, [dir-se-ia que a banca comercial compatibiliza maturidades, as dos depósitos recebidos e as dos créditos concedidos]. Assim, na década de 1980 os bancos da bolha japonesa emprestaram dinheiro para o desenvolvimento do setor imobiliário; assim também no boom das Caixas de Poupança e Crédito ( Loans and Savings) na América durante a mesma década.

Mas enquanto as gerações anteriores de banqueiros tinham-se agarrado aos empréstimos concedidos tal como os fazendeiros a cuidarem das suas colheitas, no final do século XX, os financeiros tornaram-se sobretudo uns açougueiros a fazerem salsichas. Eles começaram por comprar empréstimos de todo e qualquer sítio que pudessem (incluindo uns aos outros), a cortá-los aos bocados e depois a reempacotá-los em novos instrumentos estruturados por parcelas que poderiam ser vendidos a investidores com nomes extravagantes, como “obrigações de dívida colateralizada” (CDOs).

Cada revolução de inovações precisa de uma plataforma de vendas, e isso não foi aqui exceção: os banqueiros disseram-se a si-mesmos que este cortar em pedaços títulos de crédito e reagrupar pedaços de diversas origens em parcelas diferenciadas de risco tornaria o sistema financeiro muito mais seguro. A ideia era uma torção moderna no velho ditado: “um problema partilhado é um problema que mais facilmente terá solução”. No passado, os bancos tinham entrado em falência quando os mutuários entravam em incumprimento porque o risco estava concentrada num só lugar; o corte e o reagrupar de títulos diferentes em parcelas de riscos diferentes espalham o risco por muitos investidores que muito mais facilmente absorveriam os riscos. Era isto que dizia a teoria.

Mas havia aqui uma ratoeira. Uma vez que as técnicas que os banqueiros estavam a utilizar para cortar e reagrupar em parcelas de riscos diferenciados os empréstimos eram extraordinariamente opacas, era difícil para qualquer um saber quem assumia os riscos. Pior ainda, porque os banqueiros estavam tão animados sobre o segmentar e o voltar a embalar a dívida que isso os levava a estimular uma nova mania de conceder empréstimos, aparentemente com a bênção do governo. O que toda essa inovação financeira ocultava era um boom de crédito à antiga, de riscos centralizados, particularmente em hipotecas americanas subprime

Inicialmente, poucos pareciam preocupados com esses desenvolvimentos. Nenhuma surpresa, talvez. Este canto da finança era tão tótó e tribal que a maioria dos eleitores e políticos tinham pouca ideia sobre que tipo de revolução estava a caminho. Em todo o caso, quase todos os boom insustentáveis começam com a ideia de que os inovadores encontraram uma nova fronteira. Na bolha dos mares do Sul do século XVIII, este era um novo país mítico; na década de 1840 a mania dos caminhos-de-ferro ou a bolha Internet dos anos de 1990, isto era a tecnologia. Em 2005 foi a própria finança. “Há uma dinâmica que incentiva a banca para o excesso de penumbra, uma vez e outra e outra.”, diz Paul Tucker, o antigo vice-governador do Banco da Inglaterra. “As pessoas atualmente têm bastante boa memória específica em termos de curto prazo [mas] estas pessoas simplesmente não têm boa memória sobre o longo prazo, especialmente quando a tecnologia bancária muda. “

A complexidade torna isto pior. Numa conferência em que participei mais tarde naquele ano, reuniram-se centenas de banqueiros num enorme salão municipal com as paredes repletas de murais, no sul da, para discutir o jogo da titularização- segmentar e reagrupar em parcelas de risco diferenciado -jogo. Durante dois dias eles mostraram power-points sobre power-points cheios de carateres gregos, algoritmos e linguagem exótica, como num culto em que se fala uma língua sagrada secreta. Mas à medida que as apresentações se desenrolaram, ficou claro que muito poucos investidores ou reguladores- ou mesmo os banqueiros – compreendiam na realidade como é que os produtos financeiros funcionavam. Para o mundo exterior a revolução parecia ser impulsionada pelos computadores; Mas também foi impulsionado por uma confiança cega.

Foi fácil ver porque é que os banqueiros aceitaram isso: a bolha estava a torná-los ricos. “Houve uma complacência enorme em todos a parte “, diz Bill Winters, ex-chefe da JPMorgan Banking e agora chefe executivo da Standard Chartered. “Os governos jogaram um enorme pote de mel no meio da mesa e disseram a todos que não temos que pensar nas abelhas.”

O que foi mais surpreendente foi que os reguladores também pareciam relutantes em fazer balouçar o barco. Para alguns, a força da economia criou um sentimento de complacência; para outros, a fé na economia do mercado-livre- e o orgulho na finança ocidental – tornaram inconcebível que a história de Japão pudesse oferecer uma lição de sobreaviso. “Inicialmente presumi que as pessoas estivessem a agir de uma forma totalmente racional”, observou Greenspan recentemente. “Isso acabou por se mostrar errado.”

Avancemos para 2007, e uma outra conferência financeira em Barcelona. Até então a mania era intensa: cada sala estava cheia de muitos financeiros vestidos à chinesa; as intervenções foram entrecortadas por “saudações de champagne”, brindando às inovações; os gráficos nos brilhantes power-points só mostravam tendências à alta. À margem da conferência, alguns banqueiros formaram uma banda amadora de música ao estilo reggae, chamada “O efeito de alavancagem”. “Isto é uma piada”, disse um banqueiro. Tudo parecia estranhamente semelhante aos dias baburu em Tóquio, quando as pessoas polvilhavam com partículas de ouro o seu sushi e ninguém imaginava que os preços dos imóveis iriam cair

Quando a confiança no sistema finalmente começou a esfumar-se, alguns dias depois do encontro de Barcelona, os primeiros sinais não vieram da América mas sim da Europa: BNP Paribas em França e o banco alemão IKB em que cada um anunciou problemas com seus fundos de obrigações colateralizadas sobre hipotecas americanas [Os famosos CDO’s]. As razões técnicas eram complexas. Mas, essencialmente, o problema era semelhante a um susto de intoxicação alimentar. À medida que se avançava em 2007 tornou-se claro que era significativo o número de mutuários americanos que entravam em incumprimento nas suas hipotecas; Mas porque a divida tinha sido segmentada e reagrupada em parcelas de origens diferentes e com riscos diferenciados para dar origem a novos produtos, ninguém sabia onde é que se situavam e com quem estavam os riscos venenosos gerados na cadeia alimentar financeira. Assim, os investidores simplesmente evitavam todos os produtos segmentados e reagrupados por parcelas em produtos estruturados de riscos diferenciados. Isto provocou o disfuncionamento dos mercados.

As autoridades tentaram reconstruir a confiança. Mas a confiança quebrada é difícil de restaurar, especialmente quando os governos ou os banqueiros tentam colocar os problemas debaixo do tapete, digamos, através de truques contabilísticos altamente criativos. “Pode-se colocar carne podre no congelador para bloquear os maus cheiros mas continua a ser carne podre”, ironizou uma autoridade japonesa para comigo quando se assistia às tentativas americanas para tranquilizar os mercados, voltando-se para alguns dos mesmos truques que o governo de Tóquio tinha já anteriormente tentado-e falhado- há uma década atrás.

Era uma tarefa sem esperança: o processo de “separar, cortar e transformar ” tinha deixado os mercados americanos, europeus e asiáticos tão intimamente entrelaçados que qualquer situação pontual de pânico era altamente contagiosa. Mês a mês, a confiança foi-se perdendo: os investidores perderam a fé no valor das obrigações colateralizadas por hipotecas, nas notações das agências de rating e nos balanços apresentados pelos bancos. Quando o Lehman Brothers entrou em colapso em Setembro de 2008, os investidores deixaram de acreditar em todas as instituições financeiras como sendo verdadeiramente seguras. Durante um assustador bom par de semanas o crédito desapareceu na América. A crise somente parou quando, eventualmente, o governo finalmente interveio: recapitalizou os bancos, forçando-os a reconhecer as suas perdas, encerrou as portas a credores fracos, acabou com muitas das práticas de crédito ao desbarato envolvido em acrónimos que as pessoas não entendiam e inundou os mercados com liquidez. Em suma, isso significava que o próprio tio Sam estava agora a fornecer o novos pilares de fé — e confiança — para o sistema.

As medidas chocaram muitos eleitores — e investidores. Mas não os meus amigos em Tóquio: o Japão tinha eventualmente utilizado movimentos semelhantes para terminar com a sua própria crise dos anos de 1990; assim, também muitos dos governos envolvidos nas outras 147 crises que o FMI identificou. A única surpresa de 2008, talvez, era que as autoridades americanas e os investidores estavam tão profundamente chocados para se tornarem apenas em mais um capítulo nesta história. Ou como Ray Dalio, o criador do fundo de cobertura Bridgewater (e um dos poucos que previu isso), afirmou : “essas crises acontecem de novo e de novo. Podemos entender a mecânica, se assim o quisermos. Mas podemos nós aprender?

 

_____________________

Um par de semanas atrás falei novamente com Nakaso por telefone. Desde que nos encontramos pela primeira vez em Tóquio há duas décadas, muita água financeira passou por debaixo da ponte. Eu mudei-me para a América com o FT; ele tornou-se vice-governador do Banco do Japão e, recentemente, aposentou-se e juntou-se a um grupo de investigadores em Tóquio.

“Então, o senhor acha que o sistema financeiro está agora mais saudável?”, perguntei eu. Nakaso deu-me – e como sempre- uma resposta cuidadosamente equilibrada. Sim, algumas partes da finança estão mais fortes: após a crise de 2008 o governo americano recapitalizou os seus bancos e acabou com as práticas mais loucas praticadas no boom do crédito. “As autoridades dos EUA nunca pensaram que a experiência japonesa poderia acontecer no seu próprio país, mas eles finalmente aprenderam as lições [do Japão] e reagiram mais rapidamente do que os japoneses fizeram”, observou Nakaso. Foram também mais resolutas do que as autoridades europeias. “Os europeus têm sido mais lentos para fazer as coisas que precisavam fazer”, diz Henry Paulson, o antigo tesouro dos EUA

Mas a finança ainda não está inteiramente “estável”: os investidores não bancários têm tomado riscos perigosos, em parte porque a política monetária acomodatícia tornou possível a concessão de empréstimos a taxas de juro muito baixas. E então aqui temos a questão com que os banqueiros brincavam em Barcelona com a sua banda musical intitulada “O efeito alavanca”: dívida. Uma característica notável da década passada é que entre 2007 e 2017, a relação da dívida global relativamente ao PIB saltou de 179 por cento para 217 por cento, de acordo com os dados do Banco Internacional de Pagamentos.

Este frenesim de empréstimos não ocorreu na área da finança que provocou a última crise, como os empréstimos subprime. Em vez disso, o boom da dívida está entre as empresas de risco e os governos, o que vai desde a Turquia (que já enfrenta uma crise financeira) até à América (onde se acelerou o nível de concessão de créditos com a Administração de Donald Trump.) Entretanto na China, a dívida pública e privada dobrou na década passada para aproximadamente 300 por cento do PIB. Isso ultrapassa até mesmo a dívida selvagem do Japão dos anos de 1980.

Então será a China a desencadear a próxima crise? Depois de tudo, sugeri eu a Nakaso, há tantos ecos do Japão dos anos de 1980: arrogância; opacidade, elites ambiciosas e rápida mudança económica de perder o fôlego.

“Talvez não”, observou Nakaso. Este indicou que quando os números da dívida ficarem preocupantes, a China tem algumas forças poderosas: enormes reservas de moeda e um governo que sabe atuar de uma maneira hábil, mas resoluta, para travar uma crise, sem ser disso desviada pelos eleitores. “Utilizar as contas do Banco Central é uma coisa problemática para os países democráticos.”

A China tem uma outra arma crucial: as autoridades governamentais em Pequim são obsessivamente interessadas pela história; Eles querem entender os desastres dos outros países e descobrirem como é que os podem evitar. Um dos grandes pontos fortes da China hoje é que se trata de um povo muito atento, observou recentemente Timothy Geithner, o Secretário do Tesouro americano no tempo de Barack Obama. Ou como Dalio nos diz : “os chineses são ótimos na história — o [governo] entende a mecânica das crises e é muito mais fácil para eles tomarem decisões, politicamente, do que nos Estados Unidos”.

“Os chineses vieram ver-nos várias vezes para falarmos sobre a crise financeira japonesa,” observou Nakaso ao telefone. Que conselho é que as autoridades japonesas lhes deram? “A mensagem chave foi: prepararem-se para o pior – [e] sejam vigilantes. Se virem a crise sejam então bastante ousados.

Será suficiente? Pode a China aprender suficientemente as lições para evitar o destino de Japão em 1997 – ou da América de há uma década atrás? A essa questão de um milhão de milhões de dólares não será dada resposta durante vários anos. Mas uma coisa é já certa e é tão cristalina como o verdadeiro cristal: se alguma vez Pequim sucumbir à sua própria expansão e queda, as implicações para a economia global poderiam ser devastadoras. “O mundo está hoje muito mais dependente de China do que o estava do Japão em 1990,” diz-nos Winters. Nunca antes os livros de história financeira tiveram tanta importância.

Photographs in this story are from ‘The Crash’ by Stephen McLaren, which will be published by Hoxton Mini Press on September 27. The images, shot in London, document the aftermath of the global financial crash

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Leia o original clicando em:

Have we learnt the lessons of the financial crisis

Gillian Tett, Financial Times, 26 de Setembro de 2018.

Texto disponível em: https://www.ft.com/content/a9b25e40-ac37-11e8-89a1-e5de165fa619

https://www.ft.com/content/a9b25e40-ac37-11e8-89a1-e5de165fa619

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Carlos A.P,M.Leça da Veiga

    Recapitalizar os bancos? Nunca vejo que isso aconteça a qualquer outra actividade empresarial ou a um qualquer cidadão que tenha uma infelicidade na vida. Os economistas, ao que consta, só sabem prever as crises mas, ao que parece – bom grado tanta ciência – não sabem como impedi-las!!! CLV

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